A artificial inteligência artificial

A história da inteligência artificial tem alguns marcos importantes. Um deles é em 1996, quando o computador “Deep Blue” da IBM venceu o grande campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos.

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Mas, há tempos, a inteligência artificial fascina os seres humanos. Seremos sobrepujados por máquinas e algoritmos? A skynet vai nos dominar? As leis da robótica de Asimov serão suficientes para nos proteger?

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O Deep Blue não foi a primeira tentativa de criar uma IA de xadrez. Há outro marco histórico, de mais de 200 anos atrás: o Turco Mecânico.

 


 

O Turco Mecânico

O Turco Mecânico é um dispositivo automático para jogar xadrez, inventado em 1770 pelo húngaro Wolfgang von Kempelen. É um Deep Blue mecânico.

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O Turco Mecânico fez vários tours pela Europa, derrotando vários jogadores (humanos) experientes e performando outros malabarismos enxadrísticos, como o “tour do cavalo” – percorrer todas as casas do tabuleiro com um cavalo, sem repetir posição. Durou mais de 80 anos.

Realmente, impressiona ver o interior do dispositivo.

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O único problema é que a inteligência artificial era fake, de mentirinha. Esta tinha na realidade uma pessoa, habilidosa em xadrez, escondida no interior do equipamento. Era uma inteligência artificial artificial. Era tipo um truque de mágica, um ilusionismo barato.

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O Turco Mecânico da Amazon

Duzentos anos depois, e inspirado pelo turco mecânico original, a Amazon criou um serviço chamado Amazon Mechanical Turk (doravante AMT).

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A ideia é focar em problemas difíceis de serem resolvidos por computadores, como transcrever discursos, reconhecer caracteres ambíguos, encontrar humanos em vídeos, reconhecer letra de médico em receitas…

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A AMT divide esses problemas em pedacinhos e disponibiliza cada pedacinho ao mercado (pessoas comuns como nós). Essas pessoas gastam o seu tempo, digamos alguns minutos, para ler o problema, resolver e enviar o resultado para a AMT.

Desta forma, é bom para quem quer a análise humana do trabalho, e para as pessoas, que podem trabalhar de qualquer lugar do mundo, em horas vagas, e receber uma fração de dólares pelo trabalho (não espere que seja um trabalho bem remunerado).

Para minimizar erros, imagino que a AMT faça o trabalho com redundância, digamos mande o mesmo pedacinho de trabalho para duas ou três pessoas confirmarem. E também, imagino que a AMT premie os humanos que trabalham consistentemente bem, e expulse quem performa mal.

Note que o AMT é uma fonte poderosa para treinamento de uma inteligência artificial de verdade.

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Uma rede neural para reconhecer objetos em imagens, precisa de:

  •  Um banco de dados imenso, digamos 10 milhões de imagens
  • Classificação correta das imagens deste banco de dados: isto é um gatinho, isto é um carro, etc

 

Rotular 10 milhões de imagens é um processo chato, lento e caro. Mas isto vai ajudar a melhorar os sistema de reconhecimento futuros.

Da mesma forma, a transcrição de linguagem falada vai ajudar a treinar a IA que vai fazer isto automaticamente no futuro.

Os turcos mecânicos do mundo de hoje ajudam nisto, a criar as bases de dados para possibilitar os deep blues de amanhã.


Links

 

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Turk

https://www.mturk.com/mturk/welcome

 

 

Estratégias do xadrez para a vida

Bruce Pandolfini é um dos professores de xadrez mais conceituados do mundo. Apresento a seguir um resumo de algumas ideias interessantes, publicadas originalmente na revista Fast Company e também na Exame.

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Foto: Bruce Pandolfini


Clareza no presente x clarividência do futuro

A maioria das pessoas acha que a estratégia dos grandes enxadristas consiste em pensar muito adiante, prevendo 10 ou 15 lances futuros. Não é verdade. Os enxadristas pensam apenas até onde é preciso, e isso significa pensar apenas alguns poucos lances à frente. Pensar longe demais é perda de tempo, na medida em que as informações são incertas.

Jogar xadrez significa controlar a situação que se tem pela frente. Você precisa de clareza, não de clarividência. O X da questão não é saber até onde os grandes pensam adiante, mas como eles pensam no momento presente.

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Não se contente com a primeira boa ideia. Procure uma melhor.

Você nunca deve jogar o primeiro bom lance que lhe vem à mente. Pergunte a você mesmo se há algum lance melhor. Já vi Garry Kasparov praticamente sentar-se sobre as mãos para conter sua vontade de fazer um movimento.

“Se você enxerga uma boa ideia, procure outra melhor” – é o meu lema. Para conquistar uma grande vitória, pense diferente.


Vantagens pequenas geram resultados grandes

Wilhelm Steinitz foi o primeiro grande professor de xadrez dos tempos modernos. Steinitz desenvolveu a teoria do xadrez posicional – jogar por vantagens aparentemente insignificantes. Só um pouquinho, muito pouquinho. Tomado isoladamente, nenhum desses pouquinhos significa nada, mas quando se somam sete ou oito deles, você passa a ter o controle da partida.

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Foto: Wilhelm Steinitz


Anatoly Karpov, a Jiboia constritora, é um excelente exemplo de jogador posicional. Não dava nada ao adversário. Não arriscava. Não cedia. Era um lutador de trincheiras, que mantinha o jogo se movendo um centímetro por vez.

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Foto: Anatoly Karpov


Arriscar

Se um lance do adversário não faz sentido, continue procurando a razão. Se tudo indicar que seu adversário cometeu um erro, tome a peça dele! Se você o fizer, ou você está errado e vai aprender alguma coisa, ou está certo e vai ganhar um lance. Não tenha medo de agir com base em sua própria análise.


Jogar contra o adversário, e não contra suas peças

Para ser um bom enxadrista, é preciso saber ler a mente das pessoas. E isso começa com saber ler seus olhos.

Às vezes a partida se reduz uma guerra psicológica. Kasparov usava muito bem isso. Ele costumava quebrar a resistência das pessoas. Quando o adversário fazia um movimento errado, ele fazia caretas ou ria de maneira a humilhá-lo.  Isso pode deixar o adversário muito abatido.

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Foto: Garry Kasparov

Kasparov perdeu essa vantagem quando jogou contra o computador Deep Blue. Afinal, estava jogando com uma máquina.

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Imagem: como Kasparov poderia derrotar Deep Blue em um lance!


Eu me recordo de uma partida disputada por dois russos, Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi.

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Foto: Viktor Korchnoi

Korchnoi tinha abandonado a União Soviética e pedido asilo no Ocidente, e esse fato fez a partida ser ainda mais intensa. Karpov tinha em sua equipe um “psicólogo” chamado Vladimir Zukhar. Na realidade, Zukhar era pouco mais do que um especialista em ficar olhando as pessoas fixamente, com os olhos arregalados. Durante todo o tempo da partida, seu papel era olhar fixamente para Korchnoi, e isso o deixou tremendamente nervoso. Karpov acabou vencendo a partida por uma margem muito estreita.


Nunca deixe seu adversário ver você suando

Cometer um erro no meio da partida pode deixar o jogador arrasado. Mas os jogadores excepcionais aprendem a manter calma e confiança totais – pelo menos por fora. Os grandes jogadores podem duvidar do acerto de um de seus próprios lances, mas nunca duvidam deles mesmos. Mas existe uma grande diferença entre cometer um erro e retroceder. Retroceder não é necessariamente negativo. Para conseguir uma vantagem no xadrez, frequentemente é preciso abrir mão de alguma coisa. Na verdade, uma retirada pode ser uma manobra brilhante de ataque, pegando o adversário desprevenido.

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Aprenda a perder para poder aprender a ganhar

Aprender xadrez quando se é criança tem um problema: inevitavelmente, você vai perder muitas vezes. E, evidentemente, uma das principais razões pelas quais uma criança faz qualquer coisa é o desejo de agradar a seu ego. Mas, se você aprende a aceitar as derrotas enquanto é jovem, acaba aprendendo a ganhar. Essa é uma das primeiras funções de um bom professor de xadrez: mostrar aos alunos como suportar a dor da derrota.


Ensinar as pessoas a pensarem

Minhas aulas incluem muitos momentos de silêncio. Ouço outros professores e vejo que eles passam o tempo todo falando: “Por que você está fazendo essa jogada?”, “Que outras opções você está levando em conta?” Quanto a mim, deixo meus alunos pensarem. Quando faço uma pergunta e não recebo a resposta correta, formulo a pergunta em outras palavras – e espero. Nunca dou a resposta. A maioria das pessoas não se dá conta do poder do silêncio. Parte da comunicação mais eficaz entre professor e aluno, entre jogadores mestres, se dá durante os momentos de silêncio.

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Links:

http://www.fastcompany.com/37127/all-right-moves

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/693/noticias/uma-aula-de-estrategia-m0048561

https://ideiasesquecidas.com/2019/01/02/o-tao-da-guerra-do-general-er-hu/