O poder ilimitado corrompe de forma ilimitada?

O anel de Gyges

Uma das passagens mais intrigantes da República de Platão diz respeito à lenda do anel de Gyges.

É sobre um camponês, Gyges, que descobre um anel mágico. Girando o anel para um dos lados, ele ficava invisível, girando para o outro lado, Gyges voltava a ficar visível.

Esta é uma metáfora para o poder ilimitado. Poder subtrair o que quiser sem despertar suspeitas. Poder atacar quem quiser sem sofrer consequências. Poder fazer o que quiser sem ser punido.

Gyges utilizou o anel para seduzir a rainha, assassinar o rei e assumir o trono do reino.

O diálogo platônico, entre Glauco (irmão mais velho de Platão) e Sócrates, fazia uma questão que está aberta até hoje, e vai ficar aberta pelo resto da existência da humanidade: uma pessoa com alta moral se corromperia com poder ilimitado?

Uday Hussein

Uday Hussein foi um exemplo de pessoa que nasceu com poder ilimitado. Acompanhe:

  • Uday era o mais velho dos dois filhos de Saddam, e como tal, esperava suceder seu pai um dia
  • Quando Uday era jovem, Saddam levava ele o seu irmão Qusay para assistir prisioneiros serem torturados ou executados. Uday em particular saboreava a experiência
  • Imagine o garoto desagradável, mau, super rico no ensino médio, mas agora imagine que ele tem o poder de seus guarda costas para bater em você até virar uma massa de sangue, ou matar você, ou matar você e toda a sua família, num estalar de dedos.
  • Na faculdade, Uday de tempos em tempos via uma garota excepcionalmente bonita, falava para seus guarda-costas trazerem ela para o seu quarto, onde a estuprava e às vezes falava para os guarda-costas a matarem.
  • Ele às vezes ia para um clube e se ele visse uma garota atrativa dançando com um homem, e isto provocasse ciúmes, ele mandava matar o homem
  • Ele matou um homem por recusar a deixar Uday dançar com a sua esposa
  • Ele ficava de pé na varanda com binóculos, e quanto encontrava uma moça bonita ele mandava seus homens pegarem para ele. Uma vez ele fez isto com as filhas de 12 e 14 anos de um homem, e ele não tinha opção senão aceitar ou todos morreriam
  • Ele era obcecado por tortura e amava experimentar diferentes formas, incluindo usar uma dama de ferro que ele possuía, e colocando alguém sozinho numa sala com seu tigre mascote faminto
  • Ele matou o amigo/guarda-costas de seu pai porque Uday suspeitou que ele estava arrumando prostitutas para o seu pai
  • Uma vez ele matou um homem que não o saudou
  • Até Saddam estava assustado por Uday ser tão cruel e negligente, tanto que ele apontou o irmão mais novo Qusay para ser seu sucessor no lugar de Uday
  • Isto fez Uday incrivelmente ciumento, e ele fez coisas como pegar uma garota que ele ouviu dizer que dormira com Uday, trazer a ele, violentá-la e marcá-la permanentemente com um U
  • Para dar a ele alguma coisa para fazer, Saddam apontou Uday como o chefe do comitê Olímpico. Uday fez atletas que performavam mal serem torturados, às vezes trancando-os em arcas de ferro por três dias
  • Uday era notório no Iraque todo e universalmente odiado por todos
  • Uday e Qusay foram ambos mortos por um ataque aéreo das tropas americanas em 2003
  • Ninguém ficou triste

A minha provocação é: será que todos nós seríamos tão maus quanto Uday, se tivéssemos nascido com o mesmo poder?

Fonte do relato sobre Uday: site Wait but Why

Por que um engenheiro brilhante trabalharia para a Coreia do Norte?

No último semestre do último ano da faculdade militar que fiz, um dos meus possíveis destinos era o Instituto de Aeronáutica e Espaço, na qual eu já tinha estagiado antes. É um instituto fantástico, onde eu teria acesso a quantidade gigantesca de material de pesquisa, juntamente com outras mentes de altíssimo nível. Por isso, eu queria muito ir ao IAE na época.

O detalhe era que o IAE desenvolve foguetes e lançadores. Bombas para explodir cidades e pessoas…

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Míssil Piranha, tecnologia do IAE

 

O final da história foi que o IAE não abriu vagas para o meu curso, então segui um caminho completamente diferente. Mas sempre fiquei com isso na cabeça. E se eu estivesse ajudando a fabricar armas de destruição em massa?

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O IAE é do bem. Faz veículos lançadores de satélite. E tem pessoas bastante íntegras em seu grupo. Mas, nem por isso deixa de pesquisar e desenvolver bombas.

 


 

Testes nucleares na Coreia do Norte

O famigerado estado da Coreia do Norte fez, nos últimos dias, um teste supostamente atômico no mar. É o quinto teste desde 2006, quando eles abandonaram tratativas de diálogo sobre o assunto.

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O problema é que cada teste vem performando melhor do que os anteriores, e está ficando perigoso. Este último teste atingiu um nível de destruição semelhante ao da bomba de Hiroshima, em 1945.

Uma das preocupações da comunidade internacional é a ogiva ser suficientemente pequena para caber num míssil, o que aumentaria consideravelmente o alcance dos norte-coreanos.

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Mas uma bomba não surge do nada, só porque um ditador louco quer. Para ter uma bomba, tem que ter pesquisadores brilhantes por trás disto. Engenheiros com alta capacidade de execução. Físicos que entendem as técnicas de enriquecimento radioativo. Empresas de precisão que produzem peças sofisticadas.

 

Esses físicos, engenheiros, matemáticos e administradores brilhantes têm plena consciência do que é o estado da Coreia do Norte? Se têm, mesmo assim dedicam seus esforços para ajudar?

 


 

Dilemas

Adolph Eichmann foi um dos piores nazistas da história. Era encarregado da “solução final do problema judaico na Alemanha nazista”.

 

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Adolph Eichmann

Entretanto, em seu julgamento em 1961, ele não demonstrava o menor ressentimento pela morte, direta ou indireta, de 5 milhões de judeus.

Em resumo, não me arrependo de nada.

Eu era apenas mais um cavalo puxando a carruagem, e não podia ir para a direita ou para a esquerda por causa da vontade do condutor da carroça.

Nós nos encontraremos novamente. Eu acredito em Deus. Obedeci às leis da guerra e fui fiel à minha bandeira.

A psicóloga Hannah Arendt testemunhou o julgamento. Descreve que Eichmann não parecia um monstro, mas uma pessoa comum, que a gente encontra tomando café na padaria.

Hannah citou “erros de percepção e julgamento” como possíveis causas de alguém aparentemente comum como Eichmann ser capaz de cometer tamanhas atrocidades.

 


 

Além do bem e do mal?

Obviamente, a minha opinião é que não somos cavalos sendo guiados. Temos vontade própria para contestar ordens. Podemos nos esconder em algum canto, fugir para outros países. Num caso extremo, podemos nos recusar a cumprir ordens – seríamos executados por isso, mas não cumpriríamos a mesma.

Mas, infelizmente, nada na vida é tão simples. Há vários graus de julgamento entre o bem e o mal, e talvez a nossa escolha seja o grau em que a nossa moral permite.

Eu trabalharia numa empresa que fabrica cigarros?

Seria advogado de alguém escandalosamente culpado?

Trabalharia numa empresa que recebe dinheiro público, normalmente mal empregado? (Só para constar, muitas das grandes empresas do Brasil recebem verba do BNDES)

Pagaria um guarda de trânsito que está solicitando um incentivo?

Deixaria de andar a 100 km/h quando o limite é 60 km/h e sei que não há radares?

Devolveria o troco recebido a mais por engano?

Deixaria de baixar filme pirateado? Música pirateada? Youtube com conteúdo pirateado? Software pirata?

 


 

Posfácio: Quem sou eu para criticar?

Após vários meses tentando criar a minha vaga no IAE, no final do ano de 2002 finalmente me chega a notícia de que o trabalho foi em vão: eu não iria ao IAE. Fiquei vários meses chateado, lamentando a bola que bateu na trave e foi para fora.

 

Agora, imagine que eu estivesse entrado no IAE, em 2003. E que mantivesse um desempenho fantástico, por 30 anos. E que em 2033, o Brasil tivesse um ditador comunista (algo que ainda pode acontecer, se depender do PT e partidos correlatos). E que este ditador comunista brasileiro, culpando os EUA de todos os males do mundo, resolvesse investir pesadamente num programa nuclear…

Será que eu jogaria fora 30 anos de conhecimento? Jogaria fora uma carreira inteira? Ou abracaria a causa, sendo mais uma engrenagem na grande máquina? Não sei, e graças ao rumo que a vida tomou, nunca terei que tomar tal decisão.