O quão excelente é o projeto?

Em diversas ocasiões, discuti ideias de projetos com o meu colega Cláudio Ortolan. Alguns de meus questionamentos eram do tipo “vai custar caro demais”, “temos orçamento para tal?”

  

A réplica dele sempre era:
 

 “Quão excelente é o projeto?”

 

Um projeto excelente, genial, que dá um retorno que o justifique, sempre vai conseguir recursos para se manter de pé.

 

Já um projeto fraco pode custar muito (ou pouco, independe do custo), mas não vai sair do lugar.
 
Para ilustrar esta afirmação, uma história, contada no livro “O imperador de todos os males – uma biografia do câncer”.
 
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Mary Lasker era uma mulher da alta sociedade americana, nos anos 1950. Após perder o marido, numa longa e difícil batalha contra o câncer, ela decidiu usar todas as suas forças para combater este mal. Ela tinha dinheiro, influência e conhecia toda a alta sociedade. Sabia fazer bem o marketing e a parte social para levantar fundos. Mas obviamente ela não tinha conhecimento da parte técnica. Ela precisava de um projeto.
 

Projeto 1
 

Ela procurou um pesquisador acadêmico famoso, explicou toda a sua história e perguntou sobre uma ideia para combater o câncer. Ele respondeu: “Eu preciso de um microscópio novo, de 300 dólares”. Vamos chamar este de “Projeto 1”.
 

 

Projeto 2
 
Depois, ela procurou um médico chamado Sidney Farber. Ele estava havia muitos anos trabalhando desesperadamente no combate ao câncer. Primeiramente com leucemia. Uma característica importante da leucemia é que, pelo câncer estar no sangue, daria para mensurar se algum tratamento teria ou não efeito. E assim, estudando, testando inúmeras alternativas, ele desenvolveu o primeiro tratamento de quimioterapia do mundo.
 
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Sidney Farber e paciente

 

E Farber tinha um projeto. Pesquisar programaticamente as novas drogas, variando dosagem, composição, tipos de câncer e anotar cuidadosamente os efeitos positivos e negativos. Além disso, criar um instituto de combate a câncer. Vamos chamar este de “Projeto 2”.
 

Qual dos dois projetos é melhor?
 
Evidentemente, o projeto de Farber.
 
Mary Lasker e Sidney Farber pareciam duas pessoas com metade do mapa cada uma. Ela conseguiu arrecadar fundos e colocar o câncer em evidência. Conseguiu que o Ato do Câncer de 1971 liberasse a soma sem precedentes de 1,59 bilhões de dólares para a pesquisa do câncer.
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Mary Lasker

 

Apesar da cura do câncer ainda estar muito longe de ser uma realidade, muitos dos avanços iniciais da pesquisa são devidos a esses dois. O instituto Dana-Farber existe até hoje (http://www.dana-farber.org), assim como o Lasker Foundation (http://www.laskerfoundation.org).
 
Imagine que o diretor geral da empresa venha à sua mesa e pergunte se você tem uma boa ideia para apresentar para ele. O que você responderia? Que precisa de um computador novo?

 


Links:

Ácido fólico, quimioterapia e resultados surpreendentes

Innovation

Sidney Farber era um pesquisador empenhado na cura da leucemia.
No começo do século XX, não se sabia direito o que era esta doença, nem como tratá-la. Só se sabia que o sofrimento dos pacientes era intenso, e que nada funcionava.
Na época descobriu-se que o ácido fólico era importante na reprodução celular.

O que Farber fez? Aplicou ácido fólico nos pacientes com leucemia. Ele achou que o ácido fólico estimularia as células de defesa a se reproduzir e combater a leucemia.

Mas os resultados foram assombrosamente negativos: ao invés de melhorar, os pacientes pioraram muito. Ou seja, ao invés das células boas reproduzirem, a leucemia é que se desenvolveu. Portanto, talvez a leucemia fosse câncer, em que as próprias células do corpo é que sofrem uma mutação e passam a atacar o resto do corpo.

Esta descoberta teve alguns impactos importantes: descobriu-se que a leucemia é um tipo de câncer, e que um bloqueador de ácido fólico, uma “anti-vitamina”, poderia ser útil no combate à doença.

Subsequentes desenvolvimentos deram origem à quimioterapia.

Lembrando uma frase do Grande Mestre Drucker: resultados supreendentes, tanto no lado positivo quanto no negativo, são uma grande fonte de inovações.

Sugestão de leitura: The emperor of all maladies