Jared Diamond e Geografia

Três recomendações de livros do fantástico autor americano Jared Diamond, 1937 – presente. Os três tratam de história, antropologia e geografia.

Armas, Germes e Aço

Este livro o tornou famoso mundialmente. Ele explica o motivo pelo qual a Europa e outros países das “latitudes sortudas” conseguiram atingir o nível atual de desenvolvimento, e outras nações, não. Ele apresenta argumentos intrigantes, baseados em muitas evidências.

O Terceiro Chimpanzé

Fala sobre a evolução humana. O primeiro chimpanzé é o chimpanzé mesmo. O segundo, o chimpanzé pigmeu. E o terceiro, o ser humano. Há pouca diferença entre o DNA dos três. Por que o ser humano se sobressaiu? Este é um livro sobre evolução, sexualidade e antropologia.

Upheaval

O mais novo livro, Upheaval (tradução: revolta ou crise) foi lançado há pouco tempo. Fala como alguns alguns países lidaram com crises e se tornaram o que são hoje. Conta trechos resumidos da história, cultura e implicações que têm até o presente, de países como a Finlândia, Japão, Alemanha e outros. É uma leitura fluída e extremamente enriquecedora. Vale muito a pena, aliás, todos os três valem muito a pena.

Diamond tem um conhecimento enciclopédico, acumulado durante os seus 82 anos de vida. Por outro lado, dada a sua idade, é improvável que continue escrevendo livros de tamanha qualidade. Vamos aproveitar enquanto é tempo.

Moais e moais kavakava

O colapso da Ilha de Páscoa

Estive a conversar com meu amigo Darlon Orlamunder sobre o colapso da Ilha de Páscoa, destino turístico de uma de suas férias culturais. A Ilha de Páscoa é famosa pelas suas estátuas, os moais.

Esta ilha foi do ápice até o colapso, pelo esgotamento dos recursos naturais.

Estes são trechos de um livro bacana, porém melancólico: Colapso, do excelente historiador Jared Diamond – o mesmo que escreveu o best-seller “Guns, germs and steel”.

Ele descreve o colapso de civilizações antigas e modernas, entre elas a Ilha de Páscoa, que foi de uma população de 30 mil pessoas para menos de 1500.

Os seres humanos começaram a chegar na ilha por volta de 900 d.C, e uma população se formou ali. Não há relato escrito, porém os arqueólogos se baseiam em evidências coletadas, em diários de europeus que estiveram ali e na tradição oral do povo remanescente.

Os nativos formavam 12 territórios em diferentes pedaços da ilha.

Moais com olhos (todas as imagens aqui são da internet)

As famosas estátuas gigantes têm o nome de “moai”, e as plataformas de pedra em que elas ficam têm o nome de “ahu”. Cerca de 300 ahu foram identificados, e 113 têm moais, sendo 25 especialmente largos e elaborados.

A plataforma de pedra é o ahu

O basalto da ilha é bastante adequado para esculturas, o que facilita a construção dos moais.

Mas o que causou o colapso da ilha?

Primeiro, evidências.

A análise dos restos de lixo mostram que peixes como atum começaram a sumir da dieta, assim como diversas espécies de pássaros foram extintos na ilha – pela ação humana e desmatamento.

Especialmente forte foi o desmatamento. A madeira era utilizada para cremar corpos, fazer canoas, e áreas foram limpas para plantações. Além disso, a entrada de ratos clandestinos pelas viagens marinhas ajudou a destruir as palmeiras da ilha.

Outro fator que não ajudou em nada era uma espécie de competição entre as tribos, para ver quem erigia as estátuas maiores – exigindo mais madeira, cordas e alimentos para tal empreitada.

O desmatamento começou após a chegada humana em 900 d.C., e acabou por 1700, quando a concentração humana já havia colapsado.

Os impactos ambientais geraram consequências como a fome, declínio populacional agudo, culminando no canibalismo.

A fome é graficamente confirmada pela proliferação de estátuas chamadas moai kavakava, mostrando seres humanos famintos com costelas à mostra.

Um moai kavakava

Tradições orais mostram que os habitantes eram obcecados pelo canibalismo, sendo que um xingamento comum era algo do tipo: “Tenho a carne de sua mãe nos meus dentes”.

Por que o caso de Páscoa é tão singular?

Diamond sustenta, após longa argumentação, que a ilha de Páscoa é seca e fria, longe do Equador, além do tipo de solo não ajudar.

Tudo isto, aliado à superexploração de seus recursos, levou ao colapso desta civilização.

Esta é uma grande história de alerta a nós, em termos de desmatamento e superexploração de nossos recursos naturais.

Devido à globalização, todos os países do mundo compartilham dos mesmos recursos, afetando todos nós.

A nossa ilha é o Planeta Terra inteiro, e, tal qual os habitantes de Páscoa, não temos para onde fugir em caso de necessidade. Se uns milhares de nativos com ferramentas de pedra e músculos conseguiram acabar com a Ilha de Páscoa, o que vários bilhões de pessoas com ferramentas modernas e máquinas monstruosas podem fazer?

Pense nisto nas próximas férias à Ilha de Páscoa!


Ideias técnicas com uma pitada de filosofia

https://ideiasesquecidas.com/

https://en.wikipedia.org/wiki/Moai_kavakava

Os japoneses originais

Na escola ensina-se muita coisa sem sentido. Mas ainda bem que o grande mérito da escola é ensinar a pensar, e principalmente ensinar a questionar.

Ouvi na escola que japoneses e chineses têm os olhos puxados porque estão num lugar que neva. A neve reflete a luz do sol, por isso, eles têm que ficar com os olhos mais fechados…

Mas eu pensava: porque os suecos não têm olhos puxados, se lá neva tanto quanto no Japão? E na Rússia, não neva não?

Faces

Chineses, japoneses e coreanos têm aparência física semelhante. Será que eles têm um ancestral comum? Se sim, foram os japoneses que ocuparam a Coreia e a China, ou foi a China que ocupou o Japão? Ou faz sentido dizer que eles têm olhos puxados porque neva?

Geografia

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O Japão é um conjunto de ilhas no mar. A Coreia é vizinha da China no continente. A Coreia é o país mais próximo geograficamente ao Japão.

O povo Ainu

As evidências arqueológicas indicam que os japoneses originais não eram os ancestrais dos japoneses de hoje. Ou melhor, havia um povo que habitava o Japão  antes dos japoneses atuais. Eles eram os Ainu.

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Os Ainu chegaram ao Japão há cerca de 10 mil anos. Talvez tenham atravessado a pé o mar que separa o continente, aproveitando uma das eras glaciais, quando o nível do mar era mais baixo. Eles se estabeleceram no Japão e formaram diversas tribos. Especula-se que foram caçadores-coletores – não havia escrita nem agricultura, não deixaram vasos nem ferramentas sofisticadas.

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O povo Ainu parece uma mistura de caucasóides com asiáticos. São muito diferentes dos japoneses atuais que todos conhecem. Eles têm longas barbas e, alguns, olhos azuis. Têm semelhanças com tibetanos. A língua Ainu é completamente diferente da língua japonesa.

Atualmente, os Ainu vivem no extremo norte do Japão, como uma minoria étnica.

Um vídeo sobre os Ainu.

As mulheres apresentam curiosas tatuagens na boca, por tradição.

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Os filhos do Sol

Há uns 3.000 anos, algo mudou drasticamente. A arqueologia encontrou objetos de metal e sinais de agricultura, assim como vasos. Diferentemente dos vasos de eras anteriores, estes pareciam muito com vasos coreanos da época. Diversos outros objetos eram de origem coreana: bronze, ferramentas, estilos de casas, porcos domesticados. Este povo dominava muito bem a agricultura: arroz, trigo, e isto deve ter ajudado a sua expansão demográfica, e provavelmente vieram em barcos, pelo mar.

Domínio da agricultura, ferramentas de metal e casas de estilo coreano não surgem de uma hora para outra. Muito menos a transformação de um povo como os ainu em japoneses atuais. O que provavelmente aconteceu foi que houve a invasão de um povo, provavelmente vindo da Coreia, ocupando as terras japonesas.

O novo povo japonês invasor foi ocupando áreas cada vez maiores do Japão, e empurrando o povo Ainu cada vez mais para lugares remotos.

A primeira crônica japonesa amplamente conhecida é de 712 d.C. Nesta época, o Japão era inquestionavelmente dominado pelos ancestrais dos japoneses modernos: cultura, linguagem, DNA.


Genética

Além das evidências arqueológicas, hoje em dia é possível fazer um “teste de paternidade” utilizando o DNA.

Em termos genéticos, os esqueletos antes de 3.000 anos atrás têm muito mais semelhança com os Ainu do que com os japoneses. Depois deste período, é o contrário. E os japoneses e coreanos da época têm muita similaridade. O “teste de paternidade” leva a crer que foram sim os coreanos que invadiram o Japão há tempos atrás e deram origem ao Japão atual.

Os japoneses têm genes majoritariamente idênticos aos coreanos, com uma percentagem pequena ainu. Quanto mais ao norte, maior esta porcentagem ainu. E, quanto mais ao sul, maior a mistura com o povo original de Okinawa, outro que tem características distintas do povo invasor. Além disso, há em menor número incidência de genes indonésios, tibetanos, etc… vide links no anexo.


Língua

Há um grande problema nesta história toda. A língua coreana atual não tem nenhuma relação com a língua japonesa atual. Se coreanos e japoneses têm similaridade genética e a antropologia conta uma história de invasão coreana no Japão antigo, como pode ser que não haja similaridade entre as línguas?

Linguas

Na figura, da esquerda para direita: coreano, japonês e chinês.

A teoria de Diamond é a seguinte. Na verdade, a Coreia de 3000 anos atrás não era uma nação única como conhecemos hoje, mas sim um aglomerado de reinos diferentes. A língua coreana atual deriva do reinado de Silla.

Talvez, no processo de unificação da Coreia, o reinado de Silla tenha vencido a guerra contra algum outro reino coreano. As línguas e culturas entre os reinos coreanos eram bastante distintas, e um destes reinos poderia ter similaridade com a língua japonesa. Pessoas deste reino resolveram fugir para algum lugar distante e levar consigo objetos, pertences e cultura, fundando uma nova nação em um território inexplorado.

Portanto, os japoneses, chineses e coreanos têm olhos puxados porque descendem uns dos outros, e não porque neva nesses lugares.

Hoje em dia, há muita rivalidade e até ódio entre Coreia e Japão, por causa de guerras e episódios como a invasão japonesa da Coreia na Segunda Grande Guerra. Mas eles descendem da mesma raiz, são irmãos na aparência, na genética e na história.


Veja também:

Artigo original de Jared Diamond

http://foreigndispatches.typepad.com/dispatches/2007/01/the_origins_of_.html

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia: https://ideiasesquecidas.com/

https://ideiasesquecidas.com/2017/03/18/muro-de-tijolos-x-muro-de-pedras/

https://ideiasesquecidas.com/2020/05/28/seria-possivel-eliminar-os-ideogramas-na-china-e-no-japao/

https://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_people