Uma fábula de Esopo e uma história de Drucker

A fábula dos potes

Um pote de vaso e outro de cobre boiavam num rio.
 

Um dia, o pote de cobre foi puxado pela correnteza e bateu no vaso, quebrando uma pontinha deste.
 

broken_vase.jpg
 

O vaso reclamou muito, e resolveu revidar. Desta vez, foi o vaso que bateu  no pote de cobre. Mas, novamente, foi o vaso que se quebrou, deixando o pote de cobre intacto.
 

O lado mais fraco sempre será prejudicado ante o confronto contra uma força desproporcionalmente superior.


 

O Monstro e o Cordeiro
 

O grande criador da Administração como ramo de estudo, Peter F. Drucker, viveu na época da Segunda Guerra Mundial e viu a ascenção dos nazistas ao poder. Ele conviveu com duas pessoas em particular: o Monstro e o Cordeiro.
 

Esta é uma das histórias de Drucker que mais me impressionaram.


 

O Monstro

Drucker chegou à Alemanha em 1927, trabalhando como trainee em um jornal. Em 1932, os nazistas estavam ganhando poder, e Drucker, preocupado, passou a procurar emprego em algum lugar fora da Alemanha.
 

Nesta época, ele escreveu dois artigos: um atacando o nazismo, e outro sobre a questão dos judeus na Alemanha. Com a ascenção dos nazistas, os artigos foram banidos e os exemplares queimados. Para Drucker, foi uma forma de “não se colocar em cima do muro”, assumir uma posição irreversível que o forçasse a sair do país imediatamente.
 

Hitler assumiu o poder em Janeiro de 1933. Algumas semanas depois, Drucker demitiu-se do jornal e estava se preparando para deixar o país. Nisto, Reinhold Hensch, um jornalista, veio falar com ele, para reconsiderar a decisão. Hensch era do partido nazista, e com a ascenção dos mesmos, ele passara a ser o homem no comando do jornal.
 

Hensch disse: “Te invejo por sair do país. Queria sair também, mas não posso. Isto tudo é insano. Estou com medo do que ouço nas reuniões do partido, sobre matar judeus e ir à guerra. Eu disse a mim mesmo que seria tudo retórica, e não dei bola. E ainda acho isso. Uma vez no poder, eles vão ver que não é bem assim, têm que mudar de ideia”.

 

Drucker: “Por que você não vai embora? Não tem nem trinta anos e não tem família que dependa de você. Tem um diploma em economia e não vai sofrer para conseguir um emprego”.

 

Hensch: “É fácil para você falar. Você conhece várias línguas, esteve no exterior, é esperto. Eu nunca saí de Frankfurt e não tenho conexões – meu pai é um artesão”.

 

Drucker, furioso: “Isto é bobagem. Quem se importa com o que seu pai é? Qual a diferença que isso faz?”

 

Hensch: “Você não entende, Drucker. Não sou inteligente o suficiente. Sou nada, sou ninguém. Mas quero poder e dinheiro para ser alguém. É por isso que me juntei aos nazistas anos atrás. E agora, eu vou ser alguém!”
 

Drucker não aceitou a oferta e saiu do país. Acabou indo para Londres e depois para os Estados Unidos. Doze anos depois, Drucker leu no New York Times:
 

Reinhold Hensch, um dos mais procurados criminosos de guerra nazistas, cometeu suicídio quando capturado por tropas americanas numa casa bombardeada em Frankfurt. Hensch era um dos chefes da SS nazista com o título de Tenente-General, comandou as infames tropas de aniquilação. Ele estava a cargo da campanha de extermínio de judeus e de “outros inimigos do estado nazista”. Ele era tão cruel, feroz e sanguinário que era conhecido como “O monstro” (Das Ungeheuer) mesmo entre os seus homens.


 

O Cordeiro
 
Em Abril de 1933, Drucker encontrou “o Cordeiro”. Paul Schaeffer estava fazendo as malas. Ele tinha aceitado a oferta do “Berliner Tageblatt” para ser o editor chefe.
Schaeffer sabia muito bem o que estava acontecendo na Alemanha. A motivação dele para aceitar a posição era outra.

 

Schaeffer: “É justamente por causa deste horror que eu tenho que aceitar o trabalho. Sou o único que pode prevenir o pior. Eles precisam de mim porque tenho contatos em Londres e New York. Vão me ouvir quando eu disser que atos assim vão trazer problemas para eles.”

 

Drucker: “Mas Paul, você não tem medo que os nazistas te manipulem, aproveitem o seu prestígio respeitável para chegar ao objetivo deles?”

 

Schaeffer, indignado: “Eu não nasci ontem. Se tentarem me manipular, levanto e vou embora. Eles não vão correr o risco”.

 

Quando Schaeffer chegou a Berlin ele foi recebido com muita fanfarra. Títulos, dinheiro e honrarias sem fim. E os nazistas imediatamente passaram a usá-lo. Faziam ele dizer que não era anti-semita e que tinha bons amigos judeus.
Todas as vezes em que havia um massacre, Schaeffer era enviado para dizer que era um “exceção pontual”, que não ocorreria novamente. Quando as notícias de rearmamento alemão surgiram, Schaeffer escreveu um artigo sobre o grande desejo de paz mundial de Hitler.
 

Depois de dois anos em Berlin, quando Schaeffer já não tinha tanto prestígio e não era mais útil, ele foi liquidado e desapareceu sem deixar rastros.

 


 

Para fechar, Drucker escreve. “Os homens tornam-se instrumento do mal quando, como Hensch, acham que podem dominá-lo com a sua ambição, e como Schaeffer, juntam-se ao mal para evitar mal pior. Sempre me perguntei qual dos dois causou mais prejuízos – o Monstro ou o Cordeiro – e qual o pior pecado, o da busca por poder de Hensch ou do orgulho e arrogância de  Schaeffer?”

 


 

Este foi um resumo bem simplificado do texto completo, que se encontra no “Adventures of a Bystander”.

 

Nota: o “Adventures of a Bystander” é uma raridade. Comprei num sebo, no centro de SP, há uns 15 anos atrás. Hoje, temos a internet. Mas a versão pirata na internet é de qualidade horrível, ilegível.

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