A apologia de Sócrates

Recomendação de leitura: A apologia de Sócrates.

É um texto conciso e bastante intrigante, sobre o julgamento do filósofo grego Sócrates. Acusado por seus inimigos políticos de corromper a juventude de Atenas, o texto baseia-se nos discursos de sua apologia (defesa) diante da assembleia popular da cidade.

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Uma das histórias mais famosas sobre o filósofo é contada no início do texto.

Querefonte, amigo de Sócrates, foi ao Oráculo de Delfos e perguntou quem era o homem mais sábio de todos. O Oráculo respondeu que era Sócrates.

Quando ele soube da resposta, pôs-se a refletir: “o que os deuses querem dizer com isso? Não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco”.

O filósofo foi se encontrar com outros que se passavam por sábios. “Submeti a exame essa pessoa, era um político. Eis atenienses, a impressão que ficou do exame. Ele se passava por sábio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não o era. Pus-me, então a explicar-lhe que supunha ser sábio, mas não o era. O resultado foi tornar-me odiado dele e de muitos dos presentes”.

Sócrates repetiu a busca com outros políticos, poetas e filósofos, sempre com a mesma conclusão: eles achavam saber de alguma coisa, mas nada sabiam. Já Sócrates, por saber que nada sabia, era um pouco mais sábio que eles.

“Me perguntei a mim mesmo, em nome do oráculo, se preferia ser como sou, sem a sabedoria deles nem a sua ignorância, ou possuir, como eles, uma e outra; e respondi que me convinha ser como sou”.

Finalmente, ele interpretou a resposta do oráculo. No final das contas, a sabedoria humana tem pouco ou nenhum valor, e o nome de Sócrates como o mais sábio era apenas para pontuar isso, já que ele era único que tinha compreendido o fato.

O resto do texto continua com os argumentos de Sócrates, mas o julgamento não foi positivo. Condenado à morte em 399 a.C., Sócrates toma a cicuta (um veneno poderoso) e põe fim à própria vida, da forma com que sempre viveu: defendendo os seus ideais.

Outras frases famosas de Sócrates:

“Tudo o que sei é que nada sei”

“A vida não refletida não vale a pena ser vivida”

“Não valorize a vida, e sim, a vida bem vivida”

“O verdadeiro conhecimento vem de dentro”

“Conhece-te a ti mesmo”

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/12/14/o-anel-de-giges/

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​O olho da sabedoria

O deus máximo da mitologia nórdica é Odin, e ele é cego de um olho.

Como Odin perdeu o olho?

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Odin sempre buscou obsessivamente a sabedoria.

Nesta busca, ele chegou ao poço de Mimir, aos pés da árvore da vida YggDrasil. Lá vivia Mimir, um ser que tinha todo o conhecimento do cosmos, conseguido devido à água do poço.

Odin pediu para beber a água do poço da sabedoria. Mimir respondeu que havia um preço extremamente alto a ser pago.

“Qual o preço?”, perguntou Odin.

“Um de seus olhos”, disse Mimir.

Odin não hesitou. Arrancou um de seus olhos, sem se importar com a dor, e bebeu a água da fonte da sabedoria…

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Como conseguir o olho da sabedoria?

A sabedoria vem somente após muitos sacrifícios.

O mundo real não existe, existem interpretações do mesmo.

Quem enxerga o mundo com o olho da sabedoria enxerga muito além do que os olhos podem alcançar.

Com o olho da sabedoria vemos as linhas do código-fonte que formam a matrix de nosso mundo.

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Odin pelo mestre Jack Kirby

Vemos cadeias de relações causa-efeito a níveis profundos.

Vemos o presente, entendemos o passado e projetamos o futuro.

Vemos que há situações que não conseguirmos prever, para os quais é bom ter precauções, como seguros e opções.

Compreendemos o que as pessoas realmente pensam e o que querem.

Vemos o mundo em nível global e a longo prazo.

Qualquer um de nós pode conseguir o olho da sabedoria, mas o preço é extremamente alto. É necessário muito mais do que o sacrifício de um olho. É necessário o sacrifício de sua vida.

Obter sabedoria significa uma busca incessante por novos conhecimentos: inúmeras horas estudando, lendo, procurando boas fontes de inovação.

Obter sabedoria significa trabalhar eternamente para gerar valor no mundo real.

Obter sabedoria envolve inumeráveis tentativas e erros, empreender, ser bem-sucedido e falhar, cair e levantar, reconhecer erros, pedir desculpas e evoluir.

Odin perdeu um olho físico, mas ganhou um olho metafísico.

Com tal olho, ele enxergava mais do que qualquer outra criatura da face da Terra.

Em terra de caolho, quem tem dois olhos é rei.

Trilha sonora: assim falou Zaratustra, Richard Strauss


Fontes:

Conhecimento Tácito x Explícito

Para cada unidade de conhecimento explícito em livros, há 1000 unidades de conhecimento tácito, não escrito em lugar algum.

O conhecimento está nas pessoas – e pouquíssimas pessoas têm o talento, a paciência e dominam os meios para se comunicar de forma explícita, seja por texto, vídeo ou artigo.

As ideias estão no ar.  

Um erro comum é achar que as ideias explícitas inspiraram as ações efetivas. Na verdade é o contrário. Normalmente, a ação inspira o registro.

Muitos dos grandes pensadores da história são bons escribas e bons analistas.

Não foi depois que Adam Smith escreveu “A riqueza das nações”, em 1776, que as economias do mundo passaram a enfatizar o livre-mercado, a mão invisível e a divisão do trabalho. Tudo isto já estava acontecendo, e Smith foi o primeiro que analisou e registrou o mesmo.

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O mesmo ocorre com o pensador italiano Nicolau Maquiavel, nos anos 1500. Não foi ele que inventou o conceito de que “Os fins justificam os meios”. Ele era um grande estudioso e pesquisador histórico, e se baseou fortemente nos poderosos de sua época (como César Bórgia) e de épocas antigas para escrever os seus tratados políticos.

Os acadêmicos se fecham em seu mundo do conhecimento explícito, deixando para trás um universo de informações tácitas, do mundo real.

 


 

A espiral do Conhecimento

 

Gosto muito do ciclo SECI de gestão do conhecimento, de 2003, dos autores Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi. Este ciclo reflete quase exatamente as ideias acima.

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Eles dividem o conhecimento em quadrantes.

  • Tácito – Tácito: Uma pessoa ensinando outra, ou uma pessoa aprendendo com a convivência num meio. Aprendemos a falar imersos numa sociedade, e não através da leitura dos livros de gramática.
  • Tácito – Explícito: são os Adam Smiths que reportam o conhecimento tácito de forma explícita. Ou os consultores de empresa que analisam um business e geram relatórios e planos de ação. Ou os professores que escrevem os livros didáticos.
  • Explícito – Explícito: é o mundo das combinações e informação, gerando outras informações e insights. Manuais, livros, planos. O mundo acadêmico mora aqui.
  • Explícito – Tácito: é a internalização do conhecimento, estudar, ler, aprender.

 

Na verdade não é apenas um ciclo. É um ciclo virtuoso, é uma espiral – a espiral do conhecimento.

Conhecimento tácito sendo externalizado, explicitado, possibilitando a combinação de outras análises, facilitando que outras pessoas internalizem o  mesmo, gerando um conhecimento tácito melhor e mais avançado, e assim sucessivamente, e de forma crescente.

A minha contribuição é no tamanho dos quadrantes. O quadrante tácito-tácito é muito maior do que os demais. Representá-lo com a mesma área no quadro subestima o tamanho e a importância do conhecimento tácito.

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O mundo explícito-explícito é o domínio do deus Apolo,  da ordem, do conhecimento perfeito, da beleza, do rigor exato.

Já o tácito-tácito é  o domínio do profeta Dionísio, o do caos, o das combinações esparsas, da embriaguez, do bate-papo informal. É onde nasce uma supernova, parafraseando o grande Friedrich Nietzsche.  É no tácito-tácito onde realmente ocorrem as revoluções.

 Para fazer revoluções, mergulhe no mundo tácito.

 

 

 


Anexo: A biblioteca de Lucien

A biblioteca de Lucien contém todos os livros não-escritos do mundo. Todas as ideias que nunca foram para o papel, todos os sonhos que desapareceram da memória, todos os projetos engavetados.

 

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Um único detalhe: esta biblioteca existe apenas no reino dos sonhos, do personagem Sandman, de Neil Gaiman.