O que é dinheiro para mim?

Dinheiro, para mim, é igual à energia. É algo equivalente à soma do trabalho útil de todas as pessoas.

O universo, naturalmente, tende ao caos – é a segunda Lei da Termodinâmica, a Lei da Entropia.
Não é o estado natural do mundo que todos tenham acesso à alimentação, moradia, educação. O estado natural do mundo é que é difícil obter acesso à alimentação, moradia. Em outras épocas foi extremamente difícil. Educação então nem se fala.

Para extrair algo do mundo e transformar num insumo para o ser humano, é necessário um trabalho útil. Útil no sentido de que deve ser efetivo. É possível alguém fazer muito esforço mas não gerar nada, daí no fim do dia, ele vai passar fome do mesmo jeito.

É a soma deste trabalho útil que permite à humanidade sobreviver ou não. Se o trabalho gerar menos do que consome, a tendência é de a humanidade desaparecer. Se gerar mais trabalho do que consome, a tendência é de crescer.


Definições de dinheiro

Tradicionalmente, nos livros básicos de economia o dinheiro tem três funções.

  • Meio de troca
  • Unidade de medida
  • Reserva de valor

Ao invés do João dar bananas para Alfredo e receber laranjas, eles trocam notas de dinheiro. O dinheiro serve como meio de troca entre laranjas e bananas. Também serve como unidade de medida: se eu cortar 1/3 de banana para completar com 1/2 laranja, estrago ambas as frutas, mas sendo o dinheiro divisível, consigo fazer esta equivalência. E também serve como reserva de valor, se Alfredo não quiser bananas hoje, mas sim amanhã, ele pode guardar as notas que receber.

No fundo, o dinheiro é apenas um intermediário. E este intermediário tem diversas vantagens. Pode tornar o trabalho extremamente intrincado, complexo: alguém que trabalha numa peça de manutenção de uma gigantesca indústria de minérios vai receber o dinheiro, e com isso comprar bananas. De outra forma, seria impossível o João receber a peça da indústria e trocar por bananas.

Para ser um bom intermediário, o dinheiro tem que ter várias características: difícil de falsificar, escasso, durável, divisível, portátil, etc.

As razões são simples. Se for facilmente falsificável, perde todo o valor. Se dinheiro desse em árvore, como folhas, não teria o valor da escassez, e é por isso que folhas não servem para ser dinheiro, e nem dinheiro dá em árvore. Se não for durável, não serviria como reserva de valor. Se não for divisível, não consigo trocar 1/3 de banana por 1/2 laranja. Se não for portátil, eu teria que usar um carrinho de mão de dinheiro para comprar uma laranja (e é o que acontece, em países com superinflação).

Note que o ouro é o metal perfeito para servir de intermediário. É extremamente escasso, não falsificável, durável eternamente, divisível – na verdade dúctil, e por ter muito valor, portátil.

Entretanto, o ouro é tão escasso, mas tão escasso, que o crescimento do mundo é muito maior do que o crescimento da quantidade de ouro minerada no planeta. E não faz sentido lastrear o crescimento do mundo em algo que não cresce.

Portanto, o dinheiro é energia no sentido de que o valor de trabalho de uma pessoa vai ser transformado num valor equivalente ao trabalho de outra pessoa, ou pessoas, ou indústrias.


E o que é energia?

Muito instrutiva é uma aula do grande cientista americano Richard Feynman, em que ele discorre sobre energia.

Um primeiro impacto: ninguém sabe exatamente o que é energia. Não há um entendimento preciso sobre o que seja isto.

E um segundo impacto: ao invés de dizer que a energia se conserva após um processo, talvez seja mais interessante pensar no contrário. Àquilo que se conserva após um processo, dá-se o nome de energia, seja lá o que for: cinética, térmica, radioativa, etc. Então, por definição, a energia seria conservada.

Seja como for, é bom ter em mente as duas leis da termodinâmica: a energia se conserva entre processos, mas uma parte dela se conserva na forma de entropia, ou seja, é perdida do trabalho útil.


Confiança

Uma nota de 100 reais é apenas papel. Não dá para comer, não vale nada intrinsicamente. É apenas um intermediário.

Mas, para desempenhar este papel, as pessoas devem confiar que vão poder gastar o dinheiro recebido.

No fundo, no fundo, é a confiança que importa.

Tendo confiança, qualquer coisa pode desempenhar o papel de dinheiro: cigarro nas prisões, pedras redondas nas ilhas do pacífico, um número no extrato bancário, ou até um papel com uma impressão em cima.

O problema é quando ocorre a quebra da confiança. Quando o dono da impressora de dinheiro imprime mais dinheiro do que crescimento do trabalho, ocorre inflação. Alguns poucos, os que têm meios de se proteger recebendo valores inflacionados, se dão bem. A grande maioria, que não tem reajustes rápidos, sai perdendo.

Quando ocorre quebra de confiança na moeda, o trabalho continua existindo. Mas o meio de trocar este trabalho, não. Em casos extremos, a sociedade volta ao escambo: prefiro trocar laranjas por bananas, diretamente, do que trocar laranjas por moeda podre, que vai perder o valor. Quando se tem laranjas para trocar, tudo bem. Mas o mecânico da peça de manutenção de grande indústria não recebe bananas, recebe moeda podre. E ele vai querer continuar sobrevivendo, mesmo que isto signifique trocar de emprego, digamos ser feirante – mesmo que o trabalho dele na grande indústria seja muito mais valioso para a sociedade a longo prazo. E, assim, fecha-se o ciclo, o trabalho útil diminui, a energia é desperdiçada, e a entropia vence.

Veja também: O Índice X-Men de inflação, sobre a hiperinflação dos anos 80.

Nota: Todo o ouro do mundo cabe num cubo de 20x20x20 metros, para dar ideia de quão escasso é.

3 comentários sobre “O que é dinheiro para mim?

  1. Pedro Arká

    Arnaldo, levando em conta todas as características, você considera as criptomoedas como substitutas do dinheiro atual? Dada a enorme volatilidade, acredito que nenhuma delas atenda às definições mais básicas (meio de troca, unidade de medida e reserva de valor) e muito menos confiança, embora eu reconheça que exista grande potencial na tecnologia por trás. Abs!

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      1. Detalhando um pouco. Criptomoeda pode ser meio de troca, contando que muitas pessoas a aceitem. Pode ser unidade monetária, aliás é uma unidade até melhor do que a moeda comum, já que é infinitamente divisível. E reserva de valor, já que, por construção, um percentual pequeno de moedas entra no mercado, e não há inflação demasiada. A questão, e a enorme volatilidade, é a incerteza em relação ao futuro: ninguém sabe se realmente vai pegar, se vai haver um problema técnico intransponível ou uma fraqueza do sistema a ser explorada por hackers mau intencionados. Se elas sobreviverem a isto, podem ser alternativas interessantes.

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