Mercados desabam 0,16%???

Abro a notícia do link a seguir, dizendo que os mercados asiáticos desabaram devido às últimas notícias.

Temor com Coreia do Norte desaba fechamento de bolsas da Ásia

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Quando vejo o conteúdo, lá diz que a bolsa da China fechou em baixa de 0,16%, a bolsa do Japão, em baixa de 0,25%.

Desde quando uma baixa de 0,16% é desabar?


 

Algumas incorreções.

Primeiro, qualquer desses índices de mercado é composto de várias e várias ações. O Ibovespa, por exemplo, é uma carteira de 59 ações, conforme o link.

Portanto, se o índice final ficou próximo de zero, algumas ações subiram, outras desceram. Na média ponderada, deu o número citado. Portanto, o índice como número absoluto é apenas um indicativo. Não quer dizer nada, de forma absoluta.

 

Segundo, o ser humano tem uma necessidade imensa de explicar tudo. Na bolsa, cada comprador e vendedor têm os seus objetivos. É, no mínimo, superficial justificar as ações de todos os milhares de compradores, vendedores e algoritmos a partir de uma manchete de jornal espalhafatosa. Entretanto, a explicação como a dada é simples, fácil de entender e faz algum sentido, é boa para uma manchete de jornal.

Dá-se o nome de Falácia Narrativa à nossa tendência de querer explicar tudo de forma simples e que faça algum sentido. Temos muita criatividade para interpretar dados e fatos, e atribuir significado. E, assim, explica-se porque o Corinthians perdeu, porque os chineses têm olhos puxados, porque o ornitorrinco nunca surgiu no Brasil, etc…

 

Uma variação tão baixa, de 0,16%, e no índice do mercado, significa nada. O mercado andou de lado. Deu de ombros ao noticiário – não acredita nem nas bravatas do gordinho norte-coreano, nem nos latidos do magnata americano… mas dizer isto não rende cliques.

 

 

 

 

 

 

Plutão e a falácia narrativa

A falácia narrativa

O cérebro humano tem uma imaginação incrível, mas justamente esta capacidade de imaginar pode causar alguns “bugs”. Um deles é o de acreditar mais numa história bem contada do que na realidade…

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O planeta Plutão é o xodó dos astrônomos, o queridinho, por causa de uma história mais ou menos assim.

Nos anos 1900, o astrônomo Percival Lowell observou discrepâncias na órbita do planeta Netuno. Ele fez os cálculos e concluiu que existia um nono planeta, o planeta X, que estava interferindo na órbita de Netuno. Décadas depois, o tal planeta X foi descoberto, exatamente no local predito por Lowell. Em sua homenagem, batizaram o planeta de Plutão, que tem iniciais P e L (Percival Lowell).

 

Esta história confirmava o poder da matemática, segundo os livros didáticos.

Será?

 


 

O Rebaixamento de Plutão

Há alguns anos atrás, em 2006, o planeta Plutão foi desclassificado como um planeta de verdade. Foi rebaixado para a segunda divisão dos planetas do sistema solar, a categoria dos planetas anões.

Este fato causou uma comoção internacional. Como poderiam os cientistas, após tantos anos, tirar Plutão da série A de planetas?

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Acontece que a ciência avança com o tempo. E os astrônomos foram descobrindo mais e mais informações sobre o sistema solar.
Por exemplo, objetos como Quaoar (anunciado em 2002), Sedna (2003) e Eris (2005) têm quase o mesmo tamanho ou são até maiores do que Plutão. Descobriram o Cinturão de Kuiper, após a órbita de Netuno, que consiste em um cinturão de asteroides e que pode conter mais objetos similares a Plutão. Algumas das luas de Júpiter e Saturno são maiores do que Plutão.

 

Bom, no final das contas, o comitê da União Internacional dos Astrônomos de 2006 tinha duas opções: ou eles tiravam Plutão e ficavam com 8 planetas, ou incluíam o mesmo e ficavam com mais de 100 planetas! Os cientistas resolveram rebaixar Plutão.

 

Mas, então, tem algo errado na historinha do descobrimento de Plutão. Se este planeta é tão insignificante assim, ele não teria massa suficiente para perturbar Netuno, conforme descrito por Lowell.

E, na realidade, é isso mesmo. As estimativas iniciais de Lowell colocavam Plutão com um tamanho 12 vezes o da Terra. Medidas da massa real de Plutão, realizadas décadas seguintes, mostraram que massa real é minúscula, incapaz de perturbar Netuno.

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Mas, se não é Plutão que causa a perturbação na órbita de Netuno, o que é?

Na verdade, a perturbação que entrou no cálculo de Lowell nunca existiu. Era um erro de medida. Não foi culpa dele, mas os cálculos foram baseados numa premissa errada.

Portanto, a descoberta de Plutão foi pura coincidência. Um efeito placebo na ciência.

O rebaixamento de Plutão causou tanta comoção que, hoje em dia, alguns astrônomos defendem voltar Plutão à categoria de planeta. E, junto, também promover os outros 100 planetas da série B para a série A do campeonato de planetas. Querem virar a mesa do campeonato. Plutão é uma espécie de Fluminense planetário. Querem salvar Plutão no tapetão, no STJD espacial!

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Esta história é um exemplo do poder da imaginação humana.

Conclusão: quando for querer vender algo, tente contar uma historinha convincente junto, para aproveitar este “bug” do cérebro humano.


Leia também:
A verdade e o conto

http://csep10.phys.utk.edu/ojta_samples/course1/synthesis/perturbation/pluto-disc_tl.html

http://www.bbc.com/news/science-environment-33462184

https://www.space.com/19774-percival-lowell-biography.html

http://nineplanets.org/pluto.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Kuiper_belt

https://en.wikipedia.org/wiki/Pluto

Tiradentes, herói?

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21 de abril, feriado de Tiradentes. Quando se fala em “Tiradentes”, tenho vagas recordações de aulas de história do primeiro grau, onde diziam que um cara que era dentista lutou e morreu pela independência do Brasil, algo assim. Outras palavras-chave eram “alferes”, “Joaquim José da Silva Xavier”, “Inconfidência mineira”, “Libertas quae sera tamen”.

Como as aulas eram extremamente chatas, não ficou nenhuma recordação mais relevante, só este apanhado de palavras-chave sem sentido, a imagem de alguém parecido com Cristo e a imagem de um triângulo vermelho.

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Movido pelo meu desconhecimento completo da palavra “alferes”, resolvi fazer uma pesquisa no google e juntar uns quebra-cabeças.

“Alferes” é uma patente militar (que não existe hoje). Algo equivalente a um aspirante-a-oficial. É uma patente inferior a tenente, que é a menor posição de oficial. Ou seja, o Tiradentes estava um pouco acima da hierarquia de soldados, sargento, mas muito abaixo de coronel, capitão. Mas como é que um militar pode parecer Jesus, com barba longa, roupas de lençois, a forca ao invés da cruz?


 
“Inconfidência” quer dizer algo como “Não confiar”, traição. Traição em relação a Portugal. O objetivo dos inconfidentes era criar uma República independente de Portugal. E o alvo deles era apenas Minas Gerais, não o Brasil inteiro. Mas como é que um movimento vai se chamar inconfidência, e não “Revolução”, ou “Libertação”?

Outra contradição é que tem algum problema nas datas. A execução de Tiradentes na forca ocorreu em 21 de abril de 1792. O Brasil ainda era colônia de Portugal na época de Tiradentes. A independência do Brasil ocorreu em 1822. A proclamação da República ocorreu somente em 1889 – mais de cem anos depois da inconfidência mineira! Tiradentes pode até ter servido de inspiração para um ou outro, mas fora isto não contribuiu em nada para a proclamação da República. Como é que ele virou um símbolo, um mártir?

 

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Nos meus ingênuos anos da quinta série, tinha entendido outra coisa: que Tiradentes tinha lutado pela independência do Brasil, que tinha sido executado e que tinha virado herói imediatamente.


Existem várias teorias de que a história foi outra. Tiradentes foi executado e esquecido pela população e por Portugal. Portugal deu o nome “inconfidência” para este movimento, porque era uma inconfidência em relação a eles. Depois da independência, os imperadores do Brasil foram D. Pedro I e II, que também não tinham nada haver ideologicamente com Tiradentes. Este somente virou herói após a Proclamação da República.
Após 1889, os republicanos precisavam de um herói, para ajudar a fazer a transição do Império para a República. Este herói não poderia ser o Marechal Deodoro da Fonseca, porque, afinal, ele não tinha morrido pela pátria. E também, era um marechal, algo muito antipático. Nem Floriano Peixoto, marechal também. Nem Rui Barbosa servia, porque era intelectual, muito acima da média. Tinha que ser alguém próximo do povo, que tinha dado a vida por um ideal. Assim, surgiu o herói Tiradentes. Era perfeito. Era alguém do povo (alferes, barbeiro e dentista), tinha um apelido simpático (“Tira”-“dentes”). Ele tinha lutado “sozinho” contra o malvado império Português inteiro, e morreu pelo Brasil num espalhafatoso ritual de enforcamento. Fizeram até ele ser parecido com Cristo para criar o herói brasileiro.


 
Sei que a falácia narrativa deu tão certo, que centenas de anos depois, as crianças perguntam na escola: o que é um “Tiradentes”? E as professoras respondem: “Naquela época, os dentistas amarravam o dente podre numa porta, com uma cordinha. Não tinha anestesia. E o Tiradentes fechava a porta com força, para arrancar o dente. Era assim que faziam a cirurgia”. Existe algo mais convincente e simpático para uma criança que uma história dessas?

 
Arnaldo Gunzi
Abril 2015