Sr. Miyagi, Sr. Sulu e a Segunda Guerra

O divertido seriado Cobra Kai traz de volta os personagens do filme clássico Karate Kid, 30 anos depois.

É uma pena que o icônico Sr. Miyagi não vai voltar à série, uma vez o ator, Pat Morita, faleceu em 2005.

Mesmo assim, o Sr. Miyagi aparece em flashbacks e homenagens. Numa dessas homenagens, um detalhe me chamou a atenção: o Sr. Miyagi foi condecorado na Segunda Guerra, e pertencia ao 442º regimento do exército americano.


Acabei de ler outro livro, “Éramos chamados de inimigos”. É do ator George Takei, mais conhecido por ter interpretado o Sr. Sulu, da não menos icônica série Star Trek.

Takei narra o traumático evento em que ele e família ficaram confinados, nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra. Sendo o Japão o inimigo, todos os descendentes de japoneses nos EUA foram alçados imediatamente à condição de suspeitos. Tiveram os bens tomados e foram enviados para campos de confinamento, nos anos que a guerra durou.

Obs. O ator Pat Morita também passou pelos campos de confinamento. Ele narra: “Fui de uma criança alienada a inimigo público. Virei um ‘japa’ da noite para o dia, sendo escoltado pelo FBI para um campo de internato. Foram anos enormemente difíceis para o nosso povo. Pessoas andando pelo deserto que nunca mais seriam vistas. Pessoas se enforcando… Foi horrível. Horrível…”.

Nesse meio tempo, uma solução encontrada foi fazer as pessoas jurarem fidelidade aos EUA – ou seriam mandadas de volta ao Japão. A família de Takei ficou numa situação difícil. A mãe dele se recusou a aceitar a situação, e quase foi deportada – mas sendo salva no último minuto, devido à ação de um grupo que defendia as famílias nipo-americanas.

Mesmo sofrendo essas injustiças, alguns nipo-americanos juraram fidelidade, se alistaram, e foram à guerra na Europa. Teve um regimento formado totalmente por esses, o 442º.

O 442º regimento foi um dos mais condecorados da guerra, segundo a Wikipedia: 9.486 corações roxos e 4.000 medalhas de estrela de bronze . A unidade recebeu oito Citações da Unidade Presidencial (cinco obtidas em um mês). Vinte e um de seus membros receberam medalhas de honra.

E essa é a medalha do Sr. Miyagi, no 442º regimento.


Trivia 1: Será que só eu acho o Sr. Miyagi muito parecido com Mestre Yoda? Você não dá nada quando eles aparecem, mas no decorrer da história vão revelando sua sabedoria e treinando o jovem aprendiz a superar os desafios. Jornada do herói na veia.

Trivia 2: Será que só eu acho o Luke Skywalker e o Daniel-san tremendamente insossos? Dois moleques sem graça, metidos a besta.
Darth Vader >>>>>> Luke.

Trivia 3: O bizarro Karate Kid Ohara

Eu me lembro de um seriado chamado “Karate Kid Ohara”. Passou no SBT, no final dos anos 80 ou começo dos 90, algo assim.

Tinha o ator Pat Morita, como Ohara. Só que ele era detetive… nada de caratê, ele até usava arma. Todo o resto era completamente diferente. Nunca entendi aquilo.

Naquela época, não existia Google. Agora, 30 anos depois, descobri que a série era chamada originalmente “Ohara”, com o ator Pat Morita, e não tinha nenhuma relação com o filme Karate Kid. Foi o SBT que renomeou a série, malandramente. Não adiantou de nada, porque era muito ruim, ahah.

Links:


https://en.wikipedia.org/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/05/22/sr-miyagi-reaprendeu-a-andar-aos-11-anos-e-quase-foi-recusado-em-karate-kid.htm

https://pt.qwe.wiki/wiki/442nd_Infantry_Regiment_(United_States)

https://thekaratekid.fandom.com/wiki/

Winston Churchill: o Destino de uma nação.

Recomendação de filme: “O Destino de uma nação” retrata um período crítico (e põe crítico nisso) da história.

Em 1940, a Alemanha nazista de Hitler tinha conquistado quase toda a Europa continental. A imparável máquina de guerra alemã tinha invadido a França. Todo o exército britânico estava encurralado em Dunquerque (França).

A Inglaterra tinha duas opções: ou negociava a paz com Hitler, ou continuava a guerra. Durante a crise, Winston Churchill foi eleito primeiro-ministro.

Churchill era favorável a continuar a guerra. Ele recebeu uma quantidade enorme de críticas dos moderados e isentões, que falavam da quantidade de soldados e civis que perderiam a vida num confronto com a Alemanha. Ele quase foi derrubado do cargo, mas prevaleceu. Bateu no peito, assumiu a responsabilidade pelas vidas que seriam perdidas, e o Império Britânico continuou na guerra.

Era o correto a ser feito: matar o mal pela raiz.

O resgate de Dunquerque foi feito, utilizando cada tonelada de aço que tivesse condições de atravessar o Canal da Mancha. O filme termina neste ponto.

“O Destino de uma nação” está disponível na Amazon Prime Vídeo, entre outras plataformas.

Um pouco de história e digressão minha: A Inglaterra estava sozinha, na época. Toda a Europa continental tinha sido tomada: Polônia, Bélgica, França. A Itália de Mussolini era aliada de Hitler. EUA e Rússia não tinham entrado na guerra. A Alemanha tinha um pacto de não-agressão com a Rússia de Stálin.

Invasões alemães até 1940

Na época, não é exagero dizer que a Alemanha tinha vencido a guerra continental. Por isso, Hitler queria a paz com a Inglaterra. Há quem diga que Hitler poupou o exército britânico em Dunquerque, como um gesto para negociar a paz.

Se, ao invés de Churchill, alguém moderado estivesse no comando inglês, este teria feito as pazes com Hitler. A história seria muito diferente. Não haveria Segunda Guerra Mundial.

Com a paz no ocidente em 1940, Hitler ganharia vários meses ou anos para se preparar para a próxima guerra e consolidar o seu poder na Europa, nos territórios da França, Polônia, Bélgica e outros países europeus.

Poucos anos depois, Hitler invadiria a Rússia. Sem a pressão da guerra em duas frentes, provavelmente venceria a guerra, ou pelo menos anexaria boa parte da Rússia. Talvez a Alemanha coordenasse ações com o Japão, que atacaria a Rússia e não os EUA – assim, seria a Rússia a ter que defender duas frentes de ataque.

Se não fosse por Churchill, talvez tivéssemos o Terceiro Reich até os dias de hoje. Seria uma superpotência nazista.

A Inglaterra pagou o preço pela ousadia. Londres sofreu terríveis bombardeios pela força aérea nazista. O Império Britânico deixou de ser um Império. Após a entrada dos EUA e da Rússia, a maré virou, e os aliados venceram o eixo, livrando o mundo do nazismo de Hitler.

Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2017/11/26/a-previsao-do-tempo-que-salvou-o-dia-d/

https://ideiasesquecidas.com/2017/11/19/%e2%80%8b-o-destruidor-de-mundos/

Amazon Prime Video

Link do filme na Amazon: https://amzn.to/3aWCZHw

O filme Dunkirk é sobre o resgate dos soldados britânicos na França. https://amzn.to/3eg4eia

A previsão do tempo que salvou o Dia-D

Resumo: a previsão do tempo possibilitou o desembarque aliado na Normandia, no Dia D – o evento que efetivamente virou o jogo na Segunda Grande Guerra. E se a previsão estivesse errada?

A não-linearidade do clima

A história, tanto quanto a vida, é marcada por diversos eventos não-lineares, que poderiam nunca ter ocorrido, e que poderiam ter mudado o mundo da forma como o conhecemos.

Por melhor que seja o planejamento, há eventos fortuitos que fogem completamente ao domínio de conhecimento de qualquer pessoa. Dentre todos os elementos desconhecidos, um dos mais importantes é o clima. Ele pode afetar desde o passeio no fim de semana, até o desembarque de 150 mil soldados e o destino da humanidade, no Dia D.

A importância do clima é tão grande, e conhecida desde tão antigamente quanto a Arte da Guerra, de Sun Tzu:

A arte da guerra é governada por cinco fatores:
– a Lei Moral
– o Céu
– a Terra
– o Comandante
– Método e disciplina

Onde o Céu significa a noite e o dia, o frio e o calor, o tempo e as estações.

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A fim de avaliar as chances de cada lado, Sun Tzu pergunta: Com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Zhuge Liang Kongming

Embora Sun Tzu seja muito famoso no ocidente, há outro estrategista chinês que o coloca no chinelo: Zhuge Liang Kongming, da época dos Três Reinos.

Conta-se que ele tinha um conhecimento profundo do clima e da topografia.

Numa das guerras contra um reino vizinho, ele ficou meses articulando a posição de suas tropas e navios de guerra, a fim de encurralar o inimigo e utilizar fogo para destruir de vez a oposição.

O comandante inimigo nem deu bola para o posicionamento de Kongming, porque todos sabiam, desde sempre, que o vento soprava contra o exército do nosso estrategista. Se Kongming quisesse utilizar o fogo, com certeza ele mesmo se queimaria.

Depois de muita preparação, Kongming mobilizou suas tropas e as de seus aliados, para o ataque final. Toda a sua estratégia dependia do fogo – e do vento. Mas o vento soprava contra ele na véspera do ataque. Os aliados queriam desistir do ataque, mas Kongming insistiu para que fossem em frente – e prometeu a sua cabeça, caso desse tudo errado.

Pois bem, exatamente no dia do ataque, o vento virou de direção, agora soprava contra o inimigo. Kongming e aliados utilizaram a fúria do fogo, devastaram o inimigo e saíram vitoriosos.

Diz a lenda que o vento não virou por acaso. Kongming tinha lido em tomos antigos de conhecimento esquecido que o vento, no local do ataque, virava de direção um dia por ano, exatamente no dia do ataque programado!

Se a lenda de Zhuge Liang parece muito fantasiosa, vejamos o que ocorreu no desembarque na Normandia.


O Dia-D

O Dia-D é o dia do desembarque das tropas aliadas na Normandia, ocorrido em 06 de junho de 1944. É um dos eventos-chave da Segunda Grande Guerra. É a maior operação anfíbia da história da humanidade, e uma das operações mais complexas da mesma.

Resumindo uma longa história. Em meados de 1944, a Alemanha de Hitler sofreu derrotas devastadoras em seu fronte russo e africano. Os aliados italianos sofriam derrota após derrota. A expansão nazista tinha chegado ao fim, a partir de agora, eles estavam na defensiva – o que não os tornava menos perigosos.

Entretanto, todos esses teatros de guerra eram muito distantes do núcleo do poder alemão. Era necessário atacar realmente o centro do poder por outra frente, propiciando um ataque direto, encurralando os alemães.

Em 1944, todos sabiam que haveria um desembarque anglo-americano na Europa. Só não sabiam onde, e nem quando. Sobre a questão do “onde”, as duas opções eram Normandia ou Calais – locais com amplas praias para espalhar as tropas e não serem alvo fácil, próximos a portos importantes para garantir o ressuprimento, mares calmos o suficiente para facilitar o desembarque.

A Normandia foi o local escolhido, após longas análises e muita guerra de informação e desinformação, com direito a tanques de papelão, mensagens falsas, tropas fake, etc…

Sobre o “quando”: era necessário que houvesse lua, no mínimo parcialmente, porque as operações aéreas começariam de madrugada. A maré deveria estar baixa – para permitir que as tropas localizassem o campo minado deixado pelo inimigo. O tempo deveria estar bom – pouco vento, poucas nuvens – imagine o pesadelo que seria desembarcar sob tempestade e sob fogo nazista.

O Gen. Eisenhower, responsável pela Operação Overlord, fez longos meses de planejamento, imaginando cada detalhe da invasão, cada passo a ser tomado. Ele definiu junto aos seus pares que a invasão seria no dia 5 de junho de 1944. Mas havia algo impossível de prever: o clima, o mesmo clima citado por Sun Tzu, o mesmo clima que virou o jogo para Kongming.

A mobilização para o Dia-D foi monstruosa. Mais de 2000 navios de guerra, cerca de 150 mil soldados, tropas americanas, canadenses, britânicas – uma logística de outro mundo.

Entretanto, o tempo literalmente fechou para os aliados. Uma tempestade se aproximava – ventos fortes, pouca visibilidade. Eisenhower mandou as tropas esperarem. E agora, a responsabilidade do sucesso da invasão caía sobre os ombros de um homem, o Capitão James Stagg, o meteorologista-chefe dos americanos. E a resposta dele era que era impossível fazer a previsão, naquelas condições – teria que esperar.

O que fazer? Cancelar o Dia D?

A próxima janela de tempo com todas as características necessárias só se daria dali a duas semanas. Mas desmobilizar e mobilizar novamente todas as tropas seria um completo pesadelo logístico. Além disso, seria impossível guardar segredo após a movimentação de tanta gente, eles perderiam o elemento surpresa e a guerra de desinformação. E pior, se chovesse dali a duas semanas, talvez a próxima oportunidade tivesse que esperar mais vários meses. Daria tempo suficiente para a Alemanha se defender da Rússia, da ofensiva pelo Sul e de todas as ameaças.

No dia seguinte, o meteorologista Stagg bateu no peito, e garantiu que a tempestade tinha dado uma trégua. Haveria uma brecha de pouquíssimo tempo – um dia, no máximo dois dias. Vários dos comandantes acharam muito arriscado, mesmo assim, e pediram para adiar o desembarque na Normandia. Mas Eisenhower apostou alto, colocou todas as fichas em sua versão de Kongming, e ordenou o ataque para o dia 06 de junho de 1944.

A partir daí, é história: o Dia D foi uma das operações mais bem sucedidas da humanidade, e selou o destino da Alemanha de Hitler.

Outro fato que ajudou no sucesso da operação. Os nazistas estavam muito tranquilos de que não haveria invasão alguma, porque a previsão do tempo apontava chuva forte. Mesmo após o desembarque, eles custaram a acreditar que esta fosse a operação real, e não uma isca para confundí-los.

american stock archive


O que aconteceria se o tempo fosse contra?

Imagine se o meteorologista Stagg estivesse errado, e uma tempestade varresse a costa francesa?

Os aliados perderiam todo o apoio aéreo – a navegação aérea era totalmente visual naquela época. A navegação seria terrivelmente prejudicada. Mesmo se as tropas desembarcassem, a mobilidade dos equipamentos seria bastante prejudicada naquele momento crucial da invasão. Certamente, as perdas seriam estrondosamente maiores, senão catastróficas.

Não seria a primeira vez na história que uma tempestade acaba com uma invasão.
Kublai Khan, neto do mongol Genghis Khan, dominava a China no séc. XIII. Ele tentou invadir o Japão em 1274, com 300 navios e 15.000 soldados. Diz a lenda que uma tempestade destruiu os seus navios. O Japão, um país de agricultores, não conseguiria resistir ao poderio bélico sino-mongol.

Kublai dobrou a aposta, e em 1281, mobilizou 900 navios, 17000 marinheiros, 25000 soldados coreanos, mongóis e chineses… e, novamente, uma tempestade protegeu o Japão, acabando com as ambições do grande Khan da época.

Os ventos que protegeram o Japão foram os ventos (kaze) dos deuses (kami), dando origem ao termo “kamikaze”.

Citando novamente Sun Tzu: com quem estão as vantagens do Céu e da Terra?


Epílogo

Não por acaso, o mais poderoso deus da mitologia grega, Zeus, é o deus da chuva e do trovão.

Também não por acaso, os mais poderosos deuses da mitologia nórdica, Odin, e seu filho Thor, também são deuses do trovão.

Antigamente, os guerreiros oravam aos deuses para conseguir as vantagens dos céus.

Os deuses sorriram para os aliados, no derradeiro Dia-D, o desembarque na Normandia.


Links:

https://www.audible.com/pd/History/World-War-II-A-Military-and-Social-History-Audiobook/B00DJ8ILIS

Ver no Medium.com

https://en.wikipedia.org/wiki/Normandy_landings

Normandy Landings 2017: What the D in ‘D-Day’ actually means

https://en.wikipedia.org/wiki/Mongol_invasions_of_Japan

https://www.huffingtonpost.com/2014/06/06/70th-anniversary-dday-photos_n_5445367.html