Recomendações de livros sobre a cultura e história da China

É bastante difícil entender a cabeça de um povo com 5000 anos de história, tão distante e com um framework mental completamente diferente do nosso. Não basta apenas saber algo sobre a linguagem, entender um pouco da cultura é muito mais sutil e extremamente mais poderoso.

Um exemplo. Na família, o chinês chama o avô materno de um nome específico, o avô paterno com outro nome – enquanto por aqui é só avô e pronto, tanto faz se é da parte do pai ou da mãe. Outro exemplo, o irmão mais velho tem uma denominação, o segundo irmão tem outro nome, o terceiro, outro, etc… Para efeito de comparação, aqui temos um nome para o primeiro (primogênito) e o último (caçula). Isso tudo não é por acaso, e sim porque a hierarquia é bastante importante na cultura confuciana, e o avô por parte do pai é mais importante do que o avô por parte da mãe.

Divido os oito livros em duas seções: uma da cultura chinesa e outra sobre a história da China.

Parte 1 – Sobre cultura

1) O Romance dos Três Reinos. É um dos maiores clássicos da literatura chinesa e o meu livro favorito disparado desta lista. É um romance épico, uma espécie de Ilíada chinesa.

A história se passa quando a China era dividida em três reinos, cada qual guerreando com os outros pela dominação total da China e pela própria sobrevivência. É uma trama enorme, repleta de alianças, traições, reviravoltas, armadilhas, espionagem e contraespionagem, vitórias e derrotas.

Na China, conversei sobre este com algumas pessoas, e perguntaram qual o meu personagem favorito (lá, todo mundo tem um). O meu é o estrategista Zhuge Liang Kong Ming, que liderou várias das histórias mais épicas deste conto. A pessoa com quem conversei disse que a dela era o Cao-Cao.

Existem várias versões e interpretações do livro, em filmes, jogos, séries. Um que gosto muito é uma versão em mangá, adaptado por um autor japonês, por isso o nome Sangokushi (https://ww2.mangafox.online/sangokushi).

2) Os Anacletos de Confúcio. O confucionismo dominou a cena na China por vários milênios. Provas para concursos públicos eram baseados nas obras de Confúcio, um sábio que viveu há 2500 anos atrás.

Os Anacletos permeiam vários dos tópicos da sabedoria de Confúcio, entre eles respeito às tradições, ao imperador, aos governantes, aos pais, aos mais velhos – nesta ordem, daí a importância da hierarquia. Era por isso que os imperadores gostavam do confucionismo, porque dava uma razão moral para a sua própria atuação.

Um outro pilar é a importância dos estudos – e até por isso, os cargos públicos da era imperial deixaram de ser por aristocracia hereditária, para ser um concurso público por provas. Até hoje, tanto chineses quanto japoneses dão um valor enorme aos estudos, a ponto de exaustão física e emocional, para não dizer suicídio, ao tentar ingressar nas melhores faculdades.

Felizmente, podemos ler os Anacletos sem decorar palavra-por-palavra, letra-por-letra o que está escrito, porque eram assim as provas dos períodos imperiais: se trocasse a ordem de uma palavrinha, estava errado!

3) Jornada a Oeste. Outro livro épico da literatura chinesa. Conta a história de um macaco que faz uma jornada épica, onde encontra aliados, inimigos, passa por desafios, sempre permeado por mitologia, religião: taoísmo, confucionismo, budismo.

Também há dramatizações diversas, desenhos, mangás e outros.

Se o Romance dos Três Reinos é uma Ilíada, esta Jornada a Oeste parece uma Odisseia. Traduzindo, a Ilíada conta a história da Guerra de Troia contra os gregos, e a Odisseia, a jornada de Ulisses para voltar para casa.

4) O Tao-Te-Ching. O Tao é tudo. O Tao é nada. O Tao é um. Do Tao fez-se o Ying e o Yang, o positivo e o negativo, o cheio e o vazio, o tudo e o nada.

Uma casa é feita de algo, de paredes sólidas, mas ela só tem valor por casa do nada, do espaço vazio que ela contém.

O Tao-Te-Ching é um livrinho bem curto, cheio desses enigmas paradoxais, cheios de sabedoria.

5) A Arte da Guerra. Este é o livro mais famoso desta lista, e é muito conhecido no Ocidente. Contém lições valiosas sobre foco, planejamento, timing, importância da informação. Também é um texto bastante curto, no original (algumas versões ocidentais enchem com um monte de exemplos e divagações inúteis, ao invés de conservar a essência do texto).

É no estilo do Tao, dando importância aos métodos indiretos, e escrito também em forma de textos curtos, enigmáticos e paradoxais.

Um dos maiores generais de todos os tempos, Napoleão Bonaparte, era profundo estudioso da Arte da Guerra de Sun Tzu.

Parte II – Livros de História

6) The fall and rise of China. Brilhante série de aulas, do prof. Richard Baum, sobre a história da China, desde os primórdios até os dias atuais. Permeia passado e presente, pontuando os principais pontos da história, como o Grande Salto para Frente, a Revolução Cultural. Também inclui relatos pessoais, como a sua visão quando ocorreu o incidente da Praça da Paz Celestial.

O prof. Baum é extremamente didático, e esta é a minha recomendação para conhecer a história da China.

7) China’s Economy. O prof.  Arthur R. Kroeber fala da China, porém sob uma perspectiva mais econômica – porém também é necessário tocar nos assuntos de história que afetam e explicam a economia, como a política do filho único.

O legal também é que é um livro mais atual, então cita programas atuais como o Made in China 2025 e o Belt and Road, e problemas, como a supercapacidade produtiva ociosa, a necessidade de um “pouso suave”.

8) China in 10 Words. Relato pessoal do autor, um chinês, relatando o que ele viveu na pele quando criança e adolescente, e só passou a compreender muitas décadas mais tarde, adulto. Coisas pequenas, como um caso em

ele relata estar vacinando dezenas de pessoas com a mesma agulha amassada, costuradas com a explicação do contexto em que a China vivia na época (de novo, e nem ele sabia na época).

É um livro extremamente interessante, porém é necessário ter um bom background da história da China primeiro, para captar a essência do que o autor relata.

Conclusão

Dada a vastidão histórica e cultural da China, há uma quantidade infindável de bom material que ficou de fora (e que nem consegui conhecer).

Algumas dicas adicionais.

O Youtube chinês é o Youku https://www.youku.com/. O problema é que a pessoa tem que saber chinês.

Ninguém usa Whatsapp, todo mundo lá usa WeChat.

Ninguém aceita cartão de crédito.

10 tópicos sobre a China.

Um Cisne Negro paira sobre a China.

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A previsão do tempo que salvou o Dia-D

Resumo: a previsão do tempo possibilitou o desembarque aliado na Normandia, no Dia D – o evento que efetivamente virou o jogo na Segunda Grande Guerra. E se a previsão estivesse errada?

A não-linearidade do clima

A história, tanto quanto a vida, é marcada por diversos eventos não-lineares, que poderiam nunca ter ocorrido, e que poderiam ter mudado o mundo da forma como o conhecemos.

Por melhor que seja o planejamento, há eventos fortuitos que fogem completamente ao domínio de conhecimento de qualquer pessoa. Dentre todos os elementos desconhecidos, um dos mais importantes é o clima. Ele pode afetar desde o passeio no fim de semana, até o desembarque de 150 mil soldados e o destino da humanidade, no Dia D.

A importância do clima é tão grande, e conhecida desde tão antigamente quanto a Arte da Guerra, de Sun Tzu:

A arte da guerra é governada por cinco fatores:
– a Lei Moral
– o Céu
– a Terra
– o Comandante
– Método e disciplina

Onde o Céu significa a noite e o dia, o frio e o calor, o tempo e as estações.

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A fim de avaliar as chances de cada lado, Sun Tzu pergunta: Com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Zhuge Liang Kongming

Embora Sun Tzu seja muito famoso no ocidente, há outro estrategista chinês que o coloca no chinelo: Zhuge Liang Kongming, da época dos Três Reinos.

Conta-se que ele tinha um conhecimento profundo do clima e da topografia.

Numa das guerras contra um reino vizinho, ele ficou meses articulando a posição de suas tropas e navios de guerra, a fim de encurralar o inimigo e utilizar fogo para destruir de vez a oposição.

O comandante inimigo nem deu bola para o posicionamento de Kongming, porque todos sabiam, desde sempre, que o vento soprava contra o exército do nosso estrategista. Se Kongming quisesse utilizar o fogo, com certeza ele mesmo se queimaria.

Depois de muita preparação, Kongming mobilizou suas tropas e as de seus aliados, para o ataque final. Toda a sua estratégia dependia do fogo – e do vento. Mas o vento soprava contra ele na véspera do ataque. Os aliados queriam desistir do ataque, mas Kongming insistiu para que fossem em frente – e prometeu a sua cabeça, caso desse tudo errado.

Pois bem, exatamente no dia do ataque, o vento virou de direção, agora soprava contra o inimigo. Kongming e aliados utilizaram a fúria do fogo, devastaram o inimigo e saíram vitoriosos.

Diz a lenda que o vento não virou por acaso. Kongming tinha lido em tomos antigos de conhecimento esquecido que o vento, no local do ataque, virava de direção um dia por ano, exatamente no dia do ataque programado!

Se a lenda de Zhuge Liang parece muito fantasiosa, vejamos o que ocorreu no desembarque na Normandia.


O Dia-D

O Dia-D é o dia do desembarque das tropas aliadas na Normandia, ocorrido em 06 de junho de 1944. É um dos eventos-chave da Segunda Grande Guerra. É a maior operação anfíbia da história da humanidade, e uma das operações mais complexas da mesma.

Resumindo uma longa história. Em meados de 1944, a Alemanha de Hitler sofreu derrotas devastadoras em seu fronte russo e africano. Os aliados italianos sofriam derrota após derrota. A expansão nazista tinha chegado ao fim, a partir de agora, eles estavam na defensiva – o que não os tornava menos perigosos.

Entretanto, todos esses teatros de guerra eram muito distantes do núcleo do poder alemão. Era necessário atacar realmente o centro do poder por outra frente, propiciando um ataque direto, encurralando os alemães.

Em 1944, todos sabiam que haveria um desembarque anglo-americano na Europa. Só não sabiam onde, e nem quando. Sobre a questão do “onde”, as duas opções eram Normandia ou Calais – locais com amplas praias para espalhar as tropas e não serem alvo fácil, próximos a portos importantes para garantir o ressuprimento, mares calmos o suficiente para facilitar o desembarque.

A Normandia foi o local escolhido, após longas análises e muita guerra de informação e desinformação, com direito a tanques de papelão, mensagens falsas, tropas fake, etc…

Sobre o “quando”: era necessário que houvesse lua, no mínimo parcialmente, porque as operações aéreas começariam de madrugada. A maré deveria estar baixa – para permitir que as tropas localizassem o campo minado deixado pelo inimigo. O tempo deveria estar bom – pouco vento, poucas nuvens – imagine o pesadelo que seria desembarcar sob tempestade e sob fogo nazista.

O Gen. Eisenhower, responsável pela Operação Overlord, fez longos meses de planejamento, imaginando cada detalhe da invasão, cada passo a ser tomado. Ele definiu junto aos seus pares que a invasão seria no dia 5 de junho de 1944. Mas havia algo impossível de prever: o clima, o mesmo clima citado por Sun Tzu, o mesmo clima que virou o jogo para Kongming.

A mobilização para o Dia-D foi monstruosa. Mais de 2000 navios de guerra, cerca de 150 mil soldados, tropas americanas, canadenses, britânicas – uma logística de outro mundo.

Entretanto, o tempo literalmente fechou para os aliados. Uma tempestade se aproximava – ventos fortes, pouca visibilidade. Eisenhower mandou as tropas esperarem. E agora, a responsabilidade do sucesso da invasão caía sobre os ombros de um homem, o Capitão James Stagg, o meteorologista-chefe dos americanos. E a resposta dele era que era impossível fazer a previsão, naquelas condições – teria que esperar.

O que fazer? Cancelar o Dia D?

A próxima janela de tempo com todas as características necessárias só se daria dali a duas semanas. Mas desmobilizar e mobilizar novamente todas as tropas seria um completo pesadelo logístico. Além disso, seria impossível guardar segredo após a movimentação de tanta gente, eles perderiam o elemento surpresa e a guerra de desinformação. E pior, se chovesse dali a duas semanas, talvez a próxima oportunidade tivesse que esperar mais vários meses. Daria tempo suficiente para a Alemanha se defender da Rússia, da ofensiva pelo Sul e de todas as ameaças.

No dia seguinte, o meteorologista Stagg bateu no peito, e garantiu que a tempestade tinha dado uma trégua. Haveria uma brecha de pouquíssimo tempo – um dia, no máximo dois dias. Vários dos comandantes acharam muito arriscado, mesmo assim, e pediram para adiar o desembarque na Normandia. Mas Eisenhower apostou alto, colocou todas as fichas em sua versão de Kongming, e ordenou o ataque para o dia 06 de junho de 1944.

A partir daí, é história: o Dia D foi uma das operações mais bem sucedidas da humanidade, e selou o destino da Alemanha de Hitler.

Outro fato que ajudou no sucesso da operação. Os nazistas estavam muito tranquilos de que não haveria invasão alguma, porque a previsão do tempo apontava chuva forte. Mesmo após o desembarque, eles custaram a acreditar que esta fosse a operação real, e não uma isca para confundí-los.

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O que aconteceria se o tempo fosse contra?

Imagine se o meteorologista Stagg estivesse errado, e uma tempestade varresse a costa francesa?

Os aliados perderiam todo o apoio aéreo – a navegação aérea era totalmente visual naquela época. A navegação seria terrivelmente prejudicada. Mesmo se as tropas desembarcassem, a mobilidade dos equipamentos seria bastante prejudicada naquele momento crucial da invasão. Certamente, as perdas seriam estrondosamente maiores, senão catastróficas.

Não seria a primeira vez na história que uma tempestade acaba com uma invasão.
Kublai Khan, neto do mongol Genghis Khan, dominava a China no séc. XIII. Ele tentou invadir o Japão em 1274, com 300 navios e 15.000 soldados. Diz a lenda que uma tempestade destruiu os seus navios. O Japão, um país de agricultores, não conseguiria resistir ao poderio bélico sino-mongol.

Kublai dobrou a aposta, e em 1281, mobilizou 900 navios, 17000 marinheiros, 25000 soldados coreanos, mongóis e chineses… e, novamente, uma tempestade protegeu o Japão, acabando com as ambições do grande Khan da época.

Os ventos que protegeram o Japão foram os ventos (kaze) dos deuses (kami), dando origem ao termo “kamikaze”.

Citando novamente Sun Tzu: com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Epílogo

Não por acaso, o mais poderoso deus da mitologia grega, Zeus, é o deus da chuva e do trovão.

Também não por acaso, os mais poderosos deuses da mitologia nórdica, Odin, e seu filho Thor, também são deuses do trovão.

Antigamente, os guerreiros oravam aos deuses para conseguir as vantagens dos céus.

Os deuses sorriram para os aliados, no derradeiro Dia-D, o desembarque na Normandia.


Links:

https://www.audible.com/pd/History/World-War-II-A-Military-and-Social-History-Audiobook/B00DJ8ILIS

Ver no Medium.com

https://en.wikipedia.org/wiki/Normandy_landings

Normandy Landings 2017: What the D in ‘D-Day’ actually means

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_invasions_of_Japan

https://www.huffingtonpost.com/2014/06/06/70th-anniversary-dday-photos_n_5445367.html