Mortimer Mouse, e branding

Mortimer Mouse é um ratinho simpático: preto com calções vermelhos, sorriso no rosto, orelhões e nariz de bolinha:

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“Mas este não é o Mickey?”, pergunta o leitor atento.

Sim, este é o Mickey. Mas o nome original do ratinho era Mortimer.


 

Mortimer Mouse

Imagine se, Walt Disney mantivesse o nome Mortimer. É um nome de três sílabas, pronúncia difícil e lembra a palavra “Morte”, em línguas latinas. Com este Branding, Mortimer nunca faria sucesso: não haveria Mickey, Pato Donald, Disneylândia, Dumbo, Nemo, Frozen.

Mickey é de fácil pronúncia, muito mais simples e simpático. Somando a isto a enorme competência em animação e historytelling de Disney, Mickey tornou-se um enorme sucesso. O ratinho tornou-se a marca da companhia.

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Nomes e Marcas

Quando eu era adolescente, eu tinha a opinião de que o Conteúdo tinha todo o valor, e o Nome era apenas um rótulo sem valor.

Entretanto, hoje tenho a opinião de que o Nome vale muito, principalmente se este evoluir para uma Marca.

Mas, por que uma marca vale tanto?
Os economistas têm um conceito, chamado de informação incompleta.

Não temos toda a informação do mundo, entretanto temos que viver e tomar decisões todos os dias, todos os momentos.

Obter conhecimento é um processo demorado e que requer esforço. Não temos tempo para ficar investigando a fundo tudo no mundo, então recorremos a regras simples, chamadas Heurísticas, para tomar decisões rápidas. Imagine um homem das cavernas que encontra algo simétrico, parecido com um gato grande e cheio de listras. Ele não pode ficar analisando o que é aquilo, ele tem que reconhecer um tigre e sair correndo.

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Tigre, Tigre, que flamejas nas florestas noturnas, que mão que olho imortal poderia enquadrar a sua terrível simetria? (William Blake)

 

Um exemplo, que peguei emprestado de Peter Drucker. Quero comprar um carro de ótima qualidade. Para isto, a rigor eu teria que saber a qualidade do motor: força, consumo, manutenção. Teria que saber a qualidade da carroceria: resistência à corrosão, flexibilidade, etc. Teria que conhecer os fornecedores de pneus, dos faróis, vidros, partes elétricas, etc. Teria que conhecer os funcionários e maquinário que fazem a montagem de tudo isto. E muito mais. É muito mais fácil eu saber que a Toyota é uma marca excelente e confiável, e a Toyota se preocupa em gerenciar fornecedores, testar a qualidade, gerenciar funcionários e colocar a sua marca apenas nos carros em que realmente são de uma qualidade ímpar. É muito, muito difícil uma marca conseguir a confiança do consumidor, e muito fácil perder a confiança. Mas, uma vez que se ganha a confiança, temos não um consumidor, mas um fã. Vide a Apple, por exemplo.

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Julgar um livro pela capa

Nós somos preconceituosos na nossa essência, no sentido em que temos pré conceitos e pré julgamentos sobre tudo na vida.

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Julgamos sim um livro pela capa. Julgamos uma pessoa pelas roupas que veste, um carro pela marca, um relógio pelo preço.

Compramos revistas pela foto e pelo título, clicamos em links com palavras que chamam a atenção, e gostamos de Mickey ao invés de Mortimer. Tudo isto por causa da informação incompleta.

Steve Jobs chamava o ato de julgar um livro pela capa de impute. Por isso, os produtos deles eram de uma qualidade visual fantástica, aliados a uma qualidade interior e usabilidade sem par.

Fica a lição: caprichar na forma e também no conteúdo. Transformar um nome numa marca.

 

Arnaldo Gunzi

 

Colaboração de Antenor Luiz de Souza

 

Porque há tantas pessoas fiéis à Apple? Ou a confiança na marca.

Um amigo meu comprou há pouco tempo um celular (marca asiática) com especificações aparentemente muito boas: processador forte, câmera boa, última versão do Android, etc. Entretanto, desde o começo, vários problemas. Alguns apps não rodavam, às vezes o celular aquecia muito. A câmera parou de funcionar depois de algumas semanas. Ou seja, um celular bom por fora e ruim por dentro, algo como uma Mercedes por fora, mas cheia de peças de Gol 1.0, ocultas lá no meio dos motores, para baratear o custo.

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Usuários não são especialistas em hardware e software. Quem melhor conhece todas as coisas boas e ruins do produto é o próprio fabricante. É o fabricante que pode fazer alianças com os melhores fornecedores e fazer os testes de qualidade. É aí que entra o poder da marca, que é o poder da confiança.
A confiança na marca é saber que está adquirindo uma Mercedes com peças de Mercedes, sem pegadinhas.

Depoimento pessoal
Tive um monte de celulares fajutos e mp3 players descartáveis. A primeira vez que comprei um produto Apple (que eu achava desnecessariamente  caro) foi em 2009, quando estava na Austrália.
Naquela época o iPad 1 tinha acabado de ser lançado. Como a Austrália é um país desenvolvido, a carga tributária era justa. E o Real brasileiro ainda valia alguma coisa. Ou seja, o iPad estava barato, e o comprei.
A minha expectativa era de que fosse apenas mais um dispositivo como qualquer outro. Mas a realidade superou em muito a expectativa. Era o produto mais bonito que já tinha visto na vida, com um monte de funcionalidades espertas. Era algo extremamente bem projetado, perfeito em todos os detalhes.
A partir daí, troquei o mp3 por um iPod, o celular por um iPhone, e assim em diante.

Quebra de confiança
Uma vez que uma marca ganha a confiança da pessoa, é difícil alguma outra marca ocupar esta posição. Principalmente quando é caro ficar testando alternativas diferentes.
Após ganhar a confiança de alguém, o maior perigo não é a concorrência, mas sim a si mesmo. É relativamente fácil quebrar a confiança. Basta o cliente se sentir lesado uma única vez.
Por exemplo, ninguém em sã consciência tem fidelidade a operadoras de telecomunicações: Vivo, Telefônica, Claro. Isto porque todo mundo já se sentiu enganado por elas, com algum serviço inútil sendo cobrado todos os meses, com horas perdidas falando com um operador de telemarketing.

O que posso aprender com isto?
 
Seja como uma marca que inspire confiança. Produtos e serviços de excelente qualidade, tanto por fora mas principalmente por dentro, são extremamente valiosos e muito raros no mundo.
É difícil conseguir a confiança das pessoas, mas é fácil quebrar. Cuidado com isso. Não vale a pena obter ganhos de curto prazo e estragar uma relação de confiança de longo prazo.
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“Os botões do novo iMac ficaram tão bonitos que dá vontade de lamber!”
Steve Jobs, após meses projetando os botões da interface do novo computador.

“Deixe sua marca no universo” – Steve Jobs


Arnaldo Gunzi
Dez 2015

 

Outros links

Sobre o surgimento ipod

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