Papa = Mr. Smith

O grande matemático Bertrand Russell (1872 – 1970) estava numa palestra a explicar por que um axioma falso pode levar a qualquer conclusão, quando foi desafiado pela plateia a provar que o Papa era igual ao Sr. Smith (o participante que fizera a pergunta) a partir do axioma falso 1 = 0.

Sem nem vaticinar, ele veio com a resposta:

“Some um aos dois lados da equação, resultando em 2 = 1. O Papa e o Sr. Smith formam um conjunto de duas pessoas, ao passo que o Sr. Smith é um só. Se 2 = 1, então Papa e Sr. Smith = Sr. Smith, portanto, o Sr. Smith é o Papa”.

Fonte: “Godel, os teoremas da incompletude – National Geographic”.

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia: https://ideiasesquecidas.com

Feynman, Russell e Filosofia

Três indicações nerds ao quadrado: quadrinhos sobre grandes cientistas e pensadores!

1) Feynman: História em quadrinhos sobre o grande físico Richard Feyman. Ele é um gênio cult, escreveu diversos livros não só sobre física mas sobre histórias interessantes de sua vida – e tais quadrinhos são baseados nestas.

Ele tem uma série de aulas, “Feynman lectures on physics”, publicadas em formas de vídeo e livros. Lendo essas, a principal mensagem que aprendi foi que a física, um edifício enorme e sólido, pode ser contestada no seu nível mais básico! Ninguém sabe o que é energia, por exemplo.

2) Logicomix: História em quadrinhos baseada no filósofo inglês Bertrand Russell, talvez uma das pessoas mais inteligentes da história! A narrativa é sobre a sua busca das fundações primárias da matemática, quase a busca pela verdade absoluta.
Em seu caminho, Russell encontra outros grandes como o matemático George Cantor, o filósofo Ludwig Wittgenstein, e, é claro, o lógico Kurt Godel, que com seus Teoremas da Incompletude derruba todo o trabalho de Russell.

Um detalhe. Um dos autores, Christos Papadimitriou, tem vários livros técnicos, como um de Otimização Combinatória e outro de algoritmos.

3) Cartoon introduction to Philosophy: narrativa gráfica sobre diversos filósofos, desde os pré-socráticos até os tempos modernos. É muito interessante ver em desenho conceitos como “Entro no mesmo rio, porém é tudo diferente: eu mudei e o rio mudou”.

O terceiro livro só tem via digital. O segundo, Logicomix, é simples de encontrar numa livraria. O primeiro, Feynman, comprei na Liv. Cultura do Conjunto Nacional. Recomendo comprar os livros físicos, enquanto as grandes livrarias ainda existem.

Trilha sonora do post. Cássia Eller, Por enquanto, música da Legião Urbana.

Links:

Ideias técnicas com uma pitada de filosofia:

https://ideiasesquecidas.com/

https://www.livrariacultura.com.br/p/ebooks/ciencias-exatas/fisica/feynman-107256233

Elogio ao ócio

algo de podre nos valores do mundo atual. Elogiamos aqueles que trabalham muito, fazem horas acima do combinado e usam fins de semana para se preocupar com o que ocorre na semana.

O teletrabalho só levou a preocupação para casa. Ao invés do pensamento idealizado de que era possível trabalhar na praia, a realidade é que, mesmo de férias na praia, o trabalho vem a tiracolo.

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Não raro, surgem problemas atrelados a este comportamento: estresse, remédios para dormir de noite, estimulantes para não dormir durante o dia, doenças físicas e mentais.

O ser humano original, da época do neandertal, foi feito para liberar adrenalina em casos esparsos: ao caçar a sua comida, para ele mesmo não virar comida, e para fins sexuais. O neandertal não ficava alerta 24h por dia, atormentado infinitamente.

Vem à cabeça a imagem de Íxion, condenado pelos deuses gregos a ficar eternamente girando, preso à uma roda em chamas:

ixion

E, por outro lado, estamos num país com 13 milhões de desempregados. Tal número seria muito maior se o índice de desemprego levasse em conta aqueles que desistiram de procurar trabalho formal.

Com o aumento da tecnologia e da produtividade, é possível produzir mais com menos. Com o aumento de produtividade, esperava-se que sobrasse mais tempo para todos, como no antigo desenho dos Jetson, em que o trabalho dele era apertar um botão e ficar olhando.

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O tiro saiu pela culatra. Com o aumento da produtividade, aumentou a responsabilidade de quem toma conta do processo. E o efeito foi tirar do mercado quem não acompanhou a mudança.

Ou o fulano trabalha demais ou não tem emprego.

Será possível chegar num meio termo?

 


 

O trabalho é uma virtude supervalorizada

Um artigo de 1935, “Elogio ao ócio”, do filósofo e matemático Bertrand Russell, traz um questionamento sobre o tema.

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Suponha uma fábrica de alfinetes, que tinha 8 funcionários full-time. Digamos que o aumento de produtividade faz com que sejam necessário apenas 4 para fazer o mesmo serviço. Ao invés de os 8 funcionários trabalharem meio-período, o que acontece é que 4 trabalham full-time, e 4 ficam fora da indústria de alfinetes. Esta é a “Moralidade do estado escravo”.

 

Russell aponta que o lazer é essencial para a civilização. Em tempos antigos o lazer de poucos era possível devido ao trabalho de muitos. Mas o labor era valioso, não porque trabalhar é bom, mas porque o lazer é bom.

Deveríamos aprender a aceitar um lugar para o prazer em nossas vidas, o que somente é possível com tempo livre. E deveríamos gastar mais tempo em educação, num sentido geral: utilizar o tempo de forma construtiva.

Historicamente, a pequena classe que tinha tempo ocioso desfrutou de vantagens injustas, entretanto esta pequena classe contribuiu com quase tudo o que chamamos de civilização. Ela cultivou a arte e as ciências, escreveu livros, inventou as filosofias, e refinou as relações sociais.

Hoje em dia as universidades são supostamente responsáveis por produzir, de forma mais sistemática, o que a classe ociosa produzia por acidente e sub-produto. Mas as universidades têm vários problemas. Da sua torre de marfim, não estão cientes das preocupações e problemas do homem comum.

Acima de tudo, haverá felicidade e desfrutar da vida, ao invés de nervos destroçados, cansaço e indigestão. O trabalho será suficiente para fazer o lazer agradável, mas não o suficiente para causar exaustão. Uma pequena porcentagem usará este tempo para perseguir temas de interesse pessoal, e produzir trabalhos de importância pública. E isto fará as pessoas mais ternas e menos atormentadas. A vida boa é resultado de facilidade e segurança, não de esforço árduo.

Deveria ser moralmente elogiável permitir que as pessoas trabalhassem 20 horas por dia, o suficiente para obter uma renda satisfatória.

 


O nativo preguiçoso

Este situação lembra a piada do Dr Livingstone e o nativo preguiçoso na rede.

O Dr. Livingstone, famoso explorador da África, uma vez encontrou um homem deitado numa rede, em pleno dia. Ele perguntou:
– Você não deveria estar trabalhando?
– Mas para que trabalhar?
– Para juntar dinheiro
– E para que dinheiro?
– Com dinheiro você pode comprar uma boa casa
– E para que uma casa?
– Você pode montar uma rede e descansar tranquilamente na sua casa, quando estiver de férias
– Mas já estou numa rede, descansando na minha casa!

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Comentário

É impressionante que o texto de 100 anos atrás de Russell continue tão atual.

Mais ou menos na mesma linha, há o livro “Ócio criativo”, do pensador italiano contemporâneo Domenico de Masi. Certamente é um livro mais citado pelo título do que lido de verdade, porque é denso e prolixo.

Certamente, ambos os trabalhos são mais ideais teóricos do que formas práticas de  colocar tais ideias em ação.

Na minha opinião, a própria natureza humana não permite que trabalhemos menos; entre dois funcionários, um que quer trabalhar 4h e outro que quer trabalhar 8h, a escolha óbvia do empregador é o segundo. Por outro lado, se é possível que eu trabalhe 20h por semana por metade do salário, ou 40h com o dobro do salário, certamente a minha escolha é a segunda.

A conclusão é de que o texto de Russell vai continuar atual por mais 100 anos. Vamos continuar neste ciclo de poucos trabalharem cada vez mais, seja no escritório ou fora dele, e outros tantos ficarem de fora deste processo. É da natureza humana buscar o máximo para si mesmo… até o ponto em que isto ficará insustentável. Alguma coisa continua errada.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Hamlet, de William Shakespeare.

 

“Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio”

“É uma cova grande pra tua carne pouca

Mas a terra dada, não se abre a boca”

João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Severina


 

Notas

O exemplo da fábrica de alfinetes é uma clara referência ao trabalho clássico de Adam Smith, “A riqueza das nações”, em que ele usa uma fábrica de alfinetes para exemplificar o ganho de produtividade devido à separação do trabalho.

 

 

Texto completo, In praise of idleness:

http://www.zpub.com/notes/idle.html

 

Um neurônio de McCulloch-Pitts

O que um único neurônio pode fazer?

 

A primeira noção de neurônio artificial é de um paper de 1943, por dois sujeitos: Warren McCulloch e Walter Pitts.

Imagine Walter Pitts como um pequeno gênio, nascido numa família severa, onde o seu pai odiava a escola e queria que ele trabalhasse. Imagine Pitts escondido na biblioteca pública à noite, lendo o Principia Mathematica de Bertrand Russell (um dos maiores matemáticos de todos os tempos) e sonhando em desvendar o mundo.

Walter Pitts (note a testa do sujeito)

Não conseguindo resistir à tentação, coloco aqui uma imagem do Líder, da revista Incrível Hulk.

O Líder

Anos depois, Pitts encontra Warren McCulloch, um neurofisiologista muito mais velho e já respeitado. McCulloch explica que quer modelar o cérebro de uma maneira lógica, como os neurônios do cérebro funcionam, as analogias com o modelo de computador de Alan Turing, a Principia Mathematica, e assim vai. Algumas horas depois, fica evidente que Pitts é o cara certo para fazer a formulação matemática do problema.

Warren McCulloch

Impressionado pela genialidade de Pitts, McCulloch o “adota”. Pitts passa a morar na casa de McCulloch, e eles trabalham juntos todas as noites, após a família de McCulloch ir para a cama. O brilhante, respeitado, velho cientista e o fugitivo de casa, desempregado, sem ensino médio, jovem gênio.
Juntos, eles criam a primeira ideia de neurônio artificial, no paper “A logical calculus of the ideas immanent in nervous activity”, 1943.

O neurônio artificial é algo que recebe sinais como entrada, multiplica por um peso e compara o resultado contra um discriminante. Se é maior, a saída é um. Senão, é zero.

O neurônio de McCulloch-Pitts é binário, com poucos neurônios e sem técnica de retropropagação para fitar os pesos. Pitts mostrou que uma combinação desses neurônios pode emular as portas lógicas (ou, e, não) e, fazendo isto, fazer o mesmo cálculo que um computador digital. Na mesma época, os computadores digitais estavam sendo projetados pelo grande John von Neumann (outro gênio), o que significava que eles faziam todas as contas no braço.

Imagem do paper de 1943

Após este trabalho seminal, uma área completamente nova começou a florescer. Hoje, há retropropagação, múltiplas camadas, centenas de milhares de neurônios, várias funções de ativação, dropout, convolução, transferência de conhecimento, regularização… e muito, muito mais a vir.

Paper de 1943:

http://link.springer.com/article/10.1007%2FBF02478259

Este paper tem apenas três citações. Uma delas é o Principia Mathematica de Russell e Whitehead.

Apenas para finalizar esta nota histórica, a vida real não é um conto de fadas, de mendigo a príncipe. A vida de Pitts foi de mendigo a príncipe para mendigo de novo. Walter Pitts entrou em depressão após algumas decepções. Ele começou a beber pesadamente, se isolou cada vez mais de todos os outros, e morreu sozinho, na pobreza. Ele tinha 46 anos.


Conclusão

Walter Pitts trabalhou numa biblioteca à noite, com lápis e papel. Fico me imaginando o que ele poderia fazer, se tivesse um computador digital e técnicas modernas como TensorFlow, Keras, GPU…

Um mundo inteiro foi construído a partir do neurônio de McCulloch-Pitts, e um mundo muito, muito maior está sendo construído. O mundo é grande!

Escrevi este post em inglês no link a seguir, com um complemento técnico em Keras.

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