Os “Doutores Analfabetos” do Brasil

O Caipira e o Economista
Um dia, um caipira estava levando um economista numa canoa, na Amazônia. O economista tinha vários títulos de pós-graduação em excelentes universidades. Já o caipira, coitado, foi caçoado pelo economista por ser analfabeto.
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Porém, escureceu rápido demais neste dia, e eles não conseguiram voltar. Foram obrigados a pousar no mato. E foi o caipira que desbravou o terreno, reconheceu frutas comestíveis, espantou animais e fez um abrigo improvisado. O doutor era o verdadeiro analfabeto. Todos os títulos e livros não o ensinaram a ler nem escrever a linguagem da natureza…


Doutores Analfabetos

Todos os anos, as faculdades brasileiras formam milhares de doutores… analfabetos.

 

Analfabetos na prática, no sentido de capacidade de gerar valor no mundo real.

Semana passada entrevistei José Carlos. Ele se formou em biologia. Fez mestrado. Depois, partiu para um doutorado. Depois, desempregado na prática, continuou na academia, num pós doutorado de dois anos, com bolsa bancada por uma instituição de apoio à pesquisa. Inclusive, passou um ano na Alemanha como parte do programa. Depois do término da bolsa, ficou mais um ano ligado à academia, fazendo trabalhos menores, depois mais outro ano tentando obter outra bolsa de pós doutorado. Tudo isto, na mesma instituição e com o mesmo orientador, assim ele não corria o risco de encontrar surpresas no caminho.

 

Enfim, com quase 35 anos, José Carlos está tentando conseguir trabalho fora da academia.
A primeira opção de José Carlos é concurso público: procura estabilidade, segurança, numa área como “auditor da receita federal”, que certamente tem relação zero com o doutorado em biologia.
Outra de suas opções é seguir carreira no meio acadêmico, fechando o ciclo: alguém com zero experiência prática ensinando ideias que nunca foram testadas no mundo real, num universo platônico das formas perfeitas irreais.

 

Enquanto nenhuma das opções surge, José Carlos dá aulas particulares de reforço a alunos do segundo grau.

 


Ele não cogita trabalhar no setor privado. Por não ter experiência, ele supõe que o salário inicial seria muito baixo, além de ter medo de ficar desempregado. E ele também não pensa em empreendedorismo. A tese de doutorado dele é tão específica que não é algo que possa ser explorada e gerar dividendos.

 

E, por fim, José Carlos reclamou que o Brasil não dá apoio, não valoriza a pesquisa.

 

Fico me perguntando se realmente falta investimento à pesquisa brasileira. E, se ninguém tenta valorizar o trabalho universitário.

 

Vejamos, ele ficou mais de 10 anos estudando em tempo integral após a graduação. Foi beneficiado duplamente: além de não pagar um centavo pelos estudos, recebeu bolsa do governo, inclusive foi até a Alemanha estudar.

 

Pergunta: Quantos “caipiras da Amazônia” têm esta oportunidade?

 

Na cultura oriental, há um grande senso de coletividade (vide posts deste blog). Se milhões de pessoas apostaram recursos em mim, na forma de uma educação de qualidade e bolsa de estudos, devo retribuir este investimento na forma de um trabalho honrado, de extrema qualidade, que gere valor para a sociedade.
Infelizmente, José Carlos não é um caso isolado. Há muitos e muitos iguais a ele.

 

E é pela atitude de pessoas assim que a imagem da pesquisa brasileira é cada vez pior, e a relação entre universidades  e empresas, cada vez mais distante.

 

2 comentários sobre “Os “Doutores Analfabetos” do Brasil

  1. Mário Cesar Souza e Silvs

    As mudanças já começaram e no estado de São Paulo tem um PROGRAMA chamado de PIPE-FAPESP onde propostas de pesquisas com empresas x universidades são analisadas as soluções que estes projetos podem trazer para a indústria e etc.
    A respeito dos doutorados no Brasil realmente precisam serem revistos e ao profissional que está se aprimorando dar o devido respeito como profissional e não como aluno.
    Em grandes Universidades conceituadas em Países mais desenvolvidos este modelo arcaico de doutorado deu origem a um modelo envolvendo pesquisas com foco em soluções onde a palavra de ordem e empreendedorismo e mestrados e doutorados mais flexíveis e até mesmo online.
    Estamos defasados algumas décadas e as orientações aos futuros mestrandos e doutorandos deveriam vislumbrar este futuro.
    Um grande abraço fraternal.:.

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