O Deserto dos Tártaros

Algumas palavras sobre o livro “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati.

Primeiro, não o recomendo para todos. É um livro curto, porém chato. O grande tema é este, ser chato e sem significado: ao contrário de um James Bond que bate em todo mundo, namora as mulheres mais bonitas e salva o mundo, nada acontece com o protagonista, Giovanni Drogo.

O enredo se passa no forte Bastiani, em frente ao “deserto dos tártaros”, em um local indefinido e numa época indefinida.

O jovem tenente recém formado Giovanni Drogo é designado ao isolado forte, supostamente construído como ponto de resistência a uma possível invasão dos terríveis tártaros.

A princípio, seu plano era ficar apenas quatro meses; contudo, a inércia da rotina e a esperança de glória o fazem permanecer por décadas. O cotidiano é estritamente militar: trocas de guarda, manutenção de posições e uma prontidão eterna para uma ameaça tártara que nunca se materializa.

Com o passar dos anos e zero ameaças externas, os dramas tornam-se puramente burocráticos ou trágicos por acidente: um soldado que se arrisca para resgatar um cavalo, ou uma expedição às montanhas que termina em morte evitável. Enquanto isso, a vida passa, as pessoas envelhecem e os oficiais se aposentam.

Em certo momento, o ciclo se repete de forma invertida: o agora experiente Drogo recebe um tenente recém-chegado, replicando o discurso da ameaça tártara e incutindo no jovem o mesmo senso de urgência e dever que o aprisionou no passado.

No finalzinho do livro, após 30 anos de serviço, o major Drogo é forçado a deixar o forte por motivos de saúde. A ironia é cruel: ele parte justamente quando os tártaros finalmente aparecem no horizonte. Passou a vida inteira esperando pelo seu “grande momento”, apenas para perdê-lo quando ele enfim se concretiza.

O livro não deixa totalmente claro se a ameaça era real ou apenas uma ilusão da cabeça de Drogo.

De qualquer forma, esta é uma obra bastante existencialista. Quantos de nós esperam atingir grandes feitos quando pequenos, apenas para nos contentar em apenas sobreviver no final? Qual o sentido em esperar a vida inteira por algo que nunca chegará?

Alguns almejam a vida de um James Bond, mas a maioria acaba vivendo a vida de um Giovanni Drogo mesmo. E pode ser que não haja nada de errado nisto…

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