Aristóteles inventou a Internet e o iPhone?

Como alguém que viveu no século 3 a.C. pode influenciar a nossa vida, em plena era de iPhones, internet, computação na nuvem, inteligência artificial?

Em post anterior, comentei sobre a influência do confucionismo nos costumes, tradições e no comportamento dos japoneses, chineses e coreanos. Sem eles nem saberem, seguem muitas ideias oriundas de tempos atrás.

E no ocidente, há alguma mente poderosa que tenha influenciado fortemente a modelagem de nossos pensamentos?

Certamente, muitos nomes influenciaram fortemente a cultura ocidental. Mas um, em particular, é tema de estudos faz dois mil anos, e uma quantidade impressionante de ideias encontram raízes nele: o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.).

aristotle

Isto é tão profundo que nem sabemos desta influência, e tomamos algumas de nossas atitudes como óbvias.

Aristóteles é o meu ídolo. Ele era um grande polímata (do grego “aprendeu muito”). Escreveu sobre diversas áreas do conhecimento, com grande profundidade: lógica, política, ética, retórica. Fundou os ramos da zoologia e botânica, física e metafísica. Ele foi o Google do mundo ocidental por uns 2 mil anos.

 


Lógica
Aristóteles foi o primeiro a sistematizar o conceito de lógica. Separar os componentes, definir hipóteses e conclusões. Definir negações, contradições.

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A lógica dominante por vários milênios da história foi a lógica aristotélica. Demorou 2 mil anos até pensadores modernos preencherem as lacunas da lógica apresentada por Aristóteles.
Hoje em dia, naturalmente pensamos de forma lógica, parece até óbvio.
Mas não é óbvio. Há várias formas possíveis de se responder a uma pergunta. Seja uma pergunta ilustrativa como “Por que carregamos um guarda-chuva?”

A resposta poderia ser totalmente baseada em misticismo: Deus quis que chovesse, e que carregássemos guarda-chuva, portanto é assim e pronto.

Poderia ser baseada em tradição: sempre carregamos guarda-chuva porque nossos avós nos ensinaram assim. Não posso desrespeitar os ancestrais.

Poderia ser ditatorial: o grande líder quer assim, acate quem tiver juízo.

Poderia não ter resposta: carrego o guarda-chuva porque quero, e não sei nem quero saber sobre as razões disto.

Questionar e ser convencido após um argumento lógico está na essência do nosso modo de pensar. Imagine um tema polêmico, como a reforma na previdência. Ninguém no ocidente aceita uma resposta do tipo “Deus (Alá, Shiva, Tupã, etc) quis assim”, ou “sempre foi assim com nossos ancestrais”, “nosso querido líder King Jong Un quer assim”, ou “não sei a resposta”. Entretanto, em vários lugares do mundo respostas deste tipo são válidas e convincentes, no contexto apresentado.


Divisão, classificação, sistematização
Aristóteles era genial em pegar o conhecimento e dividir, classificar, dar nomes e analisar.
Aplicou este método em diversos temas, Ética, Felicidade, Política, Retórica, Dialética, Física, Filosofia, Poesia. O seu enfoque era sempre muito prático, realista, ao contrário do idealista Platão.

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As artes, para ele, não deveriam ser apenas algo bonito. Deveriam também ser úteis. Portanto, antecipou o conceito de design do Steve Jobs em mais de 2 mil anos.

 

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Categorizou e analisou minuciosamente os animais, criando a zoologia. Fez os mesmo com as plantas, criando a botânica. Inventou a taxonomia, método sistemático (e lógico) de classificação.

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Questionar, dividir, classificar e aplicar a lógica para chegar à conclusões, são a base primordial da ciência.


A Ciência 

O grande mérito de Aristóteles nem foi o que ele criou, mas o como criou. Ele foi o bisavô do método científico: tentar encontrar a explicação lógica dos fatos. Dividir, classificar, analisar as causas e efeitos.

Aplicando a ciência, o ocidente conseguiu progressos gigantescos, como a revolução das ideias da época do Iluminismo, e a Revolução Industrial. A partir daí, não paramos mais, chegando à revolução da Informação dos tempos atuais, aos iPhones, computação em nuvem, inteligência artificial.

 


Influente até demais

Um dos problemas que surgiram é que Aristóteles escreveu tanto sobre tudo, que ele passou a ser a referência máxima e a palavra final por milhares de anos, até a Idade Média.

Se o grande Aristóteles dizia que o Sol girava em torno da Terra, quem era esse tal de Galileu para dizer que era a Terra que girava em torno do Sol?

Lembro de um filme sombrio, o “Nome da Rosa” do autor Umberto Eco. Este se passa na Idade Média, e o enredo gira em torno de um livro de Aristóteles que estava envenenado…

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Felizmente, a Idade Média passou. Os ideais clássicos gregos originais (sem veneno) foram resgatados no Iluminismo, e a humanidade seguiu o seu curso.


Conclusão

Aristóteles foi o primeiro a escrever sobre vários temas. Ser o primeiro, sair do zero para o um, é muito mais difícil que partir do um e ir para dois. Criou a lógica e a ciência. E utilizamos este framework mental até hoje.

Não que Aristóteles tenha inventado a Internet e o iPhone. Mas se Aristóteles não tivesse existido, talvez toda a tecnologia que temos hoje estivesse a séculos de ser inventada ou talvez nunca surgisse… e ninguém estaria tendo o prazer de ler este texto 🙂 .
Este é o poder das ideias e dos ciclos virtuosos gerando outras boas ideias.

 


Links:

 

Aristóteles – Máquina de pensar

 

https://explorable.com/aristotles-zoologyhttp://www.oldandsold.com/articles31n/herbals-2.shtmlhttp://davesgarden.com/guides/articles/view/2051/

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