Porque todo RH deveria olhar para o Prêmio Nobel de Economia 2016

O Nobel deste ano surpreendeu positivamente. Já comentei sobre o de Literatura para Bob Dylan. E o prêmio de Economia é sobre um tema extremamente interessante, a Teoria dos Contratos. Bengt Holmström e Oliver Hart estudaram o assunto, e utilizando muita matemática, criaram modelos e provaram alguns resultados. Mas as noções envolvidas são tão cotidianas que é possível explicar o básico sem matemática, que é o que tentarei fazer a seguir.

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Cada um de nós depende de outras pessoas para tudo. Para tal, fechamos um acordo com as outras pessoas: pago pelo pão e o padeiro entrega, pago para o cabelereiro e ele corta o cabelo. Ninguém firma um contrato para cortar o cabelo, mas há um contrato implícito, não escrito, entre as partes.

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Um contrato escrito custa esforço, tempo e dinheiro, então faz sentido ter em relações mais complexas. Por exemplo, comprar um apartamento na planta. Ou uma empresa contratar um fornecedor. Ou uma empresa contratar um funcionário.


O problema do Agente e do Principal

O “Principal” é aquele que contrata, o “Agente” é o contratado, o funcionário, fornecedor, etc…

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Primeiro ponto: há um conflito de interesses entre as partes.

Eu quero um pão no ponto, apetitoso. O padeiro quer entregar o mínimo aceitável e conseguir o máximo lucro.
A empresa quer dedicação máxima do funcionário. O funcionário não quer ficar até as 22h trabalhando todos os dias.

Segundo ponto: assimetria de informações. O Agente sabe de coisas que o Principal não sabe. Há comumente dois problemas, devido à assimetria de informação: o risco moral (moral hazard) e a seleção adversa.

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O risco moral ocorre quando o Agente toma riscos descuidados por não sofrer as consequências deste risco. Digamos, o funcionário negociar um contrato ruim com algum fornecedor.

A seleção adversa é o Agente esconder informação para o Principal. Como o padeiro não dizer que a validade da farinha já passou.

Como lidar com o problema do Agente-Principal e fazer bons contratos, seja entre empresa e empregado, entre Conselho de Administração e CEO, entre contratante e fornecedor, entre consumidor e prestador de serviço?

O trabalho de Hart, Holmstrom e outros ajuda a esclarecer esses pontos. Não há respostas definitivas, e há muito mais no mundo real do que os modelos apresentados. Mas esses modelos ajudam a esclarecer vários pontos principais.


Quem fica com a bomba?

Outro conceito em jogo é o Risco Econômico. Toda atividade econômica tem um risco.
Digamos que eu compre um apartamento na planta, e haja três modelos de contratos:

  • 1. Eu pago o valor do imóvel à vista, e a construtora me entrega em 18 meses
  • 2. Eu reservo o apartamento hoje, com entrada zero, e pago tudo somente quando a construtora terminar
  • 3. Dou uma entrada e vou pagando em parcelas mensais, proporcionais à entrega da obra

No primeiro contrato, estou com extrema desvantagem. Todo o risco de atraso das obras está comigo. A construtora não vai ter nenhum incentivo para terminar a obra no prazo, nem com qualidade.

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No segundo caso, o risco está 100% com a construtora. Ela vai arcar com todo o custo de construção e ainda correr o risco de tomar calote no final. Nenhuma empresa, em sã consciência, aceitaria ficar com todo o risco e nenhum benefício. Parece óbvio. Mas por incrível que pareça, algumas das licitações de estradas do governo Dilma foram exatamente assim: quem ganhasse só ficaria com custos e riscos. E o resultado, também óbvio: ninguém participou.
O terceiro caso divide os riscos. É claramente o mais equilibrado, e é o que acontece na prática.

Em termos gerais, o Principal é propenso ao risco, enquanto o Agente é avesso ao risco. Por outro ponto de vista, o risco é do Principal, que é o dono do trabalho, que é quem quer fazer acontecer.

 


 

Modelo de performance observável

 

Quando a performance é facilmente observável, é simples chegar no ótimo para todo mundo. Basta o Principal cobrar a performance do Agente, até o ponto em que este achar justo. Por exemplo, a performance do cabelereiro é facilmente observável e cobrável.

 


 

Modelo de agente propenso a risco

Quando o agente é propenso a risco, também a solução é simples. Ele pode assumir os riscos e fazer uma remuneração fixa ao principal.

É o modelo de fraquia. O agente paga uma taxa ao principal, e fica com todo o risco do negócio.

 


Dividir riscos

Há modelos, como no caso do apartamento na planta, em que há divisão de riscos.
Outro exemplo: uma obra civil é fortemente afetada pela chuva. Se o risco ficar 100% para o contratante, a construtora vai parar por qualquer chuvinha. Se o risco ficar 100% para a construtora, ela vai se precaver colocando custos nas alturas. Uma solução prática é a de fixar alguns gatilhos. Até 2 desvios padrões da chuva histórica, a construtora tem que se virar. Se chover mais do que isto, a empresa arca com os custos da obra parada. (Exemplo citado pelo meu amigo Marcos Melo).


 

O modelo primeiro melhor (first best)

Quando o agente é pouco tolerante a riscos, o modelo “primeiro melhor” é muito usado.
A curva de utilidade do Principal é

Uprincipal = produção do fulano – salário do fulano

A curva de utilidade do Agente é

Ufulano= salário do fulano – esforço e tempo do fulano – risco

Se somo os dois termos, para tentar achar o ponto bom para todo mundo, tenho uma solução ótima, chamada de “primeiro melhor”: o salário do fulano é fixo, e o risco dele é zero. Ou seja, é o assalariado comum.
Isto é verdade quando o agente é muito avesso ao risco. É um arranjo bom para muita gente, tanto que a maioria das pessoas que conheço é assalariada simples. Recebe um salário fixo em troca do seu trabalho, independente da performance variável da empresa.

 

Quando o agente tem um nível intermediário de propensão a risco, pode-se pensar numa remuneração baseada em performance.

 


 

Modelo de performance simples

Modelos atrelados a performance tem problemas, quando esta não é observável. Por exemplo, o conselho de administração da empresa não pode ficar se metendo na administração do CEO, e nem ficar 24h por dia fiscalizando, por uma questão de governança. Então, o que o conselho vê no final das contas é o resultado da empresa.

Resultado = esforço do agente + ruído

Mas o resultado pode vir tanto do esforço do agente quanto de outras variáveis, como uma crise mundial, ou uma alta absurda do valor das commodities. Isto tudo é chamado de “ruído” na fórmula acima, e nos modelos dos economistas.

 

Se a remuneração por performance for atrelada ao resultado puro, o executivo poderá estar sendo remunerado por sorte, e punido por azar.


 

Princípio da informatividade

Para evitar recompensas por sorte e punições por azar, um dos modelos é de  descorrelacionar o ruído do resultado, para medir somente a performance. Por exemplo, comparar o EBITDA da empresa com empresas similares do setor. A “informatividade” dos economistas é obter informações para explicar o ruído.

Às vezes, numa crise que afete todo um setor, o executivo consegue ser o menos pior. Ou, inversamente, num boom, o resultado é positivo, mas não tanto quanto poderia ser.

 


 

Multitasking e quando o tiro sai pela culatra

Como todo problema de incentivo, muitas vezes atrelar recompensas a performance pode fazer o tiro sair pela culatra.

Holmstrom mostra que quando a recompensa está atrelada a uma tarefa X, o agente vai buscar a tarefa X, e vai ignorar outra tarefa Y que é importante, mas não está atrelada ao resultado. Ele chama isto de multitasking (tarefas X, Y, Z, etc). Em matemática, múltiplos tasks podem ser modelados por múltiplas dimensões, e trabalhar com elas envolve umas derivadas parciais. Fica algo muito avançado e feio como abaixo. Mas o conceito é simples.

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Por exemplo, o CEO tem uma tarefa de curto prazo, que é dar resultado no trimestre, e outra de longo prazo, que é manter a empresa sustentável pelos próximos 20 anos. Mas se somente o curto prazo conta para a remuneração variável, ele pode muito bem sacrificar o futuro da empresa para obter ganhos trimestrais. Pode consumir os melhores recursos hoje e empurrar a conta com a barriga para quem assumir no futuro.

Este é um dos perigos de contratos fortemente baseados em performance, em detrimento de um contrato menos agressivo, com pagamento fixo (o first-best).

 

 

 


 

Conclusões

O tema da Teoria dos Contratos padroniza ideias e fornece insights interessantes sobre contratos não ótimos.

Além dos modelos apresentados, há dezenas de outras ideias e aplicações. Porém, vale lembrar que nenhum modelo é completo, e não há resposta definitiva e simples para todos os casos.

Contratos fortemente baseados em performance podem ser prejudiciais, por ser impossível levar em conta todos os aspectos do mundo real. Eu, particularmente, prefiro pensar no longo prazo e no global, ao invés de somente buscar metas contratadas.


 

Fontes

O comitê do Nobel publica alguns resumos da teoria

(http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economic-sciences/laureates/2016/).

 

Além disso, o livro do Oliver Hart é outra fonte interessante.

hart

 

(Post escrito ao som de Like a Rolling Stone, Bob Dylan)

 

 

 

 

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