Quem dá bola para as Olimpíadas… de Matemática?

No mesmo mês em que o Brasil sedia as Olimpíadas esportivas, as Olimpíadas de conhecimento (Matemática, Astronomia) têm verba cortada.

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Como medalhista olímpico de Matemática (medalha de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática de 1997), tenho propriedade para dizer duas coisas sobre este corte:

1 – A matemática de ponta não será nem um pouco afetada.

2 – Entretanto, a se manter este quadro, os efeitos serão na matemática de base.


As Olimpíadas de Matemática

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Em 1996, fiz pela primeira vez na vida uma prova de Olimpíada de Matemática. Sempre gostei muito do assunto, e já tinha passado um bom tempo estudando matemática. Mas aquela matemática era diferente. Dezenas de vezes mais difícil. Eu não tinha a menor noção da onde começar para atacar as questões. Obviamente, não passei da primeira fase.

Mas participar das Olimpíadas gerou dividendos. Fiquei sabendo que o Colégio Etapa dava aulas gratuitas de preparação para as Olimpíadas. Era toda quinta a noite, aberto para o público.

Como era de graça, e com aulas de muita qualidade, me inscrevi. Na primeira semana, eu e mais umas 200 pessoas tivemos aula com o professor Edmílson Motta, um dos maiores especialistas em Olimpíadas de Matemática do Brasil. Era uma aula sobre paridade, e ele resolveu problemas aparentemente impossíveis com truques simples.

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Guardo até hoje os arquivos das aulas preparatórias

Na segunda semana, o público já tinha diminuído para umas 50 pessoas. Na terceira, umas 15 pessoas. Esta média, de umas 15 pessoas, se manteve até o final do curso.

A primeira dica, para quem quiser encarar: deve-se jogar fora o livro texto da escola, e estudar algo mais pesado. No meu caso, foram as 10 edições dos Fundamentos de Matemática Elementar. Cada livro aborda um tema da matemática com uma profundidade ordens de grandeza superior ao que se aprende na escola. Lembro que fui colecionando esses livros. Ia em sebos no centro de São Paulo procurar, e comprava por 10 reais na época.

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A segunda dica é que dominar toda a matemática do ensino médio não é suficiente. Não faz nem cócegas. Não chega aos pés do que é necessário. Isto porque as Olimpíadas, têm um foco muito forte em Teoria dos Números, o mais nobre (e possivelmente difícil) assunto de toda a Matemática. O prof. Edmílson e alguns outros, já na quinta ou sexta aula introduziram Teoria dos Números, e ficaram um bom tempo nisto.

 

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Eu era um dos mais despreparados nesta competição. Tinha gente que tinha aulas deste alto nível desde o primeiro ano do ensino médio, e duas vezes por semana – um privilégio dos alunos do Colégio Etapa. Tinha um colega da minha idade que já tinha ido para a Olimpíada Internacional de Matemática duas vezes, além das Olimpíadas Ibero-americanas, regionais, etc…

 

Portanto, as pessoas que realmente são top nesse negócio, e aspiram a alguma medalha, geralmente são de classe média para cima e já vem estudando matemática avançada de forma intensiva há muitos, muitos anos, e com colegas e professores do mesmo nível.

 

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O grande prejudicado com este corte de verba não é esse pessoal de ponta, mas sim os milhares de estudantes do ensino médio, que poderiam ter um contato maior com a matemática num nível mais elevado e evoluir com isto. Principalmente, aqueles que são mais pobres e que têm menos acesso à informação.

 

Quem sabe, se o Brasil sediasse as Olimpíadas Internacionais de Matemática, tivéssemos mais alunos que pudessem aprender uma fórmula a mais, que descobrissem que há problemas que não podem ser resolvidos com o arsenal que têm, que descobrissem que há colégios que dão bolsas para quem se interessa no assunto. Ou que encontrassem outras pessoas com a mesma paixão pela matemática. Quem sabe, talvez tivéssemos futuramente melhores profissionais, nivelando por cima o aprendizado.

 


 

Conclusão

Numa Olimpíada esportiva, o objetivo das pessoas que assistem não é se tornar um Michael Phelps ou um Usain Bolt. Mas sim, inspirar-se no exemplo deles para performar mais e melhor. Quem sabe, nadar com mais disciplina e determinação. Ou mudar o paradigma de que é impossível, para o de que pode ser possível, contanto que me esforce. Ou, quem sabe, de que é possível dominar este assunto rico, bonito e abstrato chamado Matemática.

 

 


 

Reflexão

Muitos me perguntam se eu uso o que aprendi nessas Olimpíadas.

Diretamente, pouco. As vezes, uso uma função módulo no Excel e ninguém entende.

Mas indiretamente, sim, bastante, demais. Não só pelo desenvolvimento no raciocínio. Se não fossem pelas Olimpíadas, talvez não tivesse conhecido o cursinho Etapa, talvez não tivesse ganhado uma bolsa de estudos integral nela. Sem isso, dificilmente entraria no ITA (vide post) ou em alguma outra faculdade de ponta. A minha carreira seria totalmente diferente da que é hoje.

Sou um grande fã das Olimpíadas de Matemática, e tenho convicção de que buscar o topo me fez alçar voos altos.

 
Premiados na Olimpíada Brasileira de Matemática de 1997:
http://www.obm.org.br/opencms/premiados/1997.html

 

 

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