O segredo da Excelência, Confúcio, Naval e Telê

A seguir, um pensamento meu, e alguns pensamentos de que gosto (baseado na estrutura do newsletter do James Clear).

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Meu pensamento

O segredo da excelência:

  • ser o melhor do mundo em 1 tema
  • dominar bem 10 temas
  • saber mais ou menos 100 temas
  • reconhecer que ignora 1000 temas

O segredo da mediocridade:

  • tentar ser o melhor do mundo em 1000 temas

Reflexão: Qual o tema em que você é um dos melhores do mundo?

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De Naval Ravikant:

“Seja o melhor no mundo no que faz. Continue redefinindo a si mesmo até que isto se torne realidade”.

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“Uma jornada de 1000 quilômetros começa no primeiro passo” – Confúcio

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“Computadores são inúteis. Eles só podem dar respostas” – Pablo Picasso

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Não é segredo para ninguém que admiro demais o trabalho de grandes perfeccionistas, que prezam mais por fazer o processo correto do que pelo resultado final. Um deles é o técnico Pep Guardiola, que merece um post à parte. Outro exemplo de que gosto muito é o de Telê Santana, que montou um dos mais belos times da história, a seleção brasileira de 1982, mas não levou o caneco.

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Por último, para alegrar o dia, Aquarela, de Toquinho e Vinícius

O Mestre Arqueiro e o Mestre Telê

Ouvi uma história que provavelmente é falsa, porém, lembrei de outra história igualzinha, porém verdadeira, envolvendo o jogador Cafu e o Mestre Telê Santana.

Primeira história: o Mestre Arqueiro. Um discípulo ocidental foi aprender a arte japonesa do arco e flecha. O seu mestre, cuja filosofia envolvia o Zen, focava não no objetivo (acertar o alvo), porém, no processo (saber corretamente os fundamentos e executar os passos corretos).

Nos primeiros 4 anos de treinamento, o discípulo treinou incessantemente apenas o básico, com alvo a 2 metros de distância.

Impaciente com passos tão lentos, ele reclamou com o Mestre, cuja resposta foi: “O Caminho não pode ser medido. Qual a importância das semanas, meses e anos?”.

Frustrado, o discípulo retrucou: “Quero ver o senhor fazer o que está dizendo”.

Daí, o Mestre fez uma demonstração. Colocou uma venda nos olhos, realizou precisamente o procedimento que ensinara, e atirou, acertando na mosca, uma, duas, três vezes…


Eu pensei comigo. Essa história deve ser falsa. Apenas um conto motivacional qualquer. Porém, de alguma forma, eu já tinha ouvido uma história similar… Foi quando recordei do Mestre Telê.

Telê Santana foi o técnico mais perfeccionista do futebol brasileiro. Insistia em treinar o básico, o be-a-bá: como trocar passes, como cruzar, como chutar. Ele foi o treinador da melhor Seleção Brasileira de todas, a de 1982, que, apesar de não levar a Copa, encantou o mundo.

No início dos anos 90, Telê era treinador do São Paulo Futebol Clube. Como sempre, era obcecado pelo seu trabalho. De manhã, tirava ervas daninhas do campo. Chegou a morar no Centro de Treinamento, sem luxo algum, apenas para se concentrar no seu trabalho.

O jogador Cafu era um jovem promissor. Fisicamente era imbatível. Corria mais do que todos, sem cansar. Porém, seus chutes e cruzamentos eram um fiasco.

Telê segurava o Cafu para treinar depois dos outros. E ele ali ficava, treinando 150 cruzamentos, todos os dias.

“Cafu, você cruza muito mal”.

“Cafu, aprenda a cruzar”.

Um dia, o jogador se encheu das cobranças, e retrucou: “Então faz você”.

Telê mandou Cafu ir para a área. Pegou a bola, e fez o cruzamento, na cabeça do jogador. Uma, duas, três vezes, com perfeição. Os demais jogadores, que assistiram à cena, saíram tirando sarro de Cafu.

O esforço se pagou. O SPFC de Telê Santana foi uma das grandes equipes da história, vencendo duas Libertadores da América e dois Mundiais Interclube, derrotando o Barcelona (que tinha Guardiola como jogador) e o Milan. Tudo isso, jogando bonito.

Cafu tornou-se um dos melhores laterais da história do Brasil. Ele dominou a lateral-direita por 4 Copas do Mundo, sendo o capitão da Seleção de 2002, a do penta.

FUTEBOL – SELEÇÃO BRASILEIRA – 2002 – ESPORTES – ACERVO – Cafu, jogador da Seleção Brasileira, comemora com o troféu a conquista do título após a partida contra a Alemanha, válida pela final da Copa do Mundo de 2002, da Coréia/Japão – Estádio Internacional – Yokohama – Japão – 30-06-2002 – Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Seja arco-e-flecha, seja futebol ou qualquer outra profissão, a lição é semelhante. Ao invés de querer impacientemente alcançar o fim, cuide em construir o caminho, com firmeza e dedicação.

Trivia:
O nome de batismo de Cafu é Marcos Evangelista de Morais. O apelido veio em homenagem a Cafuringa, jogador da década de 70.

O grande Johan Cruyff, após a derrota do seu Barcelona do Futebol Total para o SPFC de Telê, teria dito: “Se for para ser atropelado, que seja por uma Ferrari”.

Cafu, o melhor do mundo, coloca o dedo na ferida – 15/01/2020 – UOL Esporte

História Em Três Cores: Telê Santana – SPFC Notícias (spfcnoticias.com)

As origens do Futebol Total

Dezembro de 2011, final do Mundial Interclubes. Santos x Barcelona.

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O Santos havia vencido a Libertadores da América, tinha Ganso, Neymar como principal jogador e Muricy Ramalho como técnico.  Era disparado o melhor time das Américas, jogava bonito e sobrava contra os outros times. Eu estava torcendo para o Santos ganhar, mostrar a sua força. Mas, assim que o jogo começou, só deu Barça. Toque de bola, toca aqui, toca acolá, gol, tiki-taka, gol. O toque começava no goleiro, passava por todos os jogadores do Barça e só ia parar na área da Santos. O Barcelona meteu 4 a 0 e poderia ter feito mais, se não tivesse diminuído o ritmo. Foi a primeira vez que vi o Futebol Total.

 


 

Os Primórdios – Rinus Michels

O Futebol Total tem o foco no ataque, na posse de bola, e na troca de posição entre jogadores para manter a estrutura do time. Foi um dos primeiros a explorar a linha de impedimento. Ocupar os espaços do campo – expandir o campo quando se tem a bola, encurtar o espaço quando o oponente tem a bola. Expandir o tempo quando se tem a bola, encurtar o tempo do adversário.

 

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Rinus Michels

 

O Futebol Total começou com um técnico chamado Rinus Michels. Ele foi treinador do time holandês Ajax e da seleção holandesa, nos anos 70. Por sua vez, Michels foi inspirado pela Seleção da Hungria de anos anteriores. Michels era um estudioso de táticas, uma pessoa de alto QI. Sempre que viajava, comprava um livro e terminava de ler antes de voltar.

O Ajax conseguiu vários feitos, o mais marcante foi ter vencido a Champions League da época três vezes seguidas.

A seleção holandesa encantou o mundo com o Carrossel Holandês de 1974, chegando à final da Copa do Mundo e perdendo para a Alemanha.

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O vídeo do primeiro gol da Holanda na final de 1974 ilustra bem o Futebol Total: todo mundo toca na bola, até a Alemanha cometer o pênalti.

O principal jogador do Ajax e da Holanda era o genial Johan Cruyff.

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O Sucessor – Johan Cruyff

O Barcelona dos anos 70 contratou a dupla Rinus Michels como técnico e Johan Cruyff como jogador. Começaram a deixar o DNA do Futebol Total no time, imprimindo sua forma de jogar e vencendo alguns títulos nacionais.

 

Um legado impactante: em 1979, Cruyff convenceu a diretoria do Barcelona a criar uma academia de talentos, a La Masia, inspirado na que existia no Ajax. Nas décadas seguintes, a La Masia revelou talentos para o time principal, como Pep Guardiola, Andrés Iniesta, Xavi Hernandes e Lionel Messi.

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Cruyff técnico

Cruyff retornou ao Barcelona como técnico anos depois, em 1988. Novamente, imprimiu a filosofia do Futebol Total, montando um timaço que tinha vários talentos da La Masia, que ficou conhecido como o Dream Team de Cruyff. O Dream Team ganhou a Champion League de 1992 – a primeira Champions do Barça.

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Na final do Mundial Interclubes de 1992, o Barcelona de Cruyff enfrentou o São Paulo, de Telê Santana. O time do Barça tinha Cruyff de técnico, Guardiola no meio, Stoichkov no ataque. O São Paulo tinha Zetti, Ronaldão, Cafu, Cerezo, Raí, Palhinha, Muller. Deste encontro de timaços sensacionais, deu São Paulo, para a alegria de um menino que tinha ficado acordado na madrugada para ver o jogo: eu. Foi mal, Cruyff, não tinha como vencer esse time.

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Telê Santana era um perfeccionista e amava o que fazia. Morava no centro de treinamento, acordava cedo para tirar ervas daninhas do gramado. Treinava meticulosamente cada jogador, sendo considerado muito chato por ser extremamente exigente. Um exemplo. Cafu, apesar de muito veloz, não sabia cruzar a bola. Telê Santana pegava no pé dele, fazia ele treinar, treinar, ficar batendo na bola depois dos treinos até cansar…

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O Tiki-Taka

O DNA do Futebol Total esteve impregnado no Barcelona desde Cruyff. Se, em muitos lugares a prioridade era de jogadores altos e fortes, a La Masia priorizava jogadores talentosos, que se encaixavam no Futebol Total. Os frutos deste trabalho incluem Andrés Iniesta, Xavi Hernandes, Pedro Rodrigues, Sérgio Busquets, Carles Puyol, Lionel Messi.

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Joseph Guardiola retornou ao Barcelona como técnico em 2008, e levou o Futebol Total a um novo patamar. Guardiola é extremamente inteligente e grande estudioso de táticas. Guardiola é perfeccionista, exigindo precisão a cada toque, posicionamento correto, disposição tática perfeita, futebol coletivo.

O Barcelona de Guardiola assombrou o mundo. Ganhou duas Champions, a de 2009 e 2011 e levou o futebol a um novo patamar. Como consequência, o DNA do Futebol Total se espalhou para a Seleção Espanhola, que ganhou as Eurocopas de 2008 e 2012, e a Copa do Mundo de 2010.

 

Nesses quatro anos, o mundo inteiro passou a copiar o Barcelona e tentar contra-atacar de alguma forma.
Se o Barça começa tocando desde o goleiro, colocam marcação forte já na área dele. Se o Barça quer a bola, então fique com ela, não vou ficar desesperado correndo atrás dela. Se o Barça fica 80% do tempo no ataque, vou me posicionar para aproveitar o contra-ataque.

 


O Presente

O tiki-taka teve que se reinventar. Guardiola montou outro time extremamente competitivo no Bayern de Munique.

O Barcelona atual, de Luiz Enrique, contém muitos dos traços de Guardiola, como os toques rápidos e precisos, a posse de bola absurda, mas também tem novos elementos: é pragmático, extremamente rápido nos contra-ataques e tem um trio de ataque letal. Ganhou a Champions de 2015 e é forte candidato a faturar tudo novamente.

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Desde que conheci o Futebol Total, não consigo assistir o Campeonato Brasileiro: na maioria dos times, não há uma sequência de três passes certos seguidos, quando o jogador não sabe o que fazer dá um chutão para a frente, chuveirinho na área é um grande recurso, assim como se jogar e pedir falta. O jogador individual é mais importante do que o jogo coletivo.

 

O mundo evoluiu, o Brasil ficou para trás. Tomou 7 a 1 e vai continuar tomando, se não evoluir coletivamente.

 

Post em homenagem ao gênio Johan Cruyff e ao seu belo legado.


 

Links
https://en.wikipedia.org/wiki/Rinus_Michels
http://www.theguardian.com/football/blog/2016/mar/24/johan-cruyff-barcelona-legacy
http://www.fourfourtwo.com/features/how-johan-cruyff-reinvented-modern-football-barcelona#:YbYnBCJTZ-F28A
https://en.wikipedia.org/wiki/Johan_Cruyff
https://en.wikipedia.org/wiki/Tiki-taka
https://en.wikipedia.org/wiki/La_Masia
https://en.wikipedia.org/wiki/1992_Intercontinental_Cup
https://en.wikipedia.org/wiki/Pep_Guardiola
http://blogdomenon.blogosfera.uol.com.br/2014/04/09/tele-me-ensinou-a-bater-falta-ou-melhor-tentou-me-ensinar/