Os números não mentem, de Vaclav Smil

Vaclav Smil é um dos autores favoritos de Bill Gates. Smil é um grande especialista em energia, e também um polímata que escreve sobre diversos assuntos aleatórios, sempre embasado com muitos, muitos números.

O livro “Os números não mentem – 71 histórias para entender o mundo” contém uma série de artigos curtos e cheios de insigths sobre a sociedade, energia e meio-ambiente.

Quatro pontos ilustrativos do livro, em poucas frases, só para dar uma ideia do conteúdo.

  1. A Lei de Moore é uma bênção e uma maldição. A Lei de Moore, aquela que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, mantidos os custos constantes, é o que está por trás da evolução exponencial da computação que vimos nas últimas décadas. Entretanto, existe a parte “maldição”: aumentar as expectativas de todo desenvolvimento tecnológico, quando na verdade, outras tecnologias têm o seu próprio passo. Onde estão os carros elétricos e autônomos, a cura individual do câncer, os dispositivos que leem comandos diretamente do nosso cérebro?

Gosto muito da postura de Smil. Sou bastante realista. Não sou advogado de “toda inovação é exponencial” de caçadores de unicórnios imaginários, como o pessoal da StartSe e de pensadores tipo Ray Kurtzweil.

  1. Vidros isolantes. Nos EUA e União Europeia, edifícios são responsáveis por 40% do consumo de energia. Aquecimento e ar-condicionado respondem por metade deste consumo. Uma solução simples é utilizar janelas com duas ou três camadas de vidro, preenchidos por um gás como argônio, reduzindo a transferência de energia da janela de 6 watts por m² para cerca de 0,6 – 1,1.

É uma solução simples, que aumenta o conforto dos habitantes e diminui consumo de energia. Melhor ainda, pode ser feito hoje, sem grande tecnologia – porém tão simples que não entra no radar de grandes inovações do Vale do Silício, à caça de milhões de dólares em financiamento para salvar o mundo.

  1. Navios elétricos. Grande parte do que temos em casa veio de algum outro lugar do mundo, provavelmente por transporte marítimo. Por que não temos navios porta-contêineres elétricos?

Existe um navio elétrico previsto para entrar em operação, o Yara Birkeland. Porém, este terá capacidade para apenas 120 TEUS (unidade de volume), enquanto navios modernos convencionais carregam de 200 a 400 vezes mais do que isso!

Para efeito de comparação. Um navio moderno queima 4.650 toneladas de combustível para uma viagem de 31 dias. Um navio elétrico equivalente, com as melhores baterias possíveis, teria que carregar 100 mil toneladas só de baterias, tornando inviável esse tipo de operação.

A densidade de energia das baterias teria que melhorar mais do que 10 vezes para começar a entrar numa faixa viável. Porém, em 70 anos, a densidade de energia nem sequer quadruplicou, o que mostra que vamos ter que conviver com o diesel por muito tempo!

  1. Amônia. Os químicos no final do séc. XIX descobriram que o nitrogênio é o macronutriente mais importante no cultivo agrícola. Outros são fósforo e potássil, além de vários micronutrientes. Uma forma de incorporar os macronutrientes no solo era através da compostagem (folhas, dejetos humanos e animais) ou através da rotação de culturas, com plantas que contém bactérias capazes de fixar nitrogênio no solo.

O processo Harber-Bosch, meados de 1930, possibilitou a criação industrial de amônia (NH3) através de alta pressão e alta temperatura – nitrogênio do ar, com gás natural, além de muita energia, que também pode vir do gás natural. Desde então, a produção de amônia passou de 5 milhões de toneladas/ano para 150 milhões nos dias de hoje! Sem fertilizantes, seria impossível aumentar a produtividade agrícola – de 650 milhões de ton de cereais/ano para 3 bilhões de ton.

Atualmente, é preocupante a perda de nitrogênio não utilizado (cerca de 47%) através de volatilização e lixiviação.

Ainda será necessário muito nitrogênio para as safras futuras, e soluções propostas são aumentar eficiência de fertilização e reduzir desperdício de alimentos, entre outros.

Conclusão

Além dos tópicos citados, há vários outros extremamente interessantes, como mortalidade infantil como indicador, o ano de 1880 da eletricidade, óleo diesel, energia eólica. Conforme ilustrado, Smil escreve sobre diversos temas com senso crítico e propriedade, sempre amparado por números e estimativas. É uma mente brilhante, que vale a pena acompanhar.

“Eu aguardo o próximo livro de Vaclav Smil como quem espera o próximo filme de Star Wars” – Bill Gates.

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https://www.gatesnotes.com/Books/Numbers-Dont-Lie

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