Qual o futuro dos livros?

Hoje em dia, é possível encontrar informação sobre virtualmente tudo, de graça, na tela de um computador com internet. A informação virou commodity. Barreiras físicas inexistem. Livros, revistas, jornais, cursos e até a grade educacional atual têm de ser revistas, urgentemente.

Contudo, até há poucos anos, não era assim. Na era pré-internet, a informação era limitada ao que conseguia ser impresso e lido num pedaço de papel.

Este texto tem dois tópicos:

  • Quanto custaria um livro manuscrito, nos dias de hoje?
  • O futuro da pirataria

Quanto custaria um livro manuscrito, hoje em dia?

Na era pré-Gutenberg, copiar um livro significava transcrever, manualmente, letra por letra do livro. Na Idade Média europeia, os monges copistas eram famosos por fazer este serviço.

Digamos que um copista consiga escrever 5 páginas por dia. Lembrando que os livros manuscritos da Idade Média eram numa caligrafia bonita (não o garrancho que você escreve no caderno), o que demanda tempo. Além disso, os monges tinham o cuidado de minimizar o erro na transcrição.

Se ele trabalhasse por 20 dias num mês, daria para transcrever 100 páginas mensalmente.

Pagando um salário mínimo para ele, R$ 1.000 nos dias de hoje: R$ 1.000 a cada 100 páginas.

Um livro como a República de Platão tem 300 páginas com letras miúdas.

Assumindo que a caligrafia do copista caiba nas mesmas 300 páginas, o livro custaria R$ 3.000.

Além disso, há outros custos como o gerenciamento, armazenagem, frete (a cavalo na época), impostos. Digamos, poderia chegar a R$ 5.000, facilmente.

Certamente, não era para qualquer um. Somente os mais ricos poderiam se dar ao luxo de comprar um livro. Até por isso, a grande maioria da população (uns 80%) era analfabeta na época.

Pós Gutenberg, estimativas falam que o custo reduziu por 10. Ainda havia um trabalho enorme para criar os tipos móveis, juntar e fazer as impressões. Erros de impressão obrigavam algumas revisões a caneta, por exemplo.

Portanto, o mesmo livro custaria de R$ 300 a R$ 500. Bem melhor, porém, ainda assim um item da elite, classe média alta.

Mesmo após Gutenberg, a profissão de copista não desapareceu da noite para o dia. Primeiro que, para imprimir um livro com prensa, necessita de escala. Se for para copiar um único livro específico, era melhor usar o monge.


Além disso, um livro copiado à mão, com a bela caligrafia do copista, era um sinônimo de status.

De lá para cá, houve uma curva contínua de melhoria da antiga prensa.

O mesmo livro, em papel, hoje em dia custa menos de R$ 50. Neste, estão vários outros custos, como a editora e a livraria, digamos que a faixa de custos seja de R$ 30 a R$ 50, para manter a divisão por 10.

A seguinte tabela resume o preço de copiar um livro:

Na era pós internet, o custo por letra transmitida caiu a zero. Zero. Se este texto que você está lendo for compartilhado uma vez, ou compartilhado um milhão de vezes, não vai ter custo incremental algum para o autor.

Atenção: não é o custo de criar o livro, que inclui o homem-hora do autor, pesquisas, o editor, etc… O custo acima é relativo ao custo de COPIAR a informação contida no livro e transmitir.

O futuro da pirataria

Há uns 15 anos atrás, importei um livro americano de Otimização Combinatória (meu assunto favorito), via Amazon. Daria o equivalente hoje a uns 250 reais, considerando o preço em dólar e o frete internacional.

Antes da Amazon, era mais difícil, senão impossível, encontrar e comprar um livro importado. Estávamos na mão dos grandes varejistas (Saraiva, Siciliano, Liv. Cultura), que importavam e disponibilizavam o seu catálogo.

Hoje em dia, com o custo de copiar informação igual a zero, a pirataria é ilimitada. É possível obter uma quantidade infindável de informação (livros, música, filmes). Basta uma pesquisa no Google, ou um sistema do tipo torrent.

O pdf do Combinatorial Optimization vai estar a um clique de distância (porém, ilegalmente).

Um efeito da digitalização é o de quebrar os intermediários (as livrarias físicas faliram, as editoras estão tendo que se reinventar).

É inútil lutar contra a pirataria pelos meios tradicionais: derrubando sites, prendendo pessoas, ameaçando o usuário.

Entretanto, o futuro não é tão sombrio assim.

Ainda existe a necessidade de criar e consumir conhecimento novo.

Imagino que ocorra com os livros algo como ocorreu com a música. Apesar de ser possível piratear sem restrições, pago mensalmente a assinatura do Spotify, e também comprei várias músicas da loja da Apple: porque estão a custos acessíveis, e principalmente, porque tais serviços agregam um valor enorme. O Spotify tem um catálogo gigantesco de músicas, e faz recomendações de músicas fantásticas que eu nunca encontraria sozinho.

Vejo alguns caminhos para os livros e meio impresso:

  • Remuneração direta dos autores. Com a evolução dos meios de pagamento, é possível comprar ou doar valores bem pequenos por artigo. Por exemplo, quem acha que o presente texto agregou valor pode remunerar o autor em R$ 0,50 via PicPay, utilizando o QR code abaixo. Quando o Whatsapp Pay estiver rodando, mesma coisa. É uma alternativa interessante. Um livro impresso tem que ter um tamanho mínimo, digamos 100 páginas, para valer o trabalho de edição e impressão, mesmo que o conteúdo útil seja de 5 páginas. Com remuneração direta, é possível apenas disponibilizar o que interessa, melhorando o conteúdo e baixando custos para todo mundo.
Estou fazendo um teste.
  • Revistas eletrônicas muito bem curadas, com assinatura. Mais ou menos como os jornais vêm fazendo. Uma parte do conteúdo é livre, o acesso ao conteúdo completo é pago. O interessante é efeito Cauda Longa: podem surgir nichos à vontade, em temas de interesse específico ao invés de informação de massa como jornais.

  • Microlivros: O Tik Tok faz sucesso por vídeos curtos, que não tomam muito tempo e são bem feitos. Vejo espaço para um serviço de microlivros, talvez de 10 páginas, com uma curadoria muito bem feita. Hoje em dia, o problema é o excesso de informação, não a escassez, daí o valor de uma curadoria de qualidade. E, sabendo que os textos são curtos, bons e diretos ao ponto, o leitor verá valor. Microlivros com versão áudio podem ser melhores ainda.

Johannes Gutenberg causou uma revolução, nos anos 1400. Popularizou a produção de livros e baixou custos – em última essência, foi Gutenberg que permitiu o grande salto de conhecimento europeu nos séculos seguintes. A internet vem causando outra revolução. Quase toda a informação está disponível a quase todo mundo a um custo muito baixo.

Seja como for, vão continuar existindo autores e leitores, professores e alunos. Os custos caíram drasticamente. Os intermediários vão ter que agregar valor de forma diferente ao que fazem hoje – talvez até algum marketplace monopolize a distribuição, tal como a Amazon no caso de produtos.

Vamos ver o que vem pela frente.

Trilha sonora: Palavras ao Vento – Cássia Eller

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento

Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras ao vento

Links:

https://ideiasesquecidas.com/2018/06/24/sobre-livros-e-livrarias/

https://ideiasesquecidas.com/2018/01/21/%e2%80%8brecomendacoes-de-livros-para-recem-formados/

https://www.dw.com/pt-br/o-misterioso-gutenberg/a-42432157

https://super.abril.com.br/historia/gutenberg-primeiras-impressoes/

https://educacao.uol.com.br/biografias/johannes-gutenberg.htm

https://www.britannica.com/topic/printing-publishing/The-Gutenberg-press

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s