A melhor ferramenta

Da sabedoria do Tao Te Ching: “A melhor ferramenta é aquela que não faz nada.”

Isto porque, nas poucas vezes em que a ferramenta é utilizada, ela trabalha tão bem que não há a necessidade de a utilizar de novo tão cedo.
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Urgente, mas importante?
Nos dias de hoje, tem-se uma quantidade cada vez maior de necessidades urgentes. O telefone, com o seu toque estridente. O Whatsapp com o seu sininho. Receber e enviar e-mails 24h por dia, do computador, do celular, do relógio. Mensagens instantâneas. Atualizações do Facebook.
Urgente é diferente de importante. Urgente é o que urge, que necessita de resposta. Importante é o que realmente importa, que é relevante. O problema é que, muitas vezes, coisas importantes não são urgentes.
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Devemos fazer o que é importante, e ignorar o que não é (mesmo sendo urgente). Assim como o caso da ferramenta do Tao, o melhor não é estar ocupado 24h, mas estar ocupado com o que é importante, somente pelo tempo necessário.
Pela distribuição Pareto dos fatores econômicos do mundo, 80% dos whatsapps, e-mails, noticiários da TV, não servem para absolutamente nada. Não são importantes. Não é importante saber o que o seu primo distante está almoçando pelo Facebook. Ou responder um whatsapp com piadinha. Entretanto, muita gente deixa o que é importante, para responder algo urgente. E, de urgente em urgente, deixamos de lado o que é importante: estudar, cuidar da família, trabalhar num projeto de longo prazo, etc.

Citações do Tao
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Por isso o sábio se preocupa

com as profundezas e não com a superfície,
com a fruta e não com a flor.
Ele não tem desejos próprios.
Ele habita na realidade
e esquece todas as ilusões.
Encha sua tijela até a borda
e ela transbordará.
Continue a afiar sua faca
e ela ficará cega.
Persiga o dinheiro e a segurança
e seu coração nunca relaxará.
Preocupe-se com a aprovação dos outros
e você será prisoneiro deles.
Faça o seu trabalho, depois se afaste dele.
Esse é o único caminho para a serenidade.
O Mestre não tenta ser poderoso;
assim ele é realmente poderoso.
O homem comum segue perseguindo o poder;
assim ele nunca tem o bastante.
O sábio não faz nada
mas não deixa nada inacabado.
O homem comum está sempre fazendo coisas
e mesmo assim, muito mais são deixadas por fazer.
O homem bom faz alguma coisa
mas algo fica por fazer.
O homem justo faz alguma coisa
e deixa muitas coisas por fazer.
O homem moralista faz alguma coisa
e quando ninguém obedece,
ele ergue seu escudo e usa a força.
Aja sem fazer;
trabalhe sem esforço.
Pense no pequeno como grande
e no pouco como muito.
Enfrente o difícil
enquanto ele ainda é fácil,
realize uma grande tarefa
com uma série de pequenos atos.

​ A Revolução 3D

Lá pelos anos de 1992, quando eu ainda era pré adolescente, o primeiro computador a que tive acesso foi um IBM PS/1, similar ao da foto. Este não tinha hard disk. Para dar o boot, tinha que inserir um disquete, esperar um pouco, depois inserir outro disquete. O DOS carregava e dava para mexer no computador: criar arquivos texto, criar e deletar pastas. Acho que tinham algum tipo primitivo de word e de dbase (banco de dados). E um ou outro joguinho. Fora isso, não servia para muita coisa.
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Eu não tinha a menor ideia das aplicações futuras do computador pessoal, mas sabia que isto tinha o potencial de revolucionar o mundo.
Tive a felicidade de acompanhar a evolução exponencial dos hardwares e softwares computacionais, desde então.

Impressoras 3D
Tenho a mesma sensação, de estar vendo surgir algo novo, com as impressoras 3D. Isto será certamente uma das tecnologias disruptivas que moldarão o futuro.
Acabei de ganhar uma impressora 3D do meu amigo Marcos Melo. Uma Printrbot Simple. Tem uns três anos de fabricação. Vide a foto desta belezinha.
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A estrutura dela é bem simples, até rústica. Placas de madeira, suportando os motores e peças metálicas. Conexões à vista.
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Detalhe da visão traseira e de um dos motores (Z)
Um motor para cada eixo (X, Y e Z). Mais um motorzinho para puxar o filamento. Os motores movimentam o bico extrusor para qualquer posição.
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Detalhe da entrada do filamento, e o motor que controla o fluxo do mesmo.
Um extrusor, para derreter o filamento. Do extrusor, sai um fiozinho de plástico derretido. Na ponta, um ventilador para ajudar a esfriar o plástico.
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Bico do Extrusor e ventilador
O material do filamento é um tipo de plástico chamado PLA. É um material que tem a propriedade de derreter a 200 graus, e endurecer à temperatura ambiente.
A impressão é feita em camadas. O extrusor vai depositando os fiozinhos de plástico, na posição ajustada pelos motores.
Fiz um vídeo para demonstrar o funcionamento. Como o vídeo ficou meio ruim, e o wordpress não aceita vídeos, transformei num gif animado, com auxílio do site http://ezgif.com. Pode demorar um pouco para carregar:
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O software para controle da impressora é o Repetier. É um software open source. Tem que instalar um driver para comunicação com a impressora, e configurar um montão de coisas.
Baixei alguns modelos da internet. Em programação, o primeiro programa é tradicionalmente algo que mostra um “Hello World”.
Eis o meu “Hello 3D Printer World”:
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Vista de outro ângulo. Considerando que foi a primeira peça, está ótimo.

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Agradecimento especial ao Marcos Melo. No dia em que ele me entregaria a impressora, ele sofreu uma tentativa de assalto. O bandido, aparentemente armado, o abordou no farol. Este tentou abrir a porta, que estava destrancada. Melo puxou de volta a porta, desequilibrando o elemento, e estragando o estofamento. Nisto, o Melo aproveitou, engatou o carro e deu no pé. Foi uma manobra muito arriscada, nos dias tensos de hoje.

Bom, o melhor jeito que tenho para agradecer é fazendo coisas criativas com a impressora, difundindo o conhecimento (já mostrei as peças para um monte de gente na empresa) e ajudando de alguma forma a desbravar o futuro com a nova tecnologia 3D.

Puzzle – pirâmide

 

Tenho um puzzle, que é assim. Como montar uma pirâmide a partir de 4 peças iguais.

É de uma empresa chamada Thinkfun. É um puzzle bem interessante.

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São quatro prismas trapezoidais, conforme foto.

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Por tentativa e erro, dá para ver onde as peças combinam.

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Já temos a base da pirâmide.

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Colocando a última peça:

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O que gosto neste puzzle é que as 4 peças são simétricas e bonitas. É um bom “brainteaser”.

 



Link da Amazon:

https://www.amazon.com/A-ha-4-Piece-Pyramid-Brainteasers/dp/B001RV8HHY/ref=sr_1_1?s=hpc&ie=UTF8&qid=1480221838&sr=8-1&keywords=thinkfun+pyramid

“Precisamos ter certeza de que o projeto vai dar certo”

No mundo corporativo, em grandes empresas, a frase “Precisamos ter certeza de que o projeto vai dar certo” surge com certa frequência. Normalmente, esta frase sai da boca de alguém de nível gerencial.
Acontece que projetos envolvem mudanças: de processos, de tecnologia, de mentalidade, talvez até de tradição. E os mais impactados pelas mudanças são pessoas do nível operacional.
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E, quase que por definição, não dá para garantir que um projeto vai dar totalmente certo. Às vezes, simplesmente não dá certo. Outras, dá certo parcialmente. Mesmo quando dá certo, mudanças de escopo, de cronograma e de custos, sendo normalmente para pior, são comuns.
Já vi muitos casos de mudança de tecnologia sem mudança de processos. Digamos, um software novo de otimização de rotas é implementado (custando, é claro, centenas de milhares de reais e centenas de horas de desenvolvimento). Depois da entrega do trabalho, o analista que realmente vai usar a mesma “engana” o sistema, fazendo as contas no Excel e fornecendo apenas a rota que ele quer que dê no final. Talvez isto ocorra por ele querer continuar a fazer as coisas do jeito dele, ou por não entender direito o novo modelo. Ou talvez por alguma restrição de processos que o novo software não cumpra (por exemplo, o cliente X precisa de produtos A e B juntos na entrega), e que poderia ter sido mapeada se o projeto fosse conduzido a nível mais bottom-up do que top-down.

Vai dar tudo certo
A pergunta “Precisamos ter certeza de que o projeto vai dar certo” normalmente é respondida com “Tenho certeza de que vamos trazer os ganhos desejados”. Uma pergunta retórica sendo respondida por uma resposta retórica. Trocando em miúdos, “engana que eu gosto”.

Os Falsos Profetas Científicos

O profeta do fim do mundo

Há uns 10 anos, um profeta previu que o mundo acabaria junto com a chegada de um cometa. Ele afirmava que uma divindade viria na cauda do cometa, e castigaria a humanidade pelos seus crimes. Fazia o seu discurso com tanta convicção, e com tantos detalhes de como seria o fim do mundo, que amealhou algumas dezenas de seguidores. Estes se prepararam para o fim do mundo, comprando mantimentos e equipamentos de sobrevivência.

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No dia do juízo final, reuniram-se na igreja do profeta. As horas se passaram… e nada do mundo acabar. O cometa passou, assim como as 24h do dia do juízo final… e o profeta recebeu outra mensagem de Deus! A humanidade tinha sido perdoada! Os esforços dele e dos seus seguidores comoveram Deus. Parabéns a todos pelo feito histórico!


 

Profetas estatísticos

Há alguns profetas contemporâneos, mas que se vestem de economistas e estatísticos. Confesso que adoro quando eles quebram a cara!
Um tal de Nate Silver ficou famoso mundialmente, após prever com acurácia o resultado das eleições americanas de 2008 e 2012. Dos 50 estados americanos, acertou a previsão em 49. Virou celebridade. Ele escreveu um livro, chamado “O Sinal e o Ruído”. Virou o papa da estatística. O seu método poderia prever tudo, como se fosse um dos profetas das lendas antigas. Porém, ao invés de ler as entranhas de carneiro, ou os cascos de tartaruga, Nate Silver usa fórmulas matemáticas complexas e computadores. Pode parecer sofisticado, mas para mim, é a mesma coisa que usar intestinos de bode.

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Em 2016, um evento inesperado foi como uma “bala de prata” para Silver: Donald Trump. Ele fez uma série de previsões furadas: Trump não iria nem disputar as prévias, nas prévias perderia para o adversário, nas eleições perderia para Hillary Clinton…

Alguns highlights do site dele, chamado FiveThirtyEigth:

Why Donald Trump Isn’t a Real Candidate, In One Chart

June 16, 2015

Donald Trump Is The World’s Greatest Troll

July 20, 2015

Republicans Don’t Like Donald Trump As Much As They Used To

October 2, 2015

Trump Boom Or Trump Bubble?

December 15, 2015

(Retirado de http://paleofuture.gizmodo.com/nate-silvers-very-very-wrong-predictions-about-donald-t-1788583912)

 

Sobre alguns destes erros, Silver fez uma mea-culpa, dizendo que nem sempre usou estatística em algumas destas análises, mas que continua sendo um cara fodão, blá blá, blá, blá. Se nem estatística usou, ele deveria ser analista político, não estatístico, correto?

(http://fivethirtyeight.com/features/how-i-acted-like-a-pundit-and-screwed-up-on-donald-trump/)

Este screnshot é do forecast final da votação presidencial, do seu site FiveThirtyEigth, prevendo que Clinton ganharia com folga:

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(http://projects.fivethirtyeight.com/2016-election-forecast/)
Probabilidades podem ou não acontecer. Elas não indicam que a afirmação vai ocorrer com certeza absoluta. Então, as afirmações de que Silver errou as previsões fazem pouco sentido, porque por mais que uma probabilidade seja baixa, ela pode ocorrer. Entretanto, se o critério da mídia foi endeusar fulano por acertar todas as previsões de probabilidade, temos que adotar o mesmo critério de tirar fulano do pedestal por errar as previsões. Este é o meu ponto. Não há profetas, ninguém é Deus na Terra.

 


Estatística

A estatística é uma ciência que surgiu para prever comportamentos médios, baseados em diversos comportamentos individuais. Por exemplo, cada pessoa tem uma altura. É praticamente impossível adivinhar a altura exata de uma pessoa aleatória. Mas, se soubermos a idade, o sexo e a região do mundo, através de uma curva normal de estatística podemos dar um bom chute. Um homem, de 25 anos, no Brasil, ter enorme chances de ter entre 1,60 e 1,90 de altura!

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Entretanto, probabilidade e estatística têm a) um domínio de validade, e b) são ciências incertas pela própria natureza da coisa.
O grau de confiança de afirmações estatísticas têm maior validade se o número de amostras é maior.
Nate Silver fez trabalhos estatísticos de muito sucesso no baseball. Ora, no baseball a estatística faz muito sentido: centenas de jogos, jogadores fazendo jogadas semelhantes milhares de vezes na temporada.
Nas eleições, a chance de erro é muito maior. Porque Trump e Hillary disputaram uma única eleição. Não foi uma média de 100 eleições diferentes. E nunca mais haverá de novo as mesmas eleições. As eleições de 2016 são diferentes das de 2012. E serão diferentes das de 2020.

As probabilidades não dão certezas. São apenas probabilidades, não profecias. E os estatísticos que fazem as contas, apenas analistas técnicos, não profetas. Portanto, não faz sentido nenhum estar escrito, em absolutamente todas as matérias jornalísticas sobre Nate Silver, que ele acertou 49 de 50 resultados em 2012. Ele presta um desserviço enorme à ciência, ao tirar proveito desta fama e virar um pseudo-profeta.

E todas as fórmulas complexas e programas de computadores? Ora, conforme dito, a estatística tem as suas hipóteses de validade. Usar todas estas técnicas fora do domínio de validade é como construir um arranha-céus com as melhores tecnologias e materiais do mundo, mas sob fundações de lama: um dia, vai tudo desabar. Os economistas têm até um nome para isto: falácia lúdica. Significa se enganar com fórmulas matemáticas complexas, mas não conferir as hipóteses (normalmente frágeis) de todas estas fórmulas.

Nate Silver não é nem Deus por acertar todas as previsões, nem Lixo por errar previsões importantes. É apenas um analista estatístico, e os seus resultados devem ser entendidos como tal.
Conclusão: não existem profetas. Mesmo que fulano tenha acertado 1.000 de 1.000 previsões, um dia sua máscara cairá.


Críticas de Nassim Taleb

Quando terminei de escrever o parágrafo acima, fui pesquisar algumas das reações aos forecasts de 2016.
É lógico, sempre tem aqueles que ainda endeusam Nate Silver. Cada um é livre para opinar da forma que quiser. Mas encontrei alguns tweets interessantes do pensador Nassim Taleb, autor da “Lógica do Cisne Negro”, sob a qual baseio grande partes das ideias acima e muitos posts deste espaço.

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Ele diz coisas como: as probabilidades de Silver (site FiveThirtyEigth) variam tanto que são muito estocásticas para serem probabilidades. Se a variância é tão grande assim, a probabilidade é de 50% (ou seja, pode dar igualmente qualquer coisa, a análise toda só serviu para dizer ‘não sei’).

Taleb é outro que odeia profetas. Vive brigando com alguns.

 


 

Fontes

 

Nassim Criticizes Nate Silver’s Election Predictions on Twitter

http://paleofuture.gizmodo.com/nate-silvers-very-very-wrong-predictions-about-donald-t-1788583912

http://projects.fivethirtyeight.com/2016-election-forecast/

http://fivethirtyeight.com/features/how-i-acted-like-a-pundit-and-screwed-up-on-donald-trump/

http://www.businessinsider.com/donald-trump-nate-silver-prediction-mock-polls-2016-10

https://www.pastemagazine.com/articles/2016/07/the-sudden-shocking-fall-of-nate-silver.html

http://www.smh.com.au/world/us-election/us-election-2016-statistician-nate-silvers-big-donald-trump-mistake-20161030-gseaye.html

Os “Doutores Analfabetos” do Brasil

O Caipira e o Economista
Um dia, um caipira estava levando um economista numa canoa, na Amazônia. O economista tinha vários títulos de pós-graduação em excelentes universidades. Já o caipira, coitado, foi caçoado pelo economista por ser analfabeto.
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Porém, escureceu rápido demais neste dia, e eles não conseguiram voltar. Foram obrigados a pousar no mato. E foi o caipira que desbravou o terreno, reconheceu frutas comestíveis, espantou animais e fez um abrigo improvisado. O doutor era o verdadeiro analfabeto. Todos os títulos e livros não o ensinaram a ler nem escrever a linguagem da natureza…


Doutores Analfabetos

Todos os anos, as faculdades brasileiras formam milhares de doutores… analfabetos.

 

Analfabetos na prática, no sentido de capacidade de gerar valor no mundo real.

Semana passada entrevistei José Carlos. Ele se formou em biologia. Fez mestrado. Depois, partiu para um doutorado. Depois, desempregado na prática, continuou na academia, num pós doutorado de dois anos, com bolsa bancada por uma instituição de apoio à pesquisa. Inclusive, passou um ano na Alemanha como parte do programa. Depois do término da bolsa, ficou mais um ano ligado à academia, fazendo trabalhos menores, depois mais outro ano tentando obter outra bolsa de pós doutorado. Tudo isto, na mesma instituição e com o mesmo orientador, assim ele não corria o risco de encontrar surpresas no caminho.

 

Enfim, com quase 35 anos, José Carlos está tentando conseguir trabalho fora da academia.
A primeira opção de José Carlos é concurso público: procura estabilidade, segurança, numa área como “auditor da receita federal”, que certamente tem relação zero com o doutorado em biologia.
Outra de suas opções é seguir carreira no meio acadêmico, fechando o ciclo: alguém com zero experiência prática ensinando ideias que nunca foram testadas no mundo real, num universo platônico das formas perfeitas irreais.

 

Enquanto nenhuma das opções surge, José Carlos dá aulas particulares de reforço a alunos do segundo grau.

 


Ele não cogita trabalhar no setor privado. Por não ter experiência, ele supõe que o salário inicial seria muito baixo, além de ter medo de ficar desempregado. E ele também não pensa em empreendedorismo. A tese de doutorado dele é tão específica que não é algo que possa ser explorada e gerar dividendos.

 

E, por fim, José Carlos reclamou que o Brasil não dá apoio, não valoriza a pesquisa.

 

Fico me perguntando se realmente falta investimento à pesquisa brasileira. E, se ninguém tenta valorizar o trabalho universitário.

 

Vejamos, ele ficou mais de 10 anos estudando em tempo integral após a graduação. Foi beneficiado duplamente: além de não pagar um centavo pelos estudos, recebeu bolsa do governo, inclusive foi até a Alemanha estudar.

 

Pergunta: Quantos “caipiras da Amazônia” têm esta oportunidade?

 

Na cultura oriental, há um grande senso de coletividade (vide posts deste blog). Se milhões de pessoas apostaram recursos em mim, na forma de uma educação de qualidade e bolsa de estudos, devo retribuir este investimento na forma de um trabalho honrado, de extrema qualidade, que gere valor para a sociedade.
Infelizmente, José Carlos não é um caso isolado. Há muitos e muitos iguais a ele.

 

E é pela atitude de pessoas assim que a imagem da pesquisa brasileira é cada vez pior, e a relação entre universidades  e empresas, cada vez mais distante.

 

Duas notícias relacionadas com postagens recentes

1 – Bob Dylan não comparecerá para receber o Prêmio Nobel
Conforme escrito neste post, Dylan não precisa do prêmio, mas o Nobel precisa de Dylan.

 
2 – A companhia Rakuten patrocinará a equipe do Barcelona
Rakuten é a companhia que usa o inglês como língua oficial, em todos os e-mails e apresentações da empresa. Vide post.

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Roubei a ideia (bons artistas copiam, grandes artistas roubam – Pablo Picasso), e passei a enviar e-mails apenas em inglês.

Resultados:
– Até hoje leio e escrevo em inglês, com a maioria das pessoas com quem me comunico por e-mail
– Aprendi uma série de palavras, e certamente deixei de esquecer outras
– A maioria das pessoas achou uma boa ideia, mas alguns (uns 20%) não se sentiram muito confortáveis e continuaram a escrever em português

O resultado final foi muito positivo. Se não temos oportunidade de usar o inglês no dia-a-dia, que tal criar essas oportunidades?

 

 

Links:

Bob Dylan declina convite para cerimônia do Nobel: ‘Agenda cheia’

http://www.mundodeportivo.com/futbol/fc-barcelona/20161116/411905020517/noticia-md-rakuten-podria-ser-el-nuevo-sponsor-del-fc-barcelona.html

 

Bônus: Futebol Total.

https://ideiasesquecidas.com/2016/03/25/as-origens-do-futebol-total/

Cubo 7x7x7

Eu estava tentando resolver o cubo 7x7x7. Mas algo deu errado:

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Tentei consertar, mas surgiu outra letra:
CuboF.JPG
Parece que todo o alfabeto resolveu aparecer:
CuboX.JPG
Tentativa de “X”
E números também:
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I lembra Mário Quintana:
O I é a letra do ÍNDIO,
Que alguns julgam ILETRADO
Mas o índio é mais sabido.
Que muito doutor formado!”
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 CuboA.JPG
Arnaldo Gunzi
Nov 2016

 

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Aristóteles inventou a Internet e o iPhone?

Como alguém que viveu no século 3 a.C. pode influenciar a nossa vida, em plena era de iPhones, internet, computação na nuvem, inteligência artificial?

Em post anterior, comentei sobre a influência do confucionismo nos costumes, tradições e no comportamento dos japoneses, chineses e coreanos. Sem eles nem saberem, seguem muitas ideias oriundas de tempos atrás.

E no ocidente, há alguma mente poderosa que tenha influenciado fortemente a modelagem de nossos pensamentos?

Certamente, muitos nomes influenciaram fortemente a cultura ocidental. Mas um, em particular, é tema de estudos faz dois mil anos, e uma quantidade impressionante de ideias encontram raízes nele: o filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.).

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Isto é tão profundo que nem sabemos desta influência, e tomamos algumas de nossas atitudes como óbvias.

Aristóteles é o meu ídolo. Ele era um grande polímata (do grego “aprendeu muito”). Escreveu sobre diversas áreas do conhecimento, com grande profundidade: lógica, política, ética, retórica. Fundou os ramos da zoologia e botânica, física e metafísica. Ele foi o Google do mundo ocidental por uns 2 mil anos.

 


Lógica
Aristóteles foi o primeiro a sistematizar o conceito de lógica. Separar os componentes, definir hipóteses e conclusões. Definir negações, contradições.

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A lógica dominante por vários milênios da história foi a lógica aristotélica. Demorou 2 mil anos até pensadores modernos preencherem as lacunas da lógica apresentada por Aristóteles.
Hoje em dia, naturalmente pensamos de forma lógica, parece até óbvio.
Mas não é óbvio. Há várias formas possíveis de se responder a uma pergunta. Seja uma pergunta ilustrativa como “Por que carregamos um guarda-chuva?”

A resposta poderia ser totalmente baseada em misticismo: Deus quis que chovesse, e que carregássemos guarda-chuva, portanto é assim e pronto.

Poderia ser baseada em tradição: sempre carregamos guarda-chuva porque nossos avós nos ensinaram assim. Não posso desrespeitar os ancestrais.

Poderia ser ditatorial: o grande líder quer assim, acate quem tiver juízo.

Poderia não ter resposta: carrego o guarda-chuva porque quero, e não sei nem quero saber sobre as razões disto.

Questionar e ser convencido após um argumento lógico está na essência do nosso modo de pensar. Imagine um tema polêmico, como a reforma na previdência. Ninguém no ocidente aceita uma resposta do tipo “Deus (Alá, Shiva, Tupã, etc) quis assim”, ou “sempre foi assim com nossos ancestrais”, “nosso querido líder King Jong Un quer assim”, ou “não sei a resposta”. Entretanto, em vários lugares do mundo respostas deste tipo são válidas e convincentes, no contexto apresentado.


Divisão, classificação, sistematização
Aristóteles era genial em pegar o conhecimento e dividir, classificar, dar nomes e analisar.
Aplicou este método em diversos temas, Ética, Felicidade, Política, Retórica, Dialética, Física, Filosofia, Poesia. O seu enfoque era sempre muito prático, realista, ao contrário do idealista Platão.

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As artes, para ele, não deveriam ser apenas algo bonito. Deveriam também ser úteis. Portanto, antecipou o conceito de design do Steve Jobs em mais de 2 mil anos.

 

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Categorizou e analisou minuciosamente os animais, criando a zoologia. Fez os mesmo com as plantas, criando a botânica. Inventou a taxonomia, método sistemático (e lógico) de classificação.

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Questionar, dividir, classificar e aplicar a lógica para chegar à conclusões, são a base primordial da ciência.


A Ciência 

O grande mérito de Aristóteles nem foi o que ele criou, mas o como criou. Ele foi o bisavô do método científico: tentar encontrar a explicação lógica dos fatos. Dividir, classificar, analisar as causas e efeitos.

Aplicando a ciência, o ocidente conseguiu progressos gigantescos, como a revolução das ideias da época do Iluminismo, e a Revolução Industrial. A partir daí, não paramos mais, chegando à revolução da Informação dos tempos atuais, aos iPhones, computação em nuvem, inteligência artificial.

 


Influente até demais

Um dos problemas que surgiram é que Aristóteles escreveu tanto sobre tudo, que ele passou a ser a referência máxima e a palavra final por milhares de anos, até a Idade Média.

Se o grande Aristóteles dizia que o Sol girava em torno da Terra, quem era esse tal de Galileu para dizer que era a Terra que girava em torno do Sol?

Lembro de um filme sombrio, o “Nome da Rosa” do autor Umberto Eco. Este se passa na Idade Média, e o enredo gira em torno de um livro de Aristóteles que estava envenenado…

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Felizmente, a Idade Média passou. Os ideais clássicos gregos originais (sem veneno) foram resgatados no Iluminismo, e a humanidade seguiu o seu curso.


Conclusão

Aristóteles foi o primeiro a escrever sobre vários temas. Ser o primeiro, sair do zero para o um, é muito mais difícil que partir do um e ir para dois. Criou a lógica e a ciência. E utilizamos este framework mental até hoje.

Não que Aristóteles tenha inventado a Internet e o iPhone. Mas se Aristóteles não tivesse existido, talvez toda a tecnologia que temos hoje estivesse a séculos de ser inventada ou talvez nunca surgisse… e ninguém estaria tendo o prazer de ler este texto 🙂 .
Este é o poder das ideias e dos ciclos virtuosos gerando outras boas ideias.

 


Links:

 

Aristóteles – Máquina de pensar

 

https://explorable.com/aristotles-zoologyhttp://www.oldandsold.com/articles31n/herbals-2.shtmlhttp://davesgarden.com/guides/articles/view/2051/

​ Por que os japoneses tiram o lixo do estádio?

Ou: o que um velho pensador de 2000 anos atrás, um tal de Confúcio, tem a ver comigo?
 

A cena dos japoneses tirando o lixo dos estádios ficou famosa durante a Copa do Mundo de 2014, aqui no Brasil sil sil.

  

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Mas eles fazem isto porque são educados? Pode-se dizer que sim. Mas por que a educação deles chega neste nível?

  

Os brasileiros (a maioria) também são educados. Os europeus também são educados. Os australianos, também. Mas nenhum deles tem a cultura de tirar o lixo do estádio.

  

Os japoneses fazem isto porque pensam muito no coletivo, no social, no todo. Parte-se da ideia de que eu faço parte de uma comunidade de pessoas semelhantes. Portanto, limpo o lugar para entregar o mesmo nas mesmas condições que encontrei para outra pessoa, e porque ela vai fazer o mesmo comigo. Portanto, é costume deixar os lugares limpos: escola, salas de reunião, ônibus. E por todo mundo fazer isto, todo mundo se sente na obrigação de ajudar também, num ciclo virtuoso.

 

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Legal. Então, se eu tentar fazer isto no Brasil, vai dar certo? Provavelmente, não. Porque é muito mais profundo que isto. As ideias não surgem do nada. A limpeza é apenas uma ponta visível da influência do confucionismo na sociedade japonesa.
 


A influência do confucionismo
 
Confúcio nasceu na China (em 500 a.C.) e influenciou fortemente a cultura oriental. É uma influência comparável à Aristóteles no ocidente: mesmo após tanto tempo, as pessoas de hoje ainda agem sob os preceitos dessas ideias, e nem sabem da onde elas vêm. Este é o poder das ideias.

 

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Os pilares do confucionismo incluem a valorização dos estudos, respeito aos outros, humildade, frugalidade, valorização de tradições.

  

Quando recebemos um presente, devemos devolver algo com valor equivalente. Quando alguém nos ajuda, ficamos em débito e um dia vamos ajudá-lo.
 
Devemos viver uma vida simples, frugal, sem ostentações. Seguir à risca a regra de ouro: não fazer a outros o que não faríamos a nós mesmos. Portanto, estamos de acordo com o confucionismo ao sermos humildes para catar o lixo, assim entregando ao próximo colega um ambiente igual àquele que nos foi entregue.

  

A valorização dos estudos também é algo muito forte no Japão. Há uma concorrência violenta para entrar nas melhores faculdades. Ninguém ali tem vergonha de dizer que estuda muito, e que gosta de estudar. É muito mais provável que o estudante deixe de jogar bola para estudar, do que o oposto. No Brasil, o inverso é verdadeiro. Esperto é aquele que passa sem estudar, que tira o mínimo e ainda colando. Esperto é o que faz gol com a mão em impedimento.

  

Portanto, a poesia clássica pichada no banheiro dos cursinhos também é devida à influência do confucionismo: “Enquanto você está cagando, tem um japonês estudando”.

 
Enquanto em alguns lugares do mundo o esperto é quem recebe sem trabalhar, no Japão o mais valorizado é o que trabalha sem receber. O trabalho é tão valorizado e visto com orgulho, que tem até uma palavra especial para isto: “gambaru”. É superficial traduzir “gambaru” como “trabalho duro”. O trabalho é meio que uma missão, é o mínimo que deve ser feito em retribuição ao que o universo nos forneceu.
 

Outro pilar é o do respeito à hierarquia: respeitar o mais velho, as autoridades. Respeitar os rituais da tradição. O filho respeitar o pai, a esposa respeitar o marido, o filho mais novo respeitar o mais velho. Valorizar muito a família, mesmo aquele primo que não tem nenhuma afinidade contigo. Isto se reflete em um monte de formalidades: nomes especiais para o filho mais velho, linguagem bastante formal quando me dirijo a alguma autoridade, etc.
 
Esta tradição de hierarquia é tão forte que chega até a prejudicar a inovação. Isto porque o novo surge sobre a contestação do antigo. É a “destruição criativa” como diria o economista austríaco Joseph Schumpeter. Mas, como destruir uma ideia antiga sem desrespeitar o meu querido avô já falecido, que era adepto desta ideia?

  

A China também tem forte influência confucionista, mas o Japão é mais radical em alguns pontos, como o da limpeza.

  


Por que isto tudo é importante?
 
Ok, e daí que esses alienígenas tiram o lixo do estádio? E daí que há um monte de tradições, hierarquias e formalidades?

 

Primeiro, que algumas das boas ideias deles podem ser aproveitadas. É o poder das ideias, formando um ciclo virtuoso, conforme já dito. Já pensou se todos os brasileiros que recebem sem trabalhar fizessem o oposto, trabalhassem sem receber? Se cada um contribuísse um pouco mais para o todo?

  

E segundo, que este é um mundo cada vez menor. É cada vez mais fácil entrar em contato, seja profissionalmente, seja socialmente, com algum colega japonês, chinês ou coreano.

  

E, quando isto ocorrer, é muito mais provável que um brasileiro ofenda um japonês do que o oposto. E isto vai ocorrer sem querer. O brasileiro simplesmente não vai entender o que fez de errado. Às vezes, pode ter sido algo tão simples quanto… tirar o lixo da sala de reuniões.

Links:
Recomendo o excelente audio livro (em inglês, lógico), sobre diversos pensadores do oriente: