Imagine

A belíssima música “Imagine”, de John Lennon, é um sonho em forma de poesia musical.
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Para mim, esta música traz um significado bem além do que apenas uma mensagem.
Quando eu tinha uns 13 anos, eu era um garoto sem dinheiro, vivendo no Brasil dos anos 80. Para quem não viveu esta época, saiba que foram anos complicados. O Brasil era muito menos desenvolvido. O índice de analfabetismo ainda era alto, a expectativa de vida era de menos de 60 anos (contra mais de 70 de hoje).
A inflação chegava a 80% em um mês. Deixar dinheiro no bolso era certeza de que no mês seguinte ele não valeria mais nada. Era melhor comprar algo, como um kilo de sal. O sal pelo menos mantinha o seu valor no mês seguinte. E era mais fácil alguém aceitar sal como pagamento do que os cruzeiros (ou cruzados, cruzados novos, cruzeiros novos, foram tantas moedas neste período). Estávamos voltando para o escambo (troca de mercadorias e serviços ao invés de papel moeda).
O Brasil dos anos 80 era um país sem muitas esperanças.
Neste cenário, eu tive as minhas primeiras aulas de inglês.

O sr. Jaime Shiratori, pai de amigos meus, resolveu dar aulas de inglês para os filhos (eram 3 irmãos) e para os amigos destes. Reuniu umas 10 pessoas. Era gratuito, uma vez por semana. Domingo a tarde.  Era sobre o mais básico do inglês, e era focado na pronúncia. Ele dizia que os cursos da época eram muito ruins com relação à pronúncia, então ele resolveu ensinar. Mas talvez algo mais motivasse ele: contribuir um pouco a mais para ajudar os outros, em tempos tão ruins.
Para um garoto como eu, que tinha conhecimento nulo em inglês, foram as primeiras aulas de verdade sobre o assunto. Em algumas aulas eu já estava entendendo bem mais e com uma pronúncia melhor do que poderia aprender na escola ou sozinho. Ele também introduzia elementos lúdicos como música em inglês, com as letras num papel xerocado. Hoje em dia é trivial ouvir uma música na internet e procurar a letra. Mas, naquele tempo, eu não tinha nenhum aparelho sonoro particular. E conseguir as letras era bem difícil – eram xerox de xerox de xerox. Lembro que guardava e catalogava cuidadosamente essas valiosas cópias que conseguia.
Foi apenas um semestre de aulas, pouco, mas foi muito bom. E, na última dessa série, não tivemos aula de pronúncia, mas aula de interpretação de música. E a música era “Imagine”. O sr. Shiratori tocou a música toda. Depois tocava apenas alguns trechos, pausava a música, e traduzia. “Imagine que não há paraíso”. “É fácil se você tentar”. “Não há inferno abaixo de nós”. “Acima, apenas o céu”. “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz…”

Relembrando essas aulas após tantos anos, pergunto-me qual foi a principal contribuição do Sr. Shiratori. A primeira foi ter dado o pontapé inicial no meu aprendizado de inglês – nos 20 anos seguintes, estudei muito, li muito para dominar este novo universo. Mas a principal contribuição do Sr. Shiratori foi outra. Foi dar esperança num mundo tão sombrio, de tão parcos recursos. Foi ensinar pelo exemplo.
Uma pessoa pode fazer muita coisa. Uma pessoa pode fazer a diferença. Se mais pessoas pensassem assim, quem sabe o mundo fosse melhor.
Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único. Eu espero que um dia você se junte a nós, e o mundo será um só.

Arnaldo Gunzi

Imagine_colors
(do site http://www.stanleycolors.com/2013/09/imagine-john-lennon/)

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