Kintaro, os demônios da ficção e da vida real

Kintaro é um menino super forte, que nasceu no interior do Japão antigo. Desde sempre, ele era gentil com os animais e ajudava as outras pessoas em perigo.

Quando ele cresceu, ele partiu com outros grandes guerreiros, para combater os malvados demônios do mundo…

Este é um resumo de um livro infantil, uma história que a minha mãe contava.

Relendo o livro hoje, fico me perguntando: quem seriam esses demônios, a não ser povos rivais, nações vizinhas, pessoas como nós, mas de outros grupos?

Há inúmeros casos similares. A Bíblia fala de “Filisteus”, um povo antigo rival.

Os conquistadores europeus, para justificar a escravidão dos índios, falaram que estes não eram humanos, não tinham alma.

O filme “A Missão” ilustra um episódio: jesuítas fazendo índios cantarem, para provar que eles não eram inferiores aos europeus.

Uma passagem do livro “The Faith Instinct”:

A Moralidade não é universal. Compaixão e misericórdia são comportamentos dentro de um grupo, mas não necessariamente a outro grupo, e certamente não a um inimigo. Em relação às sociedades hostis, o comportamento humano é duro, implacável e muitas vezes genocida. Os inimigos podem ser demonizados ou considerados sub-humanos, e as restrições morais não precisam ser estendidas a eles.

E, para finalizar, o mestre Will Durant sobre o tema.

A vida é competição. Cooperamos dentro do nosso grupo, família, comunidade e nação para tornar nosso grupo mais poderoso. A cooperação é a última forma de competição. A concorrência costumava ser entre os indivíduos. Então foi ampliada, entre famílias. Depois, entre as comunidades. E assim por diante. A guerra é a forma final de competição. É a forma de uma nação se alimentar.

A propósito, Kintaro significa algo como “menino de ouro”. O primeiro kanji significa “ouro”, e o sufixo é comum em meninos. Um herói, que vai proteger o nosso povo contra os terríveis e sanguinários demônios do mundo exterior – ou será ele o demônio para os outros povos?

Nota: Agradeço ao amigo Cláudio Ortolan, pela indicação do livro The Faith Instinct.