Um novo paradigma de aprendizado: aprender por osmose

Um dia, há muito tempo atrás, eu estava ensinando matemática a uma pessoa que tinha passado pelo método de ensino Kumon.

Para quem não conhece, o método Kumon consiste em repetir as operações básicas (digamos 5 x 7) infinitas vezes, por inúmeras horas, e ir aumentando a dificuldade gradativamente. A pessoa, de tanto olhar para os números, acaba virando uma calculadora humana.

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E o meu aluno era literalmente uma calculadora humana. Fazia contas de cabeça num piscar de olhos, mais rápido do que se eu digitasse numa calculadora eletrônica.

 

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Entretanto, ele não sabia o mais importante de tudo: qual a conta a fazer. Ele sabia apenas a mecânica das operações, mas não dominava os conceitos do que tinha que ser feito para chegar na resposta correta.

Por isso, sempre fui muito crítico ao método Kumon, que se baseia na memorização e repetição. Preferia que a pessoa aprendesse a pensar, aprendesse a racionar por si só, ao invés de decorar um método de solução.

Mas hoje, mudei de ideia, ao ler o excelente artigo de Bárbara Oakley, na revista Nautil.us.

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Aprender por osmose

Bárbara Oakley conta que nunca gostou da área de exatas. Ela tinha uma dificuldade enorme com matemática no ensino básico. Por isso, ela fez letras – russo – em sua graduação. Mas um dia chegou à conclusão de que saber russo não era o que ela realmente queria, e decidiu seguir o caminho da Engenharia.

Sendo alguém que não tinha a menor capacidade de entender o raciocínio das derivadas e integrais de um curso pesado de engenharia (engenharia de produção não conta, rs), ela usou as únicas armas que tinha: memorização e repetição. Memorização e repetição. Memorização e repetição. Memorização e repetição…

Digamos que cada pedacinho de conhecimento matemático que ela conseguia dominar separadamente fosse um “bloco de informação”.

Pouco a pouco, a partir do arsenal de “blocos de informação” que ela tinha, ela foi unindo o quebra-cabeça destes pedaços e começando a compreender o todo.

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Repetindo este mesmo processo arduamente, em alguns anos ela conseguiu remodelar o cérebro para a área de exatas.

A explicação de Oakley faz muito sentido para mim. Pensando bem, nem tudo o que aprendi estudando foi puramente raciocínio logo de início. Teve muita coisa que guardei para mim, sem entender direito o significado, e só depois de muito tempo consegui sacar a lógica deste “bloco de conhecimento”.

O cérebro humano não é um computador eletrônico, em que a informação é colocada e não muda mais. O cérebro precisa de prática, muita prática. Precisa de tempo para processar a informação. Precisa de memorização, mesmo sem saber direito para que serve. Precisa de repetição para internalizar conceitos. Precisa entender o raciocínio, mas também precisa exercitar, senão esquece.


Síntese

Como tudo na vida, não há paradigma eterno.

O filósofo alemão George Hegel (1770 – 1831) afirmava que o processo de evolução do conhecimento, a dialética, era formada da tríade Tese – Antítese – Síntese.

A minha Tese era a de que devemos entender o raciocínio, a lógica do conhecimento.

A Antítese, de Bárbara Oakley, mostrou que memorização e repetição são igualmente importantes para o aprendizado.

A Síntese é que para o aprendizado ser efetivo, devemos entender o raciocínio, mas também treinar, memorizar, e repetir este ciclo inúmeras vezes até internalizar o conhecimento.

Aprender por osmose não é tão ruim assim. Na verdade, talvez o cérebro humano só aprenda mesmo por osmose…

 

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