Pirâmides financeiras

Há 10 anos, um amigo me convidou para investir em avestruz.
Era um investimento que dava 4% ao mês (muito acima da inflação e do mercado).
Era uma oportunidade tão boa porque a avestruz era a ave do futuro. Sua carne era exportada e era muito cara. Sua pena servia para fazer fantasia do carnaval.  Aproveitava-se tudo da avestruz.
Mas eu tinha que comprar avestruz e levar para o meu apartamento? Não. Eu comprava uma avestruz filhote, ficava com um contrato em papel, e a avestruz continuava na fazenda crescendo. A empresa recomprava a avestruz quando crescesse, a uma taxa acima do mercado. A exportação de carne garantiria a viabilidade da operação. Não tinha risco.
O meu amigo que me convidou tinha ido até Goiás para ver se a fazenda existia. Lá, encontrou milhares de avestruzes, um monte de fazendeiros ricos e participou de um farto churrasco. Ele voltou de lá convencido da robustez do negócio. Colocou algumas dezenas de milhares de reais no negócio. E me chamou para entrar porque ganhava uma bonificação em avestruz quando chamasse outras pessoas.
Mês após mês, ele conferia no site o saldo da conta sempre subindo. Sempre subindo acima da bolsa. Sempre subindo astronomicamente. Até que, um dia, o site sumiu do ar. Os telefones ficaram mudos. Os responsáveis sumiram.
Pirâmides 
Pirâmides são esquemas que se baseiam não em investimentos em bolsa ou em algum outro ativo, mas meramente são sustentadas pela entrada de novos integrantes. Daí vem o nome. Somente os do topo da pirâmide ganham. Os que estão em baixo precisam da entrada de uma base cada vez maior de pessoas para lucrar.
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Como num fundo de investimentos, várias pessoas investem uma quantia de dinheiro no negócio. Mas nem todo mundo saca o dinheiro de uma vez. A maioria delas acompanha o valor investido através de extratos do site do próprio fundo. Sabendo deste comportamento,as pirâmides usam o dinheiro dos novos entrantes para remunerar as pessoas que querem sacar o dinheiro (mantendo as aparências de um fundo saudável). O problema acontece quando muita gente quer sacar o dinheiro que virtualmente tem. Aí a bolha explode.
Pelas pirâmides serem parecidas (exteriormente) com fundos de investimento, nem sempre é fácil distinguir uma coisa da outra.
Pirâmides conhecidas no Brasil: Boi Gordo (anos 80), Avestruz Master (anos 2000), Telexfree e BBOM (anos 2010).
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Nos EUA, as pirâmides também são chamadas de “esquema Ponzi”, em referência a um golpe deste tipo ocorrido nos anos 1900 por um criminoso chamado Charles Ponzi.
Dica para sair de roubadas:
  1. sempre que alguém disser que tem um investimento sem risco, com retornos acima do mercado, ganhos rápidos e fáceis, e está te oferecendo esta oportunidade, saia correndo. Se fosse mesmo uma oportunidade, ele não divulgaria.
  2. desta vez é diferente: a “oportunidade” acima sempre reaparece maquiada e remodelada.  As vezes te fazem vender um produto fajuto (como um suco de capim que emagrece). As vezes te fazem “trabalhar” (ex divulgar o produto diariamente no facebook e clicar num link inútil). Tudo para fugir um pouco da roubada clássica, e para dar às pessoas a oportunidade de se enganarem (porque, no fundo, elas sabem que algo está errado).
Essas pirâmides que “dão tanta esmola que o santo desconfia” são de certa forma simples de reconhecer. E se o esquema for mais sofisticado?
Pirâmide de Madoff
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Bernard Madoff abriu um fundo de investimentos como tantos outros, em Wall Street. Ele não prometia ganhos rápidos nem retornos milagrosos. Prometia apenas retornos estáveis. Já tinha idade avançada e prestígio no mercado, dando credibilidade ao fundo. Fazia filantropia e posava de bom moço.
Mas o fundo não era para qualquer um. Era apenas para clientes exclusivos e ricos. Por ele ser judeu, tinha contatos com o “circuito Judeu” dos EUA. Alguns de seus clientes eram: Steven Spielberg, Kevin Bacon, John Malkovich. Banco Santander e diversos outros fundos ao redor do mundo também investiam no fundo dele.
Os retornos eram em torno de 10% ao ano. Sempre estáveis, mesmo em crise. Pelo fundo ser tão exclusivo, e o método utilizado ser “secreto”, ele não detalhava sobre o tipo de operação era feito para garantir esses 10%.
Ora, veja que este retorno de 10% é:
  1. baixo demais para ficar evidente que era uma pirâmide, e
  2. acima do mercado no longo prazo, garantindo um motivo para clientes ricos entrarem no fundo.
Mas, como toda pirâmide, um dia o esquema desabou. Tiveram várias famílias arruinadas, perdendo tudo o que uma vida toda de trabalho duro conquistaram. Teve um cara que se suicidou, porque tudo o que a família tinha estava lá. Madoff e comparsas foram presos. Mas o estrago estava feito.
Epílogo
Certamente há muitos outros Bois gordos, avestruzes masters, Telexfrees, Madoffs por aí, à espreita.
Pirâmides sempre existiram e sempre existirão. A roupagem é sempre nova, mas o esquema é sempre similar.
Em esquemas como o de Madoff, é bem mais difícil reconhecer o golpe.
Uma forma de contornar isto é não investir uma porcentagem muito grande de seu capital em um fundo alternativo, por melhor que possa parecer. Controle de riscos, sempre.
Outra forma, bem mais difícil, é aprender como funciona o mercado de capitais, para você mesmo aplicar uma parte de seus investimentos.
Mas o principal é ter a noção de que somente com trabalho é que se consegue capital. Não é investindo em promessas milagrosas nem em pessoas carismáticas. Não existem atalhos.
Arnaldo Gunzi
Jan/2015

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