O anel de Giges

O anel de Giges é uma das passagens mais famosas da discussão sobre moral e ética.

Giges é um pastor que obteve poderes mágicos através de um anel. Ele conseguia fazer o mal sem ser detectado, e com isso conseguiu glória e riquezas.

A narrativa da história ocorre num diálogo entre Sócrates e Glauco, irmão mais velho de Sócrates.

Glauco defende que qualquer pessoa que tivesse poderes semelhantes seria igual a Giges: pegaria tudo para si, sem medo de impunidade – e é mais ou menos o que acontece com as pessoas com muito dinheiro e poder político.

Já Sócrates argumenta o contrário, que o homem justo, com ou sem o anel, agiria da mesma forma.

Este debate é milenar, e vai continuar atual mesmo daqui a mil anos.

Alguns trechos do livro “A República”, de Platão, na narrativa de Glauco:

“Giges era um pastor que servia na casa do soberano da Lídia.
Devido a uma grande tempestade e um tremor de terra, rasgou-se o solo. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e com um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu.

Os pastores estavam reunidos, de maneira habitual, e Giges foi lá também. Estando ele, pois, no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, e ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel para fora, e tornou-se visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim tomou o poder.

Se houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses.

O supra-sumo da injustiça é parecer justo sem o ser.
Até os deuses são flexíveis. Com suas preces, suas oferendas, libações, gordura de vítimas, os homens ruins tornam-se bons.”

Pergunta: um homem justo com poderes ilimitadores tornaria-se como Giges? Deixe sua opinião nos comentários.

Nota 1: Alguns pensadores defendem que moral é algo interno, enquanto a ética é do ambiente, da sociedade em que a pessoa está inserida. Uma pessoa com alta moral se comportaria igualmente com ou sem anel.

Nota 2: É impressionante a força do anel como símbolo. Anel de Giges, anel dos Nibelungos, o Senhor dos Anéis…


Aforismos de Sêneca sobre a vida

Lucius Amadeus Sêneca, também conhecido como Sêneca, o jovem, foi um filósofo romano que viveu entre 4 a.C. e 65 d.C. Ele é um representante da escola estoica de pensamento.

 

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Os aforismos a seguir darão uma ideia do que é o estoicismo.

 

A vida não é curta. A vida é longa o suficiente, desde que a pessoa saiba usá-la.

As pessoas são frugais em guardar os seus bens pessoais, porém quando se trata do seu tempo, o seu bem mais precioso, elas a desperdiçam copiosamente.
As pessoas perdem o dia na expectativa da noite, e a noite com o medo do amanhecer.

(Comentário rápido. Nos meus tempos de engenheiro da Aeronáutica, tinha uma pessoa que entrava no escritório as 8 da manhã, nada fazia o dia inteiro, até ir para casa as 17h. Todo mundo dizia que o mesmo iria se aposentar dali a 3 anos, e estava só esperando o tempo passar. Ora, acho que há coisa melhor a fazer com a vida do que cumprir expediente sem produzir nada de útil)

 
Tudo na vida é emprestado. 

Lembre-se que tudo que temos nesta vida está emprestado para nós pelo Destino. Este pode reaver tudo sem nos avisar. Portanto, devemos amar nossos entes queridos, mas sempre lembrando que não há promessa que podemos cumprir para sempre.

 

A vida feliz é a que concorda com a sua natureza. Ora, isso não poderá ocorrer se a mente não for sã e não estiver em posse da própria saúde e, em seguida, corajosa e enérgica, nobre, paciente e acomodada às várias situações. Ela deverá também cuidar sem ansiedade do corpo e das coisas que adornam a vida, sem se deiar deslumbrar por nenhuma, e estar pronta a utilizar os dons da fortuna, sem ser escrava deles.

 

 

Aquele que é corajoso é livre.
A verdadeira felicidade está fundada na virtude. E o que o aconselha a virtude? A nada julgar bom ou mau, a não ser o que te suceder por causa da virtude ou do vícios. Permanecer inabalável diante do mal e de um bem. Nada te constrangerá, será livre, seguro e isento dos males e perigos.

 

 

Por que fala com mais coragem do que vive?

 

A riqueza é o escravo do sábio e o mestre do tolo.

 

Não é que o homem tem pouco, mas o homem que quer sempre mais, que é pobre.

 

O mais poderoso de todos é aquele que tem poder sobre si mesmo.

 

Não pelas coisas serem difíceis que não temos coragem. É por não termos coragem que as coisas são difíceis.

 


 

Último comentário rápido. O pensador Nassim Taleb comenta sobre Sêneca. Diz que muita gente critica o filósofo romano por este falar de estoicismo, mas ter sido muito rico.

 

Como entender tal contradição?

 

Taleb sustenta que ele é antifrágil. Ele é rico porque o Destino lhe deu capacidade para juntar tais riquezas.  Mas, se este mesmo Destino tirar todas essas riquezas, Sêneca não vai ficar chorando na sarjeta. Ele vai simplesmente continuar andando em frente. Afinal, tudo na vida é emprestado, faz-se uso enquanto tiver, e devolve sem lamentos quando pedirem de volta.

 

 

 


 

Fontes

Livro “Da vida feliz”

https://archive.org/stream/SenecaOnTheShortnessOfLife/Seneca+on+the+Shortness+of+Life_djvu.txt

 

https://www.goodreads.com/quotes/7689848-remember-that-all-we-have-is-on-loan-from-fortune

 

 

 

https://www.goodreads.com/work/quotes/1374471-de-brevitate-vitae

O Mestre e as duas árvores

Um dia, o discípulo perguntou ao Mestre Zen Budista.

 

 

– Mestre, porque eu sou tão inferior aos meus colegas? Alguns entraram comigo, outros são até mais novatos do que eu, porém conseguem me superar. Por mais que eu me esforce, não consigo ser como eles…

 

 

O Mestre levou o rapaz para fora e apontou o dedo para duas árvores.

 

– Observe aquelas duas árvores. Uma é o pinheiro, grande, alto, frondoso. Outra é o bambu, fino, comprido, muito menor do que o pinheiro. Será que o bambu reclama que o pinheiro é mais alto? Cada qual tem a sua própria natureza. Cada um segue o seu caminho.

 

 
Moral da história.
Não se compare com outras pessoas.

O importante é cada um dar o máximo de si para seguir em seu caminho.

O único jeito de ser feliz é ser feliz aqui, agora, do jeito que sou, da forma que sou.

 

 

 

Trilha sonora: J. S. Bach – Brandenburg Concerto n.3

 
Trilha sonora:

Ethos, Pathos e Logos

A Retórica, do filósofo grego Aristóteles, é um dos melhores livros existentes sobre o assunto. Isto é incrível, considerando que foi escrito há mais de 2000 anos – o que mostra o quão genial é o autor.

 

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Isto também é reflexo da própria civilização humana, que há milênios usa argumentos retóricos para persuadir os outros.

 

A retórica pode ser definida como a arte de escolher o melhor argumento a cada caso com o fim de persuadir.

 

3 modos de persuasão: ethos, pathos e logos.

 

  • Ethos: persuade-se pelo caráter, por quem é o orador, se este é digno de fé;
  • Pathos: persuade-se pela emoção, pelos sentimentos causados de tristeza ou alegria, amor ou ódio;
  • Logos: persuade-se pela lógica dos argumentos apresentados.

 

Fossem os seres humanos como computadores formais, bastaria o logos: a lógica da argumentação a partir das hipóteses geraria conclusões. Fim de papo.

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Entretanto, um mendigo explicando os segredos da riqueza, ou um bandido falando sobre o valor da honestidade soariam estranhos – por mais que o argumento lógico faça sentido. Daí o ethos: quem é a pessoa faz diferença.

Digamos, Warren Buffett falar sobre como ficar rico é muito mais coerente, mesmo se ele disser pouca coisa útil. Outro exemplo bem recente é o de Jack Ma, do grupo chinês Alibaba, que tem atribuída a ele inúmeras citações sobre o caminho para o sucesso – mesmo que na China todas as grandes empresas tenham crescido com injeções maciças de dinheiro público…

 

Completando, o ser humano pode ser tocado emocionalmente, e há pessoas que são mais suscetíveis à emoção do que à razão. Os jornalistas utilizam muito desta técnica, o pathos. Falar de um tufão de grande porte que atingiu centenas de famílias é apenas informação. Por outro lado, pode-se focar na história de Vanda, mãe de 4 filhos que saiu para trabalhar e que teve a casa destruída no tufão de grande porte, e que agora vai encontrar forças para recomeçar do zero.

 

Por isso mesmo, Aristóteles diz que a retórica é diferente da dialética, pela retórica usar elementos que não apenas a lógica.

Traduzindo, a lógica é importante, mas não é o único modo de persuasão.

Pessoas exatóides como eu costumam cometer o erro de focar demais no logos  e deixar de lado aspectos de ethos e pathos.

A Retórica é arte de escolher qual a ferramenta usar e em qual intensidade, dependendo do público-alvo.

Nota: A Retórica, assim como qualquer obra de Aristóteles, é densa, cheia de definições, e de palavras esquisitas como tekmérion, entinemas, dialética… ou seja, um prato cheio!

 

Vide também:

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com

https://ideiasesquecidas.com/2019/03/16/fake-storytelling/

https://ideiasesquecidas.com/2016/11/05/aristoteles-inventou-a-internet-e-o-iphone/

O que é felicidade para mim?

É uma pergunta difícil, porque cada um tem o seu conceito de felicidade.

 

Felicidade para mim é o momento em que podemos viver livremente, levemente, respirando fundo o ar à nossa volta sem preocupações e desfrutando aquele instante sem a necessidade de pensar no próximo segundo.

 

Fácil?
Nem tanto…

 

Há uma série de pré-requisitos para viver tal momento. O ambiente deve ser bom, não consigo me imaginar assim no metrô lotado no horário de pico, por exemplo.

 
Devemos estar com a consciência tranquila. Não dá para pensar neste momento sem estar orgulhoso de seus próprios atos, com a certeza de ter oferecido ao mundo mais do que o recebido, com a certeza de que o trabalho realizado até agora foi duro, honesto e honrado.

 

Também é necessário estar em paz com o futuro, sem tormentas à vista, sem preocupações reais ou imaginárias.

 

Estar de bem com as pessoas que fazem a sua vida ter algum significado.

 
Nem sempre é possível ter todas essas condições ao mesmo tempo, o que torna tais momentos mais importantes ainda – portanto, que sejam reconhecidos e celebrados, que tais momentos sejam eternos!

 
Independente do que temos, do que já alcançamos e o que queremos, a felicidade é válida somente hoje, no presente. É como se a vida nos desse um ticket, que é válido por um único segundo, somente agora – se não for utilizado neste instante, perderá a validade para todo o sempre.

 

O presente é o maior presente que possuímos.

 

Trilha Sonora: O Que Será (À Flor da Pele) – Chico Buarque

Dica para ouvir: Dedicar os próximos 3 minutos totalmente para ouvir a música. Escolha um lugar tranquilo, feche os olhos, aperte play e desfrute. Neste vídeo histórico, se encontram presentes Toquinho, Miúcha, Vinícius de Moraes e Tom Jobim, imortalizando uma noite fantástica.

 

 

 

https://www.letras.mus.br/chico-buarque/1217237/

 

 

O Homem mais forte do mundo e o Bobo da corte

Esta é a história do Homem mais forte do mundo, forte não em termos de força física, mas no sentido moderno, do business corporativo.

Ele era um executor de tarefas impiedoso. Meta dada era meta cumprida, qualquer fosse o custo para tal. Cobrava as pessoas com força e autoridade, utilizando ferozmente suas armas, os chicotes e as cenouras do mundo corporativo. Com seus escudos e lanças, matava os leões modernos de cada dia.

Trabalhava de 8 da manhã às 9 da noite no escritório e até de madrugada em casa, frequentemente exigindo que os subordinados o fizessem também. Ao mesmo tempo, ele era cuidadoso no linguajar, de forma que as palavras não o pudessem comprometer pelas regras modernas de assédio moral. Entretanto, o seu gesto corporal era claro: ou se submete às regras, ou está fora…

Ele navegava bem pelas conexões deste mundo, fazendo as alianças necessárias para subir as mais altas das montanhas, às vezes utilizando alguns dos ex-parceiros como ponte ou degraus no meio do caminho. Desafiá-lo era enfrentar alguém com uma couraça impenetrável e um gancho de direita nocauteador, rude, preciso e impiedoso.
A moral e a ética, embora fossem apregoadas incessantemente da boca para fora, frequentemente ficavam de lado no cotidiano.

 

De fato, ele subiu alto. Depois de um tempo, o homem mais forte do mundo era frequentemente capa de revistas corporativas, conhecido como alguém que resolve qualquer parada, que valia qualquer dinheiro.

 
Foi numa dessas festas corporativas, que ele encontrou o Bobo da Corte, vil e inútil, da mais baixa camada social. E o Bobo o desafiou para um duelo de palavras, para ver quem era o mais forte de verdade.

Bobo:

Sou o bobo, sou um nada.
Sou um palhaço, uma piada.
Porém, a verdade conto:
Mais bobo, menos que nada, és tu,

És um zero à esquerda,

És um boçal, o verdadeiro palhaço,
A verdadeira piada.

Homem forte: Estás de brincadeira? Sou grande, sou forte, sou admirado por todos, alcancei o que poucos alcançaram, fiz o que poucos fizeram.

Bobo:

Sim, tens razão,
És tão forte, mas tão forte,
Que a tua grossa couraça
Impede qualquer sentimento tenhas,
Tuas glórias são as desgraças de outrem,
Por onde passas, terras arrasadas,
Onde caminhas, não nasce a grama.

Homem forte: Tu me insultas, me calunias, mas o que tens além de palavras? Eu tenho tudo, sou alto gestor da empresa, tenho milhões no banco, imóveis, investimentos, e você, nada tem.

 

Bobo:
Deixarás o teu saco de ouro na Terra no dia que partires,
Assim como deixarás um mar de ressentimento,
Veja só, os fantasmas dos que ficaram para trás,
Os que foram traídos por tuas promessas vazias,
Os que foram apunhalados por tuas fofocas,
O teu ouro é tirado de outrem,
Colhes o fruto e derrubas a árvore,
Desfrutas do presente e cauterizas o futuro.
És o mais covarde dos homens.

Homem forte: Mentiras contas a mil, sou admirado pelos colegas à minha volta, sou idolatrado pelos meus amigos.

 

Bobo:

Amigos verdadeiros não tens,
Apenas interesseiros e bajuladores,
Não o admiram, apenas o temem,
Por trás, esses mesmos fazem piadas com o teu nome,
És denominado “coração de gelo”,
És denominado “grandíssimo FDP”,
O domingo é o teu dia mais triste,
Em que ficas com tua verdadeira companhia,
Em que ficas com a Solidão.

 

Homem forte: Novamente mentes, namoro uma linda modelo, atriz de novelas, a mais cobiçada de todas.

 

Bobo:
Novamente, enganas a ti mesmo,
Ela não enamora a ti, apenas a teu dinheiro,
A presença dela é alugada,
Movida a joias e luxos,
Não há mulher verdadeira que o suporte,
Acabas invariavelmente sozinho.
Tens um filho, mas é como se não tivesse nenhum,
Já que nenhum é o tempo que passam juntos,
Conheces mais a foto dele do o menino de verdade.

Homem forte: Pelo menos, sou saudável e viril, não um mirradinho como tu és.

 

Bobo:
Qual nada,
Corpo algum aguenta ser maltratado,
O corpo não é uma máquina infalível,
De estimulantes precisas,
Começaste devagar, mas agora
Do álcool és escravo,

Derrotas a todos, menos a ti mesmo.

O Homem forte pensava na resposta, quando viu os colegas a seu redor gargalhando, rindo com escárnio, apontando-lhe os dedos, liberando o sentimento verdadeiro preso nesses anos todos.

Bobo:
Tua couraça dura consumiu o interior macio,
És forte por fora e um vácuo interno.
És por fora reluzente como o ouro,
És por dentro, vazio, inerte, um nada.
Mais bobo, menos que nada, és tu,
És um boçal, o verdadeiro palhaço,
A verdadeira piada.

O Homem forte sabia que tinha sido derrotado, pela primeira vez na vida, e pôs-se a chorar, a soluçar com todas as forças, incessantemente.

Por fim, o Homem mais forte do mundo chegou à sua conclusão: “Não sou o homem mais forte do mundo, mas sim, o homem mais fraco do mundo…”

 

O Anticristo, de Nietzsche, em 40 frases

Resumo em uma frase

O próprio subtítulo já diz tudo: “Maldição ao cristianismo”

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Introdução

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), é, segundo suas próprias palavras, “Dinamite pura”. É alguém que faz filosofia com o martelo. E, neste livro, ele martela o cristianismo, com frases como “as três virtudes cristãs são as três espertezas cristãs”, e “o sacerdote gosta mesmo é do pedaço mais saboroso da bisteca”.

O Anticristo foi publicado em 1888, na Alemanha.

Nietzsche afirma o diametralmente oposto do senso comum: a compaixão é ruim, o cristianismo é fraqueza, o cristianismo inverteu todos os valores da sociedade (transvaloração de todos os valores).

 

Independente de concordar ou não, esta é a opinião de Nietzsche. Por despertar fortes emoções assim, ele ganhou uma legião de admiradores, e também uma legião de inimigos.

 

Seguem alguns trechos do livro, para serem amados ou odiados, sem meio-termo. Conteúdo explosivo a seguir, que não representam necessariamente a opinião deste espaço. Mas, lembrando, “As convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que as mentiras.”

 

 

Resumo em 40 frases (mais ou menos)

 

Este livro é para pouquíssimos. E talvez eles não existam. Apenas o depois de amanhã é meu. Alguns nascem póstumos.

 

 

Tenho uma predileção por perguntas para as quais ninguém hoje tem a coragem, a coragem para o proibido.

 

 

  • O que é bom? Tudo o que eleva o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
  • O que é mau? Tudo o que vem da fraqueza.
  • O que é felicidade? o sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.

 

Os fracos e malogrados devem perecer: primeiro princípio de nosso amor aos homens.

 

O que é mais nocivo do que qualquer vício? A ativa compaixão por todos os malogrados e fracos – o cristianismo.

 

O cristianismo tomou partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando a perceber como pecaminosos os valores supremos do espírito.

 

O cristianismo é chamado de religião da compaixão. A compaixão se opõe aos afetos que elevam a energia do sentimento de vida: ela tem efeito depressivo.

 

A compaixão se opõe à lei da evolução, que é a lei da seleção.

 

A compaixão é a prática do niilismo. É instrumento multiplicador da miséria e conservador de tudo o que é miserável – a compaixão persuade ao nada.

 

O sucesso de Kant é apenas um sucesso de teólogo, ele foi um freio a mais na retidão alemã.

 

Kant inventou uma razão expressamente para o caso em que não é preciso preocupar-se com a razão.

 

Nem a moral nem a religião, no cristianismo, têm algum ponto de contato com a realidade. São causas imaginárias (Deus, alma, livre-arbítrio) e efeitos imaginários (pecado, salvação, graça, castigo). Um comércio entre seres imaginários (Deus, espíritos). Um mundo de pura ficção, que falseia, desvaloriza e nega a realidade.

 

Eles não se denominam fracos, denominam-se “bons”. Deus-de-gente-pobre, Deus-de-pecadores, Deus-de-doentes.

 

Antes ele tinha apenas seu povo, seu “povo eleito”. Ele partiu em andança para o exterior, até estar em toda parte.

 

Cristão é o ódio ao espírito, ao orgulho, coragem, cristão é o ódio aos sentidos.

 

Quanto às três virtudes cristãs, fé, amor e esperança, eu as denomino três espertezas cristãs.

 

O conceito de Deus falseado, o conceito de moral falseado. Os sacerdotes traduziram em termos religiosos o próprio passado de seu povo.

 

Simplificaram a psicologia, reduzindo-a à fórmula de “obediência ou desobediência a Deus”.

 

O sacerdote formula até as taxas a lhe pagar, não esquecendo os mais saborosos pedaços da carne, pois o sacerdote é um comedor de bisteca.

 

Deus perdoa quem faz penitência – em linguagem franca: quem se submete ao sacerdote.

 

(Um estudioso da época chamou Jesus de “gênio”).
Nada de conceito de “gênio” tem algum sentido no mundo de Jesus. Falando com o rigor do fisiológico, caberia uma outra palavra – a palavra “idiota”.

 

A palavra “cristianismo” é um mal-entendido. No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O “evangelho” é o oposto do que ele viveu, um “disangelho”.

 

Paulo era o gênio em matéria de ódio, na lógica implacável do ódio. Simplesmente riscou o ontem, inventando uma história. Falseou a história de Israel para que ela aparecesse como pré-história: todos os profetas falaram do seu “Redentor”.

 

O cristianismo é a revolta de tudo o que rasteja no chão contra aquilo que tem altura: o evangelho dos “pequenos” torna pequeno.

 

 

Paulo foi o maior dos apóstolos da vingança.

 

Que resulta disso? Que convém usar luvas ao ler o Novo Testamento.

 

O sacerdote conhece apenas um grande perigo: a ciência – a sadia noção de causa e efeito.

 

O pecado foi inventado para tornar impossível a ciência, a cultura, toda elevação e nobreza do homem; o sacerdote domina mediante a invenção do pecado.

 

O bem-aventurado não é provado, mas apenas prometido: a bem-aventurança é ligada à condição de “crer” – a pessoa deverá ser bem-aventurada porque crê.
A “prova da força” é, no fundo, apenas fé.

 

A fé não desloca montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem.

 

O cristianismo necessita da doença, como a cultura grega necessita de uma abundãncia de saúde.

 

Todos os caminhos retos, honestos, científicos têm de ser rejeitados como caminhos proibidos pela igreja. “Fé” significa não querer saber o que é verdadeiro.

 

Não nos enganemos: grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético.

 

A necessidade da fé, de um sim ou não, é uma necessidade de fraqueza.

 

A “Lei”, a “vontade de Deus”, tudo apenas palavras para as condições sob as quais o sacerdote chega ao poder e o sustenta.

 

As convicções são inimigos mais perigosos da verdade do que as mentiras.

 

A desigualdade dos direitos é a condição para que haja direitos.
Uma cultura elevada é uma pirâmide. Pode erguer-ses apanas num terreno amplo, tem por pressuposto uma mediocridade forte, sadiamente consolidada.

 

O cristianismo foi o vampiro do Império Romano.

 

Todo espírito no Império Romano era epicúrio, então surgiu Paulo… Paulo, o ódio chandala a Roma, ao “mundo”, feito carne, feito gênio, o judeu.

 

Com isso chego ao final e pronuncio a minha sentença. Eu condeno o cristianismo, faço à Igreja cristã a mais terrível das acusações que um promotor já teve nos lábios. Ela é, para mim, a maior das corrupções imagináveis. A Igreja cristã nada deixou intacto com seu corrompimento, ela fez de todo valor um desvalor, de toda verdade uma mentira, de toda retidão uma baixeza de alma.

 

Guerra mortal ao vício: o vício é o cristianismo.

 

Link do livro:

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/filosofia/o-anticristo-30247451

 

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