Não seja bonzinho demais. Nem vil demais. Mas, como?

Gosto muito do conceito de “assertividade”, utilizado quando se fala em comunicação assertiva.

Uma definição possível de assertividade é o “Not nice, not nasty”. Não sei traduzir muito bem. Talvez, algo como “Não seja bonzinho demais. Nem vil demais.”

Não seja aquele que vai e esmaga o oponente, aproveitando suas fraquezas para extrair o máximo possível, de forma injusta. Por outro lado, não seja aquele “bonzinho”, o “bobo”, que todos montam em cima, que será o saco de pancadas dos valentões.

Porém, mesmo com o conceito acima, fica a dúvida: como operacionalizar o conceito? Como calibrar ações de forma a ser assertivo?

Para tal, gosto muito de um resultado da Teoria dos Jogos, um algoritmo chamado “Tit for Tat”. Algo como “Olho por olho”, derivado do código de Hamurabi, “Olho por olho, dente por dente”.

Pois bem, vamos por partes.

O que é a Teoria dos Jogos?

A Teoria dos Jogos é um ramo da matemática que estuda a interação estratégica entre jogadores. Deve-se ter pelo menos dois jogadores, e os movimentos possíveis de um influenciam nos dos outros. Alguns grandes nomes da Teoria dos Jogos são John Von Neumann (também foi pioneiro na computação) e John Nash (cuja vida foi retratada no filme “Uma mente brilhante”).

O problema mais clássico da Teoria dos Jogos é o Dilema do Prisioneiro. Vale a pena entrar um pouco mais a fundo no mesmo.

Dois prisioneiros são acusados de um crime e são interrogados separadamente. Cada um deles tem a opção de confessar ou não confessar. Se ambos confessarem, ambos irão para a prisão por cinco anos. Se um deles confessar e o outro não, o que não confessar irá para a prisão por dez anos enquanto o que confessar será libertado. Se nenhum deles confessar, ambos ficarão na prisão por um ano.

Se eu for um prisioneiro, para mim é interessante sempre confessar. Posso ser libertado, se o outro não o fizer, e se o outro confessar, pelo menos não vou ficar 10 anos na prisão enquanto ele vai embora livre. Entretanto, o outro também vai fazer o mesmo raciocínio, de modo que o ponto de equilíbrio é ambos confessarem, que será ruim para todo mundo. Nota: Esse é o “Equilíbrio de Nash”.

O nome “dilema” é por isso mesmo: o ponto de equilíbrio é ruim para ambos, enquanto o resultado ótimo (ambos ficaram calados) é difícil de ser atingido. Trair versus Cooperar, eis a questão! Cooperar é bom para ambos, se eu puder confiar no outro, enquanto trair é mais seguro para mim (e para o outro).

O Dilema do Prisioneiro vem sendo estudado e reestudado por acadêmicos e praticantes nos últimos 50 anos, por capturar situações que vivenciamos na vida real.

Um resultado especialmente interessante é quando as interações entre jogadores são de longo prazo (o que se traduz em várias rodadas do Dilema do Prisioneiro). Nessa situação, fica muito nítido que é melhor cooperar.

Outro passo importante na Teoria dos Jogos é o Tit for Tat.

O cientista político e matemático britânico Robert Axelrod realizou uma competição para encontrar a melhor estratégia para resolver o Dilema do Prisioneiro, chamando para competir especialistas do mundo todo. Uma competição de algoritmos.

E o vencedor da competição foi o Tit for Tat.

É uma estratégia extremamente simples:

  • Comece cooperando
  • Repita o que o oponente fez no passo anterior.

Algumas características interessantes do Tit for Tat, que de alguma forma espelham a realidade:

  • Começar cooperando. Dando um gesto de boa fé.
  • Se o outro jogador cooperou, o Tit for Tat também cooperará. Se o outro jogador traiu, o Tit for Tat também trairá. É o que popularmente fazemos, dar um voto de confiança, se a pessoa trair esse voto, vamos confrontar. Se ela conquistar nossa confiança, continuamos a cooperar.
  • “Perdoar” rapidamente. Note que não há “rancor”: se o oponente cooperou, também o faremos.

Por essas características, o Tit for Tat saiu-se extremamente bem no teste realizado por Axelrod.

Porém, a vida real não é um jogo com regras tão claras quanto o Dilema do Prisioneiro, o que dificulta as coisas.

Exemplo: pode haver ruídos de comunicação no mundo real, de forma que podemos entender algum comportamento como traição, mesmo não sendo. Mal entendidos ocorrem, e de monte. E, se os dois jogadores usarem o Tit for Tat, nunca mais cooperarão.

Daí surgem variantes um pouco mais “boazinhas”. Perdoar de vez em quando, e dar sinais de cooperação. Um algoritmo do tipo “Tit for Two Tats”, vou escalando aos poucos o revide. Tipo, primeiro, um sinal amarelo, e depois, um sinal vermelho.

E é assim que operacionalizo a assertividade. Como um “Tit for Two Tats”. Sempre tentar cooperar, desconfiando no início, e de forma irrestrita com quem confio bastante. Não havendo reciprocidade, também não vou dar o braço a torcer, vou tirando a cooperação, sinal amarelo, depois vermelho. Um sinal amarelo, explicando o seu descontentamento, e tirando qualquer barreira de mal-entendido de comunição. Se, mesmo assim, houver problemas, é porque foi deliberado, daí, é sinal vermelho.

Tenho uma tendência natural a ser mais “bonzinho”. Alguém mais quieto, fico na minha uma boa parte do tempo. Mas experimenta alguém folgar comigo para ver o que é bom para tosse…

Portanto, essa é a dica. Seja assertivo. Utilize variantes suavizadas do Tit for Tat, como o Tit for Two Tats. Vale a pena.

Nota: Ilustração gerada na IA Dall-E.

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