A Unimente 

Há uns 20 anos, vi a Unimente numa história em quadrinhos. Era um cérebro amarelo gigante, que tinha uma capacidade de raciocínio infinita. O povo, uns ETs estranhos, faziam perguntas telepáticas à  Unimente, que respondia como um oráculo que sabia tudo.
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A Unimente era uma espécie de “Mente única”. Mas não era um conhecimento central, como um robô ou biblioteca. Era a soma interconectada de todas as pessoas do universo. Ao mesmo tempo em que as pessoas usavam a Unimente, a Unimente era formada de todas as mentes de todas as pessoas. Cada um contribuía um pouquinho para gerar a Unimente.
Pois bem, 20 anos depois, estamos quase no estágio desses ETs.
A internet é uma Unimente. Não há um repositório central. Cada pessoa na rede contribui um pouco com a sua opinião, comentário, ou conteúdo (texto, vídeo, áudio, perfil em rede social, etc). Ao invés de telepatia, temos wireless.
Cada pessoa que entra na rede acrescenta um nó de informação. Este nó adicional contribui para aumentar a escala de conhecimento, complexidade, além de servir como estímulo para mais pessoas entrarem.
Estima-se que atualmente 40% dos 7 bilhões de habitantes da Terra tenham acesso à Internet.
Imagine como o mundo será num futuro em que 100% de pessoas estiverem conectadas à Unimente em banda larga!

“Profissionais” x “Amadores”

Um “amador” tem a conotação de alguém que tem alguma outra ocupação principal, mas faz o assunto em questão por hobby, lazer, paixão. Um “profissional” vive do assunto em questão, já faz isto durante anos, portanto é de se supor que o profissional seja melhor do que o amador.

Mas um amador pode ser extremamente talentoso e produzir um conteúdo fora de série. Um profissional pode ser alguém que produz conteúdo de forma burocrática, preso a formalidades ou a outras regras.

Uma das belezas da internet é que ela permite que conteúdos produzidos por pequenos “amadores” sejam divulgados para todo o mundo. Num passado não muito distante, tal conteúdo só chegaria ao público após passar por filtros das redações jornalísticas, gerados por “profissionais”. Este efeito é a tal da “cauda longa” de Chris Anderson, em que milhões de pequenos indivíduos produzem trabalho que passa a ser notado pelo resto do mundo. O fato é que os “amadores” estão superando os “profissionais”, nas áreas em que a cauda longa emerge.

Dois exemplos:

Um jornalista desconhecido produziu um blog de extrema qualidade, chamado waitbutwhy. Rapidamente, o blog viralizou, tendo atualmente 75 mil seguidores.
Este post explica a história dos confrontos atuais do Iraque, de uma forma extremamente clara e concisa. Nem a Folha, nem a Globo.com tem uma linguagem nem visão semelhantes.
http://waitbutwhy.com/2014/09/muhammad-isis-iraqs-full-story.html

Este post conta a história de uma visita à Coreia do Norte. Também é um post claro, de alta qualidade, e até engraçado.
http://waitbutwhy.com/2013/09/20-things-i-learned-while-i-was-in.html
Exemplo 2: Um programador desconhecido começou a produzir vídeos sobre como programar em Java. De forma concisa, descontraída, ele explica muito bem os conceitos. Ele também destaca muito bem as pegadinhas inevitáveis que um programador vai passar. O conteúdo é gratuito no youtube, itunesU. Ele também fez um blog de apoio ao vídeo.
https://howtoprogramwithjava.com/

Para efeito de comparação, tenho um livro da coleção Schaum sobre Java, que custou uns 80 reais. É pesado, cheio de definições complicadas. Parece uma aula de Universidade, ou seja, um pé no saco. Portanto, rapidamente abandonei o “profissional” pelo “amador”.
Talvez o maior amador de todos seja Steve Jobs. Atropelando todas as regras de business, ele conduziu a empresa com pura paixão, produzindo algumas das maiores revoluções da computação. Quando ele foi colocado para fora da Apple em 1985 e substituído por um “profissional” (John Sculley), a Apple passou a ser uma empresa comum: corte de custos, aumentar EBITDA, margem, VPL, TIR, gerenciamento da rotina, análise SWOT, blá blá. E a Apple quase foi à falência, sendo salva pelo mesmo Jobs, anos depois.

A próxima revolução vai ser a dos amadores. Portanto, continue um amador, faminto e tolo.

stayhungry1

Arnaldo Gunzi
Dez/2014