Pessoas requerem tempo

 

Bebendo um pouco da sabedoria de Peter F. Drucker, não consigo reproduzir o texto com a mesma maestria, mas ele disse mais ou menos isso.

 

O trabalhador do conhecimento precisa de atenção.

 

Pessoas não são processadores que recebem um input e geram um output. Não são máquinas que recebem um salário e por isso devem entregar um resultado – se fossem, poderiam ser substituídas por autômatos.

 

Pessoas querem ser ouvidas, compreendidas e terem importância dentro da organização. Muito do trabalho do administrador requer o gerenciamento de pessoas. Pessoas requerem tempo, muito tempo e dedicação.

 

E a única diferença real entre uma organização e outra é a performance das pessoas.

 

 

O “Artista”

Hoje me encontrei com o “artista”. Um sujeito de 30 e poucos anos, formado em Belas-Artes de uma universidade carioca.

Era alguém revoltado com a vida. Reclamava que a sociedade não apreciava o seu trabalho. Ninguém entendia a sua expressão de crítica ao sistema capitalista. Ele era uma força da desordem, contra a ordem. Estava além de seu tempo e muito acima de seus pares.

Ora, por uma questão de lógica, perguntei a ele porque ele gostaria de ser reconhecido pela sociedade, já que ele estava além do tempo e de seus pares? E porque um artista assim precisaria de reconhecimento externo, já não bastaria a satisfação com a obra em si? Em resposta, ele bravejou algo contra o sistema capitalista – fascista – norte-americano.

Eu disse a ele que “arte”, no conceito grego da época de Aristóteles, vem de “artificial”. Que os gregos consideravam todo o trabalho uma arte, por ser feito com o trabalho humano. Um sapateiro é um artista: tranforma couro e linha em algo que vai proteger o pé de alguém. Um varredor de rua é um artista: luta contra a entropia da natureza para manter as ruas limpas. O trabalho enobrece.

A resposta dele foi algo relacionado à dialética marxista. Acho que ele não entendeu a pergunta, e eu certamente não entendi a resposta.

A irmã do “artista” declarou que ele morava com a mãe. Nunca tinha trabalhado na vida, exceto em alguns “bicos”. A sua fonte de renda era uma mesada (da magra aposentadoria da mãe). Ele não ajudava em tarefa doméstica alguma e vivia reclamando de tudo.

Para concluir, não sei como dialogar com alguém assim, com visões básicas do mundo completamente distintas. Talvez ele esteja mesmo muito à frente do nosso tempo…

Ao me despedir do sujeito, suas últimas palavras foram “Fora Temer”!

 

 

 

 

Rodrigo e o curso de japonês

O Rodrigo é hoje um cara que tem 5 línguas estrangeiras no currículo, estudou nas melhores escolas do Rio de Janeiro e faz parte de uma família rica. Parece bom, não?

Polyglot

Há dez anos, eu morava no Rio de Janeiro e fazia aulas de língua japonesa. O curso ocorria todos os sábados, das 9 as 12h.

Conheci pessoas que são amigos meus até hoje. Conheci também o Rodrigo.


 
O Rodrigo destoava completamente de todos os outros alunos. Enquanto todo mundo estava pagando a aula do próprio bolso e com interesse em aprender, o Rodrigo estava lá porque a mãe o tinha obrigado. Ele ainda era adolescente, estava no segundo grau.
 

O interesse de Rodrigo nas aulas tendia a zero. Tinha cara de alguém revoltado com a vida. Não queria aprender, nem incorporar nada da cultura, muito menos conhecer pessoas. Seu interesse era simplesmente passar para a próxima etapa do curso. Ele era inteligente o suficiente para simplesmente estudar e tirar uma nota mínima na prova, uma vez por mês.
 

Claramente tinha uma condição econômica muito boa. Estudava numa escola particular cara. Viajava para o exterior nas férias. O seu pai tinha prometido um carro quando fizesse 18 anos. Não fazia apenas japonês, mas 5 línguas: inglês, alemão, e outras duas que não lembro. Tanto que às vezes se confundia e respondia algo em alemão. Fazia 5 línguas porque a mãe achava importante. Os seus pais eram separados, e o pai era muito distante, pelo que dizia.
 

O Rodrigo estudou por lá uns três anos. E foi ficando cada vez mais irresponsável, com o passar do tempo. Passou a faltar e só vir nas provas, e depois a faltar nas provas e marcar prova de reposição.
 

Lembro-me de outro episódio. Um dia, a professora estava dando uma bronca nele. Isto porque ele tinha marcado um horário para reposição. Aí, ele faltou na aula de reposição que tinha marcado, sem avisar. A professora tinha vindo de Belford Roxo, e tinha perdido umas 2h só para vir. Em sua defesa, Rodrigo dizia a ela que ia pagar a aula de reposição, como se isto fosse compensar a falta de respeito à pessoa a sua frente.
 

Não é bom julgar as pessoas sem conhecer o background, mas sei que, ao final do terceiro ano no curso: a) ele realmente ganhou do pai o carro que tanto queria, e estava muito feliz neste dia. b) aprendeu muito pouco de japonês, porque passando o nível básico, não basta fazer prova e passar: a pessoa realmente tem que entender o que está fazendo.
 


Aí eu me pergunto. Ao invés de 5 línguas, não seria melhor fazer uma ou duas, mas com seriedade? Ou deixá-lo fazer outro tipo de curso que gostasse? Ou deixar o adolescente com mais tempo livre?
 

Ao invés de carro e dinheiro, há algo melhor que o pai poderia ter dado.
O pai poderia estar Presente, ajudando na formação do filho. A mãe também, ao invés de terceirizar a educação por meio de um monte de cursos, poderia ela mesma ajudar na formação. Este blog já abordou a importância de se estar presente. O mundo precisa de pessoas que estejam presentes.

 

Por fim, pessoas são complexas, e dependem tanto de si mesmas quanto do ambiente. Espero que, apesar de tudo, o Rodrigo tenha se tornado um bom ser humano, em complemento ao bom currículo que tem. Porque o mundo precisa de boas pessoas.

 

Arnaldo Gunzi
Ago 2015