Paul McCartney era um aluno medíocre na aula de música


O grande músico Paul McCartney passou pelo Brasil na última semana.

Aos 76 anos, o ex-Beatle continua a entoar com energia algumas das mais belas canções de todos os tempos.

Porém, a julgar pelas suas notas nas aulas de música, esperava-se um músico medíocre.

Paul odiava a escola de música. O seu professor nunca dava notas boas, e nem notava talento especial no jovem Paul.

Outro aluno na mesma escola de música era George Harrison – que também era julgado como um aluno mediano.

Ou seja, o professor quase reprovou metade dos Beatles em sua sala de aula!

Esta história pavorosa é contada por Sir Ken Robinson, num vídeo famoso no TED. A escola, nos moldes tradicionais, atrapalha a criatividade.

Forgotten Lore

O nome deste blog, Forgotten Lore, vem do enigmático “O Corvo” (The Raven), do autor americano Edgar Allan Poe:

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore

 

Este é um dos poemas mais conhecidos de Allan Poe. Foi escrito em 1845, e é citado e recitado diversas vezes ao longo da história.

https://www.eapoe.org/geninfo/zpf0003b.gif

Como o inglês dele é bem difícil, tive que ler, procurar no dicionário, reler diversas vezes para entender o poema…

No caso específico de Forgotten Lore.

Forgotten significa “esquecido”.
Lore significa “conhecimento” –  não conhecimento por conhecimento, mas um conhecimento valioso.

O significado de Lore, segundo o dictionary.com:

the body of knowledge, esp. of a traditional, anecdotal, or popular nature, on a particular subject.

(http://www.dictionary.com/browse/lore)

 

Portanto, Forgotten Lore pode ser interpretado como: Um conhecimento valioso esquecido em livros antigos.

 


 

Sonhando sonhos

O poema The Raven deve ser lido em voz alta, em inglês. Mesmo sem entender uma palavra do que está escrito, dá para perceber que este segue uma métrica bem definida e tem uma sonoridade agradável aos ouvidos.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/Raven_Manet_D2.jpg

 

Além disso, tem várias outras passagens memoráveis e frases que viram citações conhecidas. Gosto muito deste trecho:

Dreaming dreams no mortal ever dared to dream before,

algo como “Sonhando sonhos que mortal nenhum jamais ousou sonhar”, em tradução livre.

Esta minha tradução é fácil de entender, mas destruiu a estrutura e a poética do texto.

Que tal a versão de alguém com um pouquinho mais de calibre?

Na tradução de Fernando Pessoa:

“tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais”

 

Machado de Assis também tem a sua tradução do Corvo:

“E sonho o que nenhum mortal há já sonhado”

 

E tem mais umas trinta traduções para o português, segundo este site que as compilou: http://www.elsonfroes.com.br/mpoe.htm

Os Simpsons também têm uma versão do corvo:

 

Vira e mexe, aparece alguma obra inspirada no Corvo, seja no cinema ou em outros meios artísticos.

Por fim, a minha preferida.

A canção “Velha roupa colorida”, de autoria de Belchior – falecido há pouco, em abril de 2017 – e imortalizada na voz de Elis Regina, faz várias citações ao “blackbird”.

Esta canção é muito bonita, mas a letra é indecifrável na primeira vez que se ouve. Mesmo ouvindo várias vezes, é difícil entender exatamente. Hoje em dia, é fácil pesquisar a letra na internet.

 

Como Poe, poeta louco americano
Eu pergunto ao passarinho: Blackbird, o que se faz?
Raven never raven never raven

Blackbird me responde
Tudo já ficou pra trás
Raven never raven never raven

Assum-preto me responde
O passado nunca mais

 

Além da música ter um ritmo legal, ela é cheia de citações. Em parágrafo anterior, ela cita “She’s leaving home”, dos Beatles – em particular Paul McCartney. Também cita “Like a rolling stone”, de Bob Dylan.

O “poeta louco americano” só pode ser Allan Poe. Mas, quem sabe, também se refira a Paul McCartney – note que a sonoridade de Poe e Paul é a mesma. Enquanto o corvo é de Poe, o Blackbird é uma música de Paul – dos Beatles.

O “raven never” é uma clara mênção ao “nevermore” do poema.

Assum Preto é um pássaro preto do agreste nordestino. Mas também é uma música belíssima e triste do rei do baião, Luiz Gonzaga. Conta o tocante destino do assum preto, condenado a cantar cego, e traça um paralelo a ele mesmo, Luiz Gonzaga, quando perdeu a visão de um de seus olhos.

 

E tudo isso começou quando eu estava, um dia, folheando tomos de conhecimento esquecido…

e disse, o corvo, nunca mais!

 


Links

Original de Allan Poe
https://www.poetryfoundation.org/poems/48860/the-raven

Velha roupa colorida

https://www.letras.mus.br/elis-regina/91023/

Tradução de Fernando Pessoa
http://www.revistaprosaversoearte.com/o-corvo-edgar-allan-poe-traducao-fernando-pessoa/

Tradução de Machado de Assis
https://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Machado_de_Assis)

 

 

Escola acadêmica x Vida real

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Sir Ken Robinson tem um vídeo famoso no TED, onde argumenta que a escola, nos moldes tradicionais, atrapalha a criatividade.

Ele conta uma história apavorante: se fosse pela escola, Paul McCartney nunca teria sido músico.

O professor de música de Paul, no ensino médio, nunca dava notas boas para ele, nem notava nenhum talento diferente.

Outro Beatle, George Harrison, teve o mesmo professor alguns anos depois, e era a mesma coisa: nenhum destaque, notas medianas, aluno mediano.

Imagine só. Os Beatles são a banda mais legal e bem sucedida do universo. Um professor tem metade dos Beatles em sua aula de música, onde ele supostamente seria o especialista do assunto, e dá nota 5 para eles!!

Agora, a minha experiência. Sou alguém que estuda muito. Leio um livro por semana, no mínimo. Sempre fui assim.
Porém, na época da escola, eu fui ensinado que a escola tem as respostas. Existia o certo e o errado. Se a resposta não fosse igual à das soluções do final do livro, estava errada.

Por anos, eu seguia o mesmo processo. Dado um problema novo, eu sempre procurava extensivamente em livros se alguém já tinha pensado e resolvido aquilo. Depois disso, analisava as soluções que encontrava e começava a pensar.

Mas este processo está errado. O ideal é começar a pensar antes de procurar outras soluções. Imaginar, desenvolver, ao invés de copiar.

Na vida real, há coisas que dão certo e que dão errado. Mas esta fórmula não está escrita num livro. O conhecimento de hoje pode estar ultrapassado amanhã. E é a vida real que dá o veredicto final, não a escola.

Se Paul McCartney tivesse sido influenciado pelas notas do professor de música, talvez ele tivesse ido trabalhar como mão de obra na indústria. Não existiriam os Beatles. O mundo seria mais triste, ao ser privado de músicas como Yesterday, Hey Jude, The long and winding road, Sgt Pepper, Yellow Submarine…

Arnaldo Gunzi
Jan/2014

Bônus: Yesterday é a música mais regravada da história, com mais de 2000 regravações.