O “Artista”

Hoje me encontrei com o “artista”. Um sujeito de 30 e poucos anos, formado em Belas-Artes de uma universidade carioca.

Era alguém revoltado com a vida. Reclamava que a sociedade não apreciava o seu trabalho. Ninguém entendia a sua expressão de crítica ao sistema capitalista. Ele era uma força da desordem, contra a ordem. Estava além de seu tempo e muito acima de seus pares.

Ora, por uma questão de lógica, perguntei a ele porque ele gostaria de ser reconhecido pela sociedade, já que ele estava além do tempo e de seus pares? E porque um artista assim precisaria de reconhecimento externo, já não bastaria a satisfação com a obra em si? Em resposta, ele bravejou algo contra o sistema capitalista – fascista – norte-americano.

Eu disse a ele que “arte”, no conceito grego da época de Aristóteles, vem de “artificial”. Que os gregos consideravam todo o trabalho uma arte, por ser feito com o trabalho humano. Um sapateiro é um artista: tranforma couro e linha em algo que vai proteger o pé de alguém. Um varredor de rua é um artista: luta contra a entropia da natureza para manter as ruas limpas. O trabalho enobrece.

A resposta dele foi algo relacionado à dialética marxista. Acho que ele não entendeu a pergunta, e eu certamente não entendi a resposta.

A irmã do “artista” declarou que ele morava com a mãe. Nunca tinha trabalhado na vida, exceto em alguns “bicos”. A sua fonte de renda era uma mesada (da magra aposentadoria da mãe). Ele não ajudava em tarefa doméstica alguma e vivia reclamando de tudo.

Para concluir, não sei como dialogar com alguém assim, com visões básicas do mundo completamente distintas. Talvez ele esteja mesmo muito à frente do nosso tempo…

Ao me despedir do sujeito, suas últimas palavras foram “Fora Temer”!

 

 

 

 

Qualquer um pode se tornar um Neymar com 10 mil h de esforço. Será?

10 mil horas necessárias, não suficientes

Há uma teoria de que 10 mil horas de trabalho são necessárias para atingir a maestria em qualquer área. Esta teoria das 10 mil horas foi popularizada pelo livro “Outliers”, do jornalista Malcolm Gladwell.

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Excelência para fazer tarefas complexas requer um nível mínimo de prática, a fim de que as conexões neurais se formem no cérebro. E, na média, esse nível mínimo de prática é de 10 mil horas, segundo as pesquisas citadas no livro.

Muita gente interpreta isto como se qualquer pessoa pudesse se dedicar a qualquer tarefa por 10 mil horas e se tornar “top of the world”.

 
Se eu começar a jogar bola hoje, e praticar fortemente por 10 mil horas, poderei me tornar tão craque quanto o Neymar! Bons genes ajudam, mas podem ser compensados pela vontade e disposição! Motivação!

 
Será mesmo?


O experimento de Dan
Teve uma pessoa que levou a história das 10 mil horas ao pé da letra.

Dan McLaughlin era um fotógrafo, que abandonou a carreira para praticar golfe e se tornar um profissional. Ele mal tinha jogado golfe antes. Ele começou a jornada em 2010, e foi documentando seus passos num site, o The Dan Plan (http://thedanplan.com/).

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O experimento de Dan rendeu a ele várias aparições na TV, entrevistas, citações em livros… Imagine só, ele provar que uma pessoa comum pode se tornar um Neymar do golfe apenas com esforço próprio!

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Não entendo de golfe, mas pelos comentários, ele fez um bom progresso desde o início da jornada. Há um timer regressivo no seu site, que iniciou nas 10 mil horas e foi decrescendo…

O contador, no final de 2015 (depois de quase 5 anos de experimento) dizia que faltavam 4 mil horas.

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Até que ele desistiu.

O contador nunca mais se moveu.


 
A parede forte da realidade



O último post de Dan é de nov 2015, e dizia que ele tinha tido uma contusão nas costas. Ficaria parado por um tempo por conta disto.


Hoje, out/2016, um ano depois, e nenhuma outra postagem. Nenhuma menção de como foi a recuperação. Nenhuma explicação se ele definitivamente desistiu ou deu uma pausa.

Um antigo fã escreveu um post muito interessante, (https://thesandtrap.com/b/thrash_talk/post_mortem_on_the_dan_plan). Diz que Dan passou a vender refrigerante. Isto pode ser comprovado acessando a página a seguir, onde conta uma historinha da empresa de refrigerantes.

http://portlandsyrups.com/our-story/

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Realmente, não é nada fácil passar anos e anos buscando uma meta, sem suporte financeiro. E não tem nada errado em ele buscar algo que pague as contas.


O ex fã cita que encontrou-se com Dan, e ele tem um espírito de artista.

Dan está mais para alguém que gosta de um show, que quer se mostrar. E por isso, ele não vai deixar um post de despedida. Talvez um dia ele volte a perseguir a meta, fazendo todo o estardalhaço em cima disto.


Maratona


Na minha opinião, uma meta, principalmente uma meta difícil, tem que ser encarada como uma maratona: dosar energias, não se empolgar demais no começo, persistir.

Na minha opinião também, discursos motivacionais são estímulos de curto prazo. Têm validade limitada.

Metas de longo prazo devem ser claras, específicas. Também devem ser atingíveis. Condizentes com os seus valores. Condizentes com as suas habilidades. Pensar grande mas fazer pequeno, passo a passo. Sem show, sem alarde.


Validade nula



Outra coisa é que experimento de Dan não serve nem para provar nem para desprovar a teoria das 10 mil horas.

Primeiro, que Dan representa apenas uma amostra. Para qualquer teste estatístico ser válido, deve-se ter muito mais amostras, de preferência milhares.

Segundo, Dan não entendeu o espírito da coisa.

A condição das 10 mil horas é necessária, não suficiente. Ou seja, Neymar precisou jogar muita bola, talvez perto de 10 mil horas, para ser o que foi.

Foi uma condição necessária. Uma pessoa qualquer pode ficar 30 mil horas jogando, que não vai chegar no nível dele. Há vários outros jogadores profissionais que estão jogando há mais tempo e não estão no nível dele. Os genes certamente fizeram a diferença.

Além disso, 10 mil é um número médio. Pode ser muito menos que 10 mil, ou muito mais, dependendo de cada pessoa.

Outra coisa que Gladwell destaca no livro é que o timing também é crucial. Bill Gates, os Beatles, além de serem extremamente competentes e terem essas 10 mil horas, também estavam no lugar certo, na hora certa, e tiveram sorte, para serem outliers (outlier = ponto fora da curva, tipo todo mundo tira menos que 5 na prova, chega um cara e tira 9,5).

Portanto, o experimento de Dan está mais para um showzinho mesmo, do que para algum experimento conclusivo, para o bem ou para o mal.

O filósofo e o imperador

Após concluir a invasão da Grécia, Alexandre, o Grande, ouviu falar de Diógenes, um sábio filósofo que vivia na região portuária.
Alexandre era o imperador de todo o mundo conhecido, o homem mais poderoso da Terra.
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Diógenes desprezava todas as riquezas e luxos mundanos, e buscava a virtude.
Quando se encontraram, Alexandre perguntou:
Diga o que você quer, que eu te darei. Grandes extensões de terra, escravos, palácios, navios mercantes, qualquer coisa que você pedir.
Diógenes nem hesitou em responder:
Senhor, desejo apenas que saia da frente do meu sol.
Diante dos risos dos que estavam presentes, Alexandre teria dito:
“Se eu não fosse um Alexandre, seria um Diógenes”.
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Intercâmbio nos EUA

O Vinícius é do programa de aprendizes da Klabin SA. Tem 16 anos, e vira e mexe me pede instruções de Excel e de Matemática (quando não tenho tempo, ele volta depois, mas não desiste).

Ele é só um garoto, mas um garoto que ousa sonhar, que ousa pedir. Ousa desafiar o mundo, contra todas as probabilidades. Quer saber?

Aposto nele.

 

http://www.kickante.com.br/campanhas/vinicius-nos-usa

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4 décadas de um engenheiro

Tive a honra de conhecer o grande professor Kokei Uehara há uns 10 anos. Na época ele era o presidente da Associação Cultural Brasil Japão de São Paulo, e eu era alguém que estava meio perdido sobre rumos a tomar.
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Uehara foi professor de hidráulica da USP por várias décadas, e é conhecido como o “domador de rios”. Exerceu vários cargos de liderança na faculdade e fora dela.
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Uma das histórias que ele me contou foi sobre as quatro décadas de engenheiro.

Primeira década: Técnico
Nos primeiros 10 anos depois de formado, o engenheiro procura dominar a parte técnica: conhecer o seu trabalho, evoluir no que sabe fazer, executar muito bem o que lhe é dito para fazer. Entender como são as regras num ambiente de trabalho, conhecer o limite do que pode fazer ou não.

Administrador
Na segunda década do engenheiro, ele já domina a técnica e dá um passo maior: como administrar pessoas e processos. Se antes diziam para ele fazer alguma coisa, agora ele é que diz a alguns outros o que fazer. Agora ele tem mais responsabilidades, uma visão mais ampla dos assuntos. Expande os limites do que é possível fazer.

Economista
Na terceira década, o engenheiro já conhece bem o que faz e como fazer. E ele passa a se interessar em saber como o mundo funciona, num nível mais estratégico. Quais as implicações do que faço no mundo, e como o mundo implica no que faço. Por que algumas ideias funcionam e outras, não? Como posso contribuir para o todo?

Filósofo
Na quarta década de engenheiro, ele passa a se questionar. Por que estou fazendo isto? Qual o sentido de todos esses anos de trabalho? O que é realmente útil, e o que não é? O que eu faria diferente nas últimas décadas em trabalhei?

Acredito que este panorama seja válido não apenas para engenheiros, mas qualquer bom profissional. Em algum momento eles começam a jornada. Tentam dominar o que fazem. Depois, ensinar e liderar outros. Tentam entender o mundo ao redor, e refletem se o que fizeram valeu a pena. Tentam saber o por quê disto tudo. Como posso ser feliz, mesmo sem entender o mundo?
Sinto que ainda não compreendo totalmente a mensagem que ele quis transmitir. Mas sinto que as quatro décadas de um profissional fazem muito sentido.

O homem que mereceu um prêmio de 1 milhão de dólares. E recusou.

A Matemática é a mais pura das ciências. “Pura” no sentido de que pode ser completamente abstrata, sem relação alguma com a realidade. Há ramos da matemática tão abstratos que é difícil sequer fazer uma analogia com o mundo real.

O russo Grigori Perelman (1966 – presente) é um homem solteiro, que vive com a mãe num apartamento infestado de baratas. Não tem emprego, fica a maior parte do tempo no pequeno apartamento (das baratas), usa as mesmas roupas, não corta os cabelos nem as unhas. Esta pessoa perturbada é um dos maiores gênios de nosso tempo.

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Perelman resolveu um dos problemas mais difíceis de todos os tempos, a Conjectura de Poincaré. Esta conjectura foi proposta há 100 anos, por um matemático chamado Henry Poincaré. Tem haver com topologia, que é uma espécie de geometria elástica: não se importa com a posição absoluta dos pontos, mas sim em como os pontos se conectam. Eles podem ser torcidos, esticados, encolhidos, mas o que interessa são as propriedades que se mantém invariantes entre os pontos.

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Se você puxar, comprimir, esticar uma caneca, ela se transformará numa rosquinha, é o que dizem os topologistas…

Não sei direito o que diz a Conjectura de Poincaré, mas sei que é difícil. Tão difícil que ninguém tinha conseguido resolver em 100 anos. Tão difícil que virou um dos Problemas do Milênio.

 

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No ano 2000, o Instituto Clay escolheu 7 dos problemas mais impossíveis e importantes da Matemática: os Problemas do Milênio. O Instituto criou um prêmio de 1 milhão de dólares para cada um dos problemas. O objetivo do Instituto foi o de chamar a atenção para estes problemas importantes e estimular a produção de novas técnicas, ideias e soluções.

Pois bem, Grigori Perelman publicou uma série de papers, até resolver este problema do milênio em 2003. Após vários anos tendo a solução dissecada e analisada por todos os ângulos, finalmente a comunidade matemática aceitou que a mesma estava correta. Em 2010, o Instituto Clay declarou que Grigori Perelman  resolvera oficialmente o problema, e o nomeou como o vencedor do prêmio de 1 milhão de dólares.

Só que Perelman recusou o prêmio. Disse “não” a 1 milhão de doletas.

 


 

Fama e Dinheiro

Perelman desde cedo apresentou grande aptidão com a Matemática. Ganhou uma série de prêmios e conseguiu uma posição acadêmica na Rússia. Mas logo abandonou esta posição, talvez por se sentir desajustado neste meio. Perelman é alguém desajustado no mundo real.

Como eu coloquei no primeiro parágrafo, a Matemática é abstração pura. Resolver um problema desses requer uma capacidade de abstração acima da abstração, uma cabeça fora do normal. É algo tão descolado da realidade que não se pode medir alguém como Perelman pelos padrões normais de fama, dinheiro, bens. Perelman tem a sua própria régua de medida. Conseguir o que ele conseguiu já é suficiente, pelo amor ao conhecimento, à Matemática.

A maioria dos acadêmicos briga por publicações, chegando a cometer atos no mínimo imorais, como colocar o nome na publicação de outras pessoas, fatiar publicações em várias partes para parecer que tem mais trabalhos, fazer citações cruzadas (eu cito o trabalho do meu amigo, e ele cita o meu). Isto tudo é cosmético, só encheção de linguiça, “Ciência salame”:  http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,darwin-e-a-pratica-da-salami-science-imp-,1026037. Há uma dependência grande de verbas do governo, o que faz com que política e ciência muitas vezes se misturem. Ciência não é quantidade, é qualidade.

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O que Perelman faz é Ciência de verdade, e muitos dos acadêmicos, principalmente no Brasil, deveriam se inspirar nele.

 

Arnaldo Gunzi

Mai 2016

 

Alguns links de referência:

https://en.wikipedia.org/wiki/Millennium_Prize_Problems

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1259863/Worlds-cleverest-man-turns-1million-prize-solving-mathematics-greatest-puzzles.html

 

http://www.huffingtonpost.com/2010/03/24/grigori-perelman-reclusiv_n_511938.htmlhttp://www.independent.co.uk/news/world/europe/shy-maths-genius-leaves-million-dollar-prize-money-on-the-table-1928032.html

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Grigori_Perelman

 

 

 

 

 

 

The girl from Ipanema

O Brasil é um gigante deitado em berço esplêndido que parece nunca acordar.

 

Um reflexo disto é que o volume de trabalhos escritos em inglês e traduzidos para o português é infinitamente maior que os na direção oposta. Dificilmente algo nascido no Brasil conquista o mundo.

 

Uma exceção é a música “Garota de Ipanema”. Esta foi composta por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, e é um ícone de nossa cultura. Foi traduzida para inglês nos anos 60.

 

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A versão em inglês é muito mais pobre que a original.
 
Começa assim:
“Tall and tan and young and lovely the girl from Ipanema…”

 

Algo como “alta, bronzeada e jovem e amável, a garota de Ipanema…”

 

Não chega nem perto de “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa…”.
 


https://www.youtube.com/watch?v=NldPFVKYmiw

Outro trecho “When she walks, she’s like a samba” – “Quando ela anda, é como samba”.

 

Também não tem nem comparação com “o seu balançar é mais que poema, é a coisa mais linda que já vi passar”.
 


A sonoridade da versão em inglês é a mesma, mas não a letra. A letra em inglês é uma tradução. O original em português é um poema, escrito com o coração de Vinícius e a genialidade de Tom.
 
No bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, há uma rua chamada Vinícius de Moraes e um bar, onde ele e Tom Jobim se encontravam. Um dia, fiquei ali, olhando os transeuntes, o sol, o calor e o mar, e imaginado a dupla compondo a canção: “moça do corpo dourado do sol de Ipanema”, “num doce balanço a caminho do mar”, “se ela soubesse que quando ela passa o mundo todinho se enche de graça”.
 
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“The girl from Ipanema” foi cantado por Frank Sinatra e vários outros artistas. Alcançou sucesso mundial graças a esta tradução para o inglês.

 

Entretanto, se “Girl from Ipanema” é mundial, temos o privilégio de ser o único povo que consegue compreender “Garota de Ipanema” em sua essência, no original em português bem brasileiro.