Thanks não tem tradução

A tradução de “Thanks” para o português é “Obrigado”.
E a tradução de “Sorry”, “Excuse me”, é “Desculpe-me”.

Mas essas palavras não tem tradução.

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Voltei do Canadá recentemente e as pessoas ali são muito polidas. Para qualquer coisa, é um “thank you”. Para esbarrões na rua, “sorry”, “excuse me”.

Esta polidez também vale no trânsito. O pedestre atravessa na faixa de pedestres, não no meio da rua. O pedestre espera o farol para pedestres ficar verde (confesso que é um tormento ficar esperando). Por outro lado, quando o pedestre pisa na faixa, o automóvel para e espera o mesmo atravessar, sem buzinar, nada.

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As regras acima valem principalmente para cidades menores (tipo Quebec City e Fredericton, que já conheci). Para Toronto, que é maiorzinha, já comecei a ver uns veículos buzinando e uns pedestres atravessando no meio da rua (seriam brasileiros?).

Engraçado que, quanto mais ao sul, a tendência é ir piorando. Nova Iorque já é um pouco pior, mas muito mais civilizado do que no Brasil.

Minha referência é a monstruosa São Paulo. É difícil fazer uma comparação direta. O Canadá tem o tamanho físico do Brasil, mas com um quinto da população. Toronto, que é uma cidade enorme para os padrões canadenses, é um quarto do tamanho de São Paulo. Se o trânsito de SP já é um caos, com gente buzinando para todo lado, pedestres atravessando a rua em qualquer ocasião possível e impossível, imagine se cada carro tivesse que esperar cada pedestre que pisasse na faixa…

 


 

Esse negócio de falar “thank you” e “sorry” toda hora viram hábito. Depois de um tempo, eu também estava falando “thank you” a torto e a direito.

Então, ocorreu algo muito estranho. No avião de volta para o  Brasil, duas aeromoças atendiam a minha fileira. Uma que falava português, e outra, que falava inglês. Quando passava a que falava inglês, eu falava “thank you” quando era servido. Quando passava a que falava português, eu não falava nada. Só fui perceber isto quando fui falar “obrigado”, mas saiu “thank you”. Daí, a conclusão de que “thank you” tem uma tradução literal, mas não tem uma tradução cultural.

Dizem que o hábito é como colocar um fiozinho de cada vez, até formar um cabo muito forte. Este é o poder do hábito.

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E, apesar de tudo isso, ainda acho que São Paulo dá de 10 a zero em Toronto, por ser muito maior, ter mais diversidade cultural, mais confusão e mais desafios.

 


 

Curiosidade 1. Na Inglaterra e na Austrália (colonização inglesa), utiliza-se a mão inglesa (a direção é no lado oposto do carro). Imaginei que no Canadá, por ser uma colônia britânica, também adotaria mão inglesa. Mas não, utilizam mão francesa. Imagino que seja por estar perto dos EUA. Os EUA, por sua vez, também foram colônia inglesa, mas como a independência se deu por força bruta, preferiram adotar a mão francesa.

 

Curiosidade 2. Este ano, o Canadá comemora 150 anos. Tinha bandeirinha em todo lugar. Mas 150 anos do que? Achei que fosse da independência. Mas não, nunca houve independência. Até hoje, o Canadá não é independente: a rainha do Canadá é a rainha da Inglaterra. Mas, na prática, a rainha não manda em nada. E os 150 anos são o aniversário da unificação das províncias canadenses num único país.

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Homenagem aos 150 anos do Canadá, na cidade de Fredericton

 

 

 

 

Plutão e a falácia narrativa

A falácia narrativa

O cérebro humano tem uma imaginação incrível, mas justamente esta capacidade de imaginar pode causar alguns “bugs”. Um deles é o de acreditar mais numa história bem contada do que na realidade…

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O planeta Plutão é o xodó dos astrônomos, o queridinho, por causa de uma história mais ou menos assim.

Nos anos 1900, o astrônomo Percival Lowell observou discrepâncias na órbita do planeta Netuno. Ele fez os cálculos e concluiu que existia um nono planeta, o planeta X, que estava interferindo na órbita de Netuno. Décadas depois, o tal planeta X foi descoberto, exatamente no local predito por Lowell. Em sua homenagem, batizaram o planeta de Plutão, que tem iniciais P e L (Percival Lowell).

 

Esta história confirmava o poder da matemática, segundo os livros didáticos.

Será?

 


 

O Rebaixamento de Plutão

Há alguns anos atrás, em 2006, o planeta Plutão foi desclassificado como um planeta de verdade. Foi rebaixado para a segunda divisão dos planetas do sistema solar, a categoria dos planetas anões.

Este fato causou uma comoção internacional. Como poderiam os cientistas, após tantos anos, tirar Plutão da série A de planetas?

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Acontece que a ciência avança com o tempo. E os astrônomos foram descobrindo mais e mais informações sobre o sistema solar.
Por exemplo, objetos como Quaoar (anunciado em 2002), Sedna (2003) e Eris (2005) têm quase o mesmo tamanho ou são até maiores do que Plutão. Descobriram o Cinturão de Kuiper, após a órbita de Netuno, que consiste em um cinturão de asteroides e que pode conter mais objetos similares a Plutão. Algumas das luas de Júpiter e Saturno são maiores do que Plutão.

 

Bom, no final das contas, o comitê da União Internacional dos Astrônomos de 2006 tinha duas opções: ou eles tiravam Plutão e ficavam com 8 planetas, ou incluíam o mesmo e ficavam com mais de 100 planetas! Os cientistas resolveram rebaixar Plutão.

 

Mas, então, tem algo errado na historinha do descobrimento de Plutão. Se este planeta é tão insignificante assim, ele não teria massa suficiente para perturbar Netuno, conforme descrito por Lowell.

E, na realidade, é isso mesmo. As estimativas iniciais de Lowell colocavam Plutão com um tamanho 12 vezes o da Terra. Medidas da massa real de Plutão, realizadas décadas seguintes, mostraram que massa real é minúscula, incapaz de perturbar Netuno.

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Mas, se não é Plutão que causa a perturbação na órbita de Netuno, o que é?

Na verdade, a perturbação que entrou no cálculo de Lowell nunca existiu. Era um erro de medida. Não foi culpa dele, mas os cálculos foram baseados numa premissa errada.

Portanto, a descoberta de Plutão foi pura coincidência. Um efeito placebo na ciência.

O rebaixamento de Plutão causou tanta comoção que, hoje em dia, alguns astrônomos defendem voltar Plutão à categoria de planeta. E, junto, também promover os outros 100 planetas da série B para a série A do campeonato de planetas. Querem virar a mesa do campeonato. Plutão é uma espécie de Fluminense planetário. Querem salvar Plutão no tapetão, no STJD espacial!

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Esta história é um exemplo do poder da imaginação humana.

Conclusão: quando for querer vender algo, tente contar uma historinha convincente junto, para aproveitar este “bug” do cérebro humano.


Leia também:
A verdade e o conto

http://csep10.phys.utk.edu/ojta_samples/course1/synthesis/perturbation/pluto-disc_tl.html

http://www.bbc.com/news/science-environment-33462184

https://www.space.com/19774-percival-lowell-biography.html

http://nineplanets.org/pluto.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Kuiper_belt

https://en.wikipedia.org/wiki/Pluto

2017: Uma Odisseia de ônibus em SP

São Paulo é uma cidade gigantesca… Mais de 12 milhões de habitantes, com 7 milhões de automóveis, fazendo deste lugar um dos maiores pesadelos do mundo em termos de trânsito: rodízio de carros, radares para todos os lados, marronzinhos multando, carros avançando uns nos outros, etc…

 

Tenho duas alternativas para ir ao escritório. De carro, demoro 40 min para percorrer 9 km de distância. De transporte público, (ônibus + metrô), 1 hora e pouco. Ou seja, mais ou menos duas horas diárias na locomoção.

 

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São Paulo é tão grande que um ônibus articulado enorme como esse lota facilmente

Prefiro a segunda alternativa, transporte público, mesmo com todos os problemas: ir de pé, às vezes num ônibus lotado. Mas não uso transporte público por motivos altruísticos. Não é para salvar o planeta, nem para preservar o meio-ambiente. Uso o ônibus para otimizar o meu tempo.

 


 

O tempo do trajeto é o único momento do dia em que posso me concentrar totalmente, sem interrupções, sem compromisso, sem stress – em casa, tenho três filhas, e, no ambiente de trabalho, há sempre uma quantidade imensa de tensão e distrações.

No trecho do metrô, posso ler, e no trecho do ônibus, costumo ouvir áudio-livros. Ou simplesmente pensar, sobre qualquer assunto, sobre qualquer coisa. Ao invés de perder 80 minutos brigando no trânsito, ganho 120 minutos diários de tempo para ler, estudar e viajar pelos mais diversos assuntos:

– Ulisses, na Odisseia, enfrentou um dilema. Ele estava na ilha da deusa Calipso há sete anos. Um dia, ele quis partir, voltar para a sua Ítaca.

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Odisseus e Calipso

 

Calipso, que estava perdidamente apaixonada, ofereceu a Ulisses a imortalidade: viver eternamente com 30 anos, no mundo dela, cheio de fartura e prazeres. Ulisses preferiu voltar para Ítaca. Preferiu viver com Penélope os poucos anos que um mortal pode viver, e por isso mesmo, desfrutar de cada momento como se fosse o último.

– Um grupo de colonos nórdicos chegou às Américas no ano 1000. Eles chamaram o lugar de Vinland, porque havia histórias de que os vinhedos cresciam por todo lado nesta terra. Foram liderados por Erik, o vermelho. Mas, de vinho doce eles encontraram nada. Enfrentaram a oposição dos índios nativos e a colônia não durou muitos anos.

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Só tecnologia para cruzar os oceanos não bastava. Para haver a era dos conquistadores, 500 anos depois, tinha que ter estrutura política, social e econômica: apoio governamental, exércitos, missionários, financiamento econômico via diluição dos riscos (empreendimentos como a Companhia das Índias Ocidentais deram origem à bolsa de valores).

 

– O filósofo grego Sócrates foi condenado à morte por influenciar negativamente os jovens de Atenas.

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O julgamento de Sócrates

Ele encarou a condenação de peito aberto. Se questionar e pensar eram ofícios tão negativos assim, ele assumia que era isso mesmo que ele fazia. Sócrates não hesitou em tomar cicuta, um tipo de veneno.

 

– Uma das histórias mais bonitas de Neil Gaiman é chamada Ramadã. É sobre a maior e mais bela cidade que já existiu, Bagdá. A Bagdá das histórias das 1001 noites, dos palácios encantados, dos tapetes voadores. A Bagdá das belas dançarinas, dos mercados exóticos, dos viajantes de todos os lugares do mundo.

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Pois bem, o seu califa, Rahoun Al Raschid, estava preocupado. Bagdá era tão perfeita, e estava num momento tão bom, que ele sabia que este momento não duraria para sempre. Desceu até uma sala, onde havia dois ovos da Fênix: um branco, que geraria outra Fênix, e um preto, da qual ninguém sabia o que viria. Chamou Sandman, o senhor dos sonhos, e fez um acordo com ele: “concedeu” Bagdá a Sandman. Bagdá foi imortalizada no mundo das histórias, no mundo dos sonhos. Foi uma sábia decisão. Hoje em dia, não há mais Bagdá, e sim, o Iraque em seu lugar.

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Os dois ovos da Fênix

– Einstein e Godel passavam horas caminhando e conversando, no tempo em que os dois trabalhavam em Princeton. Albert Einstein, todos sabem, abalou os alicerces da física newtoniana. Kurt Godel era um lógico matemático, que provou que a Matemática não consegue se livrar de paradoxos (ex. o mentiroso diz “Estou mentindo”), e portanto, não é completa e consistente ao mesmo tempo: em suma, ele abalou os alicerces da matemática. As duas ciências mais exatas da humanidade tiveram as fundações questionadas por esses dois homens.

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Kurt Godel e Albert Einstein

Qual seria o nível da conversa matinal dos dois? Gostaria de ser uma mosquinha, para acompanhar.

– Um soldado japonês chamado Hiroo Onoda continuou lutando, mesmo após 25 anos depois do fim da Segunda Grande Guerra. Ele foi designado para defender uma das incontáveis ilhas do Pacífico. Os EUA nem deram bola para esta ilha, passaram direto. Quando chegaram as primeiras notícias de que o Japão tinha se rendido, alguns dos colegas de Onoda se entregaram, outros acharam que era uma emboscada americana. Com o passar dos anos, os colegas ou desertaram ou morreram.

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Onoda continou sozinho na floresta, vivendo escondido em buracos e sobrevivendo do que tinha. Ele só se entregou após o seu comandante, o mesmo que o designara para a ilha, ordenar que ele se rendesse.

 

– Steve Jobs era tão perfeccionista que vivia numa mansão praticamente vazia, porque só comprava móveis cujo design o agradava. Ele perdia semanas exigindo um design perfeito de seus produtos, desde a caixa que embalava até o mais minúsculo detalhe. “O botão do novo Mac ficou tão bonito que dá vontade de lamber”.

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– Redes Neurais Adversárias são uma das maiores inovações dos tempos atuais. A ideia das redes é uma vencer a outra: uma rede neural especializada em reconhecer letras em imagens, contra outra rede especializada em criar letras difíceis de serem reconhecidas pela primeira. Assim como na vida real, ter um adversário à altura e com objetivos opostos faz ambos crescerem mais do que seriam capazes sozinhos. Um Barcelona não seria o mesmo sem um Real Madrid.

– O filme 2001, de Stanley Kubrick, inspira o nome deste post. Este começa na pré-história, no alvorecer do ser humano, e termina no futuro das viagens espaciais. De tempos em tempos, um monolito preto misterioso aparece para a humanidade.

Monolito e alinhamento solar

A cada monolito, ocorre uma evolução. Foram apresentados aqui alguns dos monolitos que coletei durante a Odisseia do transporte em SP…

 

Trilha sonora: “A valsa das estrelas”.

É do caos que nasce uma estrela

“Sou um discípulo do profeta Dionísio” – Friedrich Nietzsche

 

Recomendações da TI sobre estrutura de dados: quanto mais estruturado, limpo e padronizado, melhor. Aumenta a produtividade, aumenta a organização. Menor será o retrabalho, menor será a confusão com dados. Planilhas em Excel são a pior coisa do mundo, porque o usuário vai criar colunas, inserir linhas vazias, mudar o cabeçalho: vai dar tudo errado.
 
Parece perfeito.

 

Mas, também como discípulo do profeta Dionísio, digo que NÃO.
     

  • Quanto mais caótico o banco de dados, melhor.
  • Quanto mais sujo, melhor.
  • Quanto mais o usuário bagunçar, melhor.

 


Apolo x Dionísio

 

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche tinha a notável capacidade de aliar ideias filosóficas com um estilo poético. Uma de suas metáforas mais conhecidas é o contraste entre os deuses gregos Apolo e Dionísio.

 

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Apolo é o deus do Sol, da Harmonia, da Medicina. Ele representa a Ordem: o deus bonito, alto, forte, simétrico, organizado. É o deus das artes, dando formas precisas às esculturas, colocando ordem no caos.

 

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Tela: o triunfo de Baco

 
Dionísio é o deus do vinho. Representa o Caos. Baixinho, gordo, feio, bêbado, torto, tudo de ruim. Representa a êxtase, embriaguez. Nascido da fome e da dor, renasce a cada primavera e espalha alegria por onde passa.

 


Ordem x Caos

 

Parece bom ter ordem ao invés do caos. Mas o fato é que podemos ordenar apenas um pedaço muito pequeno do mundo. O universo, infinitamente maior, nunca será conhecido pelo ser humano.

 

Imagino os dois deuses como dois braços: um braço do caos e outro da ordem, se complementando. Devemos ordenar o mundo tendo a humildade de reconhecer que há premissas que sempre estarão fora de qualquer modelo.

 

Tenho um lado apolônio muito forte, pela minha formação em engenharia, olimpíada de matemática, etc. Mas também tenho um lado dionisíaco muito forte, o que me leva ser muito cético com tudo o que quer organizar demais, otimizar demais, dando pouca margem a imprevistos.
 


Por que gosto de estruturas de dados caóticas?

 

Trabalho bastante com inovação, no sentido de criar novas ferramentas, novos processos, novas ideias.
 
Quando trabalhamos com um novo projeto, o cliente não tem a mínima ideia do que quer. Ele sabe apenas o sintoma (digamos, os analistas perdem tempo demais para gerar o relatório), e assume que sabe a solução (gerar um relatório automaticamente).

 

Mas qual o problema real? Ninguém sabe, este deve ser descoberto.

 

Às vezes, ele nem precisa do relatório que ele achava que precisava. De qualquer forma, em 100% dos casos, não adianta estruturar bases de dados para tentar resolver com eficiência o problema errado.

 

Como diria Peter Drucker:

 

Não há desperdício maior do que resolver com grande eficiência um problema que não precisava ter sido resolvido.

 

A recomendação das bases de dados estruturadas serve somente para processos maduros, já estabelecidos e que vão mudar pouco.

 

Para inovações, quanto mais protótipos, melhor. Quanto mais quick-wins, simples,  rápidos, flexíveis e portanto, caóticos, melhor. Quanto mais excel sujo, melhor. Quanto mais o usuário bagunçar, melhor.

 

Nenhuma nova música surge da ordem. Nenhum novo quadro surge da ordem. Nenhuma nova ideia surge da ordem. Somente do caos.

 

“É do caos que nasce uma estrela” – Friedrich Nietzsche

 
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As pessoas no primeiro mundo são muito frias

 As pessoas no primeiro mundo são muito frias: “o meu serviço é este, neste escopo, neste prazo, nesta qualidade, neste custo. Se quiser leva, se  não quiser, não leva”.
A gente é bem mais quente: “prometo dar um jeitinho de fazer tudo  o que você pede, no prazo que pede, e ainda dar um desconto” (mas não vou cumprir o prometido).

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Num país de primeiro mundo, o fornecedor diz que vai levar um mês, sem “jeitinho” nenhum. E ele vai demorar o mês que disse que ia levar.
 
Aqui no Brasil, o fornecedor promete dar um jeito para fazer em uma semana. Ele atrasa uma, tem que ser cobrado, depois atrasa mais outra, é cobrado de novo, até que realmente entrega, um mês após o acordo, custando mais do que o combinado.
 
 
Temos a ilusão de que no Brasil as pessoas são mais atenciosas, mais “quentes”, enquanto num país desenvolvido as pessoas são distantes, “frias”. Mas gastamos o triplo da energia e erramos em três vezes o planejamento, por conta de sermos tão  “atenciosos”.
 
Atrasar e fazer pela metade é comum no Brasil, não é pecado. Pecado mesmo é falar na cara do cliente que não dá para cumprir o prazo que ele quer, e fornecer o prazo real.
 
O que eu prefiro? Prefiro a postura do primeiro mundo, sem jeitinho, ao seu tempo e custo.
 
Mas a realidade não é tão simples. Não dá para nadar contra a correnteza. Temos que jogar o jogo de acordo com as regras. Portanto, no Brasil, é difícil não fazer o mesmo: prometer datas impossíveis, sabendo que vai atrasar, que vai ficar pela metade, e que no final das contas, a qualidade será pior, o custo será maior, e o prazo vai pior do que seria sem o “jeitinho brasileiro”.
 
É uma questão de perspectiva.

Um sujeito anormal procurando um número interessante

Após tirar esta foto, do prédio escrito “normal”, o sujeito anormal da foto – eu – lembrou-se de um paradoxo “interessante”.

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Suponha que eu liste os números naturais em ordem:

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4

Agora vamos dizer algum fato interessante sobre cada um dos números:

  • 1 É o primeiro número de todos, é divisor de todos os outros
  • 2 É o primeiro e único número primo par
  • 3 É o primeiro primo ímpar
  • 4 É o primeiro quadrado perfeito

Digamos que os números que têm alguma propriedade interessante sejam chamados de números “interessantes”.
E os números que não são interessantes sejam os números “normais”.

Utilizando esta definição, a lista ficaria assim:

  • 1 É um número interessante
  • 2 É um número interessante
  • 3 É um número interessante
  • 4 É um número interessante

É uma lista que parece possível de fazer.

Agora, suponha que o número x seja o primeiro número “normal” da lista.

  • 1 É um número interessante
  • 2 É um número interessante
  • 3 É um número interessante
  • 4 É um número interessante
  • x É um número normal

Mas, se x é o primeiro número “normal”, ele é um número “interessante”, porque ele tem uma propriedade interessante: a de ser o primeiro número “normal”.

Por outro lado, se considerarmos x um número “interessante” por ter a propriedade de ser o primeiro número “normal”, ele deixa de ser um número “normal” e passa a ser “interessante”, assim perdendo a propriedade de ser o primeiro “normal” e deixando de ser “interessante”…

Que confusão! Não é “interessante”?


Para falar algo interessante, este problema tem o nome de “Paradoxo dos números de Richard”, descrito pelo matemático Jules Richard em 1905.

Este link (https://en.wikipedia.org/wiki/Richard%27s_paradox) conta mais detalhes sobre o paradoxo de Richard, mas de forma menos interessante do que neste espaço.

Um outro paradoxo semelhante é o “Paradoxo do mentiroso”. Um homem que só conta mentiras diz “Estou mentindo”. Porém, como ele só mente, ele estará dizendo a verdade nesta afirmação. Mas se ele falar a verdade, ele não é alguém que só conta mentiras.

Esses paradoxos “bugam” não só a cabeça de um ser humano comum, mas também a cabeça dos maiores matemáticos da história.


O matemático austríaco Kurt Godel abalou as fundações de toda a matemática, em 1931, ao provar que a matemática não pode ao mesmo tempo ser Completa e Consistente, com seus Teoremas da Incompletude. Ou seja, a matemática tem limites. Godel encontrou um “bug” nas fundações da matemática – ela não consegue ao mesmo tempo se livrar desses paradoxos bizarros e responder Verdadeiro ou Falso a todas as suas proposições. Godel utilizou um versão sofisticada do Paradoxo de Richard para provar isto.

É uma longa história, que envolve gigantes do pensamento como David Hilbert e Bertrand Russell, e esta história fica para outro dia.

A propósito, eu acho que o autor do jogo de luzes do prédio escreveu “normal” de uma  forma “interessante” só para o prédio não ser mais “normal” e assim confundir a nossa cabeça…

 

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Ser sério e parecer sério

Já viajei a trabalho para diversos locais do Brasil, incluindo Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e outros. E no exterior também, Austrália, Omã, Canadá.

Em alguns desses lugares fiquei em hotéis muito simples. Em outros, em hotéis bastante luxuosos, daqueles em que eu não iria se fosse por conta própria. Muitas das vezes, estavam hospedados no mesmo hotel  clientes, fornecedores e colegas. 

A única característica comum a todas essas viagens é que nunca utilizei a piscina do hotel.

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Mesmo quando tinha tempo livre, ou à noite, nunca utilizei a piscina – nem me embebedei, nem fui fazer turismo, nenhum exagero. Em geral, não gosto de juntar diversão com trabalho, por mais que a influência no resultado final seja zero.

 

Não quer dizer que todos devem ser assim. Faz parte da minha postura.

As aparências importam. A capa do livro é tão importante quanto o conteúdo.

A postura que tenho: além de ser sério, parecer sério. E a piscina fica para o fim de semana…

 

 

 

 

 

 

 

 

Nunca mais erre uma fórmula: análise dimensional, álgebra e ideogramas

​Análise Dimensional

Um peso mexicano vale 0,17 real. Comprei 1.300 pesos. Quanto gastei em reais?

Há muito tempo atrás, eu me perguntava: a conta seria 1300*0,17 ou 1300/0,17?
A “análise dimensional” resolve facilmente esta dúvida.
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Peso corta com peso, sobrando real.
Se eu fizesse a conta oposta:

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O resultado é na unidade peso^2 / reais. Esta unidade não faz o menor sentido, então a fórmula está errada.
A análise dimensional consiste em fazer a conta algébrica com as unidades de medida, “cortando” e multiplicando as unidades.

Conheço esta técnica há tanto tempo que achei que todos a soubessem. Mas, descobri o oposto: a maioria das pessoas não conhece a análise dimensional. É uma técnica tão boa que não posso deixar de divulgá-la neste espaço.

Outro exemplo:

Tenho 20 m2 de área. Em um metro quadrado cabem em média 70 kg de uma material, digamos café. Cada quilo encolhe 10%, por conta de evaporação de água. Vendo o café por R$ 300 o saco de 5 Kg. Quanto será a receita esperada para a minha área?

Pela análise dimensional, é só montar a equação de forma a fazer todos os intermediários se cortarem:

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Álgebra x Aritmética
Qual a diferença entre Álgebra e Aritmética?
Em álgebra a gente faz a conta com letras, ou seja, de forma genérica: ax^2+bx+c = y

Em aritmética, a conta é numérica: 5*7^2 + 8*7-10 = 291.

Portanto, a aritmética estuda as regrinhas com as quais a gente faz as contas, enquanto a álgebra trata regras mais abstratas.


Algebrizando ideias não algébricas

Aproveitando o post algébrico, que tal inventar umas fórmulas?

Digamos que felicidade seja diretamente proporcional à saúde e à harmonia e inversamente proporcional ao stress.

Poderíamos escrever

Felicidade = saúde * harmonia – stress

Ou

Felicidade = saúde * harmonia /stress

Ou

Felicidade = saúde + harmonia – stress

Ou alguma outra combinação dessas. Qual a fórmula que melhor descreve a relação entre variáveis?

Quando usamos “vezes”, é como se fosse um conectivo lógico “e”. Se um dos campos zera, o resultado final é zero.

Com zero saúde minha felicidade cai a zero, não há harmonia que compense, e vice-versa.
Já quando usamos “mais”, as coisas se somam, e o excesso de um compensa o outro – equivale ao conector lógico “ou”.

Se a felicidade da saúde e harmonia for menor do que a infelicidade causada pelo stress, ainda assim estou um pouco feliz.

Portanto, por este raciocínio, a fórmula seria:

Felicidade = saúde * harmonia – stress

Isto é apenas um exercício de interpretação de fórmulas, mas note que felicidade é independente de dinheiro.


Bom em chinês

O ideograma (hanzi) chinês para “bom” é quase uma fórmula. É um ideograma formado por outros hanzi: o de mulher e de filho. Bom é ser casado e ter família.

 

Sábias palavras…

Gigantes não reconhecidos

Conheci uma pessoa que não parava de vociferar, “Se a empresa investisse em mim, eu me dedicaria mais”, “Um minuto que fico a mais é um minuto não remunerado”, “por que eu tenho que tirar do meu bolso para estudar, e não a empresa pagar?” e coisas do tipo. Talvez ele se achasse um “gigante não reconhecido”.
 

Ora, por que a empresa investiria um centavo nesse sujeito? Fosse eu o responsável por alocar um investimento escasso, este seria para aquele que se destacasse mais, e não para quem reclamasse mais.
A minha visão de realidade é diametralmente oposta. Citando Napoleon Hill,
 
“Se você nunca faz além do que lhe é pedido, nunca receberá um tostão além do que foi combinado”.

 

E há tantas pessoas que fizeram muito mais do que o pedido! Alguns dos grandes trabalhos da humanidade sequer foram remunerados ou reconhecidos! Há tantos exemplos, que é fácil escolher alguns.
 


O pintor Vincent Van Gogh (cujos quadros ilustram a figura de capa deste blog) vendeu um único quadro durante a sua vida. Morreu achando-se um pintor fracassado. Hoje qualquer obra dele sua vale milhões, mas ninguém ofereceu milhões para que ele fizesse a sua obra.

 

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Quando os livros do grande Friedrich Nietzsche foram reconhecidas como geniais, ele já estava mentalmente insano. Ele mesmo já tinha escrito: “algumas pessoas já nascem póstumas”, “minhas obras são para todos e para ninguém”.

 

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J. R. Tolkien, das mega obras O Senhor dos Anéis e O Hobbit, sequer publicou tais livros em vida. Ele viveu a sua vida como alguém normal. Os manuscritos foram editadas e publicadas por um de seus filhos, após a sua morte.

 

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Ignaz Semmelweis, médico alemão, percebeu em 1847 que uma medida muito simples, lavar as mãos, poderia salvar milhares de vidas. Os médicos da época não tinham o costume de lavar as mãos, porque acreditavam que isto não influenciava na melhora ou piora dos pacientes. Semmelweis foi duramente criticado por todos os lados, entrou em depressão e morreu antes de ter a sua teoria amplamente aceita.
 
Os Concertos de Brandenburgo são uma das séries musicais mais bonitas da humanidade, autoria de Johan Sebastian Bach, em 1718.

 

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Naquela época, como hoje e sempre, conseguir um bom emprego era uma tarefa difícil, então Bach fazia as obras em homenagem a uma pessoa influente, na tentativa de colher algum dividendo com isso. No caso, em homenagem a um certo Comandante de Brandenburgo, que nem sequer agradeceu – as obras foram engavetadas e esquecidas.

 

A gente acha que uma pessoa como Bach era alguém super conceituado, com uma orquestra sinfônica de alto nível do seu lado. Mas não, ele era um mestre de capela, fazia música com o que tinha – e isto não o impediu de criar algumas das melodias mais harmônicas do universo.
 
Para fechar uma curiosidade: A série “The Great Courses” engloba algumas das melhores aulas do mundo, sobre assuntos tão diversos como história e economia. Todas as aulas do curso começam com 30 segundos do Concerto de Branderburgo número 2, reproduzido abaixo, como a trilha sonora deste post.
 
 

Óbvio à posteriori, Fácil à posteriori, Eficaz à posteriori

Peter Drucker, o pai da administração moderna, era conhecido por seus insights. Por exemplo:

“O que não pode ser medido não pode ser gerenciado”

“Uma organização existe para um consumidor”

“Não há nada mais inútil do que fazer com grande eficiência algo que não deveria ser feito”

Algumas pessoas diziam que seus insights eram óbvios. À esta questão, ele afirmava: “Se é tão óbvio, porque nunca ninguém disse isso antes?”

E Drucker tem razão. Muitas conclusões são óbvias, mas somente à posteriori.

Uma vez, fiz um belo estudo, em que concluía que a falta de equipamentos do pátio causou um efeito em cadeia, engargalando o pátio em tamanho, em seguida impactando o número de veículos e, por fim, um segundo pátio. O modelo meio que testou várias combinações possíveis de efeitos causais. A explicação final do modelo encaixava certinho no comportamento histórico. E era tão óbvio! Tão óbvio que ninguém questionou o encadeamento lógico das coisas. Tão óbvio que alguns falaram que já sabiam que era isso mesmo. Mas, se sabiam, porque foi preciso um estudo tão grande para afirmar o óbvio?

A conclusão é que nada é óbvio. Mesmo o mais óbvio dos óbvios somente é óbvio à posteriori. Somente é óbvio depois de tirar toda a neblina da frente e ficar com o essencial. Somente é óbvio a posteriori.

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Fácil de falar x Difícil de fazer

Outra dicotomia: é muito fácil falar, mas extremamente difícil fazer.

É fácil falar, em linhas gerais, alguma coisa bonita, que se encaixe no nosso modelo do que é certo fazer.

Em inglês, a expressão é “Talk is cheap” – “Falar é barato”. Fazer de verdade custa caro.

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Na mesma linha, dizia o grande escritor Napoleon Hill que “A opinião dos outros é a commodity mais barata que existe”. E é mesmo. Todo mundo tem opinião para qualquer assunto. O ser humano é uma máquina de falar abobrinha. Uma metralhadora de besteiras. Fazer, que é bom, nada.

Prefiro um quilo de ação do que uma tonelada de conversa.

Para fechar, uma história, de um famoso monge budista, mais ou menos assim.

 

Um grande mestre budista estava em cima de uma árvore, meditando.

Passou um estudante, bem folgado. Ele viu o mestre em cima da árvore, e perguntou:

“Velhinho, tome cuidado para não cair da árvore”

O mestre arguiu:

“Quem deveria tomar cuidado é você, levando esta sua vida sem sentido”

Após tomar essa invertida, o estudante percebeu que o mestre não era qualquer um. Perguntou:

“Velhinho, você pode resumir o ensinamento em algumas palavras?”

O mestre respondeu: “Sim. Nós devemos fazer o bem, e deixar de fazer o mal”.

Estudante: “Só isso? Uma criança de três anos entende isso”.

Mestre: “Uma criança de três anos entende isso. Mas um velhinho, mesmo após 80 anos de meditação, não consegue fazer”.

 

Veja também:

Peter Drucker em 40 frases

Um quilo de ação

​ Três táxis em duas cidades

Hoje tomei três táxis (ou uber) em duas cidades diferentes.
 

Com dois dos três motoristas, eu informei a minha localização, o destino desejado, e chamei o carro. Disse “Bom dia” ao motorista e só.

 

O motorista apenas seguiu a indicação do Waze, Gmaps ou equivalente. Chegamos sem maiores problemas e nem precisei desembolsar dinheiro, pois foi no cartão de crédito.

 

O motorista não precisou saber o destino. Não precisou traçar o melhor caminho. Não precisou nem conversar comigo. Ele foi apenas um autômato humano conduzindo o carro. Tal situação era impensável, há alguns poucos anos.

 

Lamento informar que, em poucas décadas, nem isso ele precisará fazer. Com muita probabilidade, os carros autônomos farão este papel.

 

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O terceiro motorista também começou com um “Bom dia”. Mas este não usou GPS. Disse que o caminho normal tinha muito trânsito, e foi por um alternativo. Deu uma volta imensa, maior do que o necessário. Talvez tivesse sido por ignorância do melhor caminho. Talvez má fé. Mas, de qualquer forma, tenho convicção de que ele “perderia” para o Waze, ou seja, inteligência humana perdendo para algoritmos computacionais.

 


Como ficarão os empregos do futuro? Hoje, há uma quantidade gigantesca de pessoas trabalhando com transporte de pessoas e de cargas, mas os tempos estão mudando.

 

Há uma quantidade maior ainda de pessoas trabalhando em empregos de escritório que são rotineiros, e portanto, passíveis de serem substituídos por algo minimamente (ou artificialmente) inteligente.

 

Tudo o que é puramente mecânico, como apertar parafusos, já foi substituído por máquinas. Agora, tudo o que é rotineiro, repetitivo, e envolve pouca decisão humana tende a ser substituído por softwares.

 

Há uma série de economistas, como George Zarkadakis e Tyler Cowen, que apontam para um aumento da desigualdade econômica. No futuro, cada vez menos pessoas terão capacidade de fazer o seu salário valer o valor adicionado ao produto ou serviço. Os poucos que conseguirem serão tremendamente mais produtivos que hoje. E haverá uma massa cada vez maior de “perdedores” deste jogo, que terão que se contentar em empregos em serviços (cabeleireiro, jardineiro, padeiro), que são muito difíceis para uma máquina e também são economicamente inviáveis de serem substituídos.

 

Bom, ninguém sabe exatamente como vai ser o futuro, mas podemos nos precaver de cenários possíveis.

 

As máquinas (ainda) não conseguem substituir a criatividade e a eficácia. Alguém precisa dizer a elas o que deve ser feito, e como ser feito, para que elas simplesmente façam com eficiência. As máquinas são mais eficientes do que o ser humano em fazer  muito bem a mesma coisa. Mas os seres humanos são e serão, por um bom tempo, mais eficazes.

 

E como ser mais eficaz? Estudando muito, trabalhando muito (e com qualidade), buscando aperfeiçoamento contínuo, questionando tudo, lendo os artigos deste blog – não há uma fórmula perfeita.

 

Quem sabe, daqui a uns 15 anos, eu entre num táxi, com uma identificação via smartphone, com a rota escolhida pelo Waze. E eu nem precise mais falar “Bom dia”…

 


Trilha sonora: Bob Dylan, “Os tempos estão mudando” – “The times they’re a-changing”.

O velho homem voador

O texto “O novo homem voador” recebeu alguns bons elogios.

Escrevi um texto semelhante, porém muito mais simples, há uns 15 anos atrás. Na época, eu estava me desatando de algumas amarras – e me atando a outras – e me imaginei como seria alguém totalmente livre. Provavelmente poderia voar, de tão livre que seria. Então, do alto, veria que todas as pessoas estão presas por amarras.

Recentemente pensei em reescrever a história após ler uma frase de Nietzsche.

O pensador alemão Friedrich Nietzsche tem um estilo poético, aliado a ideias demolidoras, o que o faz ter citações memoráveis.
Não consigo reproduzir o estilo poético, mas ele disse algo mais ou menos assim.

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Na nossa vida, temos que atravessar um rio. Na beira do rio, há a oferta de várias barcaças e várias pontes guardadas por semi-deuses. Mas o preço da passagem é a sua alma.

A conclusão de Nietzsche. Não siga por ponte alguma. Você é responsável por construir a sua própria ponte.

Para fechar, um comentário espontâneo do meu amigo Diego Piva, ao ouvir esta história: “Mas atravessar o rio, no braço, também é osso, hein”. Pura verdade…