Kintaro, os demônios da ficção e da vida real

Kintaro é um menino super forte, que nasceu no interior do Japão antigo. Desde sempre, ele era gentil com os animais e ajudava as outras pessoas em perigo.

Quando ele cresceu, ele partiu com outros grandes guerreiros, para combater os malvados demônios do mundo…

Este é um resumo de um livro infantil, uma história que a minha mãe contava.

Relendo o livro hoje, fico me perguntando: quem seriam esses demônios, a não ser povos rivais, nações vizinhas, pessoas como nós, mas de outros grupos?

Há inúmeros casos similares. A Bíblia fala de “Filisteus”, um povo antigo rival.

Os conquistadores europeus, para justificar a escravidão dos índios, falaram que estes não eram humanos, não tinham alma.

O filme “A Missão” ilustra um episódio: jesuítas fazendo índios cantarem, para provar que eles não eram inferiores aos europeus.

Uma passagem do livro “The Faith Instinct”:

A Moralidade não é universal. Compaixão e misericórdia são comportamentos dentro de um grupo, mas não necessariamente a outro grupo, e certamente não a um inimigo. Em relação às sociedades hostis, o comportamento humano é duro, implacável e muitas vezes genocida. Os inimigos podem ser demonizados ou considerados sub-humanos, e as restrições morais não precisam ser estendidas a eles.

E, para finalizar, o mestre Will Durant sobre o tema.

A vida é competição. Cooperamos dentro do nosso grupo, família, comunidade e nação para tornar nosso grupo mais poderoso. A cooperação é a última forma de competição. A concorrência costumava ser entre os indivíduos. Então foi ampliada, entre famílias. Depois, entre as comunidades. E assim por diante. A guerra é a forma final de competição. É a forma de uma nação se alimentar.

A propósito, Kintaro significa algo como “menino de ouro”. O primeiro kanji significa “ouro”, e o sufixo é comum em meninos. Um herói, que vai proteger o nosso povo contra os terríveis e sanguinários demônios do mundo exterior – ou será ele o demônio para os outros povos?

Nota: Agradeço ao amigo Cláudio Ortolan, pela indicação do livro The Faith Instinct.

Gol da Argentina. Caniggia, 1990.

A vitória da Argentina na Copa América 2021 me trouxe à memória uma cena de 30 anos atrás.

Copa do Mundo de 1990. O Brasil em festa: Copa do Mundo! Eu era criança, e tudo era mais divertido. Ingênuo.

Era um Brasil diferente. Eu tenho a impressão de era extremamente mais patriótico do que é hoje. Todo mundo que eu conhecia torcia para o Brasil, que estava num jejum de títulos havia 20 anos.

O Brasil começou bem na Copa. Técnico Lazaroni. Grandes nomes como Muller, Careca, Branco. A seleção passou fácil pela primeira fase.

Nas oitavas, a Argentina. Tinha um tal de Maradona, muito famoso, que estava em baixa na época. Um sujeito muito louco, diziam que se drogava.

Eu não entendia nada do que estava ocorrendo, só tinha o sentimento de que o Brasil era inderrotável.

Porém, o doidão do Maradona saiu driblando todo mundo no meio campo, lançou uma bola para um certo Caniggia, que fez um belo gol no brasileiro Taffarel. Nunca tinha ouvido falar em Caniggia, depois desse dia, nunca mais esqueci esse nome.

“Ora, é só fazer dois gols”, ecoava na minha cabeça infantil. Eis que o tempo passava, e nada. Careca, nulo. Cadê o Muller? Brasil fora. Pessoas tristes, e eu sem entender nada. Era possível o Brasil perder?

Depois, comentários: o Dunga deveria ter feito falta no Maradona no início da jogada. Lazaroni foi burro, 3-5-2 não funciona, etc..

Trinta anos depois, outros nomes, outro palco, Copa América. Messi em final de carreira, não jogou nada. Neymar, até tentou. Ao invés de Caniggia, Di Maria foi o nome do jogo.

Porém, o que mudou mesmo foi a torcida. O Brasil, o mundo. Muita gente torcendo contra, transformando futebol em política e vice-versa. A grande maioria nem ligando. Ou sempre foi assim mas eu não sabia quando pequeno, não sei dizer.

Eu mudei também: o gol de Di Maria não trouxe alegria nem tristeza. Nem se compara ao gol de Caniggia.

Seja como for, era tudo muito mais divertido e ingênuo naquela época: o futebol, o Brasil e o mundo.

O bizarro Telemarketing filantrópico

“Senhor, somos da instituição filantrópica anjos xyz, de apoio ao combate ao câncer infantil, e conseguimos o seu contato através de indicação do pessoal da sua empresa…”

Recebi, há poucos dias, uma ligação assim. É normal instituições de caridade ligarem aleatoriamente, mas eu achei essa ligação diferente.

A atendente passou a comentar sobre uma criança com câncer no estômago, descreveu uma cena triste e que os remédios acabariam amanhã. Amanhã! Falou das credenciais da instituição voluntária e do hospital destinatário dos esforços. Pediu doação até 12h do dia seguinte e meus contatos (e-mail, whatsapp).

Talvez até seja uma instituição idônea, e espero que realmente seja, mas o meu “detector de bullshit” ligou vários sinais amarelos.

A conversa acima está com o roteiro muito bem escrito, para caber em alguns minutos, e utiliza todas as técnicas possíveis de persuasão:

  • Cita uma referência à alguém conhecido, que fez a indicação
  • Conta uma história emocionante de uma criança doente (é mais eficaz do que falar que dezenas de crianças são atendidas)
  • Cria um senso de urgência (amanhã sem falta)
  • A atendente dá a entender que é uma voluntária do programa
  • Apresenta credenciais (CNPJ, nome, telefone)

Note o uso perfeito do Ethos (credenciais, quem é a instituição, credibilidade da indicação) – Pathos (emoção, história triste) – Logos (lógica: alguém precisa, é urgente).

Perguntei o nome do responsável da minha empresa que tinha feito a indicação, e a atendente não soube responder. Depois, fui checar junto ao pessoal da empresa que trabalha com voluntariado (inclusive sempre participo das campanhas): resultado, a minha empresa não faz parceria nem autoriza contatos utilizando o nome dela, se foi indicação de alguém, foi uma iniciativa pessoal, não corporativa.

Eu tenho absoluta convicção: quem me ligou é de uma empresa de telemarketing, treinada e com roteiro escrito, tal qual um banco liga para vender cartão de crédito. Um voluntário, daqueles de que temos a imagem em nossa cabeça, teria uma postura completamente diferente.

Pode até ser uma instituição séria, com um bom trabalho, e espero que seja. Porém, declinei da ajuda neste caso – não gostei da abordagem. Continuo a ajudar o pessoal que eu conheço ser realmente voluntário.

Ideias Analíticas Avançadas

Estou lançando uma publicação na plataforma Medium: a Ideias Analíticas Avançadas (https://medium.com/ideias-anal%C3%ADticas-avan%C3%A7adas).

Os objetivos são:

  • Escrever sobre Analytics Hard: Otimização, Matemática, Python, Computação Quântica, com código e tudo
  • Convidar outros autores a publicar sobre o tema.

Fica já o convite, quem quiser escrever sobre alguns dos temas e divulgar ali.

O Almanaque de Naval Ravikant – versão áudio

Naval Ravikant é empreendedor e investidor no Vale do Silício.

Recentemente, saiu uma versão áudio de sua coletânea de frases, compiladas por um seguidor.

Naval tem uma habilidade imensa para condensar conceitos em poucas palavras e gerar uma pérola de pensamento.

Podcast no Spotify – https://open.spotify.com/episode/4QOuLcq4zJzTH7AgHEOATX

Versão Audible: https://www.audible.com/pd/The-Almanack-of-Naval-Ravikant-Audiobook/1544517882

Dica: Leia o livro, ouça o áudio, coloque em prática, releia o livro, reouça o áudio, coloque em prática, quantas vezes quanto necessário.

Uma seleção de frases de Naval

Não é realmente sobre trabalho duro. Você pode trabalhar num restaurante 80 horas por semana, e não ficará rico. Ficar rico é sobre saber o que fazer, com quem fazer junto, e quando. É mais sobre entender do que puramente trabalho pesado.

Se você ainda não sabe no que deveria trabalhar, o mais importante é descobrir. Você não deveria fazer um monte de trabalho duro se não souber.


Fuja da competição através da autenticidade.

Basicamente, quando você está competindo com outros, é porque você os está copiando, está tentando fazer o mesmo. Porém, todo ser humano é diferente. Não copie.

O pior resultado desse mundo é não ter autoestima. Se você não se ama, quem irá fazê-lo?

Não se leve tão a sério. Você é apenas um macaco com um plano.

Para mim, a felicidade não é sobre pensamentos positivos. Também não é sobre pensamentos negativos. É sobre a ausência de desejo, especialmente a ausência de desejos externos.

O mundo apenas reflete seus próprios sentimentos de volta para você. A realidade é neutra. A realidade não faz julgamentos.

Sobre startups

Há demanda global ilimitada pela mentalidade de fundador.

As startups não morrem quando acaba o dinheiro, mas quando acaba a energia dos fundadores.

Na corrida olímpica das startups, o primeiro lugar consegue o monopólio, o segundo consegue uma medalha, e não há terceiro lugar.

Antes de procurar um produto ideal para o mercado, assegure que tem paixão pelo produto. É uma longa jornada.

Empreendedores procuram pela “ideia”, a isca que os prendem pelos próximos 5 anos. Em que prisão você gostaria de estar? O que você ama fazer?

Quando construindo uma startup, a microeconomia é fundamental e macroeconomia é entretenimento.

A realidade é que a vida é um jogo de um único jogador. Você nasceu sozinho. Você vai morrer sozinho. Todas as suas interpretações estão sozinhas. Todas as suas memórias estão sozinhas. Em três gerações, você e as lembranças de você se vão e ninguém se importa. Antes de você aparecer, ninguém se importou.

Sobre paz e felicidade

Cada segundo seu neste planeta é muito precioso, e é sua responsabilidade ter certeza de que você está feliz e interpretar tudo da melhor maneira possível.

Eu não ando com pessoas infelizes. Eu realmente dou valor ao meu tempo nesta Terra. Eu leio filosofia. Eu medito. Eu ando com pessoas felizes.

Se você não se vê trabalhando com alguém para a vida toda, não trabalhe com eles por um dia.

Não há legado. Não há nada para deixar. Todos nós vamos embora. Nossos filhos terão ido embora. Nossos trabalhos serão pó.

“Não tenho tempo” é apenas outra maneira de dizer “Não é prioridade”.

Para ter paz de espírito, você tem que ter paz de corpo primeiro.

Seja impaciente com ações, paciente com resultados.

Se há algo que você quer fazer mais tarde, faça agora. Não há “mais tarde”.

Na verdade, não há nada além deste momento. Ninguém nunca voltou no tempo, e ninguém nunca foi capaz de prever o futuro com sucesso de qualquer maneira que importa.

Valorize seu tempo. É tudo o que você tem. É mais importante que seu dinheiro. É mais importante que seus amigos.

Não gaste seu tempo fazendo outras pessoas felizes. Outras pessoas sendo felizes é problema delas.

Sobre riqueza

1) Busque riqueza, não dinheiro ou status. A riqueza é ter ativos que rendem enquanto você dorme. Dinheiro é como transferimos tempo e riqueza. Status é seu lugar na hierarquia social.

2) Você não vai ficar rico alugando seu tempo. Você deve possuir equities – um pedaço de um negócio – para ganhar sua liberdade financeira.

3) Você vai ficar rico dando à sociedade o que ela quer, mas ainda não sabe como conseguir. Ou seja, agregando valor de verdade. Em escala.

4) Escolha uma indústria onde você pode jogar jogos de longo prazo com pessoas de longo prazo.

5) A Internet ampliou maciçamente o possível espaço de carreiras. A maioria das pessoas ainda não descobriu isso.

6) Jogue jogos iterados. Todos os retornos na vida, seja em riqueza, relacionamentos ou conhecimento, vêm de juros compostos.

7) Escolha parceiros de negócios com alta inteligência, energia e, acima de tudo, integridade.

8) Não faça parceria com cínicos e pessimistas. Suas crenças são profecias autorrealizáveis.

9) Aprenda a vender. Aprenda a construir. Se você pode fazer as duas coisas, você será imbatível.

10) Não há esquemas ricos rápido. É só outra pessoa ficando rica usando você.

11) Não há uma habilidade chamada “negócios”. Evite revistas de negócios e aulas de negócios.

12) Conhecimentos específicos são muitas vezes altamente técnicos ou criativos. São aqueles que não podem ser terceirizados ou automatizados.

13) Alavancagem é um multiplicador de forças. A alavancagem dos negócios vem de capital, pessoas e produtos sem custo marginal de reprodução (ex. código e mídia).

14) Abrace a responsabilidade e arrisque os negócios com seu próprio nome. A sociedade irá recompensá-lo.

15) Trabalhe o máximo que puder. Com quem você trabalha e no que trabalha são mais importantes do que apenas trabalhar duro.

16) Defina um custo da hora do seu trabalho. Se um problema economizará menos do que seu custo horário, ignore-o. Se terceirizar uma tarefa custará menos do que sua taxa horária, terceirize-a.

17) A criação de riqueza ética é possível. Se você secretamente desprezar a riqueza, isso vai iludi-lo.

18) Torne-se o melhor do mundo no que você faz. Continue redefinindo o que você faz até que isso seja verdade.

19) Quando você finalmente for rico, você vai perceber que não era o que você estava procurando em primeiro lugar. Mas isso é para outro dia.

Veja também:

Vendas de Alta Performance – Notas

Comecei a fazer o curso de Vendas de Alta Performance, na plataforma Alura (www.alura.com.br).

Todos nós somos vendedores, mesmo sem ter uma posição oficial de vendedor. Vendemos ideias, projetos, necessidade de comprar algo ou persuadir alguém. Ou, como diria Naval Ravikant, “Aprenda a construir. Aprenda a vender. Se você pode fazer as duas coisas, você será imbatível.”

Compartilhando algumas notas de aula, para reflexão:

Adoramos comprar, mas odiamos que vendam para nós. Gostamos de ser o protagonista.

O ponto chave do vendedor do futuro é entender a necessidade do cliente.

O vendedor deve ajudar o cliente a encontrar a melhor solução. Ex. Se ele precisa de uma furadeira simples, não adianta empurrar a mais cara e sofisticada do mercado, isso vai causar frustração.

Pare de vender e comece a facilitar o processo de compra.

Algumas métricas comuns em vendas:

  • Ticket médio
  • Taxa de conversão
  • Curva ABC
  • Taxa de efetividade de canais

Estamos cada vez mais num mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo).

No mundo de hoje, os compradores pesquisam e podem entender mais do produto e de alternativas do que os vendedores – ou seja, os vendedores devem estar preparados, entender do produto e do mercado.

“57% dos compradores no mundo corporativo já tomaram a sua decisão de compra antes de entrar em contato com o vendedor” – Hubspot

Seu cliente não se importa com o quanto você sabe até que ele entenda o quanto você se importa.

Mesmo em transações B2B, na ponta final são duas pessoas que negociam, e assim há um componente P2P.

Essas notas não substituem o curso todo. Só estou aproveitando o lado “repositório de boas ideias” deste espaço.

Veja também:

Resumos (ideiasesquecidas.com)

Batman no Japão medieval

Aproveitando o post anterior, sobre a época dos grandes samurais, segue uma história muito maluca. A série “Batman no Túnel do Tempo” mostra o homem morcego em contextos históricos diversos.

A edição “Batman – o Ninja” ocorre após a morte de Toyotomi Hideyoshi. O rival Tokugawa Ieyasu assume o poder, em detrimento de Toyotomi Hideyori, filho de Hideyoshi, que tinha uns 5 anos à época.

Batman é Bat-ninja, uma espécie de ronin – samurai sem mestre. Ele fica sem mestre após a morte de Hideyoshi. Robin é Tengu, discípulo do Bat-ninja, e que promete proteger o clã Hideyoshi.

A história se ambienta num contexto histórico real, o cerco do Castelo de Osaka. Uns 15 anos depois de Tokugawa Ieyasu assumir o poder de fato, forças opostas ao shogun unem-se a Hideyori, um postulante legítimo à posição de líder de todo o Japão. Tokugawa resolve acabar de vez com a ameaça ao seu posto, reúne aliados e, após uma série de batalhas, encurrala e aniquila Hideyori no Castelo de Osaka.

Na história em quadrinhos, Robin é um filho oculto de Hideyoshi, o cerco de Osaka está ocorrendo, mas antes disso, Hideyori quer se livrar do irmão Robin. Ambos lutam, e é Robin que assassina Hideyori, para depois, cometer hara-kiri.

Não creio que seja possível comprar essa edição hoje em dia.

É muito raro a cultura popular ocidental referenciar um fato tão distante, ocorrido na época do Japão medieval. Parabéns aos autores Chuck Dixon e Enrique Villagran pela história.

Seguem outros links sobre o tema:

https://alemdatorrez.wordpress.com/2016/03/22/batman-no-tunel-do-tempo/

https://dc.fandom.com/wiki/Tengu_(Narrow_Path)

https://en.wikipedia.org/wiki/Siege_of_Osaka

A estratégia de sobreviver aos inimigos

No Japão da época dos grandes samurais, os três nomes listados abaixo se destacavam. Há uma piada antiga, que mostra a diferença de estratégia entre eles:

Tenho um passarinho que não quer cantar. Como você faria ele cantar?

  • Oda Nobunaga: Vou bater até fazer ele cantar
  • Toyotomi Hideyoshi: Vou fazê-lo cantar
  • Tokugawa Ieyasu: Vou esperar até ele cantar.

Este texto é sobre o terceiro, que utilizou habilidade, muita inteligência e paciência, para criar uma das dinastias mais bem sucedidas da história do Japão.

Mas, primeiramente, o contexto geral.

O Japão feudal dos anos 1500 e pouco era dividido em diversos feudos (daimyo), cada qual com um clã político militar que o controlava independente dos demais. Existia a figura do Imperador, mas era apenas figurativa / espiritual – algo parecido com o papa, no ocidente.

Oda Nobugawa, por volta de 1560, começou uma campanha brutal de unificação do Japão, conquistando militarmente os outros feudos. Ele foi o primeiro grande unificador, apelidado de “Rei-demônio”, por sua força militar. Porém, Nobunaga foi emboscado numa rebelião liderada por um ex-aliado, e morreu antes de terminar a campanha de unificação do país.

Oda Nobunaga – imagem da Wikipedia

Toyotomi Hideyoshi era o mais brilhante general de Nobugawa, e venceu a disputa para sucedê-lo. Hideyoshi, nos anos seguintes, terminou de unificar o Japão, ou formando aliados ou destruindo os daimyos rebeldes. Após a unificação total do Japão, por volta de 1590, ele lançou uma campanha mal-sucedida de conquista da Coreia, em 1592.

Hideyoshi era um grande estrategista, e possivelmente o seu clã dominaria a política do Japão por diversas décadas. Porém, ele enfrentou um problema biológico: dificuldade em ter filhos para sucedê-lo. Apesar de inúmeras concubinas, só no final de sua vida ele conseguiu ter um filho – mesmo assim, a legitimidade era suspeita.

Toyotomi Hideyoshi – imagem da Wikipedia

O grande Hideyoshi faleceu em 1598, após anos doente. O seu filho, Hideyori, tinha apenas 5 anos na época. A guerra na Coreia não fazia mais sentido, e as tropas retornaram ao Japão.

Tokugawa Ieyasu estava nas sombras esse tempo todo, aliando-se primeiro a Nobunaga e depois a Hideyoshi, e fazendo o seu próprio daimyo crescer. Quando Hideyoshi se foi, ele era o mais forte candidato à sucessão, e aproveitou a oportunidade: aliou-se a outros líderes poderosos, tirou o menino Hideyori da jogada e assumiu o poder de fato do país.

Tokugawa Ieyasu – imagem da Wikipedia

Tokugawa moveu os daimyos aliados para perto dele, geograficamente, e empurrou aqueles menos confiáveis para longe, criando uma zona de segurança. Também trouxe estabilidade política e militar, com sua habilidade administrativa. Recriou o título de Shogun, e não faltavam filhos para sucedê-lo.

E é por isso o título do texto. Nobunaga fez um enorme trabalho, Hideyoshi prosseguiu, mas quem colheu os frutos foi Tokugawa.

Tokugawa ficou na dele, quando tinha alguém mais forte, esperando a oportunidade e se preparando. Quando a oportunidade surgiu, por capricho do destino, ele a agarrou.

Tokugawa literalmente venceu por ter conseguido viver mais do que os concorrentes. Observe a comparação:

  • Nobunaga viveu 47 anos
  • Hideyoshi viveu 63 anos
  • Tokugawa viveu 73 anos
  • O shogunato Tokugawa durou mais de 250 anos

Utilizando habilidade e inteligência, Tokugawa foi maior do que uma pessoa apenas – ele conseguiu criar uma dinastia. O shogunato Tokugawa foi um dos mais bem sucedidos da história, durando de 1603 até 1868, onde ocorreu a revolução Meiji – rápida expansão industrial e militar do Japão.

Essa é a estratégia da paciência: não atacar quando a situação não estiver favorável, ir se preparando para quando tiver a oportunidade. Ser impaciente na preparação, porém paciente para esperar o momento de atacar.

Veja também:

https://en.wikipedia.org/wiki/Tokugawa_shogunate

https://en.wikipedia.org/wiki/Tokugawa_Ieyasu

https://en.wikipedia.org/wiki/Toyotomi_Hideyoshi

https://en.wikipedia.org/wiki/Oda_Nobunaga

Age of Samurai: Battle for Japan
https://www.netflix.com/title/80237990

As 36 Estratégias Secretas Chinesas

Montando times analíticos

Recomendação de livro: Building analytics Teams, de John Thompson. Ele é head of advanced analytics and artificial intelligence na CSL Behring, uma companhia farmacêutica.

Assisti a uma palestra do autor na Informs de 2018, em Chicago, e suas ideias ajudaram a montar o meu próprio time.

Link da Amazon: https://amzn.to/3dvX76S

Separei abaixo alguns insights que correspondem à minha própria percepção da evolução do Analytics.

“Aplicações de Advanced Analytics e IA irão mudar todos os aspectos do trabalho e operações, se as companhias tiverem a força para contratar e engajar times analíticos.”

“Mais de uma década depois que o conceito de big data se tornou parte do vocabulário, apenas uma minoria das empresas se tornou organizações orientadas por insights analíticos.”

“Os times de cientistas de dados começaram artesanalmente. Hoje, há a migração para o modelo de fábrica, com times internos e externos.”

Qual a diferença entre um “Advanced Analytics” e simplesmente “Analytics”? Normalmente, coloca-se uma série de serviços analíticos, começando de dashboard, automações, relatórios, análise descritiva, prescritiva, simulação, otimização. O “Advanced” seria começando da análise prescritiva, que é o ponto a partir da qual grande valor começa a ser gerado para a companhia.

“Gerenciar profissionais analíticos é similar a gerenciar um grupo de profissionais criativos. É um time que necessita de uma direção, mas não de microgerenciamento.”

“Existem poucas e preciosas pessoas numa organização que entendem os requisitos de negócios, tem capacidade técnica e habilidade para desenvolver soluções.”

(eu complemento dizendo que é difícil contratar, treinar e manter essas poucas e preciosas pessoas)

Analytics não é TI. A TI tradicional tem a visão mais transacional. Já projetos analíticos são a ponta de lança da mudança na companhia, têm um viés de inovação e devem ser moldados para o negócio.

“Projetos de Analytics Avançado não são os mesmos de Tecnologia da Informação, porque não são lineares. Eles são iterativos, marcados por grandes sucessos e pontuados por becos sem saída, erros e hipóteses que não se confirmam.”

“O papel do Chief Analytics Officer é de extrair e entregar valor e impacto econômico com a utilização de analytics, data science e inteligência artificial.”

“Nunca antes na história tivemos a combinação de matemática, volumes de dados diversos e prontamente acessíveis e o poder de computação que temos hoje, nas pontas dos dedos.”

“Não é uma questão de big data, mas muitos small data.”

“Por experiência própria, não há falta de projetos analíticos para a equipe realizar.”

Por fim, uma constatação mais geral:

“Nenhuma revolução jamais aconteceu com o apoio do establishment.”

Há alguns vídeos do autor no Youtube:

Os livros que viraram cachorros

No metrô de SP, antigamente tinham umas vending machines de livros. Hoje em dia, tem de comida para cachorros – essa é uma máquina da Petz. Sinal dos novos tempos.

Lembro de ter visitado um shopping, onde também uma livraria tinha dado lugar a uma loja de pets.

Nada contra, realmente acho que os livros tornaram-se digitais (ou podcasts, vídeos, cursos on-line, blogs como este), e a população está tendo menos filhos e mais cachorros. É apenas uma constatação destes tempos modernos, não uma crítica. Aliás, é bastante criativa a iniciativa da Petz.

Trilha sonora: Tempos modernos – Lulu Santos

O Estrangeiro, de Albert Camus

“O Estrangeiro” é um livro perturbador. Li há alguns anos, reli recentemente, e hesitei em colocar algum comentário neste espaço, porque a mensagem passada não é positiva. Apesar disso, são ideias profundas de um dos maiores nomes do século passado.

Albert Camus, escritor franco-argelino, escreveu este pequeno livro (por volta de 100 páginas) em 1942, e é um exemplo de sua filosofia do absurdismo.

Em poucas palavras, o absurdismo diz que a vida não tem significado, e é absurdo tentar criar significado onde não há… Ninguém está aqui para ser como o Neo, sair da Matrix e salvar o mundo. Só estamos aqui porque os nossos pais se relacionaram, a biologia cumpriu a sua parte, e nascemos.

A primeira frase do livro já mostra todo o contexto:

“Minha mãe morreu hoje. Ou talvez ontem, eu não sei. Recebi um telegrama do asilo”.

Link da Amazon. A versão Kindle custa só R$ 2. https://amzn.to/3jhXfu5

O personagem principal, Meursault é um estrangeiro. Não por vir de algum país distante, nada disso. Ele é um estrangeiro por ser diferente das pessoas normais. Desapaixonado, não tem sentimentos, não tem ambições, é calado e indiferente.

Ele viaja ao asilo, conversa em tom monossilábico com o diretor da instituição e outros personagens. O zelador o convida a abrir o caixão e ver a mãe, e Meursault, friamente, não faz questão nenhuma de aceitar o convite.

Ele aceita um café do zelador, vela a mãe e acompanha o enterro, sem derramar uma lágrima, nem expressar qualquer palavra de nostalgia ou conforto.

No dia seguinte, o nosso herói do absurdo volta à rotina, e reencontra uma conhecida, com a qual começa a namorar.

Encontra um vizinho, que arruma briga com a amante – ele a agride fisicamente – e isso terá consequências.

Nesse meio tempo, o chefe de Meursault oferece uma vaga melhor, em Paris. O protagonista dá a sua resposta curta usual: “Não sei, tanto faz”. Afirma que a vida atual está OK, e se o chefe quisesse, ele iria, senão, está bom também.

A namorada nova também fala algumas vezes de casamento, e a resposta também é a mesma: “Não sei, tanto faz. Se você quiser eu caso.” – num tom nem feliz nem triste, completamente desprovido de emoções.

Depois de um tempo, ele, a namorada, o vizinho e mais um casal de conhecidos vai à praia. O vizinho é seguido pelo irmão da amante espancada anteriormente, chamado aqui simplesmente de “árabe”.

Após algumas confusões, Meursault atira e assassina o árabe, e por isso, vai a julgamento, meses depois.

No julgamento, os promotores chamam testemunhas do enterro da mãe, que narram como o personagem foi frio e nem chorou na ocasião.

Questionado porque ele tinha aceitado o café do zelador, sua resposta foi: “A viagem tinha sido cansativa”.

Meursault nunca negou que tinha atirado no árabe, e o promotor explorou a total falta de remorsos e emoções do réu.

Questionado sobre o motivo do assassinato do árabe, eis sua resposta: “Estava muito sol”.

Alguns dos amigos de Meursault o defenderam, sem muito sucesso. No final, ele foi condenado à morte.

Na prisão, à espera da decapitação e do resultado de um recurso, Meursault se recusa inúmeras vezes a ver um padre, mas um dia esse o visita assim mesmo.

Ao religioso, ele diz não acreditar em Deus, ao qual o padre responde que ele pode até se livrar da pena se tiver o recurso aceito, porém ele vai continuar se sentindo culpado diante de Deus.

Dessa vez, pela primeira vez na história toda, Meursault expressa alguma emoção: reage furioso. Diz que tem convicções próprias sobre a vida e a morte. Independente da causa, nada vai mudar o fato de que estamos condenados à morte. Essa vida é absurda. Ele é indiferente ao universo, o que tiver que ser, será, e ele estará feliz dessa forma….

Na mesma linha, Camus escreveu outro livro perturbador: o mito de Sísifo. É sobre o personagem grego condenado a rolar uma enorme pedra morro acima, só para ver ela desabar imediatamente após alcançar o topo.

Outro grande nome da época, Jean Paul Sartre, escreveu densas obras sobre existencialismo, na mesma linha.

Sartre é considerado o melhor filósofo, enquanto Camus, o melhor escritor.

A revista Le Monde fez uma lista dos 100 livros do século, e colocou “O Estrangeiro” em primeiro da lista.
https://en.wikipedia.org/wiki/Le_Monde%27s_100_Books_of_the_Century

Há uma versão em quadrinhos de “O Estrangeiro”: https://amzn.to/3dBuSDF

Albert Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957, “por sua importante produção literária, que ilumina com seriedade e clareza os problemas da consciência humana em nosso tempo”. Ele faleceu num acidente de carro, em 1960. Tem um filme sobre Camus no Prime Video, que não é muito empolgante, mas mostra um pouco da vida deste grande autor. (https://www.primevideo.com/detail/Albert-Camus/0KRGSCG19GY8YOD47N31CFLJOL)

Desde Sartre e Camus, poucos pensadores se destacaram em filosofias existencialistas. Imagino que seja porque é um beco sem saída. Se nada faz sentido, o que faço aqui? Melhor arrumar algum sentido, é mais produtivo.

Veja também:

“Lições da história” – Will e Ariel Durant

“Lições da história”, de Will e Ariel Durant, é um dos meus livros favoritos. É pequeno, com cerca de 100 páginas, porém apresenta uma série de ideias contundentes e afirmações fortes.

Link da Amazon: https://amzn.to/3qq5SEG

Este livro é um resumo das principais conclusões dos autores, analisando 100 séculos de história da humanidade. Eles escreveram uma das coleções mais aclamadas do mundo: A história da civilização, com 11 volumes e mais de 10 mil páginas!

Fiz um resumo no formato “cheat sheet”, uma planilha bizurada. Está disponível para download no link a seguir.

https://1drv.ms/x/s!Aumr1P3FaK7jnwzI1R3zqHUzUZGp

Veja também:

Recomendações de livros para um jovem em início de carreira (ideiasesquecidas.com)

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