Força x Persistência

Nos tempos de faculdade, muitas pessoas varavam a noite na véspera de uma prova.

Eu fazia o oposto. Estudava com vários dias de antecedência, dava uma revisada na véspera, e ia passear, sossegado.

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Isto é do estilo de cada um, o desempenho dos que varavam a noite não era necessariamente melhor ou pior.

Talvez tenha aí um pouco da minha herança oriental – pensar no futuro, poupar, valorizar o longo prazo.

Paciência no lugar de pressa. Ir devagar e continuamente, ao invés de ir aos saltos.
Isto continua até hoje. Nos projetos em que participo, prefiro trocar força e intensidade por persistência e paciência.​

Mais ou menos como o conto de Esopo, da tartaruga e do coelho.
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Vejo muitos trabalhos de consultoria que são intensos e pontuais, um deus-nos-acuda de trabalho em pouquíssimo tempo, como uma marretada. Depois que a consultoria faz o ppt, vira as costas e vai embora, tudo volta a ser como era antes. E daí, a diretoria contrata outra marretada, depois outra, até que alguma coisa quebra no meio do caminho.

 

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A alternativa à marreta seria uma prensa, que vai constantemente pressionando, com força gradativamente maior, sem tirar a pressão.

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Não dá para dizer que uma característica é sempre melhor que a outra, depende do contexto… mas já vi várias tartarugas devagares e sempre superando coelhos que pulam para a frente e depois estacionam sem avançar…

​O timing correto

Uma águia passa horas planando até que todas as condições estejam favoráveis. Quando chega o momento, o seu ataque devastador ocorre em segundos.
 
Rolar uma grande rocha morro acima é feito aos poucos, com paciência, centímetro a centímetro. Quando a rocha cai morro abaixo, salve-se quem puder.
 
Energia cinética = Energia potencial, segundo a lei da conservação de energia.

 

Para liberar em um segundo uma explosão de energia cinética, é necessário muito tempo acumulando energia potencial.
 
Vencer uma luta em um minuto requer meses de preparativos.
 
Realizar um excelente trabalho em poucos dias requer anos de excelência no assunto.
 
O impaciente vai liberar energia cinética sem potencial suficiente.
 
Vence aquele que tiver a capacidade de dominar a arte do timing correto.
 
Vence aquele que tem a paciência e a dedicação de acumular energia potencial: estudar além do que escola oferece, trabalhar com excelência, testar inovações, errar e aprender.
 
Vence aquele que sabe aplicar o potencial acumulado.
 
Vence aquele que pensa a longo prazo.
 
“A energia é como o retesar de uma besta. A decisão é como apertar o gatilho” – Sun Tzu, a Arte da Guerra.

 

E se Messi fosse brasileiro?

 

 Messi. Foto: Reprodução

 
Lionel Messi é um dos grandes atletas da atualidade, vencedor de 4 bolas de ouro até agora, e destruidor de recordes: maior goleador do Barcelona, fez gols em todos os times do campeonato Espanhol, etc. 
 
O Messi com 11 anos já jogava muito. Pegava a bola, partia numa velocidade incrível e com controle perfeito e só parava com o gol. Mais ou menos como hoje. Mas o garoto Messi era fisicamente menor do que os demais garotos de sua idade. 
 
Os médicos descobriram que Messi tinha um problema hormonal que retardava o crescimento. O tratamento envolvia a aplicação de uma injeção de hormônios uma vez ao dia. Mas o tratamento custava mil dólares por mês, coisa que a humilde família Messi não conseguia pagar. Sem este tratamento, Messi chegaria a idade adulta com 1,50m, ao invés do 1,69m atuais, que o colocaria em extrema desvantagem quanto aos zagueiros. 
 
 O pai do Messi o levou a diversos clubes, mas muitos deles o rejeitaram pelo tamanho diminuto, e os poucos que o aceitaram não quiseram pagar o tratamento. O único clube que aceitou investir na promessa foi o Barcelona. E o resto é história. 
 
E o que aconteceria se o Messi fosse brasileiro?
 
Embora seja difícil trabalhar com cenários deste tipo, podemos imaginar, e tentar descobrir o quão tênue pode ser a diferença entre destinos completamente diferentes. 
 
Imagine o Messi, com 11 anos, fazendo peneiras no São Paulo, Corinthians, Flamengo, Cruzeiro… e sendo rejeitado em todos eles, por conta de seu tamanho diminuto e também por ter inúmeros outros garotos concorrentes, que apesar de serem menos habilidosos, têm um padrão mais normal de tamanho. 
 
Imagine agora que Messi, agora com 12 anos, passou nas peneiras do Palmeiras, Botafogo e Fluminense. Eles até aceitaram que ele treinasse no clube, mas não quiseram pagar o tratamento. Investimento demais para risco altíssimo. Se, normalmente, só uma em 1000 apostas gera frutos, o que dirá apostar em um caso tão mais complexo como este?
 
O pai de Messi acaba conhecendo um empresário brasileiro, que promete custear o tratamento. Alguns meses se passam, e o empresário consegue que Messi, agora com 13 anos, treine no Vasco da Gama, mas ainda sem iniciar o tratamento. 
 
Mais alguns meses se passam, e o padrão é o mesmo: Messi muito ligeiro nos gramados, mas bastante menor que os seus companheiros da mesma idade. E nada do tratamento começar. O empresário, apesar das promessas, prefere ter mais certeza do que está fazendo. Mas, à medida que o tempo e os centímetros de altura vão passando, Messi vai tendo mais e mais dificuldades de encarar seus colegas maiores, mais fortes, o que faz que o empresário tenha mais receio de pagar por algo que não vai dar retorno. 
 
Quando Messi completa 14, a paciência acaba. O pai de Messi briga com o empresário e decide levar o filho à Europa, fazer testes. O arranjo desta viagem e os contatos com os clubes para fazer os testes demoram mais alguns meses. No Barcelona, o Messi agora com quase 15 anos, é reprovado no exame, por ser muito menor do que os outros da mesma idade. Um zagueiro de pernas compridas chamado Piqué anulou o diminuto Messi de 1,40m. Um volante rápido de 1,80m chamado Busquets deu um tranco no Messi e tomou-lhe a bola. 
 
Sem o tratamento e sem estrutura para se desenvolver, Messi passa a treinar no XV de Piracicaba. Os anos passam. Ele joga uma Copa São Paulo, joga um pouco do campeonato Paulista. Mas o anão Messi de 1,50 é mais uma curiosidade de jogador do que um atacante de verdade. 
 
A oportunidade abre-se em janelas com prazo de validade. Se o timing é perdido, possivelmente não haverá outro momento. As relações da vida são tênues, assim como a linha entre o sucesso e o fracasso. Esta história hipotética se passa no Brasil, mas provavelmente coisa similar ou pior aconteceria em qualquer lugar do mundo.