Não se apaixone pela solução

Christopher Vogler é uma espécie de roteirista dos roteiristas de Hollywood. Numa de suas aulas, ele afirma que um criador não deve se apaixonar pela solução.

Adotar tal abordagem pode levar a becos sem saída.

Eu já quebrei a cara me apaixonando pela solução. Há uns 10 anos, eu tinha uma base de dados para processar antes de uma análise de estoques. Não era absurdamente grande, mas também não era pequena: uma dúzia de planilhas, com umas 15 mil linhas cada.

Usei a minha ferramenta favorita, Excel VBA, ao invés de algum banco SQL. Remover duplicatas, juntar bases, essas coisas. O problema foi que o Excel 2007 não aguentou: os cálculos demoravam mais de meia hora, a planilha travava, e o pior, não dava para confiar na solução (alguma fórmula está errada ou o cálculo travou no caminho?).

Mesmo após ficar evidente que não era a melhor solução, havia a dúvida – faltam poucas semanas de trabalho, se eu recomeçar do zero, vai atrasar a entrega… ledo engano. Atrasou do mesmo jeito. Tive que quebrar muita pedra, e o resultado poderia poderia ser melhor.

A dica de Vogler é fazer o contrário: apaixone-se pelo problema, independente da solução. A história tem vida própria, ela escolhe o próprio final!

Trilha sonora: O mundo anda tão complicado – Legião Urbana

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2013/12/01/a-solucao-otima-para-o-problema-errado/

https://ideiasesquecidas.com/2016/01/27/a-verdade-e-o-conto/

Fake Storytelling

Vi recentemente uma polêmica acerca de uma certa Bettina.

Para quem não conhece, a propaganda diz que Bettina, uma jovem de 22 anos, partiu de mil e quinhentos reais e fez um milhão de reais no mercado financeiro.

É uma propaganda de um grupo que insinua que todos conseguem fazer isto, seguindo os mandamentos deles, é claro.

O problema é que a história da Betina é fake. É apenas inspiracional. Assim é fácil… poderiam ter dito logo que ela fez 150 milhões, que era o novo George Soros, o novo Warren Buffet.

Eu já acho forçado demais pegar o best in class, a pessoa que mais ganhou de todos, e apresentar este como o benchmark, um exemplo de que todos podem chegar no mesmo nível – é claramente impossível, porque se todos fossem vencedores, todos seriam medianos, e assim não haveria vencedor.

Pegar um best in class falso é muito mais forçado… ainda mais num país onde apenas 1% dos que fazem day trade têm lucro, conforme demonstra este estudo recente: https://cointimes.com.br/e-possivel-viver-de-day-trade/.

Porque o fake storytelling provoca tantas reações negativas? Não é só inspiracional mesmo?

Minha explicação remonta à 2,4 mil anos no tempo. A Retórica de Aristóteles dizia que há três modos de persuasão: o Ethos, o Pathos e o Logos.

O Logos se refere à parte lógica do argumento para convencer alguém.

O Pathos se refere à parte emocional. É aqui que entra fortemente o storytelling. Quando é feita uma personificação, quando não é um ensinamento abstrato qualquer, mas uma pessoa de verdade, uma jovem brasileira de 22 anos, muito mais próxima de nós, afeta fortemente a emoção, o pathos. É por isso que o storytelling é tão poderoso.

O melhor agora, o Ethos. O Ethos se refere ao lastro disto tudo, à autoridade que o narrador tem para contar a história. Um George Soros tem autoridade enorme para falar qualquer coisa, concordemos ou não. Pelo menos, ele juntou alguns bilhões de dólares…

No caso citado, do fake storytelling, o Ethos caiu por terra. Que moral a personagem tem para falar sobre o tema, se ela estava apenas interpretando um papel? E, caindo o Ethos, cai também o Pathos, porque na parte emocional ninguém é pato para engolir essa historinha fake.

Portanto, ao invés de utilizar os três modos de persuasão para fortalecer a mensagem, dois deles saíram pela culatra.

É o mesmo caso da Diletto e do Suco do Bem, cases famosos pelo storytelling forçado.

O Ethos é infinitamente mais difícil de conseguir, e portanto, muito mais difícil de falsificar.

Links:

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

https://moneytimes.com.br/felipe-miranda-bettina-gaste-a-pergunta-mais-relevante-de-todas-quem-e-o-tio-ricco/

https://ideiasesquecidas.com/2018/09/07/ethos-pathos-e-logos/

A Verdade e o Conto

Uma mulher pobre, mal vestida e faminta chega numa vila.

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Ela bate a porta da primeira casa, a fim de pedir comida e abrigo. A moradora olha pela janela, mas não abre a porta.

A mulher vai à segunda casa da vila. Novamente, os moradores não a recebem dentro de casa.

Ela passa por todas as casas da vila, sem ser recebida por ninguém.

Ela fica num campinho, sem saber o que fazer.


Surge um moço, bem vestido, bonito e alegre.

Ele bate na primeira casa, que prontamente o recebe, com festa e alegria.

A seguir, ele vai visitar a segunda casa, e novamente, muita festa e alegria.

É assim em todas as casa da vila.

Depois que ele sai da última casa, passa pelo campinho.

Ela comenta: “Eu também passei por todas as casas, mas ninguém me atendeu.”

Ele respondeu: “Então venha comigo, vamos juntos a partir de agora.”

A mulher maltrapilha é a Verdade, e o homem bem vestido é o Conto.

Poucos abrem o coração para a Verdade nua e crua.

Todos abrem as portas para os contos e histórias. Mas histórias desprovidas de verdade são vazias, fúteis.

Elas devem vir juntas para atingir os corações das pessoas.

Fonte: Rachel Bacha, que interpreta a contadora de histórias Sherazade.