Intercâmbio nos EUA

O Vinícius é do programa de aprendizes da Klabin SA. Tem 16 anos, e vira e mexe me pede instruções de Excel e de Matemática (quando não tenho tempo, ele volta depois, mas não desiste).

Ele é só um garoto, mas um garoto que ousa sonhar, que ousa pedir. Ousa desafiar o mundo, contra todas as probabilidades. Quer saber?

Aposto nele.

 

http://www.kickante.com.br/campanhas/vinicius-nos-usa

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4 décadas de um engenheiro

Tive a honra de conhecer o grande professor Kokei Uehara há uns 10 anos. Na época ele era o presidente da Associação Cultural Brasil Japão de São Paulo, e eu era alguém que estava meio perdido sobre rumos a tomar.
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Uehara foi professor de hidráulica da USP por várias décadas, e é conhecido como o “domador de rios”. Exerceu vários cargos de liderança na faculdade e fora dela.
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Uma das histórias que ele me contou foi sobre as quatro décadas de engenheiro.

Primeira década: Técnico
Nos primeiros 10 anos depois de formado, o engenheiro procura dominar a parte técnica: conhecer o seu trabalho, evoluir no que sabe fazer, executar muito bem o que lhe é dito para fazer. Entender como são as regras num ambiente de trabalho, conhecer o limite do que pode fazer ou não.

Administrador
Na segunda década do engenheiro, ele já domina a técnica e dá um passo maior: como administrar pessoas e processos. Se antes diziam para ele fazer alguma coisa, agora ele é que diz a alguns outros o que fazer. Agora ele tem mais responsabilidades, uma visão mais ampla dos assuntos. Expande os limites do que é possível fazer.

Economista
Na terceira década, o engenheiro já conhece bem o que faz e como fazer. E ele passa a se interessar em saber como o mundo funciona, num nível mais estratégico. Quais as implicações do que faço no mundo, e como o mundo implica no que faço. Por que algumas ideias funcionam e outras, não? Como posso contribuir para o todo?

Filósofo
Na quarta década de engenheiro, ele passa a se questionar. Por que estou fazendo isto? Qual o sentido de todos esses anos de trabalho? O que é realmente útil, e o que não é? O que eu faria diferente nas últimas décadas em trabalhei?

Acredito que este panorama seja válido não apenas para engenheiros, mas qualquer bom profissional. Em algum momento eles começam a jornada. Tentam dominar o que fazem. Depois, ensinar e liderar outros. Tentam entender o mundo ao redor, e refletem se o que fizeram valeu a pena. Tentam saber o por quê disto tudo. Como posso ser feliz, mesmo sem entender o mundo?
Sinto que ainda não compreendo totalmente a mensagem que ele quis transmitir. Mas sinto que as quatro décadas de um profissional fazem muito sentido.

O homem que mereceu um prêmio de 1 milhão de dólares. E recusou.

A Matemática é a mais pura das ciências. “Pura” no sentido de que pode ser completamente abstrata, sem relação alguma com a realidade. Há ramos da matemática tão abstratos que é difícil sequer fazer uma analogia com o mundo real.

O russo Grigori Perelman (1966 – presente) é um homem solteiro, que vive com a mãe num apartamento infestado de baratas. Não tem emprego, fica a maior parte do tempo no pequeno apartamento (das baratas), usa as mesmas roupas, não corta os cabelos nem as unhas. Esta pessoa perturbada é um dos maiores gênios de nosso tempo.

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Perelman resolveu um dos problemas mais difíceis de todos os tempos, a Conjectura de Poincaré. Esta conjectura foi proposta há 100 anos, por um matemático chamado Henry Poincaré. Tem haver com topologia, que é uma espécie de geometria elástica: não se importa com a posição absoluta dos pontos, mas sim em como os pontos se conectam. Eles podem ser torcidos, esticados, encolhidos, mas o que interessa são as propriedades que se mantém invariantes entre os pontos.

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Se você puxar, comprimir, esticar uma caneca, ela se transformará numa rosquinha, é o que dizem os topologistas…

Não sei direito o que diz a Conjectura de Poincaré, mas sei que é difícil. Tão difícil que ninguém tinha conseguido resolver em 100 anos. Tão difícil que virou um dos Problemas do Milênio.

 

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No ano 2000, o Instituto Clay escolheu 7 dos problemas mais impossíveis e importantes da Matemática: os Problemas do Milênio. O Instituto criou um prêmio de 1 milhão de dólares para cada um dos problemas. O objetivo do Instituto foi o de chamar a atenção para estes problemas importantes e estimular a produção de novas técnicas, ideias e soluções.

Pois bem, Grigori Perelman publicou uma série de papers, até resolver este problema do milênio em 2003. Após vários anos tendo a solução dissecada e analisada por todos os ângulos, finalmente a comunidade matemática aceitou que a mesma estava correta. Em 2010, o Instituto Clay declarou que Grigori Perelman  resolvera oficialmente o problema, e o nomeou como o vencedor do prêmio de 1 milhão de dólares.

Só que Perelman recusou o prêmio. Disse “não” a 1 milhão de doletas.

 


 

Fama e Dinheiro

Perelman desde cedo apresentou grande aptidão com a Matemática. Ganhou uma série de prêmios e conseguiu uma posição acadêmica na Rússia. Mas logo abandonou esta posição, talvez por se sentir desajustado neste meio. Perelman é alguém desajustado no mundo real.

Como eu coloquei no primeiro parágrafo, a Matemática é abstração pura. Resolver um problema desses requer uma capacidade de abstração acima da abstração, uma cabeça fora do normal. É algo tão descolado da realidade que não se pode medir alguém como Perelman pelos padrões normais de fama, dinheiro, bens. Perelman tem a sua própria régua de medida. Conseguir o que ele conseguiu já é suficiente, pelo amor ao conhecimento, à Matemática.

A maioria dos acadêmicos briga por publicações, chegando a cometer atos no mínimo imorais, como colocar o nome na publicação de outras pessoas, fatiar publicações em várias partes para parecer que tem mais trabalhos, fazer citações cruzadas (eu cito o trabalho do meu amigo, e ele cita o meu). Isto tudo é cosmético, só encheção de linguiça, “Ciência salame”:  http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,darwin-e-a-pratica-da-salami-science-imp-,1026037. Há uma dependência grande de verbas do governo, o que faz com que política e ciência muitas vezes se misturem. Ciência não é quantidade, é qualidade.

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O que Perelman faz é Ciência de verdade, e muitos dos acadêmicos, principalmente no Brasil, deveriam se inspirar nele.

 

Arnaldo Gunzi

Mai 2016

 

Alguns links de referência:

https://en.wikipedia.org/wiki/Millennium_Prize_Problems

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1259863/Worlds-cleverest-man-turns-1million-prize-solving-mathematics-greatest-puzzles.html

 

http://www.huffingtonpost.com/2010/03/24/grigori-perelman-reclusiv_n_511938.htmlhttp://www.independent.co.uk/news/world/europe/shy-maths-genius-leaves-million-dollar-prize-money-on-the-table-1928032.html

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Grigori_Perelman

 

 

 

 

 

 

The girl from Ipanema

O Brasil é um gigante deitado em berço esplêndido que parece nunca acordar.

 

Um reflexo disto é que o volume de trabalhos escritos em inglês e traduzidos para o português é infinitamente maior que os na direção oposta. Dificilmente algo nascido no Brasil conquista o mundo.

 

Uma exceção é a música “Garota de Ipanema”. Esta foi composta por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, e é um ícone de nossa cultura. Foi traduzida para inglês nos anos 60.

 

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A versão em inglês é muito mais pobre que a original.
 
Começa assim:
“Tall and tan and young and lovely the girl from Ipanema…”

 

Algo como “alta, bronzeada e jovem e amável, a garota de Ipanema…”

 

Não chega nem perto de “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa…”.
 


https://www.youtube.com/watch?v=NldPFVKYmiw

Outro trecho “When she walks, she’s like a samba” – “Quando ela anda, é como samba”.

 

Também não tem nem comparação com “o seu balançar é mais que poema, é a coisa mais linda que já vi passar”.
 


A sonoridade da versão em inglês é a mesma, mas não a letra. A letra em inglês é uma tradução. O original em português é um poema, escrito com o coração de Vinícius e a genialidade de Tom.
 
No bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, há uma rua chamada Vinícius de Moraes e um bar, onde ele e Tom Jobim se encontravam. Um dia, fiquei ali, olhando os transeuntes, o sol, o calor e o mar, e imaginado a dupla compondo a canção: “moça do corpo dourado do sol de Ipanema”, “num doce balanço a caminho do mar”, “se ela soubesse que quando ela passa o mundo todinho se enche de graça”.
 
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“The girl from Ipanema” foi cantado por Frank Sinatra e vários outros artistas. Alcançou sucesso mundial graças a esta tradução para o inglês.

 

Entretanto, se “Girl from Ipanema” é mundial, temos o privilégio de ser o único povo que consegue compreender “Garota de Ipanema” em sua essência, no original em português bem brasileiro.
 

Continuem famintos, continuem tolos

Steve Jobs fez um discurso de formatura em Stanford, em 2005, onde contou três histórias bonitas, fortes e marcantes.

 


Ligar os pontos

Eu não tinha ideia do que queria fazer na minha vida. E lá estava eu gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado. E então decidi largar a faculdade
e acreditar que tudo ficaria bem.

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Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava isto.

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Você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja.

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Amor e perda.

Tínhamos acabado de lançar nossa maior criação – o Macintosh – e eu tinha 30 anos. E aí fui demitido.

 

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Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses. Eu até mesmo pensei em deixar o Vale do Silício. Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia.

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Ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo.

 

Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama.

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E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar.

 


Morte

Olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.

 

Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.

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A morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento,
o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se
tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso
é a verdade.

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O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro
alguém. Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da
vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros
cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de
seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira
já sabem o que você realmente quer se tornar.

 

Continuem famintos. Continuem tolos. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e são o novo, eu desejo isso para vocês.

 

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Steve Jobs 1955 – 2011

 


Links:

 

https://ideiasesquecidas.com/2014/05/15/discurso-de-steve-jobs-primeira-historia/

http://pursuitist.com/iconic-images-of-steve-jobs-by-photographer-norman-seeff

Rare Pics Of Steve Jobs Show His Love Of Yoga

Pragmáticos x Integradores

“Sozinho chego mais rápido, acompanhado chego mais longe”  – Clarice Lispector

 

Um dos modelos de comportamento classifica os tipos humanos nos eixos racional – emocional e resultados – relações.

 

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Quem é voltado a resultados é Pragmático: tende a ser individualista e age com força para tentar chegar ao resultado.

 

A ex-presidente Dilma Roussef é Pragmática. Não é boa para fazer alianças políticas. Trata os subordinados aos berros. Quer baixar os juros, e o que faz? Induz os bancos a baixarem os juros na marra. Quer segurar a inflação? Proíbe o reajuste de preços da gasolina, causando desequilíbrio financeiro à empresa e prejudicando completamente o setor da cana de açúcar. Quer baixar a conta de luz? Faz as elétricas baixaram na marra os preços, novamente sem corrigir os fundamentos para possibilitar a diminuição de preços.

 

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Resultados: num curto prazo, os juros baixaram, a gasolina não subiu e a energia baixou. Mas, mexer na consequências sem corrigir a causa gera desequilíbrio. Os juros voltaram a subir, a Petrobrás só não quebrou por ser estatal, a eletricidade está subindo e as elétricas tomaram muitos prejuízos.

 

Quem é altamente pragmático pode se encaixar bem numa posição de execução. Mas pode não ser uma boa escolha para uma posição de gerenciamento de pessoas.

 

Quem é voltado à relações é um Integrador. Integradores podem não se dar bem com matemática, mas são bons em relacionamento humano.

 

Michel Temer é um bom Integrador. Ele não tem uma capacidade de palanque, mas um perfil de costurar alianças nos bastidores e apaziguar grupos distintos.

 

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Política é complexa porque o ser humano é complexo. Em política, há diversos grupos heterogêneos que têm interesses distintos. É como se tivessem várias pessoas num barco, cada uma remando numa direção. Fazer com que a maioria reme em direção a um objetivo comum é o grande desafio do Integrador.

 

Temer já deu grandes mostras do que é capaz de fazer: é líder de um partido como o PMDB, que é uma colcha de retalhos de interesses distintos. Forjou alianças para aprovar o impeachment da antecessora. Tudo isso sendo desconhecido do grande público.

 

Este blog prevê que Temer terá sucesso político muito maior do que a predecessora.

 

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O Expressivo é alguém com um lado bastante emocional. Está sujeito a expressar emoções com força.

 

O ex-presidente Lula é alguém bastante expressivo.

 

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O Analítico é aquele sujeito frio, calculista. Faz as contas para verificar o que acontece, e não se rende às emoções. Eduardo Cunha, que presidiu a sessão do impeachment, é  assim: tão frio que nem precisa de ar-condicionado.

 

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Só escrevi este post porque achei interessante os 4 políticos mais visados do momento terem perfis tão opostos.

 

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Arnaldo Gunzi
Abril 2016

 

 

Buracos negros, o início do tempo e o cérebro aprisionado

Uma breve história do tempo

 

Existe um cérebro, aprisionado num corpo inválido, que sonhou com o começo do universo.


 

 

 

No início, houve uma explosão, um Big Bang, que deu origem ao espaço e ao tempo.

 

BigBang

O universo começou a se expandir e a resfriar. Do resfriamento da energia, começou a surgir a matéria. Da matéria, surgiram as estrelas e planetas.

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As estrelas têm um ciclo de vida. Elas começam pequenas, e vão crescendo até virarem gigantes vermelhas, onde é o seu ápice. Daí, começa a decadência, se transformando em anãs vermelhas, depois em anãs brancas, até morrerem agonizantes, se transformando em um buraco negro. A morte de uma estrela é tão poderosa que suga tudo o que estiver ao redor. Nem a luz escapa.

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Isto não é um delírio qualquer. É uma teoria extremamente respeitada, escrita por um dos maiores cientistas dos últimos tempos.

 

E o cérebro aprisionado num corpo inválido é o de Stephen Hawking.

 

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O universo numa casca de noz

 

Hawking tem problemas neuro-motores que paralisam todos os músculos de seu corpo. Ele necessita de assistência ambulatorial 24 horas por dia, para fazer absolutamente tudo: comer, tomar banho, trocar de roupa, deitar, trabalhar, tomar sol, sair.

 

Hawking não consegue falar. Para se comunicar, Hawking usa um computador que capta o movimento de sua bochecha. Um cursor vai se movendo no teclado. Ele escolhe a primeira letra, e vão surgindo opções para a palavra inteira, similar a quando escrevemos num smartphone. Depois de montar uma frase inteira, ele usa um sintetizador de voz para pronunciar o que está escrito. Pode demorar vários minutos para escrever uma frase completa.

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Hawking teve que desenvolver uma capacidade de processar mentalmente fórmulas matemáticas e visualizar equações, uma vez que não conseguia escrever. Talvez por isso, suas aulas têm tantas analogias com coisas do cotidiano:

 

“Estar próximo a um Buraco Negro é como estar nas Cataratas do Niágara em uma canoa. Você consegue fugir se remar rápido o suficiente, mas se estiver muito próximo, é o fim. À medida que vai se aproximando, a correnteza torna-se mais forte.”

 

Foi assim, escolhendo cada letra com a bochecha, e visualizando equações, que ele escreveu diversos livros sobre buracos negros, explicações sobre o Big Bang, teorias sobre o início dos tempos. Escreveu e foi co-autor de mais de 10 livros, diversas aulas, vários filmes e dezenas de artigos, indo do extremamente acadêmico ao extremamente didático.

 

O livro “Uma breve história do tempo” vendeu mais de 10 milhões de exemplares em 20 anos, introduzindo o mundo da cosmologia ao leitor leigo. É um dos marcos da divulgação científica.

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Epílogo

 

As pessoas (incluindo os autores deste texto) vivem reclamando que não têm tempo, energia, recursos para lutar por seus objetivos. Nesses momentos, Hawking vem à lembrança.

 

Stephen Hawking não consegue utilizar sua mãos nem seus pés. Não consegue falar, não tem vida própria. Mas, mesmo assim, conseguiu ser um dos maiores cientistas e um dos maiores divulgadores da ciência de todos os tempos.

 

Hawking é a prova de que as limitações estão em nossa mente, e não em nosso corpo.

 

 

 

 

Arnaldo Gunzi

 

Colaboração do meu amigo João Silva

 


 

 

 

Vídeos e links relacionados

 

http://www.hawking.org.uk/

 

https://www.youtube.com/watch?v=UErbwiJH1dI

 

 

 

 

 

 

 

A Teoria de Tudo

 

 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-222221/trailer-19540179/

 

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Como capturar um macaco

Macacos são criaturas ágeis, desconfiadas e inteligentes. Não é fácil capturar um macaco. Tentar ser mais veloz que ele, impossível. Armadilhas simples não funcionam.

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No Japão antigo, havia um método curioso de capturar macacos.

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O homem colocava uma tigela com água. Deixava no chão e ia embora. O macaco, curioso, pegava o pote e tomava a água.

No dia seguinte, o homem colocava um pouquinho de sakê. O macaco pegava o pote e tomava a água.

O homem ia gradativamente aumentando a quantidade de sakê na água. O macaco achava esquisito no começo, mas como era em doses homeopáticas, tolerava. Com o tempo, passava a gostar mais e mais do álcool.
Até que chegava num ponto em que a dose era muito forte, mas o macaco não conseguia deixar de tomar a tigela.

Neste ponto, o homem capturava facilmente o macaco bêbado.

 


O destino de todo macaco bêbado é ser privado de sua liberdade. O melhor jeito de o macaco não ficar viciado é parar o consumo enquanto as doses são pequenas, não importa o quão atrativo a bebida pareça, não importa que os outros macacos pareçam estar se divertindo.

 

Arnaldo Gunzi

Mar 2016
Mapa do Site

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O que podemos aprender com as Ondas Gravitacionais de Einstein?

100 anos de Relatividade
Hoje, em fevereiro de 2016, cientistas de um grupo chamado LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) anunciaram que a teoria de ondas gravitacionais de Albert Einstein foi finalmente comprovada. Não tenho muita ideia do que isto significa exatamente, mas sei que o relatório deles tinha mais de 1.000 cientistas de vários países do mundo, foram gastos bilhões de dólares em 2 detectores gigantescos em formato de L com braços de 4 km, mantendo vácuo interno, e com espelhos refletindo raios laser. É um trabalho espetacular e um marco na história da Física, sem dúvida alguma.
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Demorou 100 anos de avanços tecnológicos, investimento de bilhões de dólares e envolvimento de milhares de cientistas para comprovar que Einstein estava certo. Uma conclusão: Einstein era um cara Fodástico, com F maiúsculo.

Ok, não sou Einstein, nenhum de nós é. Mas podemos nos inspirar nele.

O que podemos aprender com Einstein?


 

1 – “A imaginação é mais importante do que o conhecimento”
Einstein era um físico teórico. Não tinha laboratório, não fazia experimento algum. No começo de carreira, era um analista de patentes de segunda categoria, que escondia os rascunhos de suas teorias quando o chefe chegava perto. Não tinha nem computador (não existiam), o que significa que desenvolveu a Teoria da Relatividade com lápis e papel! Mas ele tinha muita imaginação e curiosidade.

Desde quando era criança, Einstein fazia diversos experimentos mentais: imaginava-se viajando junto com a luz, depois olhando para outro feixe de luz que ia na direção oposta. E questionava. O que aconteceria se ele se ele levasse um espelho? Veria a própria imagem ou esta nunca o alcançaria? E se tivesse dois espelhos paralelos?

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Imaginação e curiosidade são os segredos de Einstein, não conhecimento e erudição.

“A Lógica vai te levar de A a B. A Imaginação a qualquer lugar.”

“O importante é nunca parar de questionar. A Curiosidade tem sua própria razão de existir.”

 Lição: Imaginação e Curiosidade


 

 2 – “Não podemos resolver problemas usando o mesmo nível de pensamento em que estes foram criados”

Eis a razão pela qual a criatividade é maior que o conhecimento. O conhecimento existente só resolve problemas do passado, só responde perguntas velhas.

É claro que dominar o conhecimento existente é importante para não reinventar a roda. Mas para resolver problemas novos, temos que usar um nível de pensamento diferente do que já foi utilizado até hoje. Isto significa fazer novas perguntas. Isto significa não se deixar influenciar por respostas já existentes. E isto tudo só é possível através da criatividade.

 “A Educação é o que resta após esquecer tudo o que aprendi na escola”
“A única coisa que interfere no meu aprendizado é a minha educação.”

 Lição: Fazer perguntas


 

3 – “Não se preocupe com a sua dificuldade com a matemática. Asseguro que a minha dificuldade com ela é maior.”

Obviamente, Einstein sabia muito de matemática. Mas ele não dominava a área tanto quanto outros colegas. E, para domar a relatividade, ele necessitava de uma matemática que não dominava. Para isto, pediu ajuda a colegas como Marcel Grossmann, e até à sua esposa, Mileva Marić – que manjava de matemática mais do que ele.

Einstein tinha domínio do core dele, a física. Para o que não dominava, buscava colaboração. Não é preciso saber tudo, é preciso saber colaborar.

Lição: Colaboração


 

4 – “A Realidade é uma mera ilusão, embora seja uma ilusão muito persistente”

Um dos artigos que levou à ideia de relatividade foi o experimento de Michaelson & Morley, que dizia que a velocidade da luz era a mesma, independente do observador. Este resultado não fazia o menor sentido, não havia teoria que a explicasse.

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Rascunho do experimento de Michaelson & Morley

 

Uma alternativa era a de que havia algum erro no experimento.

Outra alternativa era a de que o experimento estava certo, e toda a física existente estivesse errada. Este foi o caminho explorado por Einstein, e que levou à Relatividade e às tais ondas gravitacionais comprovadas 100 anos depois.

A Contradição é uma grande fonte de inovação. Se o modelo prevê x, e acontece y, quer dizer que há um oportunidade.
O Inesperado é uma grande fonte de inovação. Se todos os anos há aumento na venda de panetones, e ano passado não houve, quer dizer que há algo novo, que pode ser explorado por quem faz as perguntas certas.

Lição: Contradição como fonte de inovação


 

 

5 –    “Se você não pode explicar de forma simples, não entendeu direito.”

Um assunto complexo pode ser decomposto em temas mais simples, que podem ser entendidos. Mesmo um cubo mágico de 1.000 lados (procure aqui no blog) pode ser resolvido com passos simples.

“Tudo deve ser feito tão simples quanto possível, mas não mais simples do que isto.”

“Toda a ciência não é nada mais do que o refinamento do pensamento cotidiano.”

Lição: Simplicidade


 

6 – “Poucos são os que vêem com os próprios olhos e sentem com o próprio coração”

Que tal pensar por si mesmo, ao invés de repetir o pensamento de outrem? Nós temos sim o direito de questionar, de discordar, de pensar.

Arthur Eddington fez uma série de experimentos a fim de confirmar a Teoria da Relatividade.

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Uma das fotos de Eddington do eclipse solar de 1919
Pouco depois das observações de Eddington confirmarem que a luz era realmente dobrada pela gravidade, um estudante perguntou a Einstein o que ele faria se a relatividade geral tivesse falhado na descrição da natureza. Einstein teria dito: “Seria uma pena para o Lorde todo-poderoso. Porque a teoria está correta”.

Lição: “A única coisa de valor real é a intuição.”


 

Telégrafo

Para finalizar, gosto muito de uma frase de Einstein, que ao mesmo tempo tempo envolve tudo isso de criatividade, simplicidade, experimentos mentais, abstrações:

“O telégrafo sem fio não é difícil de entender. O telégrafo comum é como um gato muito comprido. Você puxa o rabo dele em Nova York e ele mia em Los Angeles. O telégrafo sem fio é a mesma coisa, só que sem o gato.”

Arnaldo Gunzi

Fev 2016


 

Leitura correlata:

Einstein: His Life and Universe by Walter Isaacson (Author)
http://www.amazon.com/Einstein-Life-Universe-Walter-Isaacson/dp/0743264746/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1455435870&sr=8-1&keywords=einstein+isaacson

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http://www.nytimes.com/2016/02/12/science/ligo-gravitational-waves-black-holes-einstein.html?_r=0

 

Chiquinho do Acordeon

  
Vou compartilhar uma história, uma dúvida, e um momento de tensão.
Eu estava no aeroporto de Curitiba. Era sexta feira à tarde, e faltavam mais duas horas para o meu voo para São Paulo. 
Fui para o segundo andar, onde há uma série de lanchonetes. Tomei um lanche, que estava horrível mas mesmo assim custou caro.
Depois do lanche, abri o laptop e fiquei trabalhando um pouco. Estava muito barulho ali, então resolvi sair da lanchonete e ir para um canto distante do aeroporto, onde tinha pouca circulação de pessoas. 
Estava quase na hora de ir para a área de embarque, quando surge, longe, um velhinho. E este caminha em minha direção, obviamente querendo falar algo. 
Estava meio na cara que era alguém precisando de dinheiro, então achei que ele fosse pedir uma esmola. Antes mesmo dele chegar, já tinha pensado em dar uns trocados. 
O velhinho tinha cabelos totalmente brancos, um rosto de quem viveu bastante, de quem teve muitos sofrimentos e alegrias.
Chegando à mesa, ele me cumprimentou e perguntou: “Você quer me ajudar comprando o meu disco?”
O velhinho saca um cd, onde está escrito “Dedos elétricos”.
Pergunto quanto é, e ele me diz “Vinte reais”. Diz que ele era muito bom com o acordeon, e que as músicas são de sua autoria.  
Um turbilhão de pensamentos toma a minha cabeça. Meio caro para um cd meia boca de alguém que nem conheço. Poderia falar um “não” puro e simples. A segunda alternativa era dar uns 2 reais de esmola, e falar para ele ficar com o cd. Mas escolhi a terceira alternativa, a de comprar o cd, não pelo produto em si, mas porque o velhinho veio vender a sua arte, o seu trabalho. 
Já que resolvi comprar, outra alternativa que veio à minha cabeça foi pedir um desconto. Acabei não fazendo isso, porque não queria rebaixar o trabalho do velhinho. 
Falei: “Ok, então me dê um desses”. Abri a carteira, e me deparei com um problema. Só tinham notas de 50 reais. Perguntei: “tem troco?”
Ele olhou para a nota de 50 com uma cara de quem gostaria muito de ficar com ela e falou, “não tenho troco não, mas eu vou lá trocar. Todo mundo me conhece aqui, pode confiar”.
De novo, o impasse. Eu poderia cancelar tudo, falar que não dá tempo e ir embora. Mas, já que tinha chegado até aqui, resolvi ir em frente: “ok, pode ir lá trocar. Mas daqui a 10 min tenho que ir embora “.

O velhinho andou, e depois de um tempo perdi-o de vista. Certamente um turbilhão de pensamentos também deve ter passado pela sua cabeça. Poderia ir embora com os 50 reais, eu nunca o encontraria de novo. 
Fiquei sentando, me perguntando: “será que ele volta ou não volta?”
Olho no relógio, foram-se 5 minutos. 
Depois, mais 5 minutos. 

 

Momento de tensão….
Comecei a guardar minhas coisas. Ia esperar no máximo mais cinco minutos e ir embora. 
E eis que o velhinho surge. Devolve o troco de 30 reais, fala que o telefone dele está escrito no cd e se despede. 
Chegando em casa, coloco o cd para tocar. A gravação é bem tosca, com qualidade ruim. As músicas até que são legais, mas nada de espetacular. Uma delas me lembra a música “Baião”, do fantástico Luís Gonzaga.

Normalmente não dou esmolas, nem fico comprando o que me oferecem. Já disse “não” inúmeras vezes, milhares de vezes. Não sou legal, nem bondoso com estranhos. Muito menos confio em alguém assim. 
Se ele viesse pedir esmola, ganharia uns dois reais no máximo. 
Não sei se ele é realmente músico, se a história é verdadeira ou não. Gosto de acreditar que sim. 

O que me tocou é que ele veio vender algo de que tinha orgulho, o fruto de seu trabalho, talvez o que ele tenha de melhor a oferecer nesta vida. 
Fiquei me imaginando com 85 anos de idade, sem dinheiro. E eu tentando vender algo de que me orgulhe para um rapaz na faixa dos 30. Pode ser que ele diga “não”, pode ser que ele me dê uma esmola. Eu poderia aceitar a esmola por caridade, mas não venderia um trabalho da qual me orgulho por uma esmola. Ficaria feliz em vender pelo preço justo. 

Obs. Pesquisei sobre “Chiquinho do Acordeon” no Google. Retornou um outro artista: outras músicas, outros álbuns, outra região do Brasil. Portanto, o velhinho do aeroporto não pirateou este outro homônimo. 

Wolff Klabin, a trajetória de um pioneiro

A Klabin S.A. é a maior produtora e exportadora de papéis do Brasil.

Parte da bela história de 120 anos da empresa é contada no livro “Wolff Klabin, a trajetória de um pioneiro”.

 

LivroWolffKlabin

 


Os primórdios

 

Maurício Klabin chegou ao Brasil em 1889, fugindo da perseguição a judeus na Lituânia, na época sob o domínio da Rússia. Trazia 20 quilos de tabaco e 20 libras esterlinas.

Começou a trabalhar numa papelaria na Av. S. João, em São Paulo, depois passou a ser proprietário da mesma.

 

Nos anos seguintes, vieram irmãos e tios da Lituânia. A família era de Klabins e Lafers. A família Lafer já tinha relações de parentesco desde a Lituânia.

 

Em 1899, funda a Klabin Irmãos e Cia, cujos produtos eram livros em branco, papel para escrever e seda, importando material da Europa. Este ano é considerado o ano de fundação da empresa, embora a fábrica de papel viesse muito tempo depois.

 

A principal matéria prima utilizada pela empresa era o papel, importado da Europa. O Brasil tinha poucas fábricas, e as que existiam trabalhavam com papel de menor qualidade.

 

Em 1903, a Klabin irmãos arrenda a Fábrica de Papel Paulista, produzindo 700 t anuais: papel de embrulho, livros-caixa.

 

Em 1909, inaugurou nova fábrica em SP, com maquinário importado – a nova fábrica foi chamada de Companhia Fabricadora de Papel.

 


Wolff Klabin

 

Wolff Chegou ao Brasil com 10 anos, em 1902. Vendedor nato, trabalhou como caixeiro viajante da companhia, vendendo material de papelaria.

 

Wolff não fazia parte diretamente do núcleo da familia Klabin que era dona da empresa. Era uma espécie de primo “pobre” que teve que percorrer um caminho diferente: mostrar primeiro seu valor como empreendedor, e depois ser aceito.

 

Ele teve um bom desempenho como vendedor, e foi transferido definitivamente para a filial de Porto Alegre, na época da Primeira Guerra Mundial.

 

Devido à guerra, surgiram dificuldades na importação e, consequentemente, escassez de papel. Com isso, surgiram oportunidades. Houve um grande estímulo à produção nacional de papel.

 

Os anos de Wolff em Porto Alegre mostraram-se muito importantes, não só pelo seu desempenho na empresa, mas também por fazer contatos que abririam muitas portas no futuro.

 


A Segunda Geração da Klabin

 

Pelos anos 1920, Wolff foi chamado a SP, pelo bom desempenho no Sul. Ele e Horácio Lafer formaram o núcleo da segunda geração da Klabin, após a morte de Mauricio.

 

Horácio era o intectual, acadêmico e descendente da família. Wolff era o pragmático, o self made man empreendedor. A Klabin era uma empresa média na época.

 

Ambos tornaram a Klabin uma gigante nacional.

 

No final dos anos 1920, Wolff mudou-se para o Rio, onde a Klabin tinha a necessidade de ser mais atuante. Foi um golpe do destino, que permitiu uma série de eventos fortuitos que serão descritos mais para frente.

 

As conexões de Wolff com políticos gaúchos e cariocas abriram uma série de portas para a companhia. E também por isso, Horácio Lafer foi Ministro da Fazenda de Getúlio Vargas.

 

Wolff+Klabin+despedindo-se+do+Presidente+Getúlio+Vargas+no+aeroporto+da+Fazenda+Monte+Alegre,+identificando-se+Rose+Haas,+1950.jpg

 

A Companhia Fabricadora de Papel tinha produção de 6.700 ton em 1927. Mas grande parte da matéria-prima continuava sendo importada. Wolff via a necessidade de ter matéria-prima própria para a fabricação de papel.

 


A Fábrica de porcelana

 

Em 1931, Wolff arranjou a aquisição da Manufatura Nacional de Porcelana. O Visconde de Moraes, já velho e afastado da operação, queria que Wolff assumisse. O Visconde faleceu anos depois.

 

Wolff liderou a reorganização da fábrica de porcelana, com gestão moderna, importação de tecnologia e know how. Passou a ser a maior fábrica de porcelana do mundo, na época.

 

O sucesso da fábrica de porcelana garantiu um fluxo de caixa que permitiu o grande salto futuro da empresa, a aquisição de terras no Paraná.

 

Um outro empreendimento ocorreu em 1935. Associada a Votorantim, os Klabin fundaram a Companhia Nitroquímica Brasileira. Era uma fábrica de tecido sintético, o rayon.

 

O rayon foi superado por uma inovação tecnológica superior, o nylon, e a Klabin decidiu não investir para acompanhar esta evolução: encerrou sua participacao na nitroquímica.

 


A fazenda Monte Alegre

 

O grande salto da empresa foi a aquisição da base florestal do Paraná, na fazenda Monte Alegre, que fica na cidade que atualmente é conhecida como Telêmaco Borba.

 

Mosaico
Foto do plantio em Mosaico das florestas da Klabin

 

Manuel Ribas era governador do Paraná, e já conhecia Wolff da época de Porto Alegre. Havia uma grande porção de terras administradas pela Companhia Agrícola e Florestal de Monte Alegre, mas esta companhia fora à falência. Ribas ofereceu as terras aos Klabin, que há muito tempo já sentiam a necessidade de ter matéria-prima nacional de qualidade.

 

Em 1933, a Klabin arrematou as terras, num leilão organizado pelo governo do Paraná. Não dava para deixar passar a oportunidade de adquirir um extensão tão grande e importante de terras propícias para a plantação de pinus. A fábrica de papel em si ficaria para depois. Havia inúmeros problemas como a falta de infraestrutura logística. Mesmo se tivesse a fábrica, deveria haver um investimento gigantesco em estradas e infraestrutura.

 


A fábrica de Telêmaco Borba

 

Em 1939, começa a Segunda Guerra Mundial. E, com isso, as importações ficaram mais difíceis, incluindo a celulose para fazer papel-jornal.

 

Getúlio Vargas consultou Assis Chateaubriand sobre a possibilidade de construção de uma grande fábrica de papel no país. Getúlio se preocupava com a possível falta de papel, e Chateaubriand era dono de um império de jornais e comunicação na época. Chatô recusou, por não ter terras para plantação, não ter know how e seu negócio ser comunicação. Mas ele indicou os Klabin para tocar o negócio e intermediou o encontro.

 

Vale lembrar que o jornal era uma das principais formas de comunicação de massa do século passado.

 

Getúlio ofereceu financiamento, mercado garantido e um ramal ferroviário.

Àquela época, os Klabin já estavam estudando a importação de equipamentos e toda a estrutura necessária para a implantação de uma fábrica de papel em Monte Alegre. Além dos custos de importação e da infra estrutura, era necessária uma quantidade grande de energia elétrica. Tudo isto tornava o investimento muito pesado.

 

Depois de muita negociação, o governo federal e a Klabin entraram num acordo de financiamento para viabilizar a construção da fábrica.

 

Em 1942 foi lançada a pedra fundamental da Indústria Klabin de Papel e Celulose, IKPC, e da represa Mauá, para fornecimento de energia.

 


A fábrica de Monte Alegre em funcionamento

 

Em 1942, a Companhia Fabricadora de Papel produzia 15 mil toneladas por ano.

 

Em 1945 iniciou-se a produção na fábrica de Monte Alegre. Em 1946, a capacidade era de 80 mil toneladas ano.

 

Inúmeros problemas técnicos tiveram que ser superados. Problemas como quebra do papel, e cor da fibra. A fibra era escura demais, porque as árvores eram muito velhas. Mas depois de muitos anos de aprendizado e trabalho, tais problemas foram sendo contornados.

 

FabricaMA

Foto da Fábrica de Monte Alegre atualmente.

 


Planejamento Florestal

 

Era comum na época a indústria ser predatória. A Klabin foi uma das empresas pioneiras no Brasil, em termos de reflorestamento. Desde o início das operações, já havia a preocupação com a sustentabilidade ambiental da empresa a Longo Prazo.

 


A terceira geração

 

Em 1957 Wolff Klabin faleceu, e em 1965, Horácio Lafer. A segunda geração estava saindo de cena, passando o bastão para a terceira geração. Mas, desta vez, foi diferente.

 

A empresa Klabin da época começou um processo de profissionalização de sua gestão, com executivos profissionais do mercado e estrutura de governança para o conselho. Foi uma das primeiras empresas brasileiras a tomar tal iniciativa.


A Klabin hoje

Em 2016 a Klabin deu outro salto de produção, com a inauguração de uma fábrica nova de celulose, o Projeto Puma, no município de Ortigueira (vizinho a Telêmaco Borba). Na época, o maior investimento privado do Paraná, com números extraordinários:

  • 8,5 bilhões de reais em investimentos totais,
  • 1,5 milhão de toneladas na produção anual de fibras (curta e longa),
  • 1,4 mil empregos durante a operação da fábrica,
  • 270 MW de energia gerada (sendo 150 MW vendida como excedente),
  • 200 hectares de área construída,
  • 72 quilômetros entre a floresta e a fábrica,
  • 700 milhões de reais em impostos gerados.

Hoje a Klabin continua sendo uma das maiores empresas do setor, com mais de 15 mil funcionários e produção de 3,5 milhão de toneladas de papel e celulose por ano.

Em 2019, a Klabin fez mais um anúncio de expansão, o Projeto Puma II. Serão investidos mais de R$ 9 bilhões, quebrando o próprio recorde de maior investimento privado no Paraná. O projeto prevê duas máquinas de papel kraftliner, previstos a entrar em operação em 2021 e 2023, e segundo o site de relações industriais da empresa, o volume de produção fará da empresa o terceiro maior vendedor de papel kraftliner do mundo!


Nada mal para uma empresa que começou com um imigrante trazendo 20 quilos de tabaco na bagagem.

Arnaldo Gunzi

Links:

Link da Amazon: https://amzn.to/2ScA1aK

Klabin vai investir R$9,1 bi no projeto Puma II até 2023

RI Klabin sobre o Puma II

https://www.klabin.com.br/pt/a-klabin/unidade-puma/projeto-puma


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Bento Koike, o samurai da Inovação

Agradecimento especial a Cláudio Galuchi por emprestar o livro.