Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o século XXI

Recomendo fortemente a leitura de 3 livros: Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o século XXI.

O autor de todos eles é o israelense Yuval Noah Harari. Este é, sem dúvida, uma das grandes mentes do mundo contemporâneo.

O primeiro livro, Sapiens, conta a história do passado da humanidade até os dias atuais.

O segundo, Homo Deus, fala sobre o futuro, não um futuro próximo, mas um futuro a longo prazo.

Já o terceiro, 21 lições, discorre sobre o presente, o aqui e agora.

Ele aborda uma quantidade imensa de temas, de forma clara e com um ponto de vista preciso.

O final do “21 lições” é surpreendente… mas, aviso: não adianta ler direto o último capítulo. Este só fará sentido se o leitor traçar todo o caminho, desde o começo da humanidade, passando pela especulação sobre o futuro, e percorrer todos os assuntos espinhosos que cercam o mundo atual.

 

Boa leitura,

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A Revolução da Ignorância

Ouvi uma pessoa dizer numa palestra que “a ciência provou que o Big Bang ocorreu há exatamente 3,8 bilhões de anos atrás”. Depois, esta mesma pessoa disse que “a ciência provou que a evolução Darwiniana está correta”.

 
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Fiquei revoltado com ambas as frases. Não porque eu não acredite na evolução ou no Big Bang. E nem porque a frase tem palavras tão desconexas quanto “exato” e “bilhões de anos”. Mas sim porque ambas as frases são diametralmente opostas ao próprio método científico.
 
A ciência não dá certezas absolutas. Quem coloca dogmas como verdades absolutas intransponíveis são as religiões e as ideologias. O método científico é o método da Ignorância – ter a humildade de reconhecer que não sabemos de tudo, e que temos que aprender com fatos novos que contradizem o nosso corpo de conhecimento. Este texto tentará mostrar isto.
 


 

1. O mundo pré método científico
 
No mundo pré método científico, os humanos explicavam o mundo através de deuses. O trovão era causado por um deus quando ficava enfurecido. Os mares tinham um deus, os céus, outro deus, e assim sucessivamente.

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Os deuses explicavam tudo, e praticamente todas as civilizações antigas tinham os seus mitos de criação da humanidade.
 
Nada contra religiões politeístas, mas religião e ciência são coisas distintas.


 

2. Revolução da Ignorância

Segundo as ideias do filósofo Karl Popper, em sua Lógica das Descobertas Científicas, a ciência não prova nada. A ciência apenas apresenta teorias, que são válidas enquanto não surge outra ideia melhor. Em outras palavras, a ciência é falsificável, porque podem surgir evidências de que ela é falsa.

 

A ciência não apresenta provas definitivas. E é aí a grande força da ciência, que reconhece que é incompleta e que são justamente as informações contraditórias que a ajudam a crescer.

 

A mecânica de Isaac Newton funcionou muito bem por centenas de anos. Mas alguns experimentos de medição da velocidade da luz, que contradiziam a Física da época, permitiram que a famosa Teoria da Relatividade surgisse. A Física Newtoniana não era mais a verdade absoluta. Havia agora uma teoria melhor, que vai durar até que novas observações e contradições a derrubem.
 
Apenas as religiões e ideologias apresentam afirmações intransponíveis, que explicam todos os fenômenos do mundo em dogmas auto contidos.


 

3. Cisnes Negros

Uma das implicações da ciência ser falsificável é o Problema da Indução: não importa o número de observações condizentes, mas uma única observação contraditória é suficiente para contestar a teoria.
 
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A ideia de Cisne Negro foi divulgada por Nassim Taleb. Imagine a afirmação: “Todos os Cisnes são brancos”. Não importa quantos Cisnes brancos eu veja, isto não vai provar que a Teoria está correta. Mas uma única observação de um Cisne Negro vai ser suficiente para contradizer a teoria, que deve ser substituída por outra.
 
Observe a diferença. Uma ideologia como o socialismo concentra-se em ideias fixas. Não importa quantas vezes tenha dado errado na prática, os defensores da ideologia vão sempre defender que foi a execução não seguiu a teoria, ao invés de admitir que a teoria é que deve ser modificada.


 

4. Triunfo da humildade
 
Portanto, a ciência é o triunfo da humildade de não achar que a gente sabe de tudo. Por exemplo, por mais elegante que seja a Teoria da Evolução, ela provavelmente não vai explicar tudo, forçando o surgimento de melhorias nas ideias envolvidas. O mesmo se dá em relação ao Big Bang e a todas as outras teorias. Esta própria ideia da teoria das Descobertas Científicas de Popper pode estar errada, e vir a ser substituída por outra que diga algo diferente.
 
Newton: o que sei é uma gota, o que não sei é um Oceano.

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Shakespeare, falando por meio de Hamlet : Há mais no Céu e na Terra do que sonha a nossa vã filosofia.

 

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Bibliografia interessante:

The Black Swan – Nassim Nicholas Taleb
Sapiens – Uma breve história da humanidade
Karl Popper – a Lógica das Descobertas Científicas

 

 

Os japoneses originais

Na escola ensina-se muita coisa sem sentido. Mas ainda bem que o grande mérito da escola é ensinar a pensar, e principalmente ensinar a questionar.
Ouvi na escola é que japoneses e chineses têm os olhos puxados porque estão num lugar que neva. A neve reflete a luz do sol, por isso, eles têm que ficar com os olhos mais fechados…
Mas eu pensava: então porque os suecos não têm olhos puxados, se lá neva tanto quanto no Japão? E na Rússia, não neva não?
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Chineses, japoneses e coreanos têm aparência física semelhante. Será que eles têm um ancestral comum? Se sim, foram os japoneses que ocuparam a Coréia e a China, ou foi a China que ocupou o Japão? Ou faz sentido dizer que eles têm olhos puxados porque neva?

Geografia
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O Japão é um conjunto de ilhas no mar. A Coreia é vizinha da China no continente. A Coreia é o país mais próximo geograficamente ao Japão.

O povo Ainu
As evidências arqueológicas indicam que os japoneses originais não eram os ancestrais dos japoneses de hoje. Ou melhor, o povo que habitava o Japão  não eram japoneses atuais, eram os Ainu.
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Os Ainu chegaram ao Japão há cerca de 10 mil anos. Talvez tenham atravessado a pé o mar que separa o continente, aproveitando uma das eras glaciais, quando o nível do mar era mais baixo. Eles se estabeleceram no Japão e formaram diversas tribos. Pela arqueologia, especula-se que foram caçadores-coletores – não havia escrita nem agricultura, não deixaram vasos nem ferramentas sofisticadas.
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O povo Ainu parece uma mistura de caucasóides com asiáticos. São muito diferentes dos japoneses atuais que todos conhecem. Eles têm longas barbas e muitos têm olhos azuis. Têm semelhanças com tibetanos. A língua ainu é completamente diferente da língua japonesa.
Atualmente, os Ainu vivem no extremo norte do Japão, como uma minoria étnica.
Um vídeo sobre os Ainu.
As mulheres apresentam curiosas tatuagens na boca
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Os filhos do Sol
Há uns 3.000 anos atrás, algo mudou drasticamente. A arqueologia encontrou objetos de metal e sinais de agricultura, assim como vasos. Diferentemente dos vasos de eras anteriores, estes pareciam muito com vasos coreanos da época. Diversos outros objetos eram de origem coreana: bronze, ferramentas, estilos de casas, porcos domesticados. Este povo dominava muito bem a agricultura: arroz, trigo, e isto deve ter ajudado a sua expansão demográfica, e provavelmente vieram em barcos, pelo mar.
Domínio da agricultura, ferramentas de metal e casas de estilo coreano não surgem de uma hora para outra. Muito menos a transformação de um povo como os ainu em japoneses atuais. O que provavelmente aconteceu foi que houve a invasão de um povo, provavelmente vindo da Coreia, ocupando as terras japonesas.
O novo povo japonês invasor foi ocupando áreas cada vez maiores do Japão, e empurrando o povo Ainu cada vez mais para lugares remotos.
A primeira crônica japonesa é de 712 d.C. Nesta época, o Japão era inquestionavelmente dominado pelos ancestrais dos japoneses modernos: cultura, linguagem, DNA.

Genética
Além das evidências arqueológicas, hoje em dia é possível fazer um “teste de paternidade” utilizando o DNA.
Em termos genéticos, os esqueletos antes de 3000 anos atrás têm muito mais semelhança com os Ainu do que com os japoneses. Depois deste período, é o contrário. E os japoneses e coreanos da época têm muita similaridade. O “teste de paternidade” leva a crer que foram sim os coreanos que invadiram o Japão há tempos atrás e deram origem ao Japão atual.
Os japoneses tẽm genes majoritariamente idênticos aos coreanos, com uma percentagem pequena ainu. Quanto mais ao norte, maior esta porcentagem ainu. E, quanto mais ao sul, maior a mistura com o povo original de Okinawa, outro que têm características distintas do povo invasor. Além disso, há em menor número incidência de genes indonésios, tibetanos, etc… vide links no anexo.

Língua

Mas há um grande problema nesta história toda. A língua coreana atual não tem nenhuma relação com a língua japonesa atual. Se coreanos e japoneses têm similaridade genética e a antropologia conta uma história de invasão coreana no Japão antigo, como pode ser que não haja similaridade entre as línguas?
Linguas
Na figura, da esquerda para direita: coreano, japonês e chinês
A teoria de Diamond é a seguinte. Na verdade, a Coreia de 3000 anos atrás não era uma nação única como conhecemos hoje, mas sim um aglomerado de reinos diferentes. A língua coreana atual deriva do reinado de Silla. Talvez, no processo de unificação da Coreia, o reinado de Silla tenha vencido a guerra contra algum outro reino coreano. As línguas e culturas, entre os reinos coreanos, eram bastante distintas, e um destes reinos poderia ter similaridade com a língua japonesa. Pessoas deste reino resolveram fugir para algum lugar distante e levar consigo objetos, pertences e cultura, fundando uma nova nação em um território novo.
Portanto, tudo leva a crer que japoneses, chineses e coreanos têm olhos puxados porque descendem uns dos outros, e não porque neva nesses lugares (o pior é que é verdade, ouvi isso mesmo na escola!).
Hoje em dia, há muita rivalidade e até ódio entre Coreia e Japão, por causa de guerras e episódios como a invasão japonesa da Coreia na Segunda Grande Guerra. Mas eles descendem da mesma raiz, são irmãos na aparência, na genética e na história.

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia: https://ideiasesquecidas.com/
Links:

http://foreigndispatches.typepad.com/dispatches/2007/01/the_origins_of_.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_people

A sociedade limitada

Na história da humanidade, há uma série de inovações que permitiram um “salto” evolutivo. Inovações não só de produtos, mas de serviços e ideias também.

 

A invenção da sociedade limitada, nos meados dos anos 1850, foi uma dessas mudanças de mentalidade invisíveis que provocaram uma revolução social.

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A Sociedade de Responsabilidade Limitada é a dissociação da empresa com o indivíduo. A empresa é uma entidade que tem um nome, um CNPJ, e pode responder judicialmente por alguma coisa. Os indivíduos que detém o controle da empresa têm cotas de propriedade. E os indivíduos são independentes da organização. Os indivíduos têm seus próprios nomes, CPFs e vidas.

 

Nem sempre foi assim. Em tempos antigos, se uma empresa falisse, o dono da empresa tinha que arcar com o prejuízo, nem que fosse vendendo a sua casa e vendendo os seus bens pessoais, incluindo filhos. Portanto, empreender era algo de risco muito alto, capaz de arruinar não só a empresa, mas o indivíduo e a sua família.

 

Um exemplo claro é o Código de Hamurabi, de 1700 aC.

“Se um construtor edificou uma casa para um Awilum, mas não reforçou seu trabalho, e a casa que construiu caiu e causou a morte do dono da casa, esse construtor será morto”. (Imagina esta regra para as construtoras brasileiras da Lava-Jato)
 

Esta regra do indivíduo se responsabilizar pela empresa pode até parecer justa, a princípio. Mas, como os riscos são muito altos, envolvendo até a própria vida e da família, o efeito causado é que pouquíssimas pessoas, principalmente as mais honestas, se meteriam a empreender. Seria um vácuo de empreendedores, empresas e inovações. Muito pior, em termos globais.

 

 
A grande diferença foi a mentalidade das pessoas. Poder reconhecer estes indivíduos virtuais como se fossem indivíduos reais.

 

Hoje em dia, uma empresa como a Renault tem seus lucros, tem seus custos, encargos financeiros, impostos, e pode responder na justiça, mesmo sendo um indivíduo fictício. E também pode sobreviver por centenas de anos, vivendo mais do que os seus criadores.

 

As ideias aqui descritas foram recontadas a partir do excelente livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, que já teve outra de suas ideias descritas aqui: https://ideiasesquecidas.wordpress.com/2015/05/03/preguicas-gigantes-tatus-gigantes/