Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil

Participei recentemente de uma reunião no BNDES sobre Internet das Coisas, representando a minha empresa. As reflexões a seguir são um misto do material do BNDES (público), com ideias minhas.

 


Tecnologias disruptivas

Hoje, em 2017, há uma série de tecnologias que prometem ser disruptivas num futuro próximo: mobilidade, automação, cloud, veículos autônomos, impressoras 3D. A Internet das Coisas é uma dessas aplicações disruptivas, em qualquer lista de tecnologia que se preze.

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O que é a Internet das Coisas?

A computação evolui tremendamente nas últimas décadas.

Nos anos 1920, o matemático Alan Turing pensou sobre computação, o que poderia ou não ser computado, e provou resultados importantes: uma máquina de Turing universal era capaz de calcular qualquer coisa computável, ou seja, o mesmo computador poderia fazer uma tarefa, digamos somar, e trocando os estados internos, poderia executar outra tarefa, digamos dividir. Foi um trabalho totalmente teórico, mas embasou o salto posterior, o do computador eletrônico.

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Até os anos 1950, pioneiros como John Von Neumann desenvolveram os primeiros computadores, somente para aplicações militares como cálculo de trajetória de mísseis, simulação de Monte Carlo para o projeto da Bomba H. Os computadores eram em substituição às “computadoras”, que nada mais era do que uma sala cheia de mulheres, fazendo contas com lápis e papel, com a supervisão do trabalho final por um matemático.

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Na década de 60 e 70, surgiram os mainframes, computadores gigantes, ocupando grandes salas de corporações, e os usuários com um terminal “burro” de tela verde (curiosamente, com a ideia atual de “cloud”, estamos de volta a este modelo dos supercomputadores e terminais burros).

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Nos anos 80 e 90, tivemos a revolução dos computadores pessoais. Ao invés de um computador do tamanho de uma sala, surgiram computadores pequenos o suficiente para termos em casa. O famoso Apple II foi um dos primeiros PCs da história, rivalizando com a arquitetura da IBM. Também tivemos a explosão do software, dos sistemas operacionais Windows e Apple, Bill Gates x Steve Jobs.

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No final dos anos 90 e anos 2000, tivemos a explosão da internet. Os computadores pessoais agora passaram a ser conectados em rede. Uma pessoa poderia criar conteúdo novo e divulgar numa página, que seria indexada por um buscador como o Google. As pessoas podiam se comunicar facilmente com outras, via e-mail, chat. Podíamos trocar arquivos através de protocolos específicos.

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Nos anos 2000, 2010, tivemos uma explosão de mobilidade: celulares, tablets, dispositivos portáteis. Mais comunicação ainda, não estávamos mais presos a um computador num local fixo, agora podemos acessar o Facebook e o Google de qualquer lugar. A comunicação não estava mais restrita a voz, agora podemos ter conexão via texto, vídeo, imagens, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê.

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O pano de fundo disto tudo é o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, traduzido elegantemente pela Lei de Moore: a cada 18 meses o número de transístores num dispositivo dobra (ou seja, a capacidade de processamento dobra) ao mesmo custo. Na prática, temos dispositivos cada vez menores, cada vez mais poderosos, cada vez mais baratos. Um celular moderno, que cabe no bolso, é mais poderoso que um PC antigo (que cabe numa mesa), é mais poderoso que um mainframe antigo (que cabe numa sala).

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Ilustração da Lei de Moore

Hoje em dia e nos próximos anos, haverá cada mais sensores pequenos e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, talvez pessoas.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

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O estudo do BNDES

O estudo do BNDES ainda está sendo realizado, porém há alguns resultados parciais. Este estudo entrevistou uma miríade de pessoas, coletou dados e fatos, analisou também o posicionamento de outros países, para levantar as principais oportunidades, desafios e áreas prioritárias para fomentar o desenvolvimento da IoT no Brasil.

Este material é público e está disponível em: http://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

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As áreas prioritárias do Brasil são indicadas no mapa acima. Pelo Brasil ser um país exportador de commodities, o setor Rural desponta com muito potencial de ganho. A seguir, o setor de Saúde e o de Cidades. Para essas frentes prioritárias, em conjunto vem o papel das fábricas e indústrias de base.

 


Oportunidades

Na prática, quais as aplicações úteis?

Os infográficos a seguir contém várias ideias interessantes.

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Há uma história atribuída a Henry Ford, o empresário que fundou a companhia de veículos de mesmo nome. Ele teria dito que “se os usuários de carroça fossem questionados sobre melhorias futuras, eles desejariam carroças mais rápidas”.

 

É mais ou menos isso que ocorre hoje, só somos capazes de visualizar soluções no framework mental de quem já vive o presente: mais monitoramento, mais controle, mais forecast, mais decisões autônomas. Ninguém sabe exatamente qual será a verdadeira aplicação disruptiva que surgirá da evolução da IoT. A história é não linear. Ninguém conseguiu prever com dez anos de antecedência o surgimento de um Google, um Facebook, um Waze, um Uber, entretanto estes surgiram e revolucionaram nosso modo de ver o mundo.

 


Alguns desafios

Nem tudo são flores, obviamente. Alguns dos desafios são tão grandes que não conseguem ser resolvidos pela tecnologia em si.

  • Mão de obra qualificada. Por um lado, o Brasil tem 13 milhões de desempregados. Por outro, há uma dificuldade imensa na contratação de pessoas qualificadas, principalmente no interior do Brasil.
  • Infraestrutura de conexão: é muito caro conectar esses dispositivos à rede (GPRS, satélite, wi-fi, etc), ainda mais no setor rural, onde as distâncias são enormes e a infraestrutura, precária
  • Ambiente regulatório e de negócios: como devem ser os mesmos, a fim de permitir ganhos?
  • Fomento de pesquisa sobre o tema: como incentivar os mesmos?
  • Segurança e Privacidade: a disponibilidade de dispositivos em rede pode trazer outros problemas, como invasão por hackers. Como evitar este tipo de coisa?
  • Padronização de tecnologias?
  • Custos dos sensores?

Detalhando o aspecto sobre a mão de obra. Cada vez mais, a tecnologia vai substituindo os trabalhos braçais e rotineiros. Os primeiros alvos: aqueles trabalhadores que são verdadeiros autômatos humanos, como os operadores de telemarketing, que não são pagos para pensar: estes seguem um script ditado pelo sistema. Ou motoristas, que simplesmente levam cargas e pessoas de um ponto A para um ponto B.

Há 100 anos, quando o mundo era muito mais agrário, a produtividade do melhor lavrador do mundo não era tão maior do que o do pior lavrador do mundo. Cada braço a mais contava muito, porque não havia escala. Hoje em dia, um trator com um operador produz muito mais do que 50 pessoas conseguiriam no passado.

Cada vez mais, uma minoria altamente qualificada vai produzir muito, e uma massa gigantesca de pessoas terá pouco valor a contribuir.


Conclusões
Há um potencial disruptivo gigantesco em IoT. Porém, este não é um fim em si. O fim é utilizar a IoT para aumentar a produtividade, diminuir custos, melhorar o meio-ambiente e o bem estar final da sociedade. Ainda há um longo e tortuoso caminho a percorrer.

Toda tecnologia segue a curva tecnológica a seguir.

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Quando a tecnologia surge, no começo da curva, é o sonho, a sensação, vai dominar o mundo, vai provocar a paz mundial (ou a destruição da humanidade).

Depois de um tempo, descobre-se que a tecnologia tem limites. É muito boa, gera ganhos elevados, mas não vai destruir o mundo nem fazer a gente alcançar o Nirvana.

Chega uma fase de maturidade, onde esta tecnologia já não é mais sensação. E vão surgindo ondas de evolução desta tecnologia cada vez mais madura.
É análogo à dialética Hegeliana, de tese-antítese-síntese.

Áreas como a Pesquisa Operacional, Estatística, Eletrônica e Computação tradicional já passaram por esses ciclos, e hoje são tecnologias bastante maduras. São elas que dão resultado no mundo de hoje, são as vacas leiteiras, enquanto tecnologias como o IoT, cloud, são os sonhos potenciais.

Há uns 100 anos atrás, as tecnologias disruptivas que passaram por este ciclo eram a eletricidade, os veículos, as locomotivas.

Há uns 200 anos, a revolução industrial: máquinas a vapor, máquinas de tecer.

Há uns 500 anos, eram os navios, a conquista dos mares.

Há uns 3 mil anos, era o arco e flecha.

Há uns 10 mil anos atrás, a tecnologia disruptiva era a agricultura e a tração animal.

Com a IoT será a mesma coisa: haverá um bom caminho de promessa para realidade, e quando esta chegar, veremos que vai servir para muita coisa, mas não promoverá nem a paz mundial, nem exterminará a humanidade.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2017

 

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