Detalhes e detalhes

Os gênios mostram atenção aos detalhes. Steve Jobs garantia que o computador Apple tivesse até os botões perfeitos. Telê Santana exigia que cada passe fosse o melhor possível.

Por outro lado, algumas pessoas ficam perdidas em inúmeros detalhes, e não saem do lugar.

Qual a diferença?

A diferença é que os gênios sabem os detalhes que importam.

Fazendo analogia com um mapa. Há vários níveis possíveis de zoom. Um zoom out vai te dar a visão do todo, perdendo detalhes. Já um zoom in vai dar detalhes, perdendo o todo.

Alguém que analisa cada detalhe do mapa vai ficar eternamente analisando tudo, sem chegar a conclusão alguma.

O gênio saberá traçar uma rota numa visão macro, dar zoom nos detalhes principais, mapear os pontos de atenção e conseguir alcançar seus objetivos.

Como diz a sabedoria popular, “O diabo está nos detalhes”.

Baseado em comentário do newsletter de James Clear (https://jamesclear.com/), e conversas com alguns amigos.

Veja também:

O Mestre Arqueiro e o Mestre Telê

Ouvi uma história que provavelmente é falsa, porém, lembrei de outra história igualzinha, porém verdadeira, envolvendo o jogador Cafu e o Mestre Telê Santana.

Primeira história: o Mestre Arqueiro. Um discípulo ocidental foi aprender a arte japonesa do arco e flecha. O seu mestre, cuja filosofia envolvia o Zen, focava não no objetivo (acertar o alvo), porém, no processo (saber corretamente os fundamentos e executar os passos corretos).

Nos primeiros 4 anos de treinamento, o discípulo treinou incessantemente apenas o básico, com alvo a 2 metros de distância.

Impaciente com passos tão lentos, ele reclamou com o Mestre, cuja resposta foi: “O Caminho não pode ser medido. Qual a importância das semanas, meses e anos?”.

Frustrado, o discípulo retrucou: “Quero ver o senhor fazer o que está dizendo”.

Daí, o Mestre fez uma demonstração. Colocou uma venda nos olhos, realizou precisamente o procedimento que ensinara, e atirou, acertando na mosca, uma, duas, três vezes…


Eu pensei comigo. Essa história deve ser falsa. Apenas um conto motivacional qualquer. Porém, de alguma forma, eu já tinha ouvido uma história similar… Foi quando recordei do Mestre Telê.

Telê Santana foi o técnico mais perfeccionista do futebol brasileiro. Insistia em treinar o básico, o be-a-bá: como trocar passes, como cruzar, como chutar. Ele foi o treinador da melhor Seleção Brasileira de todas, a de 1982, que, apesar de não levar a Copa, encantou o mundo.

No início dos anos 90, Telê era treinador do São Paulo Futebol Clube. Como sempre, era obcecado pelo seu trabalho. De manhã, tirava ervas daninhas do campo. Chegou a morar no Centro de Treinamento, sem luxo algum, apenas para se concentrar no seu trabalho.

O jogador Cafu era um jovem promissor. Fisicamente era imbatível. Corria mais do que todos, sem cansar. Porém, seus chutes e cruzamentos eram um fiasco.

Telê segurava o Cafu para treinar depois dos outros. E ele ali ficava, treinando 150 cruzamentos, todos os dias.

“Cafu, você cruza muito mal”.

“Cafu, aprenda a cruzar”.

Um dia, o jogador se encheu das cobranças, e retrucou: “Então faz você”.

Telê mandou Cafu ir para a área. Pegou a bola, e fez o cruzamento, na cabeça do jogador. Uma, duas, três vezes, com perfeição. Os demais jogadores, que assistiram à cena, saíram tirando sarro de Cafu.

O esforço se pagou. O SPFC de Telê Santana foi uma das grandes equipes da história, vencendo duas Libertadores da América e dois Mundiais Interclube, derrotando o Barcelona (que tinha Guardiola como jogador) e o Milan. Tudo isso, jogando bonito.

Cafu tornou-se um dos melhores laterais da história do Brasil. Ele dominou a lateral-direita por 4 Copas do Mundo, sendo o capitão da Seleção de 2002, a do penta.

FUTEBOL – SELEÇÃO BRASILEIRA – 2002 – ESPORTES – ACERVO – Cafu, jogador da Seleção Brasileira, comemora com o troféu a conquista do título após a partida contra a Alemanha, válida pela final da Copa do Mundo de 2002, da Coréia/Japão – Estádio Internacional – Yokohama – Japão – 30-06-2002 – Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Seja arco-e-flecha, seja futebol ou qualquer outra profissão, a lição é semelhante. Ao invés de querer impacientemente alcançar o fim, cuide em construir o caminho, com firmeza e dedicação.

Trivia:
O nome de batismo de Cafu é Marcos Evangelista de Morais. O apelido veio em homenagem a Cafuringa, jogador da década de 70.

O grande Johan Cruyff, após a derrota do seu Barcelona do Futebol Total para o SPFC de Telê, teria dito: “Se for para ser atropelado, que seja por uma Ferrari”.

Cafu, o melhor do mundo, coloca o dedo na ferida – 15/01/2020 – UOL Esporte

História Em Três Cores: Telê Santana – SPFC Notícias (spfcnoticias.com)

Jiro, sonhos de sushi e a busca pela perfeição

Recomendo fortemente o documentário “Jiro – dreams of sushi”, disponível na Netflix.

É um documentário surpreendente. É monótono e até chato. De certa forma, o ritmo segue o passo do protagonista da história, Jiro Ono, um mestre do sushi – um ritmo lento e constante em busca da perfeição, até chegar ao melhor sushi do mundo.

Como pode algo tão simples quanto um sushi ser difícil?

O sr. Jiro hoje tem 94 anos (na época do documentário, tinha 85 anos). O seu restaurante fica numa estação do metrô de Tóquio. Tem apenas 10 lugares, nem tem banheiro. Só atende com reservas, e o cliente não pode chegar atrasado – as portas são fechadas e ele fica de fora (o valor da refeição é passado no cartão mesmo se o cliente não entrar).

Este pequeno restaurante serve apenas sushi – não há entradas, acompanhamento, nada.

O preço? 30 mil ienes. Dá uns US$ 275, ou, como o real não vale nada nos dias de hoje, mais de 1.000 reais! Tudo isso para um serviço de 20 peças de sushi, servidos sequencialmente. O cliente fica em torno de meia hora no local, o que o torna um dos restaurantes mais caros do mundo, se fizer a conta por minuto.

Este pequeno restaurante ganhou nota máxima no guia Michelin e o documentário da Netflix, tornando o lugar famoso mundialmente.

O sr. Jiro começa a contar a sua história, e como passou a dedicar a sua vida a um único objetivo: fazer sushis. Ele conta como trabalhava de sábado a sábado, de manhãzinha até a noite, aperfeiçoando cada detalhe de seu trabalho, por mais trivial que seja.

O aprendiz do restaurante de Jiro deve ficar 10 anos fazendo tarefas menores, como massagear o polvo que será servido, por 50 minutos. O polvo é um animal com uma carne borrachuda, e o objetivo de massagear é amolecer o mesmo. Após 10 anos exaustivos fazendo tarefas repetitivas, o aprendiz pode finalmente começar a cozinhar o seu primeiro prato: ovo. Após alguns anos dominando a arte de cozinhar um ovo, é permitido avançar em outros pratos.

A régua alta de qualidade de Jiro se estende aos seus fornecedores. O fornecedor de camarão só trabalha com camarão. O fornecedor do polvo só trabalha com polvo. O fornecedor do salmão só trabalha com salmão. Cada um deles é o maior especialista em suas áreas, e não aceitam menos do que o melhor. E nem vendem o produto para qualquer um. Qual o sentido de ter o melhor arroz se o cliente não souber fazer o prato?

Agora no fim de 2019, o restaurante de Jiro foi retirado do guia Michelin. Não é que foi rebaixado no guia, e sim, foi retirado. Não foi por questão de diminuição da qualidade. O motivo é que é impossível para o consumidor comum fazer uma reserva no restaurante. A fila tem sido para mais de um ano de espera, tornando impossível para o consumidor comum saborear o melhor sushi já produzido na face da Terra!

https://www.netflix.com/title/70181716

Um trabalho ruim custa o dobro do preço de um trabalho bom

Um trabalho ruim é menos demandante do que um trabalho bom, talvez uns 50% a menos – em termos de qualidade de materiais, esforço, tempo de projeto e know how das pessoas envolvidas.

Entretanto, o trabalho bom vai atingir os seus objetivos com maior acurácia e durar muito mais tempo.

Enquanto isto, o trabalho ruim vai ter que ser refeito, na melhor das hipóteses, ou completamente descartado, retornando à estaca zero.

O trabalho ruim certamente sairá mais caro no final, contando o ciclo de vida inteiro, e não apenas o esforço inicial.

Ação: Faça o melhor trabalho possível, não importa o quão pequeno ele seja.

Gosto muito das palavras de Peter Drucker, sobre a busca obstinada da perfeição em seus trabalhos. Ele conta a história a seguir.

Fídias foi o maior escultor da Grécia Antiga, responsável por obras que ainda hoje estão no teto do Parthenon, em Atenas, e são consideradas as maiores esculturas da tradição ocidental.

As estátuas foram admiradas universalmente, mas quando Fídias apresentou a conta, o contador da cidade se recusou a pagá-la. “Estas estátuas estão no alto do templo, e no monte mais alto de Atenas. Ninguém pode ver nada, exceto a parte frontal dela. Entretanto, você está cobrando pela escultura toda, ou seja, por esculpir a parte de trás, que ninguém pode ver”.

“Engano seu”, Fídias retorquiu. “os Deuses podem vê-las”.

Trecho de “O melhor de Peter Drucker: homem, sociedade, administração”


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

O melhor trabalho 

Compartilhando um pouco da sabedoria de Peter F. Drucker.

 

Sempre que alguém perguntava “qual o seu melhor trabalho”, ele respondia: “o meu melhor trabalho será o próximo”.

 

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Isto porque os trabalhos devem evoluir, devem sempre ser melhores. Um grande profissional não deve viver de trabalhos do passado. Um grande profissional deve tentar alcançar a perfeição.

 

Alcançar a perfeição é impossível, mas sempre devemos buscá-la em nossos trabalhos.

 

Drucker era um perfeccionista. Cada frase tinha um significado, cada afirmação tinha um objetivo.
 


 

Outro exemplo de perfeccionista é o Josep (ou Pep) Guardiola. Sempre muito chato, extremamente exigente, cobra perfeição em cada passe, em cada posicionamento, estuda exaustivamente os adversários.

 

Resultado: assombrou o mundo com um Barcelona imbatível, revolucionou o estilo de jogo do futebol mundial, e indiretamente ajudou a Espanha a ser campeã do mundo.

 

O grande jogador Xavi (outro que fez história como jogador e vai fazer como técnico), dizia: “Se o Guardiola fosse um músico, seria um excelente músico”.

 

É extremamente, muito mais difícil fazer um trabalho perfeito do que um bom trabalho. Um trabalho bom vai ter uma boa vida útil. Mas um trabalho perfeito vai durar para sempre. 

 

Arnaldo Gunzi
Dez 2015

 

Outros perfeccionistas: