A caneca da sabedoria

A caneca da sabedoria é aquela na qual ficamos mais sábios a cada gole que tomamos. Existe isso?

Existe. A caneca filosófica. Ela contém a caricatura de vários gigantes do pensamento, na ordem cronológica em que estes deixaram sua marca neste planeta.

A filosofia é um campo do conhecimento misterioso. Ao mesmo tempo que não tem aplicação nenhuma, ela é o embasamento de tudo.

Se ela começa a ter aplicação, vira um outro campo do conhecimento – digamos física ou química, que antes eram especulações no mundo das ideias.

Por outro lado, a ciência não consegue explicar tudo. Sempre há hipóteses, na fundação de qualquer modelo. Hipóteses podem ser atacadas, e a filosofia se encontra na fundação das fundações das hipóteses.

Modo de utilização: Todas as vezes que tomar água, escolher aleatoriamente uma das figuras, e pensar nas reflexões que este trouxe à luz. Não conhece a pessoa? Melhor ainda, a tarefa é procurar a respeito…

Olho para Aristóteles e lembro que ele criou a lógica. E também, a ética aristotélica – onde o máximo da felicidade é a pessoa conseguir dedicar todo o seu pleno potencial ao seu talento, o momento de eudamonia!

Olho para Albert Camus e lembro do mito de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra enorme morro acima, só para chegar ao cume e ver a pedra rolar ladeira abaixo, para começar tudo de novo, um martírio existencialista!

Olho para Arthur Schopenhauer e vejo um velho ranzinza, misógino e pessimista, dizendo que o homem está fazendo da Terra um inferno para os animais, e que a ganância é como a água do mar, quanto mais bebemos, mais queremos.

Olho para Karl Popper e lembro que a ciência só evolui por ser falsificável – ou seja, uma teoria é apenas a melhor teoria até agora, ela não é absoluta. Uma teoria absoluta é uma pseudo-ciência, uma religião, que explica tudo sem possibilidade de constestação. Na ciência, sempre existe a chance de destruir a teoria atual por uma melhor, e é assim que o conhecimento evolui.



O meu preferido é Friedrich Nietzsche, o dinamitador, que contestou a ética, os costumes, o cristianismo, os filósofos clássicos, chamando-os de ídolos de pés de barro. Ele é um criador, e criadores são duros e fortes. Ele é uma força dionísica, do caos, contra as forças apolônias da ordem.

É do caos que nasce um estrela.

Um brinde ao mundo das ideias!

Para quem quiser comprar:
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​ O velhinho ranzinza

Moro no mesmo prédio há 20 anos, e há 20 anos vejo o velhinho ranzinza, esbravejando com os porteiros, no vai-e-vem do cotidiano.

 

Ele hoje tem uns 85 anos. Há 20 anos, devia ter 65. Tem um tipo físico de descendente de alemão. Alto, cabelos brancos, usa óculos, tem um queixo quadrado, cabelos espetados. Parece alguém fechado, e com cara de bravo.
 
Sempre o via na portaria, reclamando de algo, cutucando os porteiros e o zelador. Uma mancha na parede. Um buraco na garagem. Uma necessidade de reforma no playground.
 
Sempre fiquei muito tempo trabalhando ou estudando, portanto esbarrava com o velhinho pelos corredores somente uma vez por mês. Só um “olá”.
 
Esses esporádicos encontros eram como peças de um quebra-cabeça liberadas mensalmente.
 
Ao poucos, fui percebendo. O velhinho mora sozinho. Nunca o vi com companhia alguma. Esposa? Nunca vi. Filhos? Não. Algum dia um parente veio visitá-lo? Se houve, nunca vi, baseado nesses “olás” esporádicos.
 
Com o passar dos anos, ele foi ficando mais velhinho, um pouco menos bravo, e passava mais tempo reclamando com os porteiros.
 
Nos últimos anos, ele claramente está com dificuldades motoras. Talvez por isso, ele faz uma atividade física na academia aqui perto, de manhã, mesmo nos dias mais frios. 
Também nesses últimos anos, ele tem ficado cada vez mais tempo na portaria, reclamando de algo a ser feito, espetando os porteiros. Talvez ele ache que esta é uma forma dele agregar valor a esta micro-comunidade de vizinhos.

 

Não sei no que ele trabalhava, se algum dia foi casado, se teve ou não filhos, irmãos, amigos. Mas, no fundo, é apenas uma pessoa solitária, que gosta de uma companhia, mesmo que seja ficar brigando com os porteiros, discutindo com o zelador, pegando no pé das faxineiras.

 

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, ele mesmo um velhinho extremamente ranzinza e solitário, fez uma analogia entre seres humanos e porcos-espinhos.

 

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Se os porcos-espinhos ficam perto demais, os espinhos espetam o outro, e dói. Então eles se afastam.

 

Se os porcos-espinhos estão muito longe um do outro, sentem frio. Quando estão com muito frio, querem se aproximar. E ficam assim, neste eterno vai-e-vem, vem-e-vai, de ficar entre o espinho e o frio.

 

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Talvez, no dia em que o velhinho passar dessa para melhor, quem sabe ele deixe seu apartamento de herança para o zelador, os porteiros, e as faxineiras, por serem suas únicas companhias dos últimos 20 e tantos anos.