O Quadro do Inferno – Parte 2

O Quadro do Inferno – Parte 2

 

Uma terceira história é a de um aprendiz que foi chamado ao estúdio. Yoshihide tinha um pedaço de carne crua e alimentava um pássaro desconhecido, que era do tamanho de um gato, e tinha olhos grandes, redondos e coloridos como âmbar. Os olhos também pareciam de um gato.
10

Yoshihide era um homem que simplesmente odiava ter alguém espiando suas coisas, e ele nunca deixaria seus aprendizes saberem das coisas que ele tinha no estúdio. Dependendo do assunto que ele estivesse pintando no momento, ele poderia ter um crânio humano sobre a mesa, ou fileiras de vasilhas de prata. Este era certamente uma razão do rumor de que Yoshihide era o beneficiário de uma milagrosa ajuda de um deus da sorte.

 

Então, o humilde aprendiz, assumindo que o pássaro estranho era um modelo que Yoshihide precisava para o quadro do inferno, ajoelhou perante o pintor e perguntou humildemente, “Como posso ajudá-lo, Mestre”?

 

Quase como se não tivesse ouvido o rapaz, Yoshihide lambeu seus lábios e sacudiu seu queixo em direção ao pássaro. “Nada mau, hein? Olhe quão manso ele é”.

 

“Por favor, diga-me, Mestre, o que é isto? Nunca vi nada assim antes”, o garoto disse, olhando fixamente o pássaro parecido com um gato com orelhas.

 

“Nunca viu nada assim? É o que você consegue crescendo na capital! É um pássaro, uma coruja com chifres. Um caçador me trouxe do Monte Kurama. Normalmente não são tão mansos.”

 

Enquanto falava, Yoshihide levantou sua mão e bateu de leve nas costas da coruja que tinha acabado de engolir um pedaço de carne. A coruja soltou um guincho e pulou da mesa, mirando suas garras no rosto do aprendiz. Se o garoto não tivesse se protegido, não tenho dúvidas que ele teria alguns cortes no rosto. Ele gritou e mexeu as mangas numa tentativa de tirar o pássaro, o que apenas deixou o ataque mais furioso. O aprendiz correu selvagemente pela sala, tentando ficar de pé para se defender, se agachando para se livrar da ave. O monstro, é claro, o seguiu, voando para cima quando ele ficava de pé, e voando para baixo quando ele se agachava. Ele ficou tão assustado, disse depois, que parecia que o estúdio era um vale assombrado nas profundezas das montanhas, com cheiro de folhas podres, o spray de uma cachoeira, a fumaça azeda de frutas escondidas por macacos, e a iluminação fraca da lâmpada de óleo do mestre parecia uma luz da lua nas montanhas.

 

Ser atacado pela coruja não foi o que mais o assustou, e sim o jeito com que Yoshihide acompanhou sua comoção, com seu olhar frio, usando o seu tempo para capturar a terrível imagem do garoto delicado sendo atormentado por uma ave horrível. Por um momento, ele achou que o mestre iria matá-lo.

 

11

E você realmente não pode dizer que isto estava fora de questão. Parece que o único propósito de Yoshihide chamar o aprendiz era ver a coruja sobre ele e desenhá-lo tentando escapar. Portanto, quando o aprendiz viu seu mestre trabalhando, ele sentiu suas mãos se levantarem para proteger sua cabeça e ouviu um grito incoerente escapar de sua garganta. No mesmo instante Yoshihide gritou e pulou, e houve o barulho de algo caindo. O aprendiz coberto de terror se levantou novamente para ver que a sala tinha ficado completamente escura, e ele ouviu a voz zangada de Yoshihide chamando outros aprendizes.

 

Alguém respondeu, e logo um aprendiz correu com uma lanterna. Ele viu a coruja, batendo uma asa aparentando dor. No outro lado da mesa, Yoshihide estava se levantando e murmurando algo incompreensível. E não é para menos! Aquela cobra preta estava firmemente enrolada na coruja, do pescoço até o rabo. Os dois aprendizes interromperam a cena bizarra e, com um gesto do mestre, eles saíram da sala. O que aconteceu depois com a coruja e a cobra, ninguém sabe.

 

Estes não foram os únicos incidentes. Yoshihide continuou a aterrorizar seus aprendizes continuamente. Chegou num ponto, entretanto, que algo parecia interferir no trabalho do quadro. Uma camada ainda maior de melancolia se estabeleceu sobre ele, e ele falava com seus assistentes em tons cada vez mais duros.

 

O quadro estava talvez oito décimos terminados, mas não mostrava nenhum sinal adicional de progresso. Ninguém sabia o que ele estava achando tão difícil no quadro, e mais ainda, ninguém queria perguntar. Perturbados por aqueles incidentes, seus aprendizes sentiam como se estivessem trancados numa cela com um tigre ou um lobo, e tentavam manter distância de seu mestre.

 

12

Por esta razão, tenho pouco a contar sobre este período. A única coisa unusual foi que o velho excêntrico de uma hora para outra se tornou choroso. Um aprendiz me contou que um dia ele andava no jardim e viu o mestre de pé na varanda, olhando vazio para o céu, com olhos cheios de lágrimas. Não é estranho que este homem arrogante, que foi tão longe que rascunhou um defunto na beira da estrada para seus Cinco Níveis de Renascimento, poderia chorar como uma criança apenas porque a pintura do quadro não estava indo tão bem quanto ele queria?

 

De qualquer forma, enquanto Yoshihide estava trabalhando loucamente no quadro, sua filha começou a mostrar sinais incrementais de melancolia, estando sempre em lágrimas. Uma pálida, reservada, triste garota, ela adquiriu um aspecto pesaroso com cílios pesados e sombras ao redor dos olhos. Isto deu origem a vários tipos de especulação – que ela estava preocupada com o pai, ou que ela estava sofrendo as dores do amor – mas logo estavam dizendo que era tudo porque Sua Majestade estava tentando dobrar a sua vontade. Então os rumores pararam, como se todos tivessem se esquecido dela.

 

Um evento ocorreu neste período. Eu estava descendo um corredor quando o macaco Yoshihide veio do nada voando para mim e começou a puxar minha calça. Senti um misterioso calafrio que era apenas três partes, outras sete partes eram raiva de ter minhas calças novas estragadas deste jeito, e considerei chutar o animal e continuar o meu caminho. Mudei de ideia rapidamente, me lembrando do caso do samurai que caiu no desgosto do Jovem Mestre por ter atormentado o macaco. Além disso, pelo modo com que o macaco estava se comportando, havia algo errado.

 

Quando o corredor chegou numa esquina, ouvi sons frenéticos, porém abafados do que parecia uma briga numa sala por perto. Se fosse um intruso, resolvi, eu iria ensinar a ele uma lição, e segurando a minha respiração, cheguei próximo à porta deslizante.

 

13

Minha aproximação, entretanto, era obviamente devagar e cautelosa demais para o macaco. Yoshihide correu ao meu redor em círculos, uma, duas, três vezes, então pulou no meu ombro com um grito. Agora não poderia mais hesitar. Abri a porta. Neste momento algo bloqueou minha visão. Era uma mulher. Ela veio em minha direção como se alguém tivesse a arremessado. Ela quase se chocou comigo, mas ao invés ela foi para frente e – por que, não consigo dizer – se abaixou com um joelho na minha frente, tremendo e sem fôlego, e me olhando como se olhasse algo terrível.

 

Tenho certeza de que não preciso contar que era a filha de Yoshihide. Mas ela parecia outra pessoa. Seus olhos eram grandes e brilhantes. Suas bochechas pareciam vermelho flamejante. Suas roupas desarrumadas davam a ela um aspecto erótico que contrastava bastante com sua inocência infantil normal. Poderia mesmo ser a filha de Yoshihide?

 

Olhei para pegadas apressadas retrocedendo a distância e perguntei a ela, Quem era este? Ela mordeu os lábios e balançou a cabeça em silêncio. Dava para vê-la se sentir mortificada.

 

Quanto tempo isto levou, não sei, mas fechei a porta e falei para a garota, “Vá para o seu quarto”. Tomado por um sentimento de que vi algo que não deveria ter visto, e um sentimento de vergonha, começou a pegar de volta o meu rumo no corredor. Mal andei uns 10 passos, porém, senti um puxão – tímido – na minha calça. Olhei para baixo para vero macaco Yoshihide se prostrando a mim, como um ser humano, agradecendo, com seu sino de ouro tocando.

 

14

Talvez duas semanas depois, subitamente Yoshihide chegou à mansão solicitando uma audiência pessoal com Sua Majestade. Ele provavelmente ousou fazer isto apesar de sua situação humilde porque ele estava nas graças de Sua Majestade por muito tempo.

 

“Venho em sua honorável presença, Meu Senhor, com relação ao quadro com imagens do inferno que Sua Majestade ordenou que eu pintasse. Apliquei tudo de mim dia e noite, e estes esforços começaram a dar fruto, e está quase finalizado”.

 

“São excelentes notícias.”

 

“Não, Meu Senhor, temo que as notícias sejam tudo menos excelentes”, disse Yoshihide, “O trabalho pode estar largamente finalizado, mas há uma parte que não consigo pintar”.

 

“O que? Não consegue pintar?”

 

“Sim senhor. Como uma regra, consigo pintar apenas o que eu já vi. Mesmo se for bem sucedido em pintar algo desconhecido, não consigo ficar satisfeito com isto.”

 

Enquanto Sua Majestade ouvia as palavras de Yoshihide, sua face gradualmente tomou um sorriso de escárnio. “O que significa que, para pintar um quadro do inferno, você tem que ter visto o inferno”.

 

“Exatamente, meu Lorde. No grande incêndio de alguns anos atrás, vi chamas com os meus próprios olhos que eu poderia usar no Inferno do Calor Lancinante.”

 

“E sobre os pecadores? E os guardiões do inferno? Você nunca os viu, não?” Sua Majestade questionava Yoshihide com uma pergunta atrás da outra.

 

“Vi uma pessoa presa em correntes de ferro, e fiz um rascunho detalhado de alguém sendo atormentado por um pássaro monstruoso. Não posso dizer que nunca vi pecadores sendo torturados. Quanto aos guardiões, meus olhos viram muitas vezes entre o dormir e o despertar. Os com cabeça de touro, os com cabeça de cavalo, os de três faces: quase todas as noites eles vêm me torturar. Não, não são esses que tenho dificuldade em pintar.”

 

Suspeito que isto chocou Sua Majestade. Depois de um longo tempo em que ele apenas olhou Yoshihide, ele perguntou “Tudo bem. O que é que você é incapaz de pintar”?

 

15

 

“No centro da tela, caindo do céu, quero pintar uma carruagem de aristocrata, com sua cabine feita da melhor folha de palma”. Enquanto falava, Yoshihide levantou-se para olhar diretamente para Sua Majestade pela primeira vez – com um olhar penetrante. Eu sabia que Yoshihide poderia ser como um louco enquanto pintando, para mim o olhar naquele momento era assustador.

 

“Na carruagem, uma voluptuosa mulher da nobreza se contorce em agonia, seus longos cabelos pretos sacudindo nas chamas ferozes. Sua face… bem, talvez ela contorça sua testa e lance seu olhar no teto da cabine enquanto desmaia nas nuvens de fumaça. Suas mãos se rasgam no tecido flamejante da carruagem. Cega enquanto ela tenta repelir a chuva de faíscas caindo nela. Ao seu redor uma revoada de aves carnívoras, talvez uma dúzia ou mais, estalando os bicos em antecipação – Oh, Meu Lorde, é isto, esta imagem da nobre na carruagem, que sou incapaz de pintar.”

 

“E portanto…?”

 

Sua Majestade parecia ter um tipo estranho de prazer nisto, já que urgiu Yoshihide a prosseguir, mas Yoshihide mesmo, lábios vermelhos trêmulos como se febris, apenas conseguia repetir, como se num sonho, “É isto que sou incapaz de pintar”.

 

Subitamente, ele exclamou, “Eu imploro, Meu Lorde: faça seus homens prepararem uma carruagem em chamas. Permita-me assistir as chamas devorando a cabine. E, se possível – ”

 

Uma nuvem negra atravessou a face de Sua Majestade, mas tão logo ela passou que ele respondeu. Ele ainda estava rindo quando falou: “Possível? Farei tudo o que você pediu. Não perca o seu tempo se preocupando sobre o que é possível”.

 

As palavras de Sua Majestade me encheram de um terrível pressentimento. E de fato sua aparência naquele momento era tudo menos comum. Espumas brancas se formaram nos cantos da boca. Era como se Sua Majestade tivesse a loucura de Yoshihide. E logo que ele terminou de falar, risos explodiram de sua garganta novamente.

 

“Queimarei uma carruagem para você, e haverá uma mulher voluptuosa nela, vestida com roupas de uma nobre. Ela morrerá se contorcendo em agonia nas chamas e fumaça negra. Tenho que saudá-lo, Yoshihide. Quem poderia pensar em algo assim senão o maior pintor dessa terra?”

 

Yoshihide ficou pálido quando ouviu isto, e por um tempo a única parte dele que moveu eram os seus lábios: parecia tomar fôlego. Então, se moveu novamente.

 

“Mil agradecimentos, Meu Lorde”. Talvez o horror completo de seu próprio plano tenha ficado claro para ele quando Sua Majestade recitou-o.

 

Foi a única vez na minha vida que senti pena de Yoshihide.

 

 

 

16.

Duas ou três noites depois, Sua Majestade chamou Yoshihide como prometido para presenciar a queima da carruagem. Ele realizou o evento não na mansão Horikawa, mas fora da Capital, num lugar conhecido como “Palácio da Neve Derretendo”.

 

Ninguém estava morando neste “palácio” por um longo tempo. Os jardins se tornaram selvagens, e a visão desolada deu vida a rumores, muitos sobre a irmã de Sua Majestade, que teria realmente morrido ali. Pessoas diziam que viam Sua Senhoria deslizando pelo corredor, sem nunca tocar o solo.

 

A queima da carruagem ocorreu em uma noite bastante escura, sem lua. Sua Majestade sentou com os pés cruzados na varanda. Sua posição era acima de meia dúzia de atendentes que o cercavam. Um deles parecia ansioso por estar a serviço de Sua Majestade, um corpulento samurai que tinha se destacado na campanha contra os bárbaros do norte alguns anos atrás. Dizem que ele sobrevivera à fome comendo carne humana.

 

Então havia a carruagem. Mesmo sem um boi, sua alta cabine feita com as melhores folhas de palmeira repartida, exatamente como Yoshihide tinha solicitado: na verdade um transporte digno da Majestade Imperial ou os mais poderosos ministros do estado.

 

Yoshihide estava em algum lugar retirado, ajoelhado em posição oposta à varanda. Ele vestia o usual robe vermelho marrom. Do seu lado estava alguém com vestimenta parecida – provavelmente um aprendiz.

 

 

 

 

17

A meia noite estava se aproximando, acredito. Senti como se a escuridão envolvendo o jardim estivesse silenciosamente nos observando, o único som sendo a brisa noturna. Sua Majestade permaneceu em silêncio por alguns momentos, mas então, gritou:

 

“Yoshihide!”

 

Yoshihide pode ter dito algo, mas para meus ouvidos parecia um rugido.

 

“Nesta noite, Yoshihide, irei queimar uma carruagem para você, como você requisitou”.

 

Sua Majestade olhou para os homens ao seu redor. Vi um sorriso entre eles.

 

“Quero que você olhe isto”, Sua Majestade disse. “Esta é minha carruagem, a que eu uso todos os dias. Você a conhece, certamente. Irei agora colocar fogo para que você veja o Inferno do Calor Lancinante aqui na terra diante de seus olhos. Acorrentada dentro da carruagem há uma mulher pecadora. Quando colocarmos fogo, sua carne será queimada, seus ossos serão carbonizados: ela morrerá agonizante. Nunca mais você terá um modelo tão perfeito para a sua tela. Não falhe em assistir sua carne branca entrar em erupção em chamas. Veja e lembre-se de seu longo cabelo preto dançando no turbilhão de chamas!”

 

Sua Majestade ficou em silêncio novamente, mas agora ele estava rindo alto.

 

“Nunca mais haverá uma visão como esta, Yoshihide! Irei observar também. Homens, abram a janela. Deixem Yoshihide ver a mulher dentro da carruagem!”

 

 

Um dos homens, carregando uma tocha, esticou seu braço livre e abriu a cortina. Na carruagem, sentava uma mulher acorrentada – e oh, quem poderia deixar de reconhecê-la? Seu cabelo preto e longo numa banda voluptuosa e belo robe refletiam belamente a luz da tocha. Aquele perfil pertencia a nenhuma outra pessoa senão a filha de Yoshihide. Não pude deixar de soltar um grito de horror.

 

Então o samurai ajoelhado se levantou e posicionou sua espada ameaçadoramente, olhando para Yoshihide. Assustado com este movimento súbito, virei o meu olhar para Yoshihide. Sua aparência era de alguém que estava ficando louco com este espetáculo.

 

Então, quando Sua Majestade ordenou “Queime”, os auxiliares pegaram as tochas, e a carruagem, com a filha de Yoshihide dentro, queimou no fogo.

 

18.

O fogo engolfou a carruagem toda. O teto púrpura colapsou, então nuvens de fumaça rodopiaram, um branco forte contra a escuridão da noite. Ainda mais horrível era a cor das chamas na abertura da cabine, como se o sol mesmo tivesse caído na terra, espalhando seu fogo em todas as direções.

 

Mas e o pai da garota?

 

Nunca me esquecerei da face de Yoshihide naquele momento. Ele tinha tido um impulso de ir em direção à carruagem, mas parou quando as chamas se espalharam. Então ele ficou parado com os braços esticados, olhos devorando a fumaça e chamas que envelopavam a carruagem. Com a luz do fogo que o banhavam da cabeça aos pés, pude ver todos as características de sua face feia, cheia de rugas. Seus olhos esbugalhados, seus lábios contorcidos, a pele de seus lábios contraídos: tudo descrevia uma pintura vívida do choque, do terror, e da tristeza que corria no coração de Yoshihide. Tal desolação, suspeito, não poderia ser vista nem no rosto de um ladrão condenado prestes a ter a cabeça guilhotinada, ou o mais culpado pecador pronto a enfrentar o julgamento dos Dez Reis do Inferno. Até o poderoso samurai ficou pálido com a visão e lançou um olhar medonho a Sua Majestade sobre ele.

 

Mas e quanto à Sua Majestade? Mordeu seus lábios e sorrindo estranhamento de vez em quando, ele olhava diretamente à frente, nunca tirando os olhos da carruagem. E a garota na carruagem – ah, não acho que tenho coragem de descrever em detalhes o que ela parecia. O branco pálido de sua face em transformação enquanto ela se asfixiava na fumaça, o comprimento embaraçado de seu cabelo enquanto ela tentava tirar as chamas nele, a beleza de seu robe de cerejeiras floridas que queimavam nas chamas: era tudo tão cruel, tão terrível!

 

 

 

 

 

 

 

Outro grito se sucedeu, depois mais um, até que todos nós estávamos gritando também.

 

E, embora tenha sido deixado preso na mansão Horikawa, o que vimos subindo nas costas da garota contra as chamas flamejantes era o macaco Yoshihide.

 

19

Pudemos ver o macaco por alguns momentos apenas. Uma fonte de faíscas caiu do céu como poeira dourada em um fundo preto, e então não apenas o macaco, mas a garota também, foram engolfados numa fumaça negra.

 

Agora no meio do jardim havia apenas uma carruagem queimando em chamas com um rugido terrível.

 

 

Mas oh, quão estranho era ver o pintor agora, de pé absolutamente rígido ante a coluna de chamas. Yoshihide – que apenas alguns momentos antes parecia estar sofrendo os tormentos do Inferno – permaneceu ali com seus braços travados no peito como se tivesse esquecido até da presença de Sua Majestade. Poderia jurar que seus olhos não mais viam a moça em chamas, mas as belas cores de chamas estavam dando a ele alegria imensurável.

 

A coisa mais extraordinária naquela noite não era que ele assistia à morte de sua filha com aparente alegria, mas que Yoshihide possuía uma aura de autoridade ao seu redor que parecia a fúria do Rei das Bestas.

 

Tremendo por dentro, respirando pouco e cheios de um sentido bizarro de adoração, mantivemos os olhos em Yoshihide como se estivéssemos presentes no momento decisivo em que um pedaço de madeira ou pedra se tornasse a imagem sagrada de Buda.

 

Mas entre nós apenas um, Sua Majestade, parecia como se transformado em outra pessoa, sua nobre expressão drenada de cores, o canto de sua boca cheio de espuma, mãos nos joelhos como uma besta precisando de água…

 

20

A notícia de que Sua Majestade queimou a carruagem no palácio das Neves Derretidas logo se espalhou, e havia muitas pessoas altamente críticas ao evento.

 

A primeira questão era por que a filha de Yoshihide? O rumor mais frequente era de que foi por causa da rejeição de seu amor. Estou certo de que ele não fez isso para punir a personalidade perturbada de um artista que chegaria tão longe a ponto de queimar uma carruagem e matar uma pessoa a fim de completar um quadro.

 

E havia Yoshihide, cujo coração de pedra foi aparentemente alvo de muitos comentários negativos. Como, após ver a própria filha queimada viva, ele poderia querer finalizar o quadro? Alguns o amaldiçoaram como uma besta em forma humana que teria esquecido o amor paternal por conta de uma pintura. Um dos que tinham esta opinião era o Abade de Yokawa, que sempre dizia, “Ele pode ser excelente em sua arte, mas se não souber as cinco virtudes, só poderá acabar no Inferno.

 

Um mês passou, e o quadro com as imagens do Inferno foi enfim finalizado. Yoshihide trouxe o quadro para a mansão no mesmo dia e humildemente apresentou-o para inspeção de Sua Majestade. Sua Reverência Abade de Yokawa estava visitando na hora, e estou certo de que ele estava chocado com a visão das labaredas de chama queimando no quadro. Até ver o quadro, ele estava criticando Yoshihide, mas então ele exclamou “Que trabalho magnífico!” Ainda posso ver o sorriso amargo no rosto de Sua Majestade quando ouviu estas palavras.

 

 

Quase ninguém falou mal de Yoshihide depois disso – pelo menos não na mansão. Poderia ser que todos aqueles que viram o quadro foram tomados por sentimentos estranhos enquanto testemunharam as torturas do Inferno do Calor Lancinante?

 

Nisto, entretanto, Yoshihide era mais um dos que não estavam mais neste mundo. Na noite após finalizar o quadro, ele amarrou uma corda numa viga em seu quarto, e se enforcou. Suspeito que, tendo enviado a filha para o outro mundo, ele não poderia viver como se nada tivesse acontecido. Seu corpo jaz enterrado nas ruínas de sua casa.

 

 

Akutagawa Ryunosuke, 1918

 
Veja também:
 

A Teia de Aranha

 

 

 

 Links desta publicação
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/16/pesadelo-em-um-conto
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/16/o-quadro-do-inferno-parte-1
 

https://ideiasesquecidas.com/2015/12/27/o-quadro-do-inferno-parte-2
 

 

 

 

 

2 comentários sobre “O Quadro do Inferno – Parte 2

  1. Pingback: O Quadro do Inferno – Parte 1 – Forgotten Lore

  2. Pingback: Pesadelo em um Conto – Forgotten Lore

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s