O Jogo do Ultimato e o Jogo do Ditador 

Imagine um jogo com dois personagens: você e eu.

Eu tenho R$ 1.000,00 a distribuir entre nós dois. Eu sou o líder, e faço a oferta do quanto dar a cada um de nós. Você, o receptor, pode aceitar ou não a distribuição. Se você aceitar, recebemos os valores e fim de jogo. Se você recusar, ninguém recebe e o jogo termina.

Digamos que eu proponha dar R$ 1 a você e ficar com R$ 999. Você toparia? 

Dificilmente, suponho.  

E se fosse R$ 200 a você e ficar com R$ 800 para mim? A probabilidade de aceitar deve aumentar, porém, ainda assim está distante do que as pessoas consideram um valor “justo”, meio a meio.

Este jogo mostra como a teoria econômica clássica pode falhar. O chamado Homo Economicus, pelo modelo comum, é alguém que sempre tenta obter o maior ganho possível.  

Há duas alternativas, para você: aceitar ou não aceitar. A segunda alternativa, não aceitar, significa ganho igual a zero. Portanto, qualquer valor acima de zero, mesmo que seja 1 real, é lucro. É melhor do que nada. Ou não? 

Ocorre que as pessoas não são “homo economicus” perfeitos. Há situações diferentes a serem ponderadas. Qual o peso da indignação com a “injustiça” da distribuição? Se o peso da injustiça for maior do que o valor proposto, a pessoa não vai aceitar. Se a necessidade monetária do receptor for maior do que o peso da injustiça, ele aceita. 

Aliás, o que é algo “justo”? É um conceito questionável. Quem sabe o líder não fez um trabalho maior, desconhecido por parte do receptor? E como quantificar esse “justo”? 

Por ser um jogo extremamente simples, por ilustrar bem conceitos abstratos como os mostrados, e por ser fácil de testar em diversas culturas e épocas, e também por mostrar as falhas do modelo econômico comum, o Jogo do Ultimato é um dos clássicos em Teoria dos Jogos. 


O Jogo do Ditador

Similar ao jogo do Ultimato é o do Ditador. 

Eu tenho R$ 1.000,00 a distribuir entre nós dois. Eu sou o líder, faço a distribuição de valores. Você, o receptor, não pode fazer nada. Não tem ação, além de simplesmente aceitar a divisão. 

De novo, um “homo economicus” que só pensa no próprio lucro, poderia pensar numa divisão 100 para mim 0 para você – lembrando que o receptor não pode reclamar. 

Mas não é isso que acontece, em diversos experimentos – vide links abaixo. O ditador costuma alocar um valor maior do que zero para o receptor. Há variações entre culturas e idades, mas o fato é que o ser humano não é totalmente racional.  

Talvez as pessoas pensem em jogos repetitivos, mais próximos ao que ocorre na vida real. Se hoje estamos na posição de ditador por sorte, amanhã, por azar podemos não estar. 

O Sr. Spock, 100% lógica e 0% coração, é um Homo Economicus. Nós, não. 

Algumas implicações: 

  • Tome cuidado com a parte emocional nas negociações. Não somos apenas dinheiro. Respeito, atenção, honra, são muito bem-vindos. 
  • Explicar a razão de divisão desigual. Ter critérios claros e transparentes. As pessoas perdoam erros sinceros, mas não trapaças injustas. 

Nota: Imagem do ditador gerada no Dall-E.

Veja também: 

https://en.wikipedia.org/wiki/Dictator_game

https://en.wikipedia.org/wiki/Ultimatum_game

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s