Genial. Visionária. Fake. Sociopata.

Elisabeth Holmes abandonou Stanford aos 19 anos para mudar o mundo. Fundou a Theranos, que prometia algo fantástico: com uma gota de sangue, fazer 200 exames laboratoriais num equipamento que cabe numa mesa, a um custo menor do que os laboratórios tradicionais. Com este, seria possível levar diagnósticos de qualidade para todos. Holmes era o Steve Jobs de saias. Ela arrecadou US$ 1 bilhão em funding. O valuation da empresa chegou a US$ 9 bi.

E qual o problema? O problema é que o Edison (nome do equipamento) nunca funcionou. Era uma fraude.

O documentário “The Inventor”, da HBO, conta a história da startup. Vale a pena assistir, tem detalhes bizarros.

A começar, pela personagem. Holmes é uma moça loira, com olhos grandes e azuis, um rosto bonito, mas nada feminino. As roupas são sempre pretas e de gola alta, sem gênero. Ela diz ter 150 conjuntos da mesma roupa, como o seu ídolo Steve Jobs. Um grande choque ouvir ela falar: uma voz grave, grossa, totalmente em desacordo com o esperado.

O documentário mostra o esforço dos técnicos e cientistas em criar o equipamento, e todos os problemas operacionais: centrifugar o sangue, possíveis quebras de peças, dificuldades de higienização do equipamento. Desafios que se mostraram impossíveis de encapsular numa caixa.

Assim como Thomas Edison, inventor da lâmpada e de centenas de outros aparelhos, aparentemente o lema “Fake it until you make it” se aplicaria à Theranos. Bastaria força de vontade, pessoas capacitadas, e com o tempo, a solução surgiria. Porém, parte “fake it” foi se tornando uma bola de neve de mentiras. Um acordo com a rede de farmácias Walgreen levou as soluções da Theranos a todos os EUA. Como o Edison não funcionava, grande parte dos exames era do jeito tradicional mesmo: com uma seringa, e em equipamentos já consagrados. E, ao invés da parte “make it”, eles dobravam a aposta, com a adição de mais e mais testes possíveis no catálogo, a fim de conseguir mais verba para continuar a operar.

A farsa do Edison, a diluição do sangue dos pacientes para os exames e a inacuracidade de testes incomodou os muitos funcionários sérios que tinham ciência destes. Alguns começaram a sair e a delatar a empresa, que respondeu com ameaças e processos da banca de advogados mais cara dos EUA.

No final do documentário, quando já estava evidente que havia sérios problemas, ela aparece num show, mentindo descaradamente: não havia problemas, o Edison funcionava perfeitamente. Ela não apresentava nenhum sinal de que estivesse mentindo, o que me lembrou a tese do livro “Talking to strangers”, de Malcolm Gladwell.

Outra nota bizarra é que Holmes tinha um namoro secreto com o executivo chefe da empresa, que sempre reforçava os planos dela (e está sendo igualmente processado). Dividiam uma mansão, ao que parece.

Parece que até a voz grave dela é fake. Dizem que, quando bêbada, a máscara caía, e a voz era mais próxima à de uma bela moça de sua idade. Até isso fazia parte do personagem criado.

Sociopatia é a falta de empatia para com o próximo, além de outros sintomas. A empresa dela deu milhares de diagnósticos não confiáveis, podendo ter prejudicado a vida das pessoas. Vale usar as pessoas como cobaias para atingir um sonho?

A história é tão surreal, tão absurda, que parece roteiro de filme de Hollywood. E realmente vai virar um filme, com Jennifer Lawrence no papel de Holmes!

Referências:

Bad Blood: Secrets and Lies in a Silicon Valley Startup, John Carreyrou

The dropout, podcast, https://abcnews.go.com/Business/nightline-documentary-podcast-dropout-story-elizabeth-holmes-theranos/story?id=60365362

The inventor, out of blood in Silicon Valley, documentário da HBO.

https://www.hbo.com/documentaries/the-inventor-out-for-blood-in-silicon-valley

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