Falsos positivos, golpe da Nigéria e ideias para combater golpistas

Outra história interessante, narrada no livro “Think like a freak”.

Sabe aqueles e-mails ridículos, que chegam de vez em quando, dizendo que “sou um milionário (ou bilionário) nigeriano, preciso da ajuda de alguém honesto para fugir do país com milhões de dólares. Escolhi você por ser uma pessoa idônea, e se me ajudar pode ficar com 10% do dinheiro, blá blá blá”.

Claramente, é um spam dos piores, e imediatamente uma pessoa comum ignoraria. Quem seria idiota o suficiente para cair num golpe desses? Mas por que será que os golpistas continuam enviando, e como será que funciona um golpe desses?

O livro conta a história de um cientista da computação americano que se interessou pelo assunto, e tentou entender a fundo o que se passa.

Na verdade, para um esquema deste dar certo, envolve muito mais passos e muito mais trabalho do que somente mandar o citado e-mail. O golpista tem que trocar uma série de e-mails com a vítima, ganhar a confiança dela, num estágio posterior até ligar para ela ou fazer com que ela efetivamente vá até a Nigéria. Somente depois disso é que a vítima vai adiantar algumas dezenas de milhares de dólares para os golpistas.

Ou seja, o golpe envolve um trabalho longo e cansativo, sendo o e-mail ridículo apenas a isca inicial. E qual é o tipo de pessoa mais provável de cair num golpe desses? Somente quem é extremamente ingênuo. E o e-mail é assim, tosco e boçal mesmo, porque somente quem é muito, muito ingênuo, mal informado ou tem alguma compulsão de curiosidade cairia num golpe desses.

Imagine que o golpista manda 10 milhões de e-mails num ano. E que uns 2000 respondam. E que dos 2000, 20 caiam efetivamente no golpe. Em linguagem estatística de testes de hipóteses, esses 20 são os positivos, os restantes 1980 são os falso positivos e os outros 10 milhões são os negativos.

O trabalho do golpista começa efetivamente quando a primeira leva de vítimas potenciais responde ao e-mail, ou seja, com o universo de positivos e falso positivos. Portanto, é do interesse dos golpistas que os falso positivos sejam no menor número possível.

Imaginem se os golpistas escrevessem um e-mail com uma história mais bem contada, bem mais convincente. O que aconteceria? Provavelmente, uma porcentagem maior de pessoas responderia o e-mail. Digamos que 0.1% das pessoas respondessem. Isto seria o equivalente a 10.000 respostas. Aumentaria em 5x o trabalho de garimpagem das vítimas. E a grande maioria dessas não vai cair no golpe, visto que eles vão perceber nas etapas seguintes que há algo errado. Portanto, o número de falsos positivos aumentaria muito mais do que o número de positivos. Daí, por incrível que pareça, vem a justificativa do e-mail ridículo do golpe da Nigéria: ele é excelente para separar quem é muito ingênuo de quem não é.

O mesmo cientista da computação propõe uma abordagem para combater os golpes. Ele sugere utilizar chatbots (algoritmos programados para conversar num chat e emular um ser humano). Milhares de chatbots deliberadamente responderiam ao e-mail do golpe da Nigéria. Sendo extremamente difícil distinguir num relance quem é um robô e quem é um humano, isto vai obrigar os golpistas a perderem muito mais tempo para achar a sua vítima. A ideia seria tornar o trabalho dos golpistas tão demorado que não seja economicamente viável continuar a aplicar o golpe.

Eu estava pensando. Aqui no BR, um golpe comum é o bandido que liga aleatoriamente para as pessoas da lista telefônica, e diz que sequestrou a filha da vítima do outro lado da linha. A grande maioria dos telefonemas dá em nada, porque a pessoa não tem filhos, não tem filhas meninas, a filha está em casa, etc. mas de vez em quando eles dão sorte de encontrar alguém que tem uma filha, que não está em casa no momento. E muita gente realmente cai no golpe.

Que tal seria se as pessoas, aquelas que sabem que é um golpe, ficassem meia hora na linha? Elas ficariam fingindo que estão caindo no golpe. Isto faria o bandido gastar muito mais energia e tempo para achar a vítima correta, dificultando e, quem sabe, inviabilizando a aplicação do golpe.

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