Três Desgraçados no Inferno grego

Íxion, Tântalo e Sísifo

O que chamamos hoje de “mitologia grega” foi, um dia, a religião politeísta dos gregos. Religiões costumam ter um céu: um paraíso, um Valhalla, um Olimpo. Mas não adianta nada ter um céu sem ter um inferno, seria como ter a cenoura sem ter o chicote.
Recontarei as histórias de três desgraçados no Inferno grego, suas terríveis penas, e, com isso, um pouco da moral grega.

 


 

1. Íxion

Íxion foi um rei que cometeu uma série de erros na vida, como atentar contra a vida de seu sogro. Entretanto, Zeus, o deus dos deuses, resolveu dar uma chance para a sua redenção, e para marcar isto, o convidou para um banquete no Olimpo, com muita pompa, fartura infindável, regado a litros de vinho da melhor qualidade.

 

Não deu outra, só podia dar errado. Depois de algumas garrafas, Íxion voltou seus olhos para a coisa mais interessante do jantar: Hera, a esposa de Zeus, a “primeira-dama” do Olimpo.

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Hera era também chamada de “mãe dos deuses”, por ela e Zeus terem dado origem a vários outros deuses. Mas não quer dizer que ela era velha, pelo menos fisicamente. Idade não fazia muito sentido, porque os deuses eram imortais, ou seja, Hera tinha toda a beleza de uma deusa grega, imortalmente conservando os seus trinta e poucos anos de idade.

Íxion começou a passar cantadas toscas e a incomodar Hera, fazendo carícias com os pés debaixo da mesa. Zeus, que não era bobo, sacou tudo, e, incomodado com a insolência do convidado, resolveu pregar uma peça. Durante a noite, Zeus criou um clone de Hera feito de nuvens e vento (não existia naquela época, mas vem à mente uma boneca inflável), e mandou a boneca para o quarto de Íxion. O pobre coitado, ao ver a boneca, enxergou Hera: deslumbrante, linda, nua, à sua disposição total. Ele não pensou duas vezes antes de mandar ver.

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Zeus condenou Íxion ao inferno, ou Hades. Sua punição foi ficar preso a uma roda de fogo, girando eternamente. Eternamente queimado, e eternamente tonto, por cobiçar a mulher do outro.

Interessante que a moral grega era assimétrica. Zeus podia cobiçar a mulher de quem quisesse. Fez isso inúmeras vezes, gerando diversos filhos fora do casamento. Inclusive, deu uma escapulida com a mulher de Íxion. Mas, fazer o mesmo com ele era pecado mortal, passível de punição eterna.
Outra coisa, Íxion não foi condenado pelos crimes na Terra, mas ao atentar contra os deuses. Era uma moral muito aristocrática: não sacaneie os poderosos!

 


 

2. Tântalo

Tântalo foi outro rei que cometeu uma série de crimes na Terra, mas tinha uma certa estima pelos deuses. E foi chamado para um banquete no Olimpo (dica: comporte-se em banquetes no Olimpo). Chegando lá, ele provou de duas delícias inacessíveis ao ser humano comum: a ambrósia e o néctar dos deuses. A ambrósia era tipo um manjar. E o néctar, um suco. Ambas provocavam uma sensação de enorme felicidade a quem os consumissem.

 

Tântalo tentou roubar a ambrósia e o néctar, para levar para a Terra e distribuir para os mortais. Não deu certo. Zeus descobriu, e o condenou ao Hades. Sua punição: a fome e a sede eternas. Ele foi para um lugar com inúmeras árvores frutíferas, porém todas as vezes em que ele tentava pegar, os frutos se recolhiam. Também tinha água doce à vontade, mas todas as vezes em que ele tentava beber, as águas fugiam dele.

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Íxion foi altruísta, ao querer dividir as maravilhas dos deuses. Mas, de novo, a moral aristocrática: o escravo não pode pegar a comida dos senhores para dividir com outros escravos.

Acho que a humanidade também está tão condenada quanto Tântalo. Em centenas de milhares de anos, sempre houve menos comida do que o necessário para viver, gerando fome. Quando finalmente surge uma época em que temos mais comida do que o que conseguimos comer, também temos que passar fome, dessa vez para não engordar!

Hoje em dia, o “néctar de frutas” é um suco com água e acúçar, se é que tem suco mesmo. Desvirtuaram o néctar.

 


 

3. Sísifo

Sísifo foi, disparado, o pior de todos. Era o mais astuto dos mortais da época, um James Bond dos mortais. Extremamente inteligente, e extremamente mau. Quebrou todas as regras do ser humano: matou convidados, engravidou mulheres por vingança, destruiu famílias.
Foi condenado ao Inferno, mas ele era tão esperto que sacaneou a morte não uma, mas duas vezes!

Na primeira vez, o Hades (deus do Inferno) veio buscá-lo. Ele seria algemado. Mas ele enganou Hades, e o algemou em seu lugar! Prendeu Hades num armário, e continou a viver normalmente, por um ano.

 

Porém, o mundo começou a ficar esquisito. Ninguém mais morria. Um soldado despedaçado no campo de batalha continuava a lutar. Hades, o deus da guerra, ficou puto com isso e foi reclamar com Hades. Chegando ao Inferno, descobriu que ele tinha sumido. Por fim, descobriram a trama de Sísifo e libertaram Hades. Sísifo foi direto ao Inferno.

Porém, Sísifo tinha uma carta na manga. Ele deu instruções para que a esposa jogasse o corpo dele no meio da cidade, sem fazer os cerimoniais fúnebres corretos.

Chegando ao Inferno, Sísifo apelou a Perséfone (esposa de Hades). Ele pediu permissão para voltar à Terra por três dias, a fim de fazer os preparativos cerimoniais e punir a esposa. Porém, era papo-furado de novo. Sísifo voltou à Terra e continuou a viver como se nada tivesse acontecido. Dessa vez, ele viveu por mais dezenas de anos, morrendo de velhice.

Finalmente, ele retornou ao Inferno. Sua punição era exemplar. Rolar uma enorme pedra morro acima, e quando ele finalmente concluísse sua missão, a pedra rolaria morro abaixo, obrigando o coitado a recomeçar tudo de novo. E Sísifo está até hoje neste ciclo infinito, de um trabalho enorme sem sentido.

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Talvez todos nós sejamos como Sísifo, condenados a trabalhar do começo ao fim, somente para descobrir que há mais trabalho a ser feito, e sem saber a causa final disto tudo. O grande escritor Albert Camus explora esta situação absurda em suas obras, como “O mito de Sísifo”, e “O Estrangeiro”.

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Uma boa fonte de histórias de mitologia é o livro “Tales of the greek heroes”, de Roger Lancelyn Green.

 

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http://www.greek-mythology-pantheon.com/hera-juno-greek-goddess-queen-of-the-gods/

http://www.greekmythology.biz/4.html

 

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