Aos amigos, tudo, aos inimigos, o rigor do estatuto

Nos meus tempos de engenheiro da Aeronáutica, conheci um tiozinho cujo lema era

“Aos amigos, tudo, aos inimigos, o rigor do estatuto”.

Ele era uma espécie de office boy, e, para tudo o que a gente pedia, ele repetia a frase acima. O sentido que ele queria dar era de que éramos amigos. Ou talvez querendo cobrar o favor futuramente, sendo que nem favor era, era o trabalho dele.

Eu sempre odiei essa frase, supostamente atribuída a Getúlio Vargas. Na minha visão do mundo, talvez draconiana demais, todos deveriam seguir o estatuto, amigos ou não. Talvez seja até o contrário, os amigos é que deveriam dar o exemplo. Ao invés de cortar a fila, entrar no final dela, como todo mundo.

“Aos amigos e aos inimigos, igualmente o rigor do estatuto”, seria uma frase melhor.

Se a lei estiver irreal, que se mudem a lei, ao invés de gerenciar com base na exceção aos amigos.

Em países europeus e de primeiro mundo, isso é bem mais evidente. Se a bilheteria do trem fecha as 18h, não adianta chegar lá 18:01h e pedir para comprar, dar um jeitinho. Já era. Ponto final. A contrapartida é que a bilheteria vai estar aberta até as 18h, não vai fechar 17:30h porque o atendente quer sair mais cedo.

É até ingenuidade pensar assim, estando no país do jeitinho brasileiro, onde o bom é ser malandro e quem é certinho é bobo. Aqui, temos dois pesos, duas medidas. A lei que vale para um, não vale para outro. Se a pessoa tiver influência suficiente, pode até mudar as leis para se beneficiar. Estamos no país onde até o passado é incerto.

“As leis são como as teias de aranha que apanham os pequenos insetos e são rasgadas pelos grandes.” Sólon, legislador ateniense.

Felizmente, até hoje, quase 20 anos depois, nunca precisei lançar mão de “amizade” para cortar caminho. Talvez por sorte, talvez por não estar em situação que obrigue tal artifício.

Por fim, tenho que agradecer por isso, por existirem muitas pessoas corretas e processos que funcionam.

Veja também:

O Brasil que eu quero e outras reflexões

Um dia, um colega me perguntou, “Qual o Brasil que você quer?” –  referindo-se à chamada do Fantástico.

 

Não pensei muito para responder:

“Um Brasil sem o jeitinho brasileiro”.

Uma nação de espertos é tola, e uma nação de tolos é esperta.

 


 
Vi a frase a seguir, num evento da escolinha de minha filha mais velha:

“O esporte tem o poder de mudar o mundo – Nelson Mandela”.

Pensei, se o esporte tem este poder, a mente tem que ter um poder maior ainda.

Reformulei a frase para:

“A mente tem o poder de mudar a realidade”​

Há várias frases deste tipo que são atribuídas a Einstein.

“A lógica te leva de um ponto A até um ponto B. A imaginação te leva a qualquer lugar”

“A realidade é uma ilusão, ainda que persistente”

“A criatividade é mais importante do que o conhecimento”

 

 


 
Esta frase é do escritor israelense Yuval Harari:

“Perguntas que você não sabe a resposta são muito melhores do que respostas que não admitem perguntas”

 

Ele se refere à ideias fixas, que explicam o mundo todo segundo o seus paradigmas e não admitem contestação – usualmente são religiões ou ideologias como as marxistas.

 

Já a ciência oferece muitas perguntas que não têm respostas, ou, quando as têm, podem ser contestadas.

 

 

As pessoas no primeiro mundo são muito frias

 As pessoas no primeiro mundo são muito frias: “o meu serviço é este, neste escopo, neste prazo, nesta qualidade, neste custo. Se quiser leva, se  não quiser, não leva”.
A gente é bem mais quente: “prometo dar um jeitinho de fazer tudo  o que você pede, no prazo que pede, e ainda dar um desconto” (mas não vou cumprir o prometido).

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Num país de primeiro mundo, o fornecedor diz que vai levar um mês, sem “jeitinho” nenhum. E ele vai demorar o mês que disse que ia levar.
 
Aqui no Brasil, o fornecedor promete dar um jeito para fazer em uma semana. Ele atrasa uma, tem que ser cobrado, depois atrasa mais outra, é cobrado de novo, até que realmente entrega, um mês após o acordo, custando mais do que o combinado.
 
 
Temos a ilusão de que no Brasil as pessoas são mais atenciosas, mais “quentes”, enquanto num país desenvolvido as pessoas são distantes, “frias”. Mas gastamos o triplo da energia e erramos em três vezes o planejamento, por conta de sermos tão  “atenciosos”.
 
Atrasar e fazer pela metade é comum no Brasil, não é pecado. Pecado mesmo é falar na cara do cliente que não dá para cumprir o prazo que ele quer, e fornecer o prazo real.
 
O que eu prefiro? Prefiro a postura do primeiro mundo, sem jeitinho, ao seu tempo e custo.
 
Mas a realidade não é tão simples. Não dá para nadar contra a correnteza. Temos que jogar o jogo de acordo com as regras. Portanto, no Brasil, é difícil não fazer o mesmo: prometer datas impossíveis, sabendo que vai atrasar, que vai ficar pela metade, e que no final das contas, a qualidade será pior, o custo será maior, e o prazo vai pior do que seria sem o “jeitinho brasileiro”.
 
É uma questão de perspectiva.