O que é “Antifrágil”?

Tenho visto o uso do termo “antifrágil” por aí. Ainda são poucas as pessoas que a usam, porém, a frequência vem aumentando, o que é legal. O único problema é que a conotação está completamente errada…

Em termos simples, “Antifrágil” é o contrário de “frágil”.

Mas o contrário de “frágil” não é “robusto”? Ou “resiliente”, algo assim?

Não, porque os termos “robusto” ou “resiliente” denotam algo que resiste, sem melhorar ou piorar. O Antifrágil melhora ante a estresses, dentro de um certo limite.

  • Quando algo é frágil, ele quebra, há um impacto negativo.
  • Quando algo é robusto, ele não quebra, o impacto é nulo.
  • E quando algo fica mais forte quando atacado? Este é o antifrágil, o oposto exato do frágil.

O termo Antifrágil foi criado pelo pensador libanês Nassim Taleb, autor dos livros “A lógica do Cisne Negro”, “Antifrágil – coisas que se beneficiam com o caos” e “Pele no Jogo”.


Qual a interpretação errada?

Muita gente está utilizando antifrágil como um termo de autoajuda, e isto está errado, muito errado.

Exemplo: você deve ser antifrágil, ficar mais forte a cada pancada que recebe. Sua empresa deve aprender a ser antifrágil, crescer quando todo mundo está na crise…

Só que este tipo de frase vazia não representa o conceito real por trás do termo. Se o Mike Tyson vier me bater, eu não vou ficar mais forte, e sim parar no hospital…

A ideia principal da antifragilidade é a exposição a riscos. Por um lado, proteger-se de riscos catastróficos, e por outro, expor-se a riscos positivos, que geram um impacto benéfico. Acima de tudo, assumir as consequências dos riscos assumidos.

Cisnes Negros

Um Cisne Negro é um evento de baixíssima probabilidade, porém, impacto devastador. Os Cisnes Negros são o tema central dos trabalhos de Nassim Taleb, que argumenta que estes são subestimados pelo ser humano. Não há modelo matemático que consiga prever um Cisne Negro, por eles serem tão raros – como tirar informação da onde não existe?

Um Cisne Negro é uma não-linearidade. Um atentado de 11 de setembro, uma crise mundial de 2008, um rompimento de barragem (no caso do BR, dois) – algo que muda fortemente a direção da história.

Taleb argumenta que o mundo atual está cada vez mais propenso ao surgimento de Cisnes Negros. O mundo tem empresas cada vez maiores, com foco em otimização a curto prazo. Essas otimizações reduzem as instabilidades pequenas, porém aumentam o risco de uma grande instabilidade (quanto mais alto, maior a queda).

Um elefante é toneladas maior do que formigas, porém experimente jogar um elefante do primeiro andar de um prédio. Ele vai quebrar a perna. Em termos evolutivos, o elefante está muito mais propenso à extinção do que as formigas.

Too big to fail

Taleb faz duras críticas ao sistema financeiro, que cria bancos e outras instituições “too big to fail”. Elas cresceram consolidando bancos menores, são otimizadas para gerar ganho atrás de ganho, varrendo para debaixo do tapete os riscos. Enquanto dá tudo certo, os executivos recebem bônus milionários. Quando ocorre algum problema grande, e todos os riscos ocultos vêm à tona cobrando o seu preço com juros e correção monetária, eles gritam “foi um Cisne Negro” e passam a conta para o Estado pagar. São antifrágeis à custa dos outros – à custa dos pagadores de impostos, de toda a grande massa de pessoas mais pobres, de todos nós.

Por outro lado, em sistemas orgânicos, o caos controlado e pequenos estresses geram o efeito da via negativa. Os muitos erros têm o efeito de eliminar do sistema os bancos e instituições que não sabem controlar os seus riscos, ao invés de bonificá-los pelo arranjo atual. O sistema não aprende acertando, e sim, eliminando. A evolução se dá por agressiva tentativa e erro, sendo o erro o aprendizado.

Os empreendedores são os heróis ocultos da nação. São os que passam anos tendo rendimento muito abaixo da média para, talvez um dia, alguns poucos conseguirem sucesso. A grande maioria fracassa, sentindo os efeitos na própria pele, sendo eliminados no cenário econômico e esquecidos para sempre nos anais da história.

Note a assimetria. O empreendedor individual é frágil, podendo facilmente fracassar, entretanto, o sistema como um todo aprende, torna-se antifrágil com o sacrifício destes. Já no caso dos bancos “too big to fail”, a instituição é invulnerável, às custas do sistema como um todo ser frágil.

Conclusão

A antifragilidade não é uma frase de motivação. Muito pelo contrário. É um convite a abraçar o caos, a empreender, é um convite ao sacrifício de arriscar e assumir as consequências dos erros na própria pele.


Veja também:

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/administracao/antifragil-42272607

https://ideiasesquecidas.com/2017/08/09/a-teoria-dos-cisnes-negros/

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/25/cisnes-negros-e-gestao-de-riscos/

https://ideiasesquecidas.com/2018/03/02/%e2%80%8bskin-in-the-game-pele-no-jogo-de-nassim-taleb/

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