O Crepúsculo dos Ídolos em 40 frases

O Crepúsculo dos ídolos, é um livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, publicado em 1889.

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O subtítulo “ou Como se filosofa com o martelo” já diz tudo: ele usa o martelo para atacar a filosofia, a razão, a moral, os costumes, destruir tudo.
“Ídolo com pés de barro” se refere a uma história bíblica: uma estátua, um ídolo, com a cabeça de ouro, peito de prata, pernas de ferro e pés de barro. Apesar de todo o seu resplendor, uma pedrinha rolando morro abaixo atingiu o seus pés de barro, e derrubou o ídolo. E é isto que Niezsche mais gosta de fazer: derrubar ídolos atacando os seus pés de barro, principalmente os maiores ídolos de seu tempo.

Gosto muito de Nietzsche, por ele ser provocativo e politicamente incorreto.

Segue abaixo alguns excertos do livro.

 


 

Prólogo

No mundo há mais ídolos do que realidades.

Este pequeno escrito é uma declaração de guerra, não se trata de ídolos contemporâneos, mas de ídolos eternos.

Posso fazer perguntas com o martelo e, talvez, ouvir como resposta aquele famoso som oco que fala das entranhas infladas – quão agradável para aquele que possui ouvidos por trás dos ouvidos, ante ao qual precisamente aquilo que gostaria de permanecer em silêncio, tem de ser ouvido alto e em bom tom.

 


Parte 1. O problema de Sócrates

Sócrates e Platão são sintomas de declínio, instrumentos da dissolução grega.

Sócrates pertencia ao povo mais baixo: Sócrates era plebe. Sabe-se inclusive quão feio ele era. Os antropólogos entre os criminalistas nos dizem que o típico criminoso é feio: monstro de aspecto, monstro de alma.

Em tudo Sócrates é exagerado, bufão, caricatura, e oculto, de segundas intenções, subterrâneo.

Com Sócrates, o gosto grego se modifica em favor da dialética. O gosto aristocrático é vencido com isso; a plebe ascende ao primeiro plano com a dialética.

Ele trouxe uma variante no combate entre homens jovens e adolescentes. Sócrates também era um grande erótico.

Sua apavorante feiúra o exprimia para todos os olhos: ele fascinou ainda mais intensamente como resposta, como aparência de cura para esse caso.

Sócrates fez da razão um tirano, e não é pequeno o perigo disto.

O modo com que Sócrates fascinava: ele parecia ser um médico, um salvador. É engano dos moralistas achar que é possível sair da decadência ao fazer guerra contra ela. Sair da decadência está fora de sua força, é novamente a mesma expressão de decadẽncia.

 


 

Parte 2: A “razão” na filosofia

Tudo o que há séculos os filósofos manejaram foram conceitos-múmia, nada de efetivamente vivaz veio de suas mão.

Outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o último e o primeiro. Eles põem no início, como início, aquilo que vem no final – infelizmente!

Quatro teses:
1 – As razões pelas quais este mundo foi classificado como aparente fundamenta, muito mais, sua realidade. Uma espécie diversa de realidade é absolutamente indemonstrável
2 – As características que se deu ao “verdadeiro ser” das coisas são características do não ser, do nada. O mundo é aparente na medida em que é apenas ilusão ótico-moral.

3 – Fabular sobre “outro” mundo distinto deste não tem absolutamente qualquer sentido.

4 – Dividir o mundo em “verdadeiro” e “aparente”, seja da maneira do cristianismo, seja da maneira de Kant é apenas uma sugestão de decadência.

 


 

Como o “mundo verdadeiro” se tornou fábula

Abolimos o mundo verdadeiro: Que mundo restou? Talvez o mundo aparente? Mas não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!

 


 

Moral como contranatureza

Todas as paixões possuem uma época em que são meramente nefastas, em que puxam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez.

Atacar as paixões pela raiz significa atacar a vida pela raiz: a práxis da Igreja é hostil à vida.

O que é mais venenoso contra os sentidos não foi dito pelos impotentes, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que haviam tido a necessidade de serem ascetas.

Para uma nova criação, como o novo Reich, ter inimigos é mais necessário que amigos: somente no antagonismo ele se torna necessário.

É ingenuidade dizer “assim e assim o ser humano deveria ser”.


Os quatro grandes erros

Não há erro mais perigoso do que confundir a consequência com a causa: é a autêntica corrupção da razão.
A fórmula mais universal que está na base de toda religião e moral, reza: “faz isso e aquilo, não faça isso e aquilo”. Este é o grande pecado da razão, a mortal irracionalidade.

Erro do espírito como causa, confundido com a realidade! E convertido em medida da realidade! E denominado Deus.

Erro das causas imaginárias – partir do sonho a uma determinada sensação, imputa-se retrospectivamente uma causa.

A doutrina da vontade foi essencialmente inventada com a finalidade de punir, isto é, de querer encontrar um culpado.

O cristianismo é uma metafísica de carrasco.

 

Qual é a nossa teoria? Ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele próprio. Ninguém é responsável pelo fato de existir. Nós negamos a Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente dessa forma é que redimimos o mundo.


Os “melhoradores” da humanidade

Conhece-se minha exigência ao filósofo de colocar-se para além do bem e mal. Não existem absolutamente fatores morais. Moral é apenas uma interpretação de certos fenômenos, uma interpretação equivocada.

Em todas as épocas, se quis “melhorar” os seres humanos, a isso se chamou moral.


Sentenças

É preciso ser um animal ou um deus para viver sozinho – diz Aristóteles. Falta o terceiro caso: é preciso ser ambos – um filósofo…

Da escola de guerra da vida – O que não me mata me fortalece.

Ajuda-te a ti mesmo, e então todos ainda te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

Torna-se caranguejo quando se procura pela origem. O historiador olha para trás; por fim, acaba acreditanto também no para trás.

Desconfio de todos os sistemáticos e fujo do caminho deles. A vontade de sistema é uma falta de retidão.

Quão pouco se precisa para a felicidade! O som de uma gaita de fole. A vida seria um erro sem música.

O psicólogo tem de afastar a vista de si mesmo para poder enxergar algo.

Tu és autêntico? Ou apenas um ator?

Procurei pelos grandes seres humanos, e sempre encontrei apenas os macacos do seu ideal.

És alguém que só olha? Ou que se põe ao trabalho? Ou alguém que desvia o olhar, pondo-se de lado?

Queres caminhar junto? Ou à frente dos outros? Ou seguir o próprio caminho? É preciso saber o que se quer e que se quer.

O ser humano é um erro de Deus? Ou Deus é um erro do ser humano?


 

O MARTELO FALA

“Por que tão duro!” -falou ao diamante um dia o carvão: “não somos afinal parentes próximos?”
Por que tão frágeis? Ó meus irmãos, assim vos pergunto: vós não sois afinal – meus irmãos?
Por que tão frágeis, tão prontos a ceder e a amoldar-se? Por que há tanta negação, tanta renegação em vossos corações?
Tão pouco destino em vossos olhares? E vós não quereis ser destino e algo inexorável: como poderíeis um dia vencer comigo?
E se as vossas durezas não querem relampejar e cortar e despedaçar: como poderíeis vós criar comigo?
Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera, –
Venturança de escrever sobre a vontade de milênios como sobre bronze – como sobre algo mais duro do que o bronze. Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre.
Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros! –


 

Nota: Resumos têm uma utilidade resumida. Recomendo a leitura do livro inteiro para uma visão mais completa.

https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/filosofia/filosofos/nietzsche/crepusculo-dos-idolos-46580797

 

 

Elogio ao ócio

algo de podre nos valores do mundo atual. Elogiamos aqueles que trabalham muito, fazem horas acima do combinado e usam fins de semana para se preocupar com o que ocorre na semana.

O teletrabalho só levou a preocupação para casa. Ao invés do pensamento idealizado de que era possível trabalhar na praia, a realidade é que, mesmo de férias na praia, o trabalho vem a tiracolo.

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Não raro, surgem problemas atrelados a este comportamento: estresse, remédios para dormir de noite, estimulantes para não dormir durante o dia, doenças físicas e mentais.

O ser humano original, da época do neandertal, foi feito para liberar adrenalina em casos esparsos: ao caçar a sua comida, para ele mesmo não virar comida, e para fins sexuais. O neandertal não ficava alerta 24h por dia, atormentado infinitamente.

Vem à cabeça a imagem de Íxion, condenado pelos deuses gregos a ficar eternamente girando, preso à uma roda em chamas:

ixion

E, por outro lado, estamos num país com 13 milhões de desempregados. Tal número seria muito maior se o índice de desemprego levasse em conta aqueles que desistiram de procurar trabalho formal.

Com o aumento da tecnologia e da produtividade, é possível produzir mais com menos. Com o aumento de produtividade, esperava-se que sobrasse mais tempo para todos, como no antigo desenho dos Jetson, em que o trabalho dele era apertar um botão e ficar olhando.

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O tiro saiu pela culatra. Com o aumento da produtividade, aumentou a responsabilidade de quem toma conta do processo. E o efeito foi tirar do mercado quem não acompanhou a mudança.

Ou o fulano trabalha demais ou não tem emprego.

Será possível chegar num meio termo?

 


 

O trabalho é uma virtude supervalorizada

Um artigo de 1935, “Elogio ao ócio”, do filósofo e matemático Bertrand Russell, traz um questionamento sobre o tema.

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Suponha uma fábrica de alfinetes, que tinha 8 funcionários full-time. Digamos que o aumento de produtividade faz com que sejam necessário apenas 4 para fazer o mesmo serviço. Ao invés de os 8 funcionários trabalharem meio-período, o que acontece é que 4 trabalham full-time, e 4 ficam fora da indústria de alfinetes. Esta é a “Moralidade do estado escravo”.

 

Russell aponta que o lazer é essencial para a civilização. Em tempos antigos o lazer de poucos era possível devido ao trabalho de muitos. Mas o labor era valioso, não porque trabalhar é bom, mas porque o lazer é bom.

Deveríamos aprender a aceitar um lugar para o prazer em nossas vidas, o que somente é possível com tempo livre. E deveríamos gastar mais tempo em educação, num sentido geral: utilizar o tempo de forma construtiva.

Historicamente, a pequena classe que tinha tempo ocioso desfrutou de vantagens injustas, entretanto esta pequena classe contribuiu com quase tudo o que chamamos de civilização. Ela cultivou a arte e as ciências, escreveu livros, inventou as filosofias, e refinou as relações sociais.

Hoje em dia as universidades são supostamente responsáveis por produzir, de forma mais sistemática, o que a classe ociosa produzia por acidente e sub-produto. Mas as universidades têm vários problemas. Da sua torre de marfim, não estão cientes das preocupações e problemas do homem comum.

Acima de tudo, haverá felicidade e desfrutar da vida, ao invés de nervos destroçados, cansaço e indigestão. O trabalho será suficiente para fazer o lazer agradável, mas não o suficiente para causar exaustão. Uma pequena porcentagem usará este tempo para perseguir temas de interesse pessoal, e produzir trabalhos de importância pública. E isto fará as pessoas mais ternas e menos atormentadas. A vida boa é resultado de facilidade e segurança, não de esforço árduo.

Deveria ser moralmente elogiável permitir que as pessoas trabalhassem 20 horas por dia, o suficiente para obter uma renda satisfatória.

 


O nativo preguiçoso

Este situação lembra a piada do Dr Livingstone e o nativo preguiçoso na rede.

O Dr. Livingstone, famoso explorador da África, uma vez encontrou um homem deitado numa rede, em pleno dia. Ele perguntou:
– Você não deveria estar trabalhando?
– Mas para que trabalhar?
– Para juntar dinheiro
– E para que dinheiro?
– Com dinheiro você pode comprar uma boa casa
– E para que uma casa?
– Você pode montar uma rede e descansar tranquilamente na sua casa, quando estiver de férias
– Mas já estou numa rede, descansando na minha casa!

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Comentário

É impressionante que o texto de 100 anos atrás de Russell continue tão atual.

Mais ou menos na mesma linha, há o livro “Ócio criativo”, do pensador italiano contemporâneo Domenico de Masi. Certamente é um livro mais citado pelo título do que lido de verdade, porque é denso e prolixo.

Certamente, ambos os trabalhos são mais ideais teóricos do que formas práticas de  colocar tais ideias em ação.

Na minha opinião, a própria natureza humana não permite que trabalhemos menos; entre dois funcionários, um que quer trabalhar 4h e outro que quer trabalhar 8h, a escolha óbvia do empregador é o segundo. Por outro lado, se é possível que eu trabalhe 20h por semana por metade do salário, ou 40h com o dobro do salário, certamente a minha escolha é a segunda.

A conclusão é de que o texto de Russell vai continuar atual por mais 100 anos. Vamos continuar neste ciclo de poucos trabalharem cada vez mais, seja no escritório ou fora dele, e outros tantos ficarem de fora deste processo. É da natureza humana buscar o máximo para si mesmo… até o ponto em que isto ficará insustentável. Alguma coisa continua errada.

“Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Hamlet, de William Shakespeare.

 

“Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio”

“É uma cova grande pra tua carne pouca

Mas a terra dada, não se abre a boca”

João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Severina


 

Notas

O exemplo da fábrica de alfinetes é uma clara referência ao trabalho clássico de Adam Smith, “A riqueza das nações”, em que ele usa uma fábrica de alfinetes para exemplificar o ganho de produtividade devido à separação do trabalho.

 

 

Texto completo, In praise of idleness:

http://www.zpub.com/notes/idle.html

 

A Teoria dos Cisnes Negros

Um resumo das ideias poderosas de Cisnes Negros, popularizadas pelo pensador libanês Nassim Taleb. Cisnes Negros são eventos de baixa probabilidade, porém alto impacto.

São duas partes. Uma com as definições, e a segunda com ações que devemos tomar.


A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 1

Vivemos num mundo em que não conhecemos. Esta é a premissa básica da teoria dos Cisnes Negros, popularizada pelo pensador contemporâneo Nassim Nicholas Taleb. Ele trabalhou por muito tempo como trader no mercado financeiro, e neste ramo, viu várias pessoas fazerem fortunas espetaculares para tudo virar pó em alguns dias.

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Cisnes Negros são eventos de baixa probabilidade, mas impacto extremamente elevado. É um outlier difícil de acontecer, mas que pode ocorrer um dia, e, se ocorrer, terá efeitos catastróficos.

Esta é a definição, mas não o problema real. O grande problema é que o ser humano tende a subestimar a existência de Cisnes Negros. Uma das razões é que, por serem tão raros, alguns desses eventos nunca ocorreram na história. E, mesmo nos casos em que ocorreram, rapidamente o conhecimento humano se adapta para mostrar que o evento era previsível, não era tão aleatório assim. É o que Taleb chama de “falácia narrativa”. Um exemplo são os economistas “profetas” que afirmaram que “era evidente que a crise de 2008 iria ocorrer, devido aos riscos dos títulos sub-prime”. Tudo isso a posteriori, é claro.

O termo Cisne Negro remete a uma história. No séc XVII pensava-se que todos os cisnes fossem brancos. Por mais cisnes que fossem vistos, eles eram todos brancos. Até que, na Austrália, foi descoberto o primeiro cisne negro. Apesar de milhares de anos de observações de cisnes brancos, bastou um único evento de cisne negro para derrubar a hipótese de que “todos os cisnes são brancos”. Este termo foi criado pelo filósofo inglês David Hume, nos anos 1700, justamente para demonstrar o “Problema da Indução”, ou seja, a fraqueza do nosso processo de raciocínio indutivo.


Não-linearidade do mundo

O mundo é não-linear.  A lei de potências governa o mundo, não a curva gaussiana de probabilidade normal.

Vale a pena pontuar alguns casos de não-linearidade histórica:  os ataques terroristas de 11/09/2001, o surgimento do Google, a crise financeira de 2008, o surgimento da internet,  o tsunami de 2004 na Indonésia. Nem a internet, nem o Google, foram previstos pelos livros de ficção científica, nem pelos acadêmicos e executivos.

Recentemente, o desastre de Brumadinho pode ser considerado um Cisne Negro, pelos habitantes da região. Vide post específico: https://ideiasesquecidas.com/2019/01/25/cisnes-negros-e-gestao-de-riscos/

Os ataques de 11/09 são um caso bastante ilustrativo. Foi algo completamente imprevisto, deixando o mundo inteiro em choque, e mudando completamente o rumo da história. O mundo ficou paranoico com o terrorismo. Dificilmente as guerras posteriores no Iraque e no Afeganistão teriam justificativa não fosse o combate ao terror.

A história é como uma caixa-preta. Conhecemos apenas os eventos da história, mas não os fatores que causaram o mesmo. Temos apenas a interpretação de historiadores, que é feita a posteriori e a partir de um ponto de vista subjetivo, não conhecemos os reais geradores dos eventos. Os eventos importantes são não-lineares. A história não rasteja, ela anda aos pulos. Entretanto, agimos como se fosse possível prever o curso da história, e pior ainda, mudá-lo.

Apesar de nossos avanços tecnológicos, ou talvez por causa deles, o futuro será governado cada vez mais por eventos extremos.


O desconhecido desconhecido

Há fatos que conhecemos, que conhecemos que desconhecemos, e os que desconhecemos que desconhecemos, e é neste domínio em que somos surpreendidos pelos cisnes negros.

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A ciência, os acadêmicos e os executivos das empresas tendem a focar no que conhecemos, e passar a falsa impressão de que não há fatos que desconhecemos que desconhecemos. Todas as soluções caem em alguma categoria dentro do conhecimento existente. É como aquela piada, do bêbado que perdera a chave do carro no meio da rua, mas procurava a mesma debaixo do poste porque era o único lugar que tinha iluminação.

O mundo conhecido, dos acadêmicos e MBAs mundo afora, é o da curva gaussiana. Ela tem erroneamente tem o nome de “curva normal”, indicando que é fenômeno normal do mundo. Mas a curva normal ignora grandes variações, joga fora o desconhecido – ignora o não-linear.  Taleb chama o mundo gaussiano de “Mediocristão”.

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O mundo real é governado pelo não-linear, exponencial, Pareto, é regido por leis de potência e pelo improvável: alguns poucos ficam com tudo, alguns eventos são ordens de magnitude maiores dos que todos os que já ocorreram,  o que desconhecemos é muito maior do que o que conhecemos. Este é o “Extremistão”, em oposição ao “Mediocristão”: o mundo escalável, exponencial, o-vencedor-leva-tudo, onde o resultado é desproporcional ao volume de trabalho, onde pode-se ficar milionário ou falido num instante.

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 O problema do Peru

Um peru é alimentado todos os dias pelo seu dono, por 1000 dias. Baseado em modelos de forecast que extrapolam o passado, ele supõe que o dia 1001 também será um dia feliz, em que será alimentado por um ser humano. Entretanto, o dia 1001 é Natal, e o peru vai para o forno.

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Assim como no problema do peru, no mundo real a mesma mão que alimenta, pode ser a da degola.

Os eventos extremos, por serem muito raros, usualmente não têm histórico. Os modelos matemáticos, como o do Peru, utilizam todos os dados existentes, mas há fatores que não são capturados pelos dados históricos. É impossível ter modelos bons sem informação.


A Teoria dos Cisnes Negros – Parte 2

Como viver num mundo em que não conhecemos?

O passado pode não modelar completamente o futuro, quando estamos no Extremistão.

Não conseguimos extrair informação de onde não existe.

Há três linhas de ação: opções para cisnes negros negativos, aproveitar cisnes negros positivos e diminuir a ocorrência de cisnes negros.


Opções para Cisnes Negros negativos

Aceitar que não podemos prever o futuro implica em tomar medidas de precaução contra cisnes negros negativos: seguros, opções, planos B.

Taleb, por conta de sua formação como trader, explora bastante o uso de opções. Uma opção, no mercado financeiro, é um instrumento que dá o direito, mas não a obrigação, de comprar (ou vender) uma ação, num determinado momento a um determinado preço. Este direito não é de graça, é necessário pagar uma taxa, que na linguagem dos seguros é chamada de prêmio.

O seguro de veículos (ou casa, vida) é uma opção: pagando o prêmio do seguro, tenho a opção de “vender” (recuperar grande parte do valor) o automóvel à seguradora, no caso de problemas. Tenho o direito de fazer isto, mas não a obrigação. Se eu não exercer a opção dentro de um prazo, a seguradora fica com o prêmio.

Um seguro é uma opção de venda. Há no mercado financeiro a operação inversa: uma opção de compra. Posso comprar uma ação a um determinado valor, numa determinada data futura, pagando hoje um prêmio para obter este direito.

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Em suma, ter opções de compra ou de venda, ter seguros para as coisas mais importantes, ter redundâncias, ter um estoque, uma reserva de valor, são formas de precaução contra eventos imprevistos – não podemos prever o futuro, mas nos precaver para o mesmo.

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Ter opções

A questão é que o preço do prêmio pode ser caro, e o evento pode nunca ocorrer, então muita gente opta por não ter esses seguros.

Nos dias de hoje, com a busca das empresas em enxugar custos e tornar-se eficiente, com metas de redução de custos em todo lugar, as redundâncias, seguros e estoques têm se tornado cada vez menores. Isto pode gerar um ganho no curto prazo, mas não necessariamente no longo prazo.

Desprezar o seguro porque o prêmio é caro, gerar ganhos de curto prazo em detrimento do longo, é como contar os centavos dentro da variação da curva normal conhecida, ao invés de centenas de dólares da variação de uma curva exponencial desconhecida. É como recolher centavos à frente de um rolo compressor. É como olhar para as folhas das árvores e esquecer da floresta, ou como ficar contando as pulgas e deixar passar o elefante, é pensar pequeno e deixar escapar o grande.

A natureza é um exemplo de organismo resiliente. Os animais e plantas devem se adaptar ao meio ambiente e serem eficientes, mas também devem ser eficazes em sobreviver a longo prazo. Digamos que um mamífero tenha uma adaptação ótima ao ambiente, o que lhe permita viver sem gordura. Entretanto, suponha que esta evolução ocorreu fora de uma época glacial. Quando chegar a próxima era glacial, este mamífero não sobreviverá para deixar seus genes, ao passo que os mamíferos não tão ótimos, porém robustos, terão sobrevivido, gerando os descendentes do mundo atual. A vida evolui segundo esta lógica da via negativa. Não é porque o organismo aprendeu a lição, mas sim porque esses organismos foram eliminados, sobrando, por seleção natural, aqueles que são antifrágeis.


Cisnes Negros positivos e Estratégia Barbell

Para os cisnes negros positivos, a recomendação é a oposta: expor-se ao risco. Muita exploração agressiva, tentativa e erro, participar de festas e conversar com desconhecidos completos, tentar algo que nunca fora feito antes, tentar conversar aleatoriamente com o diretor da empresa. A grande maioria dessas tentativas vai dar em nada, mas um único acerto pode valer todas as tentativas.

Se, por um lado, uma estratégia é a de ter opções, seguros e robustez, por outro lado devemos explorar agressivamente as oportunidades, qual a proporção entre esses? Essa é a estratégia “barbell”, remetendo à imagem de uma barra de pesos: ser extremamente conservador em um extremo (digamos, 90% do investimento em títulos bastante sólidos, renda fixa, ouro) e extremamente agressivo em outro extremo (digamos 10% do investimento em opções de alta volatilidade).

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A pior estratégia é ficar 100% no meio do caminho, nem tão conservador, nem tão agressivo: não há possibilidade de um cisne negro positivo, e também há risco de ser atingido por um cisne negro negativo.

Investidores-anjo não sabem qual a startup que vai realmente dar certo, então tendem a investir um valor pequeno (para o investidor, não para a startup) em várias empresas iniciantes e acompanhar a evolução desta. O capitalismo, por permitir que centenas de milhares de empreendedores criem suas empresas, e principalmente, fracassem, permite que haja espaço para o surgimento de Apples e Microsofts, ao contrário do socialismo – em que a empresa estatal nunca fracassa porque é bancada por recursos públicos.


Ter a pele no jogo

O mundo contemporâneo está ficando cada mais conectado, com pessoas se especializando cada vez mais e empresas cada vez maiores. Isto traz um aumento proporcional na complexidade dos sistemas, e um loop de feedback cada vez mais distante e indireto – as pessoas que tomam as decisões sentem cada vez menos os efeitos dessas decisões, o que faz com que elas não tenham a “pele no jogo”.

As empresas cada vez maiores podem ficar grandes demais para quebrar, exigindo algum socorro governamental quando isto acontece. Na prática, ocorre a privatização dos lucros, mas a socialização dos prejuízos, uma assimetria prejudicial à sociedade como um todo.

E, por serem grandes demais para ir à bancarrota, essas empresas podem tomar ações temerárias, como vender títulos podres a fim de obter ganhos de curto prazo – aumentando o tamanho do evento Cisne Negro – e com isso colocando em risco todo o sistema financeiro mundial.

Taleb é dos que defendem que empresas não podem se tornar “too big to fail” – evitar a complexidade na fonte, ao invés de ter a tarefa impossível de lidar com esta. Ele também é forte defensor da via negativa: simplificar ao invés de complicar, diminuir ao invés de aumentar, pequeno ao invés do gigante, projetos exequíveis e falíveis passo a passo.


Conclusões

Há várias formas de encarar o mundo. Algumas mais platônicas, em que achamos que a ciência pode modelar o mundo, os algoritmos do big data e os sensores da internet das coisas vão nos dar informações melhores do que qualquer outro ser humano, uma crença em alguma instituição, como o estado ou os economistas, ou no comunismo, vão nos dar todas as respostas que precisamos.

Outra forma de ver o mundo é assumir que não há como sabermos de tudo. Sempre haverá mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia.  Há desconhecidos desconhecidos que fogem ao nosso controle. É sábio nos precaver de imprevistos, através de seguros, opções e redundâncias. Ser cético para com a ciência, duvidar das certezas e abraçar a aleatoriedade.

Para explorar oportunidades, exploração agressiva de tentativas na prática (não na teoria), heurísticas, exposição (controlada) aos riscos, em domínios escaláveis (Extremistão).

Em termos de projetos, é melhor ter vários ciclos simples e rápidos de tentativa e erro no mundo real do que por um mega projeto planejado detalhe a detalhe do começo ao fim.

Vivemos em mundo que não conhecemos.

Resumo em uma frase: Não seja o peru.


Vide também:

https://ideiasesquecidas.com/2019/05/10/o-que-e-antifragil/

Ter a pele no jogo – novo livro de Nassim Taleb

O intelectual idiota


Links

Vale a pena ler os seguintes livros.

A Lógica do Cisne Negro

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Iludidos pelo Acaso

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Antifrágil, coisas que se beneficiam com o caos.

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Peter Drucker em 40 frases

Peter F. Drucker nasceu na Áustria, em 1909. É considerado o fundador da Administração moderno. Em 95 anos de vida, escreveu mais de 30 livros e dezenas de artigos de profunda sabedoria.

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Apresento aqui algumas de suas ideias, em mais ou menos 40 frases.

 


Planejamento

Planejamento de longo prazo não tem relação com decisões futuras, mas com o futuro das decisões presentes.

O melhor jeito de prever o futuro é criando-o.

A única coisa que sabemos sobre o futuro é que será muito diferente do que imaginamos.

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Sobre reuniões

Ou você trabalha ou você se reúne. Não é possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Reuniões demais são sintomas de uma má administração.


 

Eficácia

Não há nada mais inútil do que fazer com grande eficiência algo que não deveria ser feito.

Ser eficaz é mais importante do que ser eficiente. Fazer a coisa certa é mais importante do que fazer certo alguma coisa.

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Inovação
Se você quer algo novo, tem que parar de fazer o velho.

Inovação é o instrumento específico do empreendedor. É o ato de dotar recursos com nova capacidade para criar riqueza.

O que é possível de ser medido é possível de ser melhorado.

Pratique o abandonamento sistemático. As coisas ficam obsoletas. Se for para serem superadas, que sejam por você mesmo.

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Conhecimento

O conhecimento deve ser aperfeiçoado, desafiado e aumentado continuamente, ou desaparece.

O computador é um imbecil.

O mais importante na comunicação é ouvir o que não foi dito.

Quando um assunto se torna completamente obsoleto, ele vira matéria obrigatória na faculdade.

O conhecimento e a informação são os recursos estratégicos para o desenvolvimento de qualquer país. Os portadores destes recursos são as pessoas.

Prepare-se para passar a vida toda estudando.

Opiniões contrárias dão alternativas, estimulam a imaginação e ajudam a desafiar ideias pré concebidas. Encoraje opiniões contrárias.

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Pontos fortes e fracos

Resultados são obtidos explorando oportunidades, e não resolvendo problemas.

É muito mais fácil ir de uma performance de primeira classe para uma de excelência do que sair da incompetência para o mediocridade.

Conheça os seus pontos fortes. Aplique-o em áreas onde você possa contribuir. Assegure que os valores da empresa sejam compatíveis com os seus.

O sucesso vem para aqueles que conhecem a si mesmo. Trabalhadores do conhecimento devem ser os seus próprios CEOs.

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Administração

Muito do que chamamos de gerenciamento consiste em dificultar o trabalho das pessoas.

Executivos devem à organização e aos colegas não tolerar indivíduos que não performam em trabalhos importantes.

Nenhuma instituição sobrevive se precisa de gênios ou de super-homens para administrá-la. Ela deve ser organizada de forma que possa ser gerenciada por seres humanos médios.

Gerenciamento é substituir músculos por cérebro, folclore por conhecimento, e força por cooperação.
O propósito de uma empresa é de criar um cliente.


 

Coragem

Para todo empreendimento de sucesso, alguém, algum dia, teve que ter um ato de coragem.

Pessoas que não assumem riscos em geral cometem dois grandes erros por ano. Pessoas que assumem riscos geralmente cometem dois grandes erros por ano.

Existe o risco que você não pode correr, e o risco que você não pode deixar de correr.

 

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Ação
Planos são apenas boas intenções a menos que sejam imediatamente postos em prática.

Ideias não movem montanhas. São as escavadeiras que o fazem. Ideias devem ser executadas para surtirem efeito.


 

Tempo
O tempo é o recurso mais escasso do ser humano e a menos que seja gerenciado, nada mais pode ser gerenciado.

Conheça o seu tempo.


 

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Liderança

Administração é fazer certo as coisas. Liderança é fazer as coisas certas.

Liderança efetiva não é fazer discursos ou ser querido, liderança é definida por resultados e não por atributos.

Muitas discussões sobre a tomada de decisão assumem que apenas executivos sêniores tomam decisões. Este é um erro perigoso.

Posição não confere privilégios ou poderes. Posição impõe responsabilidade.

A produtividade do trabalho não é responsabilidade do trabalhador, mas do administrador.

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Perguntas

O que deve ser feito?
Qual é o correto?
Como posso contribuir?


 

É óbvio

Dizem que muito do que falo é óbvio. Mas se é tão óbvio, por que ninguém disse isso antes? E por que ninguém pratica?

 


Segunda-feira

O que você vai fazer de diferente na segunda-feira, após ler este texto?

Ideias provocativas – Freaknomics 1

Freak

 

Quando eu era pequeno, jornais (em papel) ainda existiam. Era dividido por cadernos. Tinha o de esportes, o de cidades, os classificados. E tinha o de Economia. Falava de inflação, juros, impostos. E, eu não entendia nada do que estava escrito.
Hoje, continuo não entendendo nada de economia, principalmente de macro-economia. Mas aprendi a gostar da parte micro da economia, a parte que trata mais de incentivos econômicos, comportamento de indivíduos e empresas.
Um dos responsáveis pela divulgação disto é Steven Levitt, autor de Freaknomics e outros livros da mesma linha. Ele tem um blog, onde expõe ideias, algumas interessantes, provocativas, e outras completamente estúpidas e absurdas (ou não).
Já postei alguma coisa sobre eles aqui.
Seguem alguns posts de ideias aleatórias


 

Garçonetes x Aeromoças
Por que aeromoças não recebem gorjetas, enquanto garçonetes recebem?
As duas fazem mais ou menos a mesma coisa: entregam comidas e bebidas ao cliente.
Levitt não responde a pergunta, mas a minha impressão é a seguinte: ser aeromoça tem (ou tinha) um certo status, um certo glamour. Este glamour se perderia completamente se elas recebessem gorjeta.


Tanto faz votar ou não
Eu represento um voto em 200 milhões. Se eu convencer meia dúzia de pessoas, são 6 votos em 200 milhões. A não ser que o sujeito seja um militante em tempo integral, o que o indivíduo pode fazer no todo de uma eleição federal é muito pouco. É mais eficaz gastar o meu (escasso) tempo em algo que dê mais chance de retorno.


 

Esses caras do Freaknomics tem um novo livro, “When to rob a bank”, que nada mais é do que uma seleção de ideias do blog.

Effective Executive – Parte 2

Effective Executive - Parte 2

Eficácia: saber o que deve ser feito
Eficiente: fazer muito bem alguma coisa

É melhor ser eficaz ou eficiente?
A resposta de Drucker é que é melhor ser eficaz. Saber qual a meta real a ser atingida, qual a verdadeira resposta por trás da pergunta.
Uma secretária que digita bem é eficiente no que faz. Mas não é eficaz, se não souber o que escrever.
Computadores são extremamente eficientes. Não erram, são velozes, não reclamam, trabalham sem parar. Mas não são nada eficazes. Não sabem o que devem fazer. Somente os humanos são eficazes para fazer o computador eficiente trabalhar.