Os milagres (não cumpridos) da inovação aberta

Estava relendo um livro antigo que exaltava o poder da colaboração, da diversidade de pensamento e da inteligência coletiva. Um dos exemplos eram os programas de inovação aberta, como a Innocentive, que estavam muito em voga na época.

Já participei de vários desses programas, direta ou indiretamente. E, olhando em retrospecto, o que posso dizer é simples: os ganhos foram limitados, quando muito.

Por volta de oito, dez anos atrás, falar de inovação era moda. Uber, Airbnb e similares davam a impressão de que tudo poderia ser disruptado. Não por acaso, a onda era alguns anos após a crise de 2008, em meio a rodadas de quantitative easing que inflaram bolhas em startups disruptivas.

O processo era mais ou menos assim: levantávamos problemas internos que talvez pudessem ser resolvidos por startups. Publicávamos um edital, com apoio da comunicação ou de algum hub de inovação, e apareciam de cinco a dez startups por desafio. Faziam-se pitches, reuniões rápidas, filtros iniciais. Até aí, tudo funcionava razoavelmente bem.

Os problemas começavam depois.

Uma startup não entra em uma grande empresa sem contrato. Compras e jurídico – legitimamente avessos a qualquer coisa fora do padrão – entravam em cena. Compras queria negociar preço; jurídico queria mitigar riscos. Só que espremer uma startup de seis pessoas tentando construir um MVP não fazia muito sentido. No início, isso levava meses. Com “fast lanes”, melhorou um pouco, mas nunca deixou de ser um atrito.

Outro ponto: o gargalo quase nunca era tecnologia.

Às vezes, os processos eram tão desorganizados que não dava nem para definir o problema direito (como querer resolver poeira em estrada sem um método objetivo de medição). Em outras, a solução era sofisticada e cara demais para a dor real (como usar Lidar de carro autônomo, em 2018, para detectar risco de caminhão enroscar em cabos elétricos).

Mesmo quando havia match (por exemplo, análise de bases do jurídico) o caminho até virar algo operacional era longo. O MVP estava “validado”, mas depois surgiam integrações com SAP, adaptações para casos específicos, alinhamentos com TI e áreas que nem participaram do piloto. No fim, virava um projeto tradicional, com outro nome.

Aí aparecia o paradoxo da inovação aberta:

Áreas imaturas lançavam desafios amplos demais, sem escopo, onde nenhuma solução isolada se sustentava.

Áreas maduras já conheciam bem seus problemas e fornecedores, e não precisavam de inovação aberta para isso.

(Minha visão, tá?)

No saldo final, pouca coisa chegou à operação. E o que chegou avançou mais pelo caminho tradicional do que pelos pitches bem ensaiados dos startupeiros.

Alguma semelhança com os hypes atuais? Como diria Mark Twain: a história não se repete, mas rima.

O Compêndio de Ideias do Prof. Arnaldo: https://asgunzi.github.io/Compendium/

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