Todo projeto deve ter um “killer app”


Um erro comum que eu cometia quando jovem era o de listar todas as vantagens possíveis do meu trabalho e mostrar para o avaliador (professor).

Nesta lista, tinham alguns itens realmente úteis, e muitos itens acessórios, pouco relevantes.

Um projeto, qualquer seja ele, deve ter pelo menos um “killer app”. Ou seja, a aplicação mais desejável, aquela pela qual todo o trabalho se justifica.

É como a melhor faixa do disco. Talvez este comentário não faça sentido para as novas gerações, mas, antigamente, as músicas eram vendidas em discos. E, já que era necessário comprar um disco físico para ter a música, disco este que deveria ser produzido e impresso em escala, vinham umas 15 músicas no CD. Porém, era muito comum comprar o CD inteiro por causa de apenas uma música.

Já comprei o Acústico MTV da Legião Urbana por causa da música Índios. Note que que há outras canções igualmente belas e envolventes, porém a música Índios sozinha já justifica o investimento. Já comprei “Let it be” (álbum) por conta de “Let it be” (música) – note que o conceito da melhor faixa é tão forte, que já colocavam no título direto o que interessava.

Note também que a melhor música nunca é a primeira. Tem algumas preliminares antes, uma preparação para o clímax. E, excelente músicas depois, para fechar bem e dar um gostinho de “quero mais” (como Faroeste Caboclo e The long and winding road).

O Excel foi, por muito tempo, o “killer app” do computador pessoal. Afinal, numa época que não existia internet nem multimídia, o Windows vinha com o paintbrush, o bloco de notas, nada de muito útil. Com o Office, principalmente o Excel, aí sim era possível criar planilhas complexas e controles úteis para uma organização.

Com o advento da Internet e sua miríade de conteúdo, esta passou a ser o “killer app”. Um smartphone sem acesso à internet, por exemplo, nem merece o nome smartphone.

Como um roteiro, o trabalho deve ter um killer app, algumas boas preliminares, um excelente fechamento, e o mínimo possível de encheção de linguiça.

Ação: Qual o “killer app” do projeto? Que gargalo ele vai resolver? O que o cliente quer de verdade?

Trilha sonora: Índios – Legião Urbana

Let it Be – The Beatles


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

Killer application

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Hoje participei de uma reunião, com vários diretores da empresa discutindo cenários e fazendo contas de vários milhões de reais (numa grande empresa, é fácil esses cenários passarem de milhões). E qual o software que este pessoal utilizou? Matlab para cálculos numéricos multidimensionais? R, para modelagem estatística pesada? Java ou C++? É claro que não. Eles usaram o bom e velho Excel. E este fato se repete em TODOS os níveis de uma empresa, desde o analista que necessita de algum controle até o CEO.

É impressionante como um software pode ser tão onipresente.
O Excel tem duas características principais: 1 – É extremamente intuitivo para o ser humano trabalhar em duas dimensões, acrescentando a complexidade que quiser e modelando conforme a sua cabeça mandar; 2 – É um software extremamente poderoso, permitindo funções extremamente elaboradas e macros para automação de processos.


Mas o Excel não é a primeira planilha eletrônica da história. Esta honra cabe ao Visicalc, feita para o Apple II.
O Visicalc é o que podemos chamar de “Killer application”: a melhor aplicação, a melhor faixa do disco. Como não poderia deixar de ser num mundo onde a lei de Pareto impera, o killer app sozinho já justifica todo o investimento. Muitas empresas compraram o Apple II só por causa do Visicalc.

Dizem que o criador do Visicalc teve a inspiração numa aula. O professor fez uma série complicada de relações financeiras na lousa. Após fazer o modelo, ele mudou um parâmetro, e teve que recalcular a tabela inteira, com apagador e giz.

Sendo o criador do Visicalc mais um cientista da computação do que um empresário, ele não teve a ambição de dar passos muito maiores, dando espaço para concorrentes melhores surgirem pouco tempo depois: Lotus 1, 2, 3, e, é claro, o Excel.


Dica: em todos os trabalhos que você for entregar, descobrir qual o “killer app”. Não apenas fazer o trabalho que foi encomendado, mas procurar responder: Qual a principal função deste trabalho? Que gargalo ele vai resolver? O que o cliente (ou o chefe) quer de verdade?

Arnaldo Gunzi
Março 2015


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/