A artificial inteligência artificial

A história da inteligência artificial tem alguns marcos importantes. Um deles é em 1996, quando o computador “Deep Blue” da IBM venceu o grande campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos.

https://blogs-images.forbes.com/davidewalt/files/2011/05/garry-kasparov-deep-blue-ibm.jpg?width=960

Mas, há tempos, a inteligência artificial fascina os seres humanos. Seremos sobrepujados por máquinas e algoritmos? A skynet vai nos dominar? As leis da robótica de Asimov serão suficientes para nos proteger?

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O Deep Blue não foi a primeira tentativa de criar uma IA de xadrez. Há outro marco histórico, de mais de 200 anos atrás: o Turco Mecânico.

 


 

O Turco Mecânico

O Turco Mecânico é um dispositivo automático para jogar xadrez, inventado em 1770 pelo húngaro Wolfgang von Kempelen. É um Deep Blue mecânico.

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O Turco Mecânico fez vários tours pela Europa, derrotando vários jogadores (humanos) experientes e performando outros malabarismos enxadrísticos, como o “tour do cavalo” – percorrer todas as casas do tabuleiro com um cavalo, sem repetir posição. Durou mais de 80 anos.

Realmente, impressiona ver o interior do dispositivo.

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O único problema é que a inteligência artificial era fake, de mentirinha. Esta tinha na realidade uma pessoa, habilidosa em xadrez, escondida no interior do equipamento. Era uma inteligência artificial artificial. Era tipo um truque de mágica, um ilusionismo barato.

https://blog.beeminder.com/wp-content/uploads/2016/12/mturk-s.jpg

 


O Turco Mecânico da Amazon

Duzentos anos depois, e inspirado pelo turco mecânico original, a Amazon criou um serviço chamado Amazon Mechanical Turk (doravante AMT).

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A ideia é focar em problemas difíceis de serem resolvidos por computadores, como transcrever discursos, reconhecer caracteres ambíguos, encontrar humanos em vídeos, reconhecer letra de médico em receitas…

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A AMT divide esses problemas em pedacinhos e disponibiliza cada pedacinho ao mercado (pessoas comuns como nós). Essas pessoas gastam o seu tempo, digamos alguns minutos, para ler o problema, resolver e enviar o resultado para a AMT.

Desta forma, é bom para quem quer a análise humana do trabalho, e para as pessoas, que podem trabalhar de qualquer lugar do mundo, em horas vagas, e receber uma fração de dólares pelo trabalho (não espere que seja um trabalho bem remunerado).

Para minimizar erros, imagino que a AMT faça o trabalho com redundância, digamos mande o mesmo pedacinho de trabalho para duas ou três pessoas confirmarem. E também, imagino que a AMT premie os humanos que trabalham consistentemente bem, e expulse quem performa mal.

Note que o AMT é uma fonte poderosa para treinamento de uma inteligência artificial de verdade.

https://s3.amazonaws.com/re-work-production/post_images/120/grid_render_tsne_reduced/original.jpg?1448643307

Uma rede neural para reconhecer objetos em imagens, precisa de:

  •  Um banco de dados imenso, digamos 10 milhões de imagens
  • Classificação correta das imagens deste banco de dados: isto é um gatinho, isto é um carro, etc

 

Rotular 10 milhões de imagens é um processo chato, lento e caro. Mas isto vai ajudar a melhorar os sistema de reconhecimento futuros.

Da mesma forma, a transcrição de linguagem falada vai ajudar a treinar a IA que vai fazer isto automaticamente no futuro.

Os turcos mecânicos do mundo de hoje ajudam nisto, a criar as bases de dados para possibilitar os deep blues de amanhã.


Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Turk

https://www.mturk.com/mturk/welcome

 

 

O seu Raul entende muito de economia

O seu Raul é um tiozinho que vende pacotes de amendoim na saída de uma das fábricas em que trabalho.

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O preço do pacotinho permaneceu em R$ 2,50 por um bom tempo, até que, um dia, ele aumentou para R$ 3,50.

– O que houve, seu Raul?
– É a inflação, meu filho. É a inflação.

Na semana seguinte, o preço caiu para R$ 3,00.

– O que houve, seu Raul?
– Eu não estava vendendo nada. É o livre-mercado, meu filho. O mercado.

Tenho certeza que o seu Raul entende muito mais de economia do que muito economista formado!

 

“I é letra de índio que todos julgam iletrado, mas índio é mais sabido do que muito doutor formado” – Mário Quintana.

Elogio ao ócio

algo de podre nos valores do mundo atual. Elogiamos aqueles que trabalham muito, fazem horas acima do combinado e usam fins de semana para se preocupar com o que ocorre na semana.

O teletrabalho só levou a preocupação para casa. Ao invés do pensamento idealizado de que era possível trabalhar na praia, a realidade é que, mesmo de férias na praia, o trabalho vem a tiracolo.

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Não raro, surgem problemas atrelados a este comportamento: estresse, remédios para dormir de noite, estimulantes para não dormir durante o dia, doenças físicas e mentais.

O ser humano original, da época do neandertal, foi feito para liberar adrenalina em casos esparsos: ao caçar a sua comida, para ele mesmo não virar comida, e para fins sexuais. O neandertal não ficava alerta 24h por dia, atormentado infinitamente.

Vem à cabeça a imagem de Íxion, condenado pelos deuses gregos a ficar eternamente girando, preso à uma roda em chamas:

ixion

E, por outro lado, estamos num país com 13 milhões de desempregados. Tal número seria muito maior se o índice de desemprego levasse em conta aqueles que desistiram de procurar trabalho formal.

Com o aumento da tecnologia e da produtividade, é possível produzir mais com menos. Com o aumento de produtividade, esperava-se que sobrasse mais tempo para todos, como no antigo desenho dos Jetson, em que o trabalho dele era apertar um botão e ficar olhando.

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O tiro saiu pela culatra. Com o aumento da produtividade, aumentou a responsabilidade de quem toma conta do processo. E o efeito foi tirar do mercado quem não acompanhou a mudança.

Ou o fulano trabalha demais ou não tem emprego.

Será possível chegar num meio termo?

 


 

O trabalho é uma virtude supervalorizada

Um artigo de 1935, “Elogio ao ócio”, do filósofo e matemático Bertrand Russell, traz um questionamento sobre o tema.

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Suponha uma fábrica de alfinetes, que tinha 8 funcionários full-time. Digamos que o aumento de produtividade faz com que sejam necessário apenas 4 para fazer o mesmo serviço. Ao invés de os 8 funcionários trabalharem meio-período, o que acontece é que 4 trabalham full-time, e 4 ficam fora da indústria de alfinetes. Esta é a “Moralidade do estado escravo”.

 

Russell aponta que o lazer é essencial para a civilização. Em tempos antigos o lazer de poucos era possível devido ao trabalho de muitos. Mas o labor era valioso, não porque trabalhar é bom, mas porque o lazer é bom.

Deveríamos aprender a aceitar um lugar para o prazer em nossas vidas, o que somente é possível com tempo livre. E deveríamos gastar mais tempo em educação, num sentido geral: utilizar o tempo de forma construtiva.

Historicamente, a pequena classe que tinha tempo ocioso desfrutou de vantagens injustas, entretanto esta pequena classe contribuiu com quase tudo o que chamamos de civilização. Ela cultivou a arte e as ciências, escreveu livros, inventou as filosofias, e refinou as relações sociais.

Hoje em dia as universidades são supostamente responsáveis por produzir, de forma mais sistemática, o que a classe ociosa produzia por acidente e sub-produto. Mas as universidades têm vários problemas. Da sua torre de marfim, não estão cientes das preocupações e problemas do homem comum.

Acima de tudo, haverá felicidade e desfrutar da vida, ao invés de nervos destroçados, cansaço e indigestão. O trabalho será suficiente para fazer o lazer agradável, mas não o suficiente para causar exaustão. Uma pequena porcentagem usará este tempo para perseguir temas de interesse pessoal, e produzir trabalhos de importância pública. E isto fará as pessoas mais ternas e menos atormentadas. A vida boa é resultado de facilidade e segurança, não de esforço árduo.

Deveria ser moralmente elogiável permitir que as pessoas trabalhassem 20 horas por dia, o suficiente para obter uma renda satisfatória.

 


O nativo preguiçoso

Este situação lembra a piada do Dr Livingstone e o nativo preguiçoso na rede.

O Dr. Livingstone, famoso explorador da África, uma vez encontrou um homem deitado numa rede, em pleno dia. Ele perguntou:
– Você não deveria estar trabalhando?
– Mas para que trabalhar?
– Para juntar dinheiro
– E para que dinheiro?
– Com dinheiro você pode comprar uma boa casa
– E para que uma casa?
– Você pode montar uma rede e descansar tranquilamente na sua casa, quando estiver de férias
– Mas já estou numa rede, descansando na minha casa!

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Comentário

É impressionante que o texto de 100 anos atrás de Russell continue tão atual.

Mais ou menos na mesma linha, há o livro “Ócio criativo”, do pensador italiano contemporâneo Domenico de Masi. Certamente é um livro mais citado pelo título do que lido de verdade, porque é denso e prolixo.

Certamente, ambos os trabalhos são mais ideais teóricos do que formas práticas de  colocar tais ideias em ação.

Na minha opinião, a própria natureza humana não permite que trabalhemos menos; entre dois funcionários, um que quer trabalhar 4h e outro que quer trabalhar 8h, a escolha óbvia do empregador é o segundo. Por outro lado, se é possível que eu trabalhe 20h por semana por metade do salário, ou 40h com o dobro do salário, certamente a minha escolha é a segunda.

A conclusão é de que o texto de Russell vai continuar atual por mais 100 anos. Vamos continuar neste ciclo de poucos trabalharem cada vez mais, seja no escritório ou fora dele, e outros tantos ficarem de fora deste processo. É da natureza humana buscar o máximo para si mesmo… até o ponto em que isto ficará insustentável. Alguma coisa continua errada.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Hamlet, de William Shakespeare.

 

“Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio”

“É uma cova grande pra tua carne pouca

Mas a terra dada, não se abre a boca”

João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Severina


 

Notas

O exemplo da fábrica de alfinetes é uma clara referência ao trabalho clássico de Adam Smith, “A riqueza das nações”, em que ele usa uma fábrica de alfinetes para exemplificar o ganho de produtividade devido à separação do trabalho.

 

 

Texto completo, In praise of idleness:

http://www.zpub.com/notes/idle.html

 

Conhecimento Tácito x Explícito

Para cada unidade de conhecimento explícito em livros, há 1000 unidades de conhecimento tácito, não escrito em lugar algum.

O conhecimento está nas pessoas – e pouquíssimas pessoas têm o talento, a paciência e dominam os meios para se comunicar de forma explícita, seja por texto, vídeo ou artigo.

As ideias estão no ar.  

Um erro comum é achar que as ideias explícitas inspiraram as ações efetivas. Na verdade é o contrário. Normalmente, a ação inspira o registro.

Muitos dos grandes pensadores da história são bons escribas e bons analistas.

Não foi depois que Adam Smith escreveu “A riqueza das nações”, em 1776, que as economias do mundo passaram a enfatizar o livre-mercado, a mão invisível e a divisão do trabalho. Tudo isto já estava acontecendo, e Smith foi o primeiro que analisou e registrou o mesmo.

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O mesmo ocorre com o pensador italiano Nicolau Maquiavel, nos anos 1500. Não foi ele que inventou o conceito de que “Os fins justificam os meios”. Ele era um grande estudioso e pesquisador histórico, e se baseou fortemente nos poderosos de sua época (como César Bórgia) e de épocas antigas para escrever os seus tratados políticos.

Os acadêmicos se fecham em seu mundo do conhecimento explícito, deixando para trás um universo de informações tácitas, do mundo real.

 


 

A espiral do Conhecimento

 

Gosto muito do ciclo SECI de gestão do conhecimento, de 2003, dos autores Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi. Este ciclo reflete quase exatamente as ideias acima.

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Eles dividem o conhecimento em quadrantes.

  • Tácito – Tácito: Uma pessoa ensinando outra, ou uma pessoa aprendendo com a convivência num meio. Aprendemos a falar imersos numa sociedade, e não através da leitura dos livros de gramática.
  • Tácito – Explícito: são os Adam Smiths que reportam o conhecimento tácito de forma explícita. Ou os consultores de empresa que analisam um business e geram relatórios e planos de ação. Ou os professores que escrevem os livros didáticos.
  • Explícito – Explícito: é o mundo das combinações e informação, gerando outras informações e insights. Manuais, livros, planos. O mundo acadêmico mora aqui.
  • Explícito – Tácito: é a internalização do conhecimento, estudar, ler, aprender.

 

Na verdade não é apenas um ciclo. É um ciclo virtuoso, é uma espiral – a espiral do conhecimento.

Conhecimento tácito sendo externalizado, explicitado, possibilitando a combinação de outras análises, facilitando que outras pessoas internalizem o  mesmo, gerando um conhecimento tácito melhor e mais avançado, e assim sucessivamente, e de forma crescente.

A minha contribuição é no tamanho dos quadrantes. O quadrante tácito-tácito é muito maior do que os demais. Representá-lo com a mesma área no quadro subestima o tamanho e a importância do conhecimento tácito.

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O mundo explícito-explícito é o domínio do deus Apolo,  da ordem, do conhecimento perfeito, da beleza, do rigor exato.

Já o tácito-tácito é  o domínio do profeta Dionísio, o do caos, o das combinações esparsas, da embriaguez, do bate-papo informal. É onde nasce uma supernova, parafraseando o grande Friedrich Nietzsche.  É no tácito-tácito onde realmente ocorrem as revoluções.

 Para fazer revoluções, mergulhe no mundo tácito.

 

 

 


Anexo: A biblioteca de Lucien

A biblioteca de Lucien contém todos os livros não-escritos do mundo. Todas as ideias que nunca foram para o papel, todos os sonhos que desapareceram da memória, todos os projetos engavetados.

 

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Um único detalhe: esta biblioteca existe apenas no reino dos sonhos, do personagem Sandman, de Neil Gaiman.

O loop infinito das Leis da Robótica

Nos anos 90, li pela primeira vez sobre as 3 leis da robótica no livro “Eu, Robô” de Isaac Asimov.

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Não levei o livro nem um pouco a sério, afinal era apenas ficção científica. Estávamos muito longe de ter robôs inteligentes. E o livro também tinha passagens que poderiam parecer futuristas em 1950, mas em 1995 já não eram. Por exemplo, um dos personagens tinha um taquígrafo de bolso – um taquígrafo é tipo uma máquina de escrever que permitia uma digitação super rápida. Porém, em 1995 as máquinas de escrever já estavam em seu suspiro final.

 

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Nunca imaginei que reencontraria os conceitos de Asimov, e dessa vez seriamente, mais de vinte anos depois.

E há um motivo forte para isto. A singularidade está próxima.

 


 

The end is nigh

A singularidade é o momento em que os computadores serão mais inteligentes do que nós. Este é um termo cunhado por Ray Kursweil, um pesquisador futurista. Kursweil prevê que isto deva ocorrer por volta de 2045.

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“O fim está próximo” – personagem Rorschach

 

Mas, profecias à parte, o que é relevante para nós é que está havendo um avanço tecnológico imenso. Os algoritmos estão sendo cada vez mais parte de nossas vidas.

Em um futuro não tão distante, aplicações de internet das coisas, veículos autônomos, computação avançada, inteligência artificial, robotização de processos, estarão presentes em nossas vidas. O avanço exponencial destas tecnologias é traduzido pela Lei de Moore, que diz que o poder computacional dobra a cada 18 meses, para o mesmo custo de produção.

Moore

Portanto, não precisamos atingir a singularidade para termos problemas com tal escalada tecnológica. Este futuro trará não apenas problemas técnicos, mas verdadeiros problemas éticos.


 

A ética robótica

Algumas perguntas esparsas:

  • De quem é a responsabilidade em caso de acidentes com veículos autônomos?
  • Um robô pode ferir um ser humano?
  • O que acontece se um texto, ou um chatbot, ofender um ser humano?
  • Haverá perda de autoridade humana, caso os robôs fiquem melhores do que nós no prognóstico de doenças (exemplo: médicos x autodiagnóstico no Google)?
  • Uma máquina pode mentir se for para um bem maior? E como uma máquina poderia avaliar o que é um “bem maior”?
  • Como evitar problemas afetivos com robôs? Este caso pode parecer bizarro, mas, no Japão há pessoas que se apaixonam por personagens em quadrinhos, porque não haveriam pessoas que se apaixonem por robôs?

 

A ficção científica está se encontrando com a realidade. Há alguns pesquisadores renomados, atuando no assunto “Ética robótica”. Tive a sorte de ver a palestra de um deles, o prof. Edson Prestes, da UFRGS.

O prof. Prestes faz parte de um grupo do IEEE (Instituto de engenheiros elétricos e eletrônicos), que está estudando um série de normas para guiar o desenvolvimento no assunto.

Esta é a “Iniciativa global por considerações éticas em inteligência artificial e sistemas autônomos”.

IEEE.png

É onde a filosofia encontra a tecnologia.

É onde a Eudamonia de Aristóteles (práticas que definem o bem-estar da humanidade) de 3000 anos atrás, encontra-se com alguns dos maiores engenheiros eletrônicos do mundo atual. Literalmente. Vide o print do sumário executivo do grupo.

Eudamonia.png

A ética, mesmo para humanos, é extremamente complexa, um assunto sem fim. Com a participação de robôs, e interações humano-humano, humano-robô, robô-robô, abre-se um leque inimaginável de possibilidades e dilemas éticos.

Espera-se que iniciativas como a do IEEE ajudem a humanidade a projetar um futuro em que os robôs realmente sejam parte de nosso ecossistema. Para maiores informações sobre os temas de trabalho do IEEE, vide links ao final do documento.


 

As Três Leis da Robótica

Retornando ao início, é impossível falar de ética robótica sem falar das três leis de Asimov. Coloque tal tema em discussão, e com certeza alguém vai levantar este ponto.

Asimov, no conto Runaround (algo como “correndo em círculos”) do livro “Eu, Robô”, expõe as três leis da robótica.

 

1) um robô não pode ferir um humano ou permitir, por omissão, que um humano sofra algum mal;
2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e
3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 

As 3 leis são hard-coded nos circuitos positrônicos (termo de Asimov, seja lá o que for) dos robôs, de forma que não há possibilidades deles não cumprirem tais diretrizes.

As três leis parecem muito boas. Entretanto, sendo um excelente escritor, Asimov dá um jeito de criar um situação em que as leis se contradizem. Ele cria um bug, um bug lógico.

Quem sabe programar conhece bugs lógicos. Algo como:
i := 1
while (i >0) do:
i++
i – –
print i
end

Tal programinha nunca vai parar, fica em loop infinito.

E é impossível, de antemão, saber se um programa vai ou não parar (este é o Halting Problem, provado por Alan Turing e que foi uma das pedras fundamentais para o início da computação).

 

O bug lógico de Runaroud é mais ou menos assim:
– humanos mandaram o robô (chamado Speedy) coletar selênio, essencial para a sobrevivência deles
– entretanto, o humano não colocou muita ênfase na importância da ordem
– Speedy, sendo um robô muito avançado e caro, tinha ênfase especial na lei 3 (ele mesmo sobreviver)
– o local para coleta de selênio era extremamente perigoso, quando Speedy se aproximava da fonte, ele recuava para se proteger (lei 3)
– quando ficava longe o suficiente para ficar seguro, a lei 2 (obedecer à ordem humana) tinha peso maior, e ele tentava retornar à fonte
– Speedy ficou horas nesse loop infinito, se aproximando e se afastando da fonte de selênio.

O selênio estava acabando, e os astronautas (humanos) iriam morrer. Eles foram atrás de Speedy, detectaram o problema. Como Speedy era rápido demais (daí o seu nome), eles não conseguiam alcançá-lo para dar outra ordem. Os astronautas tentaram uma solução: enfatizar a lei 3. Jogaram umas substâncias tóxicas (para o robô) no trajeto – assim tinham a esperança de quebrar o loop e fazer ele retornar à base.
Não deu certo. Speedy encontrou outro ponto de equilíbrio: ia até o local onde as substâncias tóxicas estavam, recuava, e tentava de novo, infinitamente.

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Numa tentativa desesperada, eles imaginaram uma forma de utilizar a lei 1, especialmente a parte que diz que um robô não deve permitir que um humano sofra algum mal por omissão. Esta era a última esperança, o selênio da base estava acabando e não havia mais tempo.

Teriam os astronautas se safado? Ou não?

A história original é interessante demais, e recomendo a leitura, para saber o final da história.

 


Conclusão

Fica a provocação final: mesmo estudando profundamente todo o comportamento robótico e humano, e mesmo estabelecendo regras éticas a serem seguidas rigidamente pelos robôs pós-singularidade, não haverão bugs impossíveis de serem descobertos a priori?

A lei Zero da robótica: “Um robô não pode causar mal à humanidade, ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal” – Isaac Asimov.

 

“Se o nosso cérebro fosse tão simples a ponto que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não o entenderíamos” – Lyall Watson, biólogo.

 

“Me desculpe, Dave, mas receio que não posso fazer isso” – HAL 9000, no filme 2001, uma odisseia no espaço.

 


Links

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/ficcao-cientifica/eu-robo-42747426

http://standards.ieee.org/develop/indconn/ec/autonomous_systems.html
http://www.inf.ufrgs.br/~prestes/site/Welcome.html
https://futurism.com/kurzweil-claims-that-the-singularity-will-happen-by-2045/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lançamento do Plano de Ação de Internet das Coisas

A Internet das Coisas terá certamente um efeito imenso num futuro não tão distante. Uma excelente notícia é que o Brasil tem um plano para acelerar a implementação dela. Este estudo foi liderado pelo BNDES, e se chama “Internet das Coisas – Um plano de ação para o Brasil”.

Estive no lançamento oficial do plano, na Futurecom 2017, agora em 03 de outubro de 2017.

A seguir, um breve resumo do resultado deste plano. O estudo final, que é público, pode ser acessado neste link.

https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/estudos/chamada-publica-internet-coisas/estudo-internet-das-coisas-um-plano-de-acao-para-o-brasil

 


 

O que é Internet das Coisas?

 

Se hoje temos a internet, que conecta pessoas, no futuro teremos sensores cada vez menores e baratos o suficiente para serem incorporados em qualquer dispositivo que valha a pena ser monitorado: equipamentos, veículos, locais de interesse.

Estes dispositivos estarão conectados entre si e à rede, formando uma internet bilhões de vezes maior do que a internet das pessoas. É a internet das coisas.

Segundo a União Internacional das Telecomunicações (UIT):

Internet das Coisas é uma infraestrutura global para a sociedade da informação, que habilita serviços avançados por meio da interconexão entre coisas (físicas e virtuais), com base nas tecnologias de informação e comunicação.

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Casos considerados no estudo do BNDES

Segundo Michael Porter, a IoT é “a mudança mais substancial na produção de bens desde a Segunda Revolução Industrial”.

Nota: a Revolução Industrial é o momento em que a humanidade passou a utilizar, cada vez mais, máquinas para automatizar o serviço humano. Sempre há uma tecnologia disruptiva por trás dessas revoluções:

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Há várias tentativas de mensuração do efeito da Internet das Coisas. Pela McKinsey, o ganho potencial é de 4% a 11% do PIB do planeta em 2025, o que significa 4 e 11 trilhões de dólares.

 


 

Benefícios à sociedade

Mas, somente conectar dispositivos por conectar não leva a nada. Isto tem que servir para alguma finalidade, e tem que servir preferencialmente às pessoas.

O estudo teve como guia os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Estes são uma espécie de sonhos globais. Como são muitos, destaco alguns como: cidades sustentáveis, energia limpa e acessível e educação de qualidade.

http://www.itu.int/en/sustainable-world/Pages/default.aspx

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“The United Nations’ Sustainable Development Goals (SDGs) and associated targets will stimulate action until 2030 in areas of critical importance for humanity”

O papel da Internet das coisas dentro do contexto de desenvolvimento sustentável está descrito no quadro a seguir:

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Frentes prioritárias verticais

O estudo analisou oportunidades de negócios para IoT no Brasil e no mundo por ambientes, e identificou 4 frentes prioritárias de atuação:

  • Cidades
  • Saúde
  • Rural
  • Indústria

 

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Tais frentes foram chamadas de verticais.

 


 

Frentes prioritárias horizontais

As frentes horizontais envolvem barreiras comuns a todos os ambientes verticais. Também são 4 frentes, e representam os maiores gargalos para a implementação de IoT no Brasil:

  • Capital Humano,
  • Inovação e inserção internacional,
  • Ambiente regulatório, segurança e privacidade
  • Infraestrutura de conectividade

 

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Ações

O estudo se aprofundou nas priorizações horizontais e verticais, chegando a

  • 48 iniciativas, e
  • 3 projetos mobilizadores

 

detalhados nos tópicos a seguir.

 


 

Iniciativas

 

O estudo levantou, juntamente a especialistas e representantes dos setores, cerca de 200 iniciativas. Após refinamento com BNDES e MCTIC e Câmera IoT, chegou-se a 48 iniciativas.

 

As iniciativas mapeadas serão foco de aprofundamento nos próximos 5 anos, cada qual com a sua governança e detalhamentos específicos.

As iniciativas foram divididas em três tipos: Ações estruturantes, Medidas e Elementos catalisadores.

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Por alto:

  • Ações estruturantes: alto impacto, decisões pelo alto escalão dos órgãos do estudo
  • Medidas: Médio impacto, decisões no nível gerencial
  • Elementos catalisadores: alto impacto, não estão sob a governança do projeto (ex. melhoria da educação básica)

Como são muitas iniciativas, vou colocar algumas somente para ilustrar.

 

Iniciativa A1: Estruturar 4 Redes de Inovação em Rural, Saúde, Cidades e Indústria

Iniciativa M1: Promover congressos e eventos sobre IoT nos ambientes priorizados e fomentar a discussão de IoT em conferências, congressos e fóruns de discussões já existentes dos ambientes priorizados

Iniciativa A8: Fomentar bolsas mestrado, doutorado e pós-doutorado em parceria com empresas que estejam desenvolvendo IoT

Iniciativa A17: Priorizar soluções que se valham de protocolos e interfaces de comunicação padronizados por órgãos reconhecidos como ITU, IEEE, ETSI, etc

A lista completa encontra-se no site do BNDES.

 


 

Projetos Mobilizadores

Além das iniciativas, foram elencados três projetos mobilizadores: Formação de ecossistema de inovação, Observatório de IoT, IoT em Cidades

 

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  • Ecossistema de inovação: rede de empresas consolidadas, startups e centros de competência
  • Observatório de IoT: Acompanhamento de iniciativas e acesso à informação sobre mecanismos de fomento
  • IoT em Cidades: Apoio técnico e financiamento para a adoção de IoT em cidades

 


 

Conclusão

A IoT tem um potencial disruptivo enorme. O pano de fundo desta nova revolução é o desenvolvimento tecnológico, resumido pela Lei de Moore, conforme este link.

Com muita probabilidade, alguma solução que será disruptiva no futuro nem está sendo contemplada atualmente.

Está havendo uma autêntica corrida armamentista global pelos provedores de solução IoT – um exemplo são os novos protocolos de redes SigFox x Lora x LTE-M. Quem vencerá? Ninguém sabe…

O BNDES acerta na mosca ao dar um empurrãozinho para que o IoT decole no Brasil, tentando eliminar gargalos  e fomentando o desenvolvimento de novas tecnologias.

Vamos acompanhar (de perto) as cenas dos próximos capítulos.

 

 

 

 

HumanZés e Zés

HumanZés são criaturas geradas a partir do cruzamento entre um ser humano e um chimpanzé. Parece (e é) uma doideira, mas foi um experimento real, realizado pelos cientistas de Joseph Stálin (tinha que ser…), na União Soviética dos anos 1920.

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A ideia de Stálin era criar uma raça de super-homens. Semi-humanos com a força e a resistência de um macaco. Criar um ser que trabalhasse muito, fosse insensível à dor e que aceitasse comer qualquer coisa. Não precisava ser muito inteligente. Na verdade, tinha que ser inteligente o suficiente para fazer as tarefas que lhe fossem designadas, mas burro o bastante para não reclamar. Os cientistas utilizaram chimpanzés nos experimentos, por serem próximos geneticamente de nós: 99% dos nossos genes são iguais. Uma breve introdução à genética neste post.
Um cientista russo chamado Ilya Ivanov liderou uma expedição à África, cujo objetivo era inseminar chimpanzés fêmeas com esperma humano. Não deu certo. Anos depois, ele tentou fazer o oposto, impregnar voluntárias humanas com esperma animal.

Felizmente, os experimentos nunca deram certo, e o mundo nunca viu essas aberrações andando por aí.


 

Avançando 100 anos, notamos que os humanzés não existem. Mas é como se existissem, em outro grau de especialização.

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Um anúncio de emprego típico dos dias de hoje:

Vaga para analista de negócios. Graduação em Administração, Economia ou Engenharias. Desejável mestrado, doutorado e MBA. Inglês fluente, desejável espanhol e vivência no exterior. Mandarim é um diferencial. Disponibilidade para viagens e trabalho aos sábados. Pelo menos três anos de experiência na função. Conhecimento de SAP, Microsoft Office, Estatística, KPI, PMBOK, certificação Black Belt. Facilidade de comunicação, resiliência, capacidade de trabalhar em grupo, visão estratégica. Contratação CLT.

Salário: 1 mil reais e vale-refeição…

Claro que está meio exagerado, mas é por aí. Humanzés para quê?

 


Save the orangotan

Aproveitando o post para divulgar um trabalho bem legal, de proteção aos orangotangos.

http://savetheorangutan.org

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Links:
“O polegar do violinista”, Sam Kean

https://www.saraiva.com.br/o-polegar-do-violinista-e-outras-historias-da-genetica-sobre-amor-guerra-e-genialidade-5186918.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Humanzee

http://g1.globo.com/platb/espiral/2009/05/08/o-humanze-e-os-bolcheviques-a-tentativa-de-mandar-a-igreja-pros-infernos/

Deixa a vida me levar

O estilo Zeca Pagodinho de gerenciamento é o “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Se tudo der certo, fico feliz. Se der errado, não ligo. Estou à deriva, leve, flutuando ao sabor do destino. Aliás, a música é um sambinha agradável, simples e cheio de ritmo.

“Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu”.

 

O estilo Michael Porter de administração é o oposto: Criar o próprio caminho. Ser o dono do seu futuro. Ter um planejamento estratégico para saber exatamente onde chegar daqui a 10 anos. Estabelecer metas duras de longo e curto prazo. Ter disciplina pesada para cumprir uma rotina que leve ao destino desejado. Ser o timoneiro do seu navio. Conduzir a própria vida, danem-se os deuses e o destino.

O problema do segundo método é que a vida não necessariamente vai colaborar. Mesmo fazendo tudo certo, planos não serão seguidos e metas não serão atingidas. O universo às vezes conspira a favor, às vezes conspira contra… na verdade, o universo não está dando a mínima bola para mim.

 


O que você vai ser quando crescer?

A frase mais ouvida por toda criança é “O que você vai ser quando crescer?”

Peter Drucker, o grande mestre da administração, dizia: Estou com mais de 60 anos, e ainda não sei o que vou ser quando crescer.

Eu também não tenho a menor ideia do que estarei fazendo daqui a 10 anos e nem do que vou ser quando crescer.

Em um futuro não tão distante, talvez uma guerra mundial perturbe todo o equilíbrio atual. Talvez eu ganhe na loteria. Talvez uma nova doença nos obrigue a mudar de estado. Talvez o futuro seja muito feliz. Talvez nada mude. Talvez eu nem esteja vivo…

O Destino é sempre muitas ordens de grandeza maior do que as minhas forças.

 


 

O barquinho a deslizar, no macio azul do mar

 

É como se estivéssemos em alto-mar, dentro de um barquinho.

Alguns barquinhos são maiores, outros são minúsculos. Alguns têm vela, remos, boia salva-vidas. Outros, têm nada.

 

Com a nossa força minúscula a movimentar os remos, e nosso know-how de como navegar com a vela, damos alguma direção ao barquinho. Nos casos em que o mar permite e temos sucesso, ficamos tão orgulhosos: “Viram? Consigo domar os mares e ser dono do meu próprio caminho”.

Entretanto, o mar salgado é muito mais poderoso do que nós.

Os gregos antigos oravam a Posseidon (Netuno, para os romanos), deus dos mares, para chegar ao seu destino.

Estes povos antigos atribuíam tudo o que fosse além de nossa força aos deuses. Se tivessem êxito, era porque Posseidon permitiu a navegação nos mares, Atena ajudou a ler as estrelas, e Zeus não atrapalhou. Nunca era apenas a força humana.

Coitado de quem desafiasse os deuses, como fez Ulisses, na Odisseia. Ele desrespeitou Posseidon, ao cegar o único olho e zombar do Cíclope Polifemo, filho do deus dos mares. Por isso, o heroi grego pagou muito caro: demorou 10 anos e percorreu uma jornada árdua para retornar à sua casa.

Enquanto Zeca Pagodinho flutua pelos mares, Michael Porter tenta impor sua vontade sobre o mesmo.

Navegadores antigos tinham frase gloriosa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Fernando Pessoa.


 

Vida leva eu

A conclusão é a de que Zeca Pagodinho estava certo.

Temos que batalhar muito para percorrer o nosso caminho.

Entretanto, temos que ter a humildade de nos curvar aos caprichos do Destino. Talvez as correntezas estejam atrapalhando. Talvez a jornada seja um passeio agradável. Nunca se sabe o que virá. Vida leva eu.

Se tudo der certo, fico feliz. Se der errado, não ligo. Sou feliz e agradeço por tudo o que tenho.

Se não tenho tudo que preciso, com o que tenho, vivo. De mansinho lá vou eu.

 


 

Bônus. O Barquinho.

Dia de luz, festa de sol
Um barquinho a deslizar no macio azul do mar
Tudo é verão, amor se faz
Num barquinho pelo mar que desliza sem parar
Sem intenção, nossa canção
Vai saindo deste mar e o sol

O barquinho vai, a tardinha cai…

 

 

O Barquinho – Maysa Matarazzo.

Composição: Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli

Mercados desabam 0,16%???

Abro a notícia do link a seguir, dizendo que os mercados asiáticos desabaram devido às últimas notícias.

Temor com Coreia do Norte desaba fechamento de bolsas da Ásia

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Quando vejo o conteúdo, lá diz que a bolsa da China fechou em baixa de 0,16%, a bolsa do Japão, em baixa de 0,25%.

Desde quando uma baixa de 0,16% é desabar?


 

Algumas incorreções.

Primeiro, qualquer desses índices de mercado é composto de várias e várias ações. O Ibovespa, por exemplo, é uma carteira de 59 ações, conforme o link.

Portanto, se o índice final ficou próximo de zero, algumas ações subiram, outras desceram. Na média ponderada, deu o número citado. Portanto, o índice como número absoluto é apenas um indicativo. Não quer dizer nada, de forma absoluta.

 

Segundo, o ser humano tem uma necessidade imensa de explicar tudo. Na bolsa, cada comprador e vendedor têm os seus objetivos. É, no mínimo, superficial justificar as ações de todos os milhares de compradores, vendedores e algoritmos a partir de uma manchete de jornal espalhafatosa. Entretanto, a explicação como a dada é simples, fácil de entender e faz algum sentido, é boa para uma manchete de jornal.

Dá-se o nome de Falácia Narrativa à nossa tendência de querer explicar tudo de forma simples e que faça algum sentido. Temos muita criatividade para interpretar dados e fatos, e atribuir significado. E, assim, explica-se porque o Corinthians perdeu, porque os chineses têm olhos puxados, porque o ornitorrinco nunca surgiu no Brasil, etc…

 

Uma variação tão baixa, de 0,16%, e no índice do mercado, significa nada. O mercado andou de lado. Deu de ombros ao noticiário – não acredita nem nas bravatas do gordinho norte-coreano, nem nos latidos do magnata americano… mas dizer isto não rende cliques.

 

 

 

 

 

 

Jô, Rodrigo Caio, Maquiavel e Kant

O futebol não vive sem uma boa polêmica, não?

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Quem estará correto, o desonesto, trapaceiro e espertalhão jogador Jô, que deliberadamente meteu a mão na bola para fazer o gol, ou o bonzinho, honesto e otário jogador Rodrigo Caio, que num lance em que o adversário foi punido (por ironia do destino, o próprio Jô), assumiu a sua culpa e livrou um cartão amarelo para o espertão?

Levar vantagem sobre um erro ou não?

Esta discussão é antiga, e envolve algumas das maiores cabeças da história, numa discussão infindável sobre valores morais.

 


 

Nicolau Maquiavel

O gol de mão deliberado de Jô lembra uma frase antiga: “Os fins justificam os meios”. A autoria desta frase é atribuída ao pensador italiano Nicolau Maquiavel, 1469 – 1527. Ele escreveu o livro “O Príncipe”, inspirado na família Médici – poderosos nobres da época – e em outros personagens históricos.

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É possível que ele não seja o autor literal da frase “Os fins justificam os meios”, mas esta se encaixa muito bem em sua proposta. “O Príncipe” é como se fosse um manual para que um príncipe se mantenha no poder. O livro contém dicas como “seja benevolente, caridoso, religioso”. Contudo, o governante não precisava sê-lo de fato, apenas nas aparências, pois precisava do apoio da população.

Ele também diz que para o governante é muito mais seguro ser temido do que amado. Outra frase é a de não tentar vencer pela força, quando é possível vencer pela astúcia.

Por essas e outras, o termo “maquiavélico” se traduz em: que envolve perfídia, falsidade; doloso, pérfido.

Mas, antes de tacar pedras, lembre-se de que todos têm o lado Maquiavel. É o lado pragmático, de atingir um objetivo mesmo descumprindo algumas regras.

Maquiavel coloca ênfase total no resultado, e zero ênfase na causa que gerou o resultado. Ele é bastante prático, e aplaudiria o gol de mão de Jô.

Imaginemos outro dilema moral. Se eu voltasse no tempo e estivesse diante de Hitler nenê, eu daria veneno para ele? Por um lado, tirar Hitler do mapa ajudaria a evitar a Segunda Guerra Mundial, que devastou a Europa inteira e tirou a vida de milhões de pessoas. Por outro lado, eu estaria cometendo assassinato.

A resposta de Maquiavel seria bem simples. Acabe com o Hitler nenê. Salve o mundo. E durma tranquilo.

 


 

Immanuel Kant

 

O pensador mais Rodrigo Caio de todos é o grande filósofo alemão Immanuel Kant, 1724 – 1804. Ele tentou criar uma fundamentação moral perfeita, que constrastasse com a antiga moral grega e a moral da igreja católica.

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Kant criou um sistema moral que olha para as causas, e não para as consequências. Se eu me mantive fiel aos princípios ao executar a ação, fiz um bom ato. Rodrigo Caio tem um princípio de ser honesto e falar a verdade, então ele se denunciou.

O primeiro imperativo moral de Kant é uma espécie de Regra de Ouro, porém bem mais complicada: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.” É mais ou menos assim. A regra de ouro “faça aos outros apenas o que faria a si mesmo” é bem legal, mas tem defeitos – digamos, um sadomasoquista pode causar dor nos outros porque também gostaria de sentir dor. Então Kant criou uma regra de ouro estendida: ao invés de envolver duas pessoas, envolveria todas, assim consertando a regra.

Uma derivação do conceito de Kant é a de que não devemos usar pessoas como um meio, apenas como um fim em si.

 

O que aconteceria no caso de Hitler nenê? Kant diria que não devemos assassinar o Hitler nenê, porque assassinato é ruim. Entretanto, causar a Segunda Guerra não é um ato pior ainda?

E se um ladrão entrasse em casa, e a vida da minha família dependesse de uma mentira, o que faria Kant? Manteria-se fiel ao princípio de não mentir e condenaria a família? O próprio Kant deu a sua resposta, quando perguntado sobre um dilema semelhante: contaria a verdade ao ladrão e condenaria a família, mantendo-se fiel ao seu princípio moral de ser honesto.

 

Nota-se claramente que a filosofia de Kant pode ser interessante para o Sr. Spock, o alienígena perfeitamente racional da série Star Trekk. Mas não reflete o comportamento do ser humano, que no final das contas é um hipócrita: fala como Kant, age como Maquiavel.

 


 

John Stuart Mill

Uma última linha de raciocínio: o Utilitarismo do pensador inglês John Stuart Mill, 1806 – 1873.

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O utilitarismos também olha para os resultados, como Maquiavel. Mas, ao invés de considerar o resultado para si mesmo, como no caso do Príncipe, considera o resultado para a humanidade inteira. É como fazer uma conta aritmética. Se a quantidade de pessoas felizes foi maior do que a quantidade de pessoas infelizes, o ato é bom.

No caso de Hitler nenê, como isto traria a felicidade de milhões de pessoas a mais, é um bom ato.

No caso de Jô, depende. Como ele joga no Corinthians, e este tem mais torcida do que o adversário, foi um bom ato o gol de mão. Se ele jogasse num time pequeno contra o Corinthians, seria um ato ruim, porque mais gente ficaria infeliz (coincidentemente, a Rede Globo e grande parte dos juízes também pensam assim, rs).

Sempre achei o Utilitarismo muito esquisito. Como mensurar algo abstrato como a felicidade, e tomar uma decisão baseada numa conta de maior ou menor? Entretanto, há muitas decisões que o ser humano toma, que são fortemente utilitaristas.

Se há uma vacina para uma doença terrível, digamos um Ebola de nível mundial, mas essa vacina cura 60% das pessoas e mata 40%? Mill diria para mandar ver, aplicar a vacina. Para Maquiavel, depende dos objetivos do Príncipe liberar ou não a vacina. Para Kant, não é moral liberar a mesma.

Mas e se for uma vacina que cura 99,999% das pessoas, e pode afetar 0,001%?

E se curar 99,99999% das pessoas?

 

O grau de utilidade pode afetar a decisão.

Para fechar o tópico, um livro bem interessante é de Dan Ariely, sobre desonestidade.

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Em resumo, diz que todos nós somos desonestos. Alguns mais, outros menos. A grande maioria é só um pouquinho desonesta, um pouquinho suficiente para levar alguma vantagem (digamos embolsar 1 real do troco que veio errado), mas não tão grande a ponto de perturbar o sono (digamos, se veio 100 reais a mais no troco, devolvemos).

 


 

Conclusão

A conclusão é que escrevi um texto enorme para dizer que não há conclusão absoluta. O legal de filosofia é que para cada argumento, há um argumento diametralmente oposto, mas igualmente válido. Ou seja, é da consciência de cada um decidir o seu lado Jô, o seu lado Rodrigo Caio. Ou melhor, o seu lado Maquiavel, o seu lado Kant, ou o seu lado Stuart Mill.

Mas, na prática, eu não compraria um carro usado do jogador Jô.

 

 

 

Os juros compostos são mais poderosos do que o VPL

Plantar x Colher

Existe uma assimetria importante entre plantar e colher. E o que está no meio da assimetria é um fator extremamente pesado, que se chama Tempo.

Esta semana, eu e equipe envolvida estamos completando um trabalho muito importante. Mas este trabalho não começou ontem. Começou há mais de dois anos atrás, na forma de uma ideia amplamente debatida. Esta ideia gerou os primeiros passos, que envolviam obter e tratar dados. Este primeiro passo sozinho consumiu mais de 6 meses de trabalho só para deixar tudo corretamente encaminhado.

Um segundo passo foi a criação de um protótipo que fizesse exatamente o que a gente queria. E lá se foram mais alguns meses desenvolvendo, e outros tantos testando. Por fim, finalmente traduzir este trabalho para uma plataforma mais completa, final, que envolveu outros tantos meses pensando, trabalhando, aperfeiçoando.

As pessoas chegam e saem no meio do caminho. E, quem não sabe, pode dar o crédito somente ao elo final do trabalho. Mas, para tal elo final existir, foram necessários muitos elos básicos, desde o início até o fim.

Pode-se vender a mesma ideia para duas pessoas, mas ter resultados completamente diferentes no final das contas. As coisas que dão certo, não são por acaso. Não se pode olhar apenas para o resultado final.

 


 

O EBITDA trimestral

O mundo está cada vez ficando imediatista. Mede-se o desempenho do presidente de uma empresa pelo EBITDA trimestral, da mesma forma que se mede um técnico de futebol pelo placar da rodada: se perder três jogos seguidos, troca-se o técnico. Desta forma, contanto que o EBITDA continue bom, tudo está correndo bem, mesmo que uma empresa mal intencionada esteja empurrando para debaixo do tapete uma bola de neve de adversidades que vão cobrar o seu preço num futuro não tão distante.

O grande problema do tempo é que quem planta não é necessariamente quem colhe. Aliás, os melhores investimentos são os de longo prazo, onde certamente quem colhe não é o mesmo que plantou.

O Brasil de Lula colheu os resultados do Plano Real de Fernando Henrique Cardoso, que domou o dragão da hiperinflação e finalmente colocou o país no rumo que ele merece trilhar. O Brasil de hoje, que quase saiu dos eixos, é fruto de 13 anos de políticas populistas, imediatistas e sem fundamento. Neste exato momento, estamos novamente entrando nos eixos, aos poucos, com um gestão muito mais responsável.

Brasil árvore frutos FHC Lula Dilma

 

O ser humano tem extrema dificuldade de conviver com o tempo. Nós valorizamos muito mais o presente do que o futuro. Isto é bastante justificável, uma vez que não existe o longo prazo para quem não sobreviver ao curto prazo. O homem de neandertal precisava comer hoje, ao invés de guardar para um inseguro amanhã. Quem garantiria que o neandertal iria sobreviver para viver o amanhã? E quem garantiria que um lobo não acharia a refeição escondida? Quanto mais incerto o futuro, mais valor tem o presente.

O economista John Keynes diria que, a longo prazo, todos nós estaremos mortos.

 


VPL

A ferramenta matemática que comprova o poder do tempo presente é o tal do Valor Presente Líquido. Uma maçã hoje vale muito mais do que uma maçã amanhã. Tanto maior a taxa de desconto, mais vale o presente ao futuro.

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Quanto maior a inflação, menos consigo saber o valor do dinheiro no futuro, portanto mais ênfase no agora. Quanto mais violenta a sociedade, menos ênfase no futuro – para que investir em estudos e num trabalho honesto, se tudo pode acabar de uma hora para outra? Melhor desfrutar do presente.

Mas o VPL não mede tudo. E o prazo de tempo além do VPL? E todo o resto que não está na conta?


 

Juros Compostos

Foi justamente a capacidade do ser humano de conseguir planejar o futuro que fez dele o que é hoje. A capacidade de poupar em tempos bons para sobreviver a tempos adversos, a capacidade de se sacrificar no presente para obter quantidades muito maiores no futuro. Estudar hoje para agregar mais valor amanhã. Um trabalho honesto e compassado ao invés de um atalho perigoso e incerto. Investir em tecnologia, sofrer um bocado por um tempo, para obter resultados muito melhores. Plantar hoje para colher amanhã.

Em contraponto ao pobre do VPL, a ferramenta que demonstra o poder do longo prazo são os Juros Compostos. Novamente, o Tempo, aquele elemento tão difícil de domar.
Os juros compostos dão retorno exponencial. Um pouquinho melhor hoje, um pouquinho melhor amanhã, passos pouco perceptíveis. Depois de um tempo, teremos um resultado centenas de vezes melhor do que aquele que ficou parado.

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Admiro muito a filosofia oriental, japonesa e chinesa, de dar muita importância ao longo prazo. Eles preferem uma solução que dê resultados melhores no futuro, mesmo sendo mais cara hoje. Eles não se importam com perdas pequenas, contanto que isto esteja alinhado com o objetivo final de longo prazo da empreitada.

Segue um pequeno texto de Akio Morita, fundador da Sony, sobre o tema Longo Prazo.

Espera-se que os gerentes mais jovens fiquem vinte ou trinta anos na empresa. Por isso, os executivos estão sempre pensando no futuro. Se a alta direção despreza os níveis baixos e médios da gerência, pressionando-os para que mostrem lucros neste ano ou despedindo-os quando não alcançam os níveis esperados, este tipo de procedimento pode acabar com o futuro da empresa. Se o gerente de nível médio diz que o seu plano não vai dar resultados agora, mas será bom para a companhia daqui a 10 anos, ninguém vai ouvi-lo, e ele corre até mesmo o risco de ser demitido.
Este estímulo de longo prazo apresentado por nosso pessoal, de cima ou de baixo, oferece grande vantagem ao nosso sistema de trabalho. Podemos criar uma filosofia de trabalho. Os ideais da companhia não mudam.

Para uma comparação, um executivo americano assumiu a direção de uma companhia americana, fechou várias fábricas, demitiu milhares de empregados e foi elogiado por colegas como um grande executivo. No Japão, este comportamento seria considerado lastimável. Acreditamos que fechar fábricas, despedir empregados e mudar bruscamente os rumos da empresa pode até ser bom para o balanço trimestral, mas certamente vai destruir o espírito da companhia a longo prazo.

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Os juros compostos são tão poderosos que sobrepujam a condição inicial, dado tempo suficiente. Um burro esforçado pode se dar muito melhor do que alguém inteligente, mas preguiçoso.

Keynes está muito errado. O longo prazo inevitavelmente chega. No longo prazo, nossos filhos colherão os frutos que estamos plantando hoje.

Resumo em uma fórmula:

1,01^100 >>>  0,99 ^100

 

Resumo em uma frase:

Os juros compostos são a força mais poderosa do universo – Albert Einstein.

​ Que livro eu levaria para uma ilha deserta?

Tenho uma biblioteca física com mais de 500 livros, e uma virtual com o triplo disto.

 

Esta é dividida em quatro macro seções: uma de exatas, outra de administração / economia, a terceira de filosofia e a quarta literatura em geral.

 

Só não tenho mais livros porque cheguei no limite físico do que cabe num apartamento.

 

Mas, suponha que estivesse me mudando para sempre para um lugar completamente novo, e tivesse que escolher apenas um único livro da biblioteca. Que livro eu levaria para uma ilha deserta, ou para um país do outro lado do mundo? 

 


 

Primeiro, o que não seria. Não seria nenhum livro técnico. Embora muito de minha formação tenha vindo desses livros, o conhecimento de matemática, engenharia e computação é puramente racional, não tem nada de emocional. Posso pegar um pdf desses livros e chegar no mesmo resultado.

 

Tenho uma coleção de livros do Peter Drucker. Fiquei fascinado por suas ideias e seu jeito de escrever. Mas não levaria um livro dele, ou algum outro de administração, pelo mesmo motivo de existir a alternativa digital. A internet acabou com a necessidade de livros físicos.

 

A área de filosofia tem muito material de qualidade. Desde livros de introdução, como o de Thomas Nagel, até a obras primas como o Ser e o Nada, de Jean Paul Sartre (que nunca consegui ler, confesso). Da Política de Aristóteles até o Estrangeiro de Albert Camus, há muito material bom. Legal mesmo são as obras de Nietzsche, provocantes, insinuantes, politicamente incorretas.

 

Não levaria nenhum desses. O que eu levaria para uma ilha deserta é o “Think and Grow Rich”, de Napoleon Hill.

 

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Pense e enriqueça

 

Napoleon Hill é um escritor de 100 anos atrás, autor de livros de auto-ajuda.
A receita é clássica: força de vontade, persistência, otimismo.

 

Não leio muito livros deste tipo, justamente pela fórmula ser conhecida, e também por uma abordagem assim não ter validade científica.

 

Porém, tem horas em que toda a matemática do mundo não vale nada, a gente precisa mesmo é uma dose de esperança, que pode ter raízes reais ou ilusórias.

 

Até hoje me lembro da história de Edwin C. Barnes. Um homem falido, que tinha um único desejo ardente: trabalhar com o grande inventor Thomas Edison. Edison é famoso por ter inventado a lâmpada elétrica, mas ele fez muito mais do que isso. Ele criou um império de produtos ligados à energia elétrica.

 

Barbes viajou num trem de carga, sem bagagem, sem dinheiro, unicamente para se encontrar com Edison. E, finalmente, lá estava ele, vestido como um mendigo, na frente do homem mais rico do mundo, afirmando com convicção: “Bom dia, sr. Edison. Vim fazer negócios com você!”

 

Independentemente do que Barnes disse, o que contou para Edison foram os seus olhos.

 

Alguém com a força de vontade e a determinação irradiada pelos olhos de Barnes, disposto a arriscar toda a sua vida por uma única oportunidade, não iria falhar.

 

Edison deu uma ocupação qualquer a Barnes, algo irrelevante para ele, porém de grande importância para Barnes, por ter a chance de estar em contato com o seu sonho.

 

Meses se passaram, anos se passaram, sem novidade alguma. Um dia, Barnes viu uma oportunidade. Ninguém queria vender um equipamento chamado “Edison dictating machine”, uma espécie de gravador. Barnes colocou toda a sua energia para vender esta máquina, e foi extremamente bem sucedido, inspirando até a criação de um slogan: “Feito por Edison, instalado por Barnes”.

 

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Barnes ganhou uma fortuna, vários milhões de dólares na época – o que corrigido para hoje, daria algumas centenas de milhões.

 

Este livro, cheio de histórias de patinhos feios que viraram príncipes, é o que eu certamente levaria para uma olha deserta.

 

Pode não ser científico, e pode talvez nem funcionar.
Mas com o ser humano é o contrário: só funciona se ele acreditar.
“Mais ouro foi extraído da cabeça do ser humano do que todas as minas do mundo”. Napoleon Hill.
“O vencedor nunca desiste, o desistente nunca vence”. Napoleon Hill.
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