O bizarro Telemarketing filantrópico

“Senhor, somos da instituição filantrópica anjos xyz, de apoio ao combate ao câncer infantil, e conseguimos o seu contato através de indicação do pessoal da sua empresa…”

Recebi, há poucos dias, uma ligação assim. É normal instituições de caridade ligarem aleatoriamente, mas eu achei essa ligação diferente.

A atendente passou a comentar sobre uma criança com câncer no estômago, descreveu uma cena triste e que os remédios acabariam amanhã. Amanhã! Falou das credenciais da instituição voluntária e do hospital destinatário dos esforços. Pediu doação até 12h do dia seguinte e meus contatos (e-mail, whatsapp).

Talvez até seja uma instituição idônea, e espero que realmente seja, mas o meu “detector de bullshit” ligou vários sinais amarelos.

A conversa acima está com o roteiro muito bem escrito, para caber em alguns minutos, e utiliza todas as técnicas possíveis de persuasão:

  • Cita uma referência à alguém conhecido, que fez a indicação
  • Conta uma história emocionante de uma criança doente (é mais eficaz do que falar que dezenas de crianças são atendidas)
  • Cria um senso de urgência (amanhã sem falta)
  • A atendente dá a entender que é uma voluntária do programa
  • Apresenta credenciais (CNPJ, nome, telefone)

Note o uso perfeito do Ethos (credenciais, quem é a instituição, credibilidade da indicação) – Pathos (emoção, história triste) – Logos (lógica: alguém precisa, é urgente).

Perguntei o nome do responsável da minha empresa que tinha feito a indicação, e a atendente não soube responder. Depois, fui checar junto ao pessoal da empresa que trabalha com voluntariado (inclusive sempre participo das campanhas): resultado, a minha empresa não faz parceria nem autoriza contatos utilizando o nome dela, se foi indicação de alguém, foi uma iniciativa pessoal, não corporativa.

Eu tenho absoluta convicção: quem me ligou é de uma empresa de telemarketing, treinada e com roteiro escrito, tal qual um banco liga para vender cartão de crédito. Um voluntário, daqueles de que temos a imagem em nossa cabeça, teria uma postura completamente diferente.

Pode até ser uma instituição séria, com um bom trabalho, e espero que seja. Porém, declinei da ajuda neste caso – não gostei da abordagem. Continuo a ajudar o pessoal que eu conheço ser realmente voluntário.

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