Festinha de aniversário e corrupção, tudo a ver

“Este país não vai para frente mesmo” – foi o que eu pensei no dia. Este episódio ocorreu quando eu trabalhava no serviço público, há muitos anos, mas certamente continua muito atual.

De tempos em tempos, a seção em que eu trabalhava fazia uma festinha para os aniversariantes do trimestre. Algo simples, alguns salgados e refrigerantes. A secretária recolhia uns 10 reais de cada um, com alguns dias de antecedência. No dia da festinha, normalmente meia hora da sexta à tarde, a gente juntava algumas mesas, fazia a comemoração, batia um papo, e pronto. Era uma festinha interna, mas de vez em quando, alguns colegas mais chegados de outras seções apareciam também.
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Entretanto, aquela vez foi diferente. A secretária passou cobrando 50 reais de cada um. Não explicou o motivo, disse apenas que o chefe da área tinha pedido. Lembrando que 50 reais na época deveria ser uns 80 reais de hoje. Ok, pensei. Deve ser alguma coisa especial – melhor para mim, já que o meu aniversário também era neste trimestre. O dia e o horário marcados também eram diferentes, ao invés da tradicional sexta final da tarde, um dia da semana no meio da tarde. Ok, tenho coisas mais importantes para me preocupar, pensei.

Chegando no dia, mais coisas estranhas. Ao invés de duas ou três mesas, juntaram várias. E, numa mesa, havia uma série de presentes grandes. Em outra mesa, pacotes de presentes bem menores.

Chegando próximo à hora combinada, começou a chegar gente de outras seções: alguns figurões, pessoas de alta patente. Muito estranho…

Na mesa, os mesmos salgados e refrigerantes de sempre. A única coisa diferente era que tinha um bolo. Ficava a dúvida: para que cobrar tão caro para ser a mesma coisa, o equivalente aos 10 reais de sempre?

Então, teve início a cerimônia. O chefe de nossa seção começou o discurso, focando em citar o aniversário de um figurão em particular. E começou a distribuir os presentes expostos na mesa, seguindo rigorosamente a hierarquia, do grandão ao pequeno. Como eu estava iniciando no serviço, obviamente eu era muito pequeno, e o presente que me deram também – algo inútil, um souvenir qualquer, que ainda tinha um cartão com uma mensagem motivacional, para lembrar o quanto eu era importante para o sistema… Quanto aos pacotes grandes, não sei e nem quero saber o que tinha.

Felizmente, esta demonstração de puxa-saquismo com o dinheiro alheio não ocorreu mais. Ficou tão explícito, tão mal disfarçado, que pegou mal.

De qualquer forma, é impressionante que alguém possa pensar que é legal fazer algo assim, mesmo que apenas uma vez.

Felizmente também, nos meus muitos anos na iniciativa privada, nunca mais vi algo assim. Talvez este país ainda tenha esperança, no final das contas…

Combate a corrupção

Alguns conceitos interessantes de combate a corrupção que aprendi com o meu amigo Lorival Verillo, ligado a uma ONG chamada Amarribo.

Embora a corrupção seja um mal, a incompetência é tão ruim quanto. Fazer um serviço mal feito leva a retrabalho, perda de eficiência da sociedade em geral, e no final das contas é uma subtração de valores dos cofres públicos.

Ter as contas aprovadas pelos tribunais de contas não é um atestado final de que não houve corrupção. Os tribunais fazem um exame mais geral e menos rigoroso das contas, podendo aceitar, por exemplo, notas frias bem elaboradas. Portanto, os tribunais de contas acabam legitimando a ação do corrupto. É comum ver nos jornais algum político falando que: “o tribunal de contas aprovou as minhas contas”. O leigo vai achar que realmente o sujeito não tem

Obras de pavimentação são as preferidas pelos corruptos em geral, porque uma vez que a obra for concluída, não tem muito como saber o quanto foi gasto (em regularização do terreno, estabilização do solo, material para base e pavimento). E também porque qualquer município precisa de pavimentação, e há inúmeras empresas que prestam este serviço.

Corruptos usam e abusam de compras em valores pequenos. Abaixo de 8 mil reais, não é necessário fazer licitação (conforme a lei de Licitações 8666), apenas enviar cartas convite para três empresas. Portanto, eles combinam diversas compras abaixo do limite, combinam preço com algumas empresas e está tudo certo, estão dentro da lei.

A nota fiscal eletrônica permite maior facilidade em cruzar dados. A tendência é que o trabalho do corrupto torne-se mais difícil com a tecnologia.

Vide site http://www.Amarribo.com.br